sábado, 26 de março de 2011

Alzheimer


Ruiu a ponte gasta
que me levava à outra margem
e nenhum barco avisto
deste lado do silêncio.
O dia fecha-se num ocaso salino
e a luz desvanece-se
num voo de sombras perdidas
sobre o leito seco da memória.
Como uma estrela decadente
atraída pelo buraco negro do vazio
tombo no fundo cego
de um alçapão de névoas.

Não sei já quem sou
ou aquilo que algum dia fui.
Tudo se desvanece dentro de mim
numa maré de poeira e esquecimento.
Não reconheço nenhum destes vultos
que murmuram nos véus da penumbra
nem o brilho anónimo e distante
dos olhares que se confundem
numa metamorfose de rostos sem feições.
Confuso, vacilo na retina enferrujada
de um labirinto de fantasmas
mendigando o sol exilado
de velhas lembranças que me pertenceram.

Órfão de um passado sem retorno
persigo o cortejo de sombras
nas paredes caiadas de escuridão
por entre a luz que me resta
e ecos que o vento, ocasionalmente,
traz do outro lado da margem
onde completamente me perdi
à procura de mim.

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3 comentários:

Natalia Nuno disse...

Lindo, me emocionei, como pode a vida fazer-nos isso?
Muito bom...

beijinho, boa semana

Antober disse...

Patético, dramático. Poema que traduz com verdadeira genialidade esse caminho extremamente agreste e sem retorno que se afunila na vida de alguns, muitos.
Sim, patético mas que também a poesia envolve.
Um abraço
Antonius

Eduarda disse...

que dizer deste momento em que tantos sofrem pateticamente agreste este presente sem passado, sem futuro.

da cruel verdade um poema maior.

bj