domingo, 14 de agosto de 2016


Penduro os beijos estéreis no varal dos meus olhos
calço as luvas róseas das palavras vibrantes
abrevio o pensamento e voo em dilúvios de azul
que cobre  a incúria da minha alma deslizante

São voos mergulhantes no precipício nú do tempo
nas charneiras húmidas do meu corpo,  frio
onde o fermento do poema brônzea,  a calidez da pele

E os rasgos de ternura torneiam os anéis da alma
num vaivém de caricias áureas de cor, perfumando
de aromas doces, as sombras de corpos selvagens      

Escrito a 24/07/16   

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Um lugar

“Ninguém fala para si mesmo em voz alta.
Já que todos somos um,
falemos desse outro modo.
Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma
Fechemos pois a boca e conversemos através da alma
Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.
Vem, se te interessas, posso mostrar-te.”
(poema de Rumi)
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Passou com o olhar inexpressivo, o gelo nas meninas dos olhos, o tremelique dos dedos dos pés pelo andar constipado, enfim obstruído pelo odor da caruma dos pinheiros que ali deveria ser uma raridade. Mas, afinal não era. Havia mesmo caruma espalhada no chão.
Umas árvores de fruto, também oliveiras, umas amendoeiras, medronhos, sim os medronhos estavam maduros, mas só um se podia comer, os outros estavam chupados dos pássaros. Nem aqui escapo a esse poderio das bicadas dos pássaros.
Colocou-me na mão um vermelho, bem vermelho, que me fez lembrar um dia lá na aldeia em que misturei amoras pretas com vermelhas, para saber como seria depois o suco. Obviamente, que agreste.
Simplesmente me disse: “nunca pensaste no que se pode dar a alguém mesmo tendo os bolsos vazios?"
Peguei num monte de caruma que fiz esvoaçar sobre o alcatrão, enquanto absorvia aquele odor dos pinheiros e saboreava o medronho agora espremido no céu-da-boca.
Perdi um dos anéis. Foi a rebolar pelas encostas. Espreitei. Calei-me a pensar no valor do anel que iria perder-se por ali. Era de ouro. Fiquei unicamente com o que me oferecera quando um dia o retirou do seu próprio dedo.
De novo me disse: “Os teus amigos não se interessam em saber se ganhas ou perdes, se és vencedora ou vencida, mas sim em saber se és feliz, sem jogos (without playing) e o mundo assim deverá pular e avançar, digo eu.
“Come with me.I want to show you a place”. Vem, que te quero mostrar um lugar, o lugar mais quente e mais parecido com os lugares onde sempre se faz história. O lugar onde o coração fala quando sente e canta quando consentes ser alma e mais nada".

Dolores Marques

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Quando a brisa vem serena

Quando a brisa vem serena, levanta o véu como se nada fosse
As cortinas ondulam ao primeiro vento da manhã
Descobrem os primeiros raios de sol do dia em que acordei

Desperto a dizer do dia e do sol para sair porta fora e ter vontade
Caminhar pelas ruas e falar com as pessoas
Com a suavidade com que a cortina ondula e diz do vento.

Assim amanhecem novos mundos aos primeiros raios de sol
Lugares conscientes onde ninguém é plástico nem betão

Assim é o universo como o imaginei ao sair de casa
Caminhar pelas ruas e falar com as pessoas
Sementes da semente universal

Lugares conscientes, jardins com espaço por não terem paredes.

domingo, 6 de dezembro de 2015

...em gestos alucinados de prazer


Os passos perdem-se
no amontoar dos escombros
assim como quem quer
esmagar as recordações sombrias
do tempo
em alicerces agitados,
os devaneio erguem-se
dos sulcos esquecidos da pele.

 Não há espaço para o voo felino
das asas adormecidas
e o corpo mergulha num estado febril
nas aguas turbulentas dos dias idos

são tantos os vultos
em gestos alucinados de prazer
que o tempo estremece na longura da cor

e os meus passos passeiam-se
pelas paisagens belas da pele
num tilintar de melodias corporais
sem som

 
Escrito a 05/07/15

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

PONTO



13-11-2015 16:21:59

PONTO

tenho por costume este
costume
de costurar
fazendo versos
cozendo-os. nunca:
deixar o ponto sem nó

[ao (re)encontrar este blog]
Imagem: um diâmetro num circulo.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Finisterra


o caminho é daqueles que o atravessam
pequenos passos que chegam de longe
trazendo um ritual de sede e poeira
a errância que nos ossos alastra
a sedução longínqua de velhos sinos

às vezes é só a chuva que os acompanha
a ilusão que traça itinerários
o cajado onde a vontade se ampara
para que a distância se possa medir
e passo a passo sigam adiante

não vêm de parte alguma
nem traçaram qualquer destino
nada semeiam na gravilha das margens
orientam-se pelo sentido dos ventos
envoltos num rumor anónimo

na mochila trazem somente o essencial
o dialeto intermitente da fé
sinais breves que os resgatam
quando os pés se afundam na lama
e o equilíbrio mais uma vez se desfaz

todas as moradas são possíveis
para esta viagem sem regresso
mas nenhum albergue os poderá reter
mais que o lapso de um bater de pálpebras
uma trégua para o corpo gasto pela febre

o caminho ensina e incita
desfaz os nós meticulosos do tempo
antes que o sol se debruce sobre as águas
e o mar finalmente abra suas portas
quando chegarem ao fim da terra

lugar onde tudo recomeça

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domingo, 18 de outubro de 2015

In memoriam


nunca viraram as costas ao mar
nem enterraram os olhos na areia
mesmo quando o frio de novembro
fazia estremecer o interior dos búzios
e a noite crescia para surpreender
a claridade escassa dos caminhos

adormeciam já tarde, extenuados
sempre com o relógio à cabeceira
para nunca se perderem do tempo
como se fosse alguma vez possível
saber porque se cobrem de cinza
os rostos que envelhecem devagar

algumas vezes afagavam as feridas
enquanto bebiam vinho maduro
e resistiam à tentação de partir
ignorando o rumor azul dos barcos
que o vento norte empurrava
para lá dos pontões da neblina

depois aperfeiçoaram a caligrafia
para melhor entender o silêncio
ou para chegar mais depressa
à outra margem do esquecimento
onde as águas repetem em surdina
os secretos nomes da saudade

aprenderam os sinais da escuridão
por entre o contorno das persianas
domesticaram os sonhos e os medos
para não serem colhidos pelo destino
e todas as noites acendiam uma vela
em memória dos que haviam partido

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O meu último Livro de poesia

Sob pseudónimo Dakini, o meu último livro

Ainda Povo

Ainda Povo

Quero chegar lá! Lá, onde o coração me queira levar
sim lá, onde a minha alma se encontra e me dirá 
se devo, ou não, continuar a viagem, se me fará voltar
quando tudo o que escrever for lido e não traído por lá

Não tenho o fácil, nem o óbvio, tão pouco o acessível 
possuo somente a linguagem da alma que é em mim
e me fez andar por labirintos, quando um eco credível
nas ruas e ruelas, me saudou com aromas de carmesim

Quero somente saber da sorte que trouxe a fome
entrar por aí, saber quem foi que a baptizou 
para chegar aqui simplesmente com esse nome

Quero somente entregar-lhe agora um olhar novo
traze-la para bem perto de um…ainda sonho 
a erguer-se nas memórias de um…ainda povo

Dolores Marques

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Apresento o meu 3º livro de poesia
em língua romena e portuguesa,
editado pela Universidade de Bucareste no ano 2014

natalia nuno


também meu 2º livro editado pela Lua de Marfim em 2014

Meu 2º livro de Poesia

são rosas que trago na mão



são rosas que trago na mão

abro-te o meu coração
com transparente lealdade.
meus olhos em nua claridade
se abrindo,
sinto o impulso do sangue
em tão grande ansiedade
sou amor em dávida plena
ascendendo em felicidade
trago um sorriso derramado
sou outono que não morre,
trago o aroma dos frutos maduros
e a sede dos sonhos em mim corre.

apesar dos dias duros
no  coração há ternura
e há nele pássaro ardente
e um grande amor que perdura

no coração permanentemente
há cascatas de amor pra dar-te
nele um rasto de primavera
de amendoeiras brancas
que me protegem do esquecimento
onde o tempo range sem parar
e de tanto recordar-te
a vida foje...
como um sonho perdido para sempre
ou ventura que passou ao nosso lado
fica o coração como um poema rasgado
 a renascer em mim, até ao fim.


natalia nuno
rosafogo

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Antes do início


o lume do choro não se acendeu ainda
neste lugar ermo anterior à infância
como se estivesse à espera de nascer
ou o vento sussurrasse o meu nome
enquanto não chegam as primeiras chuvas
para celebrar o feitiço da quimera

estou onde ainda não sou eu
e o tempo não começou a girar
pousado num horizonte longínquo
a olhar para dentro daquilo que não se abriu
frágil cortina que me separa
das memórias que em breve esquecerei

desembaraço os derradeiros nós
que prendem o corpo ao esplendor do vazio
antes que a maré suba à superfície
e a praia se inunde de pequenas pegadas
assinalando o ciclo de efémeras primaveras
cada vez mais perto de um início

estou parado à entrada do quarto
atento às mãos hábeis e ternas que tecem
a pele lisa que me irá revestir
a luz branca que me há de iluminar
e por onde lentamente regresso
ao trilho que errantes ciganos desenharam
com os pés descalços e gastos
na poeira embaciada das manhãs


domingo, 20 de setembro de 2015

O tu ca tu la agradece

Por onde andam os poetas deste espaço?
por onde anda a vossa poesia? 
desanimados? 
afastados?

Postem poetas, postem...
poesia ou 
desabafos explicativos da vossa ausência

Postem poetas, postem 

domingo, 7 de junho de 2015

rasgado gesto...




Teu tacto fica surpreendido
com a leveza da minha mão
que te procura
apesar do gesto tão conhecido
que milhares de vezes vai rasgando com
doçura...
E nem uma palavra, nem um aviso
sentir é a única ideia
às cegas minha mão sem juízo
o teu corpo serpenteia...

Uma oscilação aqui e ali
um sussurro inquieto
como se fosse um gemido
perdido entre si
verte-se sobre nós súbita
loucura
são momentos de vida. únicos
de explosão e doçura
como o grito dum relâmpago
 a estourar
assim é a loucura
do nosso amar...

E é como se o tempo flutuasse
entre a noite e o dia
ou sobre o muro de mais um sonho
que se anuncia...

natalia nuno
rosafogo

sábado, 6 de junho de 2015

.... visto-me ao avesso


Toco no reverso da alma,
visto-me do avesso e rio-me do tempo,
em gargalhadas cínicas, desafio-o
poderosa força avassalando a mente
numa brisa translucida que me cobre
ao de leve
e transporta-me
num adejar de asas febris
ao teu encontro despida

Escrito a 1/06/15

domingo, 10 de maio de 2015

Cada noite é um poço onde o dia vai matar a sede

No campo o dia é quente
E quente, trago a alma à realidade dos factos
O corpo, amarrotado de dormir, fica pendurado no roupeiro

Cada noite é um poço onde o dia vai matar a sede

No quarto a noite é fria
E frio, visto o corpo à imaginação do sono
Enquanto a alma vai fazer castelos na praia dos sonhos

No tecto da imaginação faltam telhas à realidade
O céu, azul durante o dia ou constelado de noite
É oferta da alma para um corpo cansado de existir
E tudo é sonho na realidade que a vida veste
Quando se acorda para morrer.

No campo os dias são quentes
E frias, são as noites no meu quarto.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Odes


Falem-me coisas
as coisas boas 
e também as más
mas falem
digam dos motivos
porque se criam 
as coisas
que para lá
há uma imensidão
do cosmos que espera 
por odes
a todas as coisas

Em uníssono
cantemos ao vento
sobre os ventos passados
e até os futuros
que os ecos vindouros
chegaram
e arrumaram-se
junto de todos
que somos NÓS

Mas falem
digam as coisas
sem segredos
que os silêncios
tais carícias
a afagar-nos
por dentro
podem ser 
maliciosos
quando ruidosos
a uma só voz

Dolores Marques 2015

domingo, 26 de abril de 2015

Ser grande é não ter tamanho

As pessoas podiam ser grandes
Deviam ser, sem reservas, maiores do que o corpo que vestem
As pessoas deviam ser grandes
E ser grande é não ter tamanho.

As pessoas compram casas grandes, paredes meias com o corpo
Para mostrarem que o seu corpo é grande
E pensam que isso é importante

Mas somos todos pequenos por fora
E o tamanho que as pessoas pensam que têm
É só o tamanho das coisas que mostram
E coisas assim têm a alma pequena.

As pessoas compram casas grandes
Porque não sabem, que são maiores que as casas que compram.

As pessoas podiam ser grandes
E ser grande, é não ter tamanho por dentro.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

quinta-feira, 23 de abril de 2015

a alma em devaneio...



quantos lírios e quantas rosas
quanto amor ardente, frenesim
tantas noites d'amor generosas
passadas, que te dei e tu a mim

foram doces as voltas do amor
hoje as descrevo com saudade
beijos, o cheiro do amor ao redor
o fogo quente que era eternidade

ai... se fosse esse tempo agora!
em teus braços feliz, cada aurora
ver o teu olhar brilhar sem fim

este amor que o tempo invejou
pra longe dessas noites nos levou
passadas, que te dei e tu a mim

natalia nuno