Terça-feira, 20 de Março de 2012

SOMBRA PROTECTORA


A voz do silêncio
É o silêncio da tua voz
Que ressoa dentro de mim
Mas que deixou de ser facto
Na cumplicidade de nós!

Vaidoso no teu fato
Caprichando na gravata
Saímos como pássaros vadios
Por todos os cantos e recantos
De mão dada!

A felicidade inundava-me
Tu eras um sábio
De tanto saber da vida
E pelas tuas histórias
Eu ouvia, quase via
As sagas das tuas memórias!

Agora és aquele vulto
Que se precipita de mim
Nos lugares percorridos
E como em criança
Quero agarrar essa sombra
Que vai sempre à frente
Que me guia e avança!

Segunda-feira, 19 de Março de 2012

Abraços de um tempo

Entrelaço-me na serena claridade
que me salpica de brisas leves
e sinto nos dedos a quietude do meu jardim
a absorver-me em cada gesto
a espairecer cansaços
na plenitude de um tempo
escrito no despertar das frésias
e do alecrim.

Penduro laços numa aguarela
em que a alma voa
devolvo à montanha as pedras
fragmentadas

[ espetros vácuos da razão ]

envolvo em versos as lembranças
resguardadas

[ às vezes aves sem beirais ]

palavras sopradas nos abraços de um tempo
que permanece tão dentro
margem branca de um rio
onde te reencontro

meu chão

minha saudade

meu pai.


B. Luz
19.03.12

A Dona Antónia

A Dona Antonia escreve versos, aquilo parece a sirene dos bombeiros a correr para o fogo. Que aqueles babosos versos lhe adocem os beiços. Ela ha-de dar aquelas lamechices a uma casa de caridade. São fracos versos que a consolam naquele abandono de homem e filhos. A Dona Antonia gosta de costurar, é uma artista no ponto cruz, uma devota do ponto cruz e do Dr Sousa Martins padroeiro das diarreias e das cólicas. A Dona Antonia e os seus versos amarelos como a bilis. Ela entretem os seus bichos de estimação entre eles as pombas que poisam no peitoral a mendigar umas migalhas literárias. Dona Antonia e os seus versos fofos e quentinhos que cheiram a mofo e a naftalina.

lobo

24 Março - Lisboa - Carlos Val e Teresa Teixeira



Os autores, Carlos Val, pseudónimo literário de Conceição Bernardino, e Teresa Teixeira, e a Temas Originais têm o prazer de o convidar a estar presente na sessão de apresentação dos livros “Nono Sentido” e “Da serena idade das coisas”, a ter lugar no Auditório do Campo Grande, 56, em Lisboa, no próximo dia 24 de Março, pelas 16:00.

Obras e autores serão apresentados pelos poetas Rosa Maria Anselmo e Xavier Zarco.

Amo-te Pai







Hoje
vejo-te como ontem
Sorriso aberto
Olhar feliz
Caminhas no teu passo compassado
Na calma dos dias que passam
Teus olhos verdes sorridentes
Sorriem para mim
Como ontem.

Abraço-te
nesses braços inertes
Beijo
tua face queimada
enrugada
Acaricio
o teu cabelo branco

Hoje
Estás presente
Como ontem
Como amanhã
Sempre!
Amo-te pai!

Domingo, 18 de Março de 2012

INSOLITA ALEGRIA



Eu sinto e me extasio
Quando a lua me vem segredar
Que a noite está por um fio
E os sonhos em mim pernoitar.
Sinto a minha alma tocada
Meu coração sossega no peito
O amor acontece lá mais na madrugada
Nesta noite de tempo perfeito.

O sonho toma conta dos meus
sentidos
Num sossego me detenho
Me aconchego em pensamentos
estremecidos
Lembro os rostos que beijei
no aroma da infância...
Nem sei se me acostumarei,
a esquecer a distância.

Dói-me a recordação
que trago no olhar
e no coração,
da criança sentada à sombra do loureiro.
Amada p'las nuvens e p'lo rio
Nascente de luz e cheiro
Que nesta noite do tempo acaricio.

Insólita alegria
Que ainda em mim sobrevive.
Nasci olhando a água, era dia
de tempestade,
do ribombar do trovão.
Desse tempo a saudade...
ainda trago no coração.

rosafogo


natalia nuno

Sábado, 17 de Março de 2012

Explosões incontidas

Na tarefa do rio intenso
onde corre a voz do pranto,
fervor de um caudal extenso
até que se cure o quebranto.

Nuances tingidas de amor
nos corpos intervenientes,
pelos enfeites de tanta dor
irmanando outras correntes.

Entre os pontos quase mortos
e tantas pedras descascadas
que na madrugada rasgam.

Ilusão em vínculos tortos
entre quedas e debandadas
pelo alvor se embriagam.


António MR Martins


Entre mim e o vento

mais do que um acordo...

a cumplicidade andarilha,

a sabedoria ancestral

de alguém, sem idade

,mas que não se tem

sobre um pedestal


Entre mim e o vento

o compromisso, a promessa

ele carrega a poeira,

o lixo da minha alma

e leva-os para longe

para as dunas dum tempo

que se esgueira da vida

que ainda me resta

e às vezes me esqueço

que fiz merecida


Entre mim e o vento

mais do que a alergia

às coisas mundanas

ele transporta o sonho

que me dá alento

e transforma em poesia

o que poderia ser ...

apenas um lamento.

Se ainda nos violinos do vento


Cobres-me de equações distorcidas
num adeus precoce
às pétalas delicadas
que se enchem de primavera
nas memórias que desenterro e este sol
quase perfeito
me faz passar entre os dedos.
Se ainda nos teus olhos
cintilam os nenúfares das tardes
que vêm de um outro tempo
dissolve o teu silêncio
nos violinos do vento
deixa que a minha mão agarre
a tua
e que o movimento
dos girassóis
te aponte
o caminho de volta
ao horizonte
da nossa rua.

B. Luz
10.03.12

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Foto de Barbara G

Sexta-feira, 16 de Março de 2012

Sinais


A lua trazia uma adaga prateada
escondida na dobra do vestido
quando surgia por detrás das árvores
projetando um luz ensanguentada;
sempre que caía a noite
e a sombra dos deuses se confundia
com o choro apocalíptico das hienas
a traçar os sinais de uma dor futura

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O POEMA QUE NÃO TE LI



Não penses que me esqueci de ti.

Não esqueço que um dia ao teu leito pertenci
Um dia de cego e quente amor (tão tua) me perdi…

Na noite em que roubei o sol e me vesti
Ao teu íntimo murmurei e pedi
Leve, que me deixasses possuir-te, desci
Breve, soltei-te as vestes, renasci…
Não esqueço a flor de lótus que para o teu sorriso colhi
Numa era em que só aos teus olhos me (p)rendi
Partilhei, vivi, amei, sorri, chorei, aprendi
Tanto mendiguei nos teus braços
Tanto superei a tempestade
Quisera eu o calor daqueles abraços
Para navegar no mar em liberdade…

Não, não penses que me esqueci de ti.

Tanto que eu pedi para voltares
Tanto eu pedi para me amares
Que importa se dos olhos salgam gotas?
Se tu olhas e finges que não notas?!
Morreu-me ao canto dos lábios o poema que não te li…
No dia em que me esquecer de ti
Quando me faltar a palma unida
Meu amor, quando me faltar a vida
Morri.
07.03.2012

Quarta-feira, 14 de Março de 2012

Queda no Auge

Imagem: retirada da net (autor desc)

Perco-me por entre todas as folhas caídas no chão do pensamento. Vento que passa esvoaçando-as à reflexão presente, volvendo ao futuro que se quer perto. Eis a contradição da beleza morta, caída na realidade viva. Nada mais natural - penso. Caíssem também por terra - tal como as folhas das árvores -, os desvalores humanos orientados pela sede do ego. Fizessem germinar novas plantas fornecendo-nos oxigénio, tal como precisamos de Luz. Observo, como que de fora, todo o corrupio da cidade, pensando que tudo terá que ser diferente, continuando na imutável sabedoria de uma natureza que é Mãe.

30112011

Terça-feira, 13 de Março de 2012

Entardecer...

Diz como está hoje o pôr-do-sol
Enquanto me contas, eu penso
Como és lindo, e que sorte tenho em ser
A metade de um conto de entardecer
Que observo ao te escutar,
Porque meus olhos são tua voz…

Vem…chega aqui…sim… mais perto,
Quando estamos pele com pele
Minhas mãos te desenharão
Seu perfume me dirá seus segredos
Junto a ti…assim…unidos…
Sem saber porquê…
Com certeza perceberemos
O resplendor de uma ilusão
Por que a teu lado, e a meu lado…poderemos esquecer…

Para mim sempre é de noite, mais uma noite
Contudo essa noite é como um entardecer
Se consegues que a vida me toque, assim…num toque
Seus olhos são os que brilham
E a lua que te apague,
Que em minha eterna escuridão
O céu tem nome: teu nome
O que eu não faria por contemplar-te
Ainda que fosse um breve instante…

Não…por favor não…nunca mais te condenes
Por tentares amanhecer
Não se perca de novo…na noite…nessa noite
Por que sua alma
Brilha com mais força
Que um milhão de sóis
Mas, em sua eterna escuridão…em minha vã escuridão
Por vezes…às vezes se ouve a voz
Que não daria eu por contemplar-te?!
Ainda que fosse um breve instante…

Vá lá…vem…chega aqui…sim…mais perto
E sussurrando-me ao ouvido
Diz como está hoje o pôr-do-sol…

Linguagem desfocada de um fio de água

Ontem, pintava telas
em poemas de linho
dedilhava sílabas como quem poisa
num beijo de borboleta
acendia violinos
sobre o cansaço das pedras.
Na chama do espelho
aquele fio de água clara
a viajar na alma
o vento da eternidade
a olhar para além de mim.
Hoje, o caos
no odor a terra queimada
o sol a sangrar silêncios
nos murmúrios da noite
a pedra a sobreviver
com os pés descalços
pelos caminhos secos
de um destino nu.


B. Luz

Domingo, 11 de Março de 2012

17 Mar - Porto - Carlos Val (Conceição Bernardino)

 
 
O autor, Carlos Val, pseudónimo literário de Conceição Bernardino, e a Temas Originais têm o prazer de o convidar a estar presente na sessão de lançamento do livro “Nono sentido” a ter lugar no Olimpo Bar Café, sito na Rua da Alegria, 26, no Porto, no próximo dia 17 de Março, pelas 17:00.

Obra e autor serão apresentados pela poetisa Rosa Maria Anselmo.

Palavras cuspidas em surdina

Passas a língua sobre o rio que parou de correr
Procuras ávida o que o mar não devorou,
Chagas, amantes ocasionais degradam-se
Nas flores ressequidas que alguém te ofereceu

Sossega o vómito, a luz levanta-se
Das palavras cuspidas em surdina

A dor aperta, amputei as marés dos teus braços,
Da ausência, da timidez dos santos

Na suave ansa do grito espelha-se o lume
Deixemo-nos aquecer nas incuráveis
Preces do inferno antes que arrefeça


Carlos Val

COMO INVENTAR SONHOS


Rumo a um porto que não existe
Na esperança de alcançar felicidade
O vento roda ... em levar-me insiste
À lonjura donde me vem a saudade.
Este longo inverno que já não termina
E o frio norte que não traz um sorriso!
Nos meus olhos a neblina
... E da infância chega uma doce brisa.

Voltarei ao ar perfumado
da minha gente
À primavera das amendoeiras em flor
Me entrego ao vento fervorosamente
ao seu fragor.
Rompe dos meus olhos a água
No meu rosto a inocência primeira
No coração a mágoa
Que brota sem fronteira.

Peço à esperança que viva sempre
em mim
Me traga dia a dia uma palavra nova
Um sorriso, um aroma a jasmim
E de estar viva me dê a prova.
Me deixe sentir o êxtase da felicidade
Não me deixe do tempo prisioneira,
ou sofra com sua voracidade.

E os silêncios se farão doçura
neste tempo maduro de viver
A vida me dará uma mão
cheia de ternura
E o terrível vazio vou esquecer.

natalia nuno
rosafogo

Em sonho

Eu fiz-me tão grande e repleta
Enquanto fui no Mundo, alguém
E sou a que tudo pode e tudo tem
E a que na vida, chegou á meta.

Eu fiz-me maior e mais completa
Enquanto pratiquei somente o bem
E sou a que fez e sem olhar a quem
E a que lançou ao cúpido, a seta.

E também me vi na maior mulher
Não conheci ninguém, igual a mim
E tem que ser assim, quem me quiser!...

Eu sou, a que fui mais e mais além
A que sonhou tanto, tanto e por fim
Acordei do sonho e não sou ninguém.

Sábado, 10 de Março de 2012

A vida é feita de muitas camadas

Deambulando fisíca e mentalmente


Vejo-me criança, sem pressas, brincando
Com deslumbres simples que estranhava
Sorria, pensava talvez… deambulando
Entre flores e animais que eu sondava!

Mais tarde, na adolescência, encantada
Descobria o outro, esse apelo romântico
Sonhava fantasias, queria ser amada
Enlevada por um promissor e suave cântico!

Cresci, cresci tanto, por dentro e por fora!
Como escrever sobre tanta vivência?
Difícil descodificar em palavras a memória!

Mas, bom e mau se misturam mesclados
Dores e alegrias nos dão a existência
A vida tem seus viras e seus fados!
Fev.2012

O silêncio das árvores


Procuro-te
como se não houvesse medos
movo-me
entre ramos debruados por um tempo
que retenho
dentro de um lugar
sem tempo.

Desfaço-me
espiral de cinzas
pedaços que sobraram de um sonho
a arder
numa tela. A memória
a desenhar os rostos
a vida
suspensa
nos lábios do vento.

Caem sombras
a meus pés
desprende-se o grito
a desilusão
por detrás do espelho.

E no vazio que emerge
de um tempo incompleto
olho-me
decifro-te
na solidão do verso
a esmagar o mito.

E o rio a escorregar
exangue
em degraus de mármore
e o céu a ser invisível
a tombar
pôr do sol e mar
sobre o silêncio das árvores.


B. Luz

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Foto de Soso / Sonjia P