terça-feira, 8 de abril de 2014

Ela anda pela cidade
parece que anda naquela postura da meditação
e os meus olhos revirados fazem aquela oração
que faz fogo no corpo

A meditação que ela faz
eu acho que não é coisa sagrada
mas mesmo assim eu vejo o céu
e é como se eu fosse o seu Deus operário
Ela anda pela cidade
parece que anda naquela postura da meditação
e os meus olhos revirados fazem aquela prece o movimento
da língua quando apetece.

Ela anda pela cidade
parece que anda naquela postura da meditação
é uma postura assim
sexual - oriental

E os meus olhos revirados fazem aquela oração
que faz fogo no corpo

E os meus olhos revirados fazem aquela prece
o movimento da língua quando apetece

Guardei um segredo

um peixe musica no aquário do teu quarto
toquei para ti um solo, amarrei um lenço no teu cabelo

Guardei um segredo
um anjo com cabelos de flor
a tocar guitarra como um ser de fogo

Guardei um segredo
um peixe musica no aquário do teu quarto
toquei para ti um solo e numa visão tu eras um pássaro

Guardei um segredo
um peixe musica no aquário do teu quarto
passei os dedos na fotografia e nela vi os olhos do mundo

Guardei um segredo
um peixe musica no aquário do teu quarto
toquei para ti um solo, amarrei um lenço no teu cabelo 


lobo


Quando a nossa infância

não teve um trono
imaginamos que usamos a coroa do rei vagabundo

O rei vagabundo está mesmo dentro de nós
e tem uma estrela no céu a apontar em nossa direcção.

Nós usamos a coroa do rei vagabundo, dividimos com ele o peixe do rio.

O rei vagabundo está mesmo dentro de nós, muitos não sabem que ele existe mas já viram o seu caminhar e pensaram que era a terra que andava.

Quando a nossa infância
não teve um trono
imaginamos que usamos a coroa do rei vagabundo


lobo


domingo, 2 de fevereiro de 2014

Paginas emprenhadas


Crivo-me de ânsias, no limiar do desejo
sinto-te raiz enroscada no meu corpo
em seiva bruta despetalo-me febril
num  abraço profundo em teu dorso

esvoaça-me asas de beija-flor, tremulas
no enroscar da face um beijo suave
e estremeço qual flor lançada ao vento
no estio rubro de madrugadas quentes

ato gemidos num mapear  de caricias
no  entrelaçado húmido dos poros
da pele una dos corpos distantes

e num rodopiar de versos alados
reescrevo em paginas emprenhadas
a melodia deste meu triste fado


Escrito a 28/01/14


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Proliferam

Proliferam palavras em explosão de guilhotina na carne humana. Jazem corações espatifados aos olhos, alimentando a mente de sangue fresco como veneno. É só deixar fluir que ele espalhar-se-á, tomando conta da pouca Luz que existe…

Clarisse Silva


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

A Melodia do Tempo

Meu 2º livro de Poesia «A Melodia do Tempo» foi publicado pela editora Lua de Marfim e apresentado pelo Poeta Julião Bernardes no Hotel Palácio Real em Lisboa no dia 11/01/2014



cala-te ó vento

Cala-te, cala-te ó vento
deixa-me neste pesadelo
que é meu destino
de Poeta
deixa-me o pensamento menino
e esta inquietação resignada
deixa-me neste frenesim
adoça a solidão que há em mim.
Cala-te, cala-te ó vento
leva contigo a ventania
deixa-me nesta esperança fria,
deixa-me apenas o silêncio
em melodia,
e o cheiro das ervas da madrugada
deixa-me, deixa-me
nesta inquietação resignada.

Quero sentir o eco dos meus passos
ainda que sonâmbula eu siga
sentir  o gozo da lembrança dos abraços
e a sedução que lembro da tua cantiga
cala-te, cala-te ó vento
não vês o meu sofrimento
e esta dor verdadeira
quando me olho aos espelhos
e outra me invento?

Quem dera enganar o destino
ser como era,
e esquecer como sou
deixa-me ó vento
deixa-me com meu pensamento
menino...
num sonho debruçado
mesmo que,
de coração apertado.

natalia nuno
rosafogo

NOTA: Este foi o poema que fiz e li durante a apresentação do Melodia do Tempo.



terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Em frente ao mar encrespado


Esse beijo que me roubaste
em frente ao mar encrespado
foi doçura molhada
nos meus lábios grudada

Os olhos com que me olhaste
eram ondas de incertezas
cegos aos desejos
que de mim emergia

O corpo com que me abraçaste
sufocou no peito a voz
num silencio orquestrado
dum louco ardor castrado

E as mãos que me tocaram
foram pétalas de flores
caricias desvairados
em mim meu amor

Escrito a 24/11/13

variações temporais


Imagem da net, em: www.r7universal.blogspot.com


fecham-se as portas
lentamente
de um dia
de um mês
de um ano
onde as paisagens
foram secas e húmidas
a destempo

fecham-se as portas
na dor
que nos tormenta o íntimo desflorido
na inquietude dos sobressaltos
em correntes de desespero
nos episódios da vida…
daquela vida verdadeira

fecham-se as portas
rangendo
nos intervalos do silêncio
ante a lágrima não escorrida
pelo peito do sofrimento

fecham-se as portas
mas outras se reabrem
dizem!…

que as portas do amanhã
nos proporcionem
vistas verdejantes
com azuis cintilantes
e que um novo ar
mais puro
possa entrar em nossas narinas
rejuvenescendo-nos as memórias
e acicatando-nos para o futuro

a vida é assim
plena de altos e baixos

as portas
essas
consoante a ferrugem das dobradiças
e dos fechos que as sustentam
vão rangendo nos seus desígnios
umas mais que outras
entreajudadas pelas janelas
que entreabertas
as vão rodeando

que a abertura de novas portas
nos sustentem na felicidade
tanto no sentido da vida
como no silêncio da morte!...

António MR Martins

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Dois Homens e Três Mulheres (Entre Parêntesis-extracto)


(Uma árvore enraizada num grão
e três ventanias granuladas
que são o povo
em exclamação
que são na minha mão
a água
em reticências ...)



Luiz Sommerville Junior, 191220101629
Eu Canto o Poema Mudo


 Festas Felizes e Bom Ano 2014


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Abnegações

Transformar o nosso olhar num lugar inóspito, onde o sol despeja todos os detritos luminosos, e não abrirmos os olhos para a segunda metade de nós. Ir ao encontro do mar onde guardamos os restos mortais de um corpo que quer a todo o custo vencer a tormenta.

Resíduos que se afogam num mar de lágrimas que não sabem onde mora a fonte de todas as abnegações.

Dolores Marques; (Dakini - Ilusorium/11)
Foto:  DM: Bem perto do mar

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Sem palavras ou gestos, e gemidos de dor


 A noite resvala na densidade do tempo
de  obscuro é o odor, acobreado ao vento
na taça repleta de sons incompreendidos
embebeda-se os silêncios em cúpulas de ti

os lírios sufocados na intensão conseguida
amarfanhados na subtileza das mãos evasivas
desmaia na luz dispersa das carumas vividas

e as vestes soltam-se do corpo fingido
na terra pisam-se a simplicidade  da cor
mágoa que destrói o ventre sofrido

sem palavras ou gestos, e gemidos de dor


terça-feira, 5 de novembro de 2013

o meu vôo...
























Concluí que tenho medo
medo do desconhecido
medo...medo...medo!
não sei como viver
não sei o que fazer
sei...que o futuro é temido.
A vida caminha, até durante o sono
e a noite de temor me agita
deixo nela a vida ao abandono
aflita...aflita...aflita.

De onde venho?
Cantei madrigais,
agora estou cansada e nada levo
apenas tenho
alguns anos a mais...
que a contar não me atrevo.

Mas nada tão cruel
como aguardar o desconhecido
que vai enrugando nossa pele
em troca do tempo vivido.
Labirinto que ameaça profundo
o coração dolorosamente
mas o caminho está em aberto
e não acabaram no céu as constelações
o sonho está presente... por perto,
e o vento agita e troca desilusões
por ilusões.

natalia nuno
rosafogo

domingo, 3 de novembro de 2013

As casas perfiladas

As casas perfiladas
os rebanhos nos olhos alucinados.
Chegou o viajante tocando as árvores
e imaginando que são gigantes

As casas perfiladas
e os tanques que esmagam
Chegou o viajante tocando a água
e imaginando uma sede solar.

As casas perfiladas
os rebanhos nos olhos alucinados
Chegou o viajante tocando os cabelos
de um anjo que lhe aparecia em sonhos

As casas perfiladas
e os tanques que esmagam
Chegou a breve noticia
desses que morrem frios e tristes.

As casas perfiladas
os rebanhos nos olhos alucinados


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

entre ser ou não ser



há sempre uma hora que morre
 deixa meu coração ermo
 e minha face amadurecida
 na escuridão,
 minhas mãos me parecem alheias
 de rabiscos cheias
 com poesia inacabada
 entre ser e não ser nada.
 ao redor a solidão me cerca,
 como um corredor sombrio
 meu tempo se enche de vazio
 e frialdade...
 sou solidão e saudade!


 mais uma hora morta
 como impedi-la de passar?
 ouço os passos do tempo,
 deste tempo que teima meu sonho
 quebrar.

 esta hora é tudo que resta
 vejo passar os dias um a um
 e já nem sei a idade
 e como se não restasse nenhum,
 meu sonho
 permanece na obscuridade
 tudo parou na tarde que morre
 parar o tempo como queria!
 rente à sombra das àrvores a escuridão
 a noite desce, não há saída
 morreu o dia,
 o sono traz-me o sonho p'la mão
 amanhã haverá novo sentido
 para a vida.

natalia nuno
rosafogo

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O olhar ficou água

O olhar ficou água
e o homem pobre
pela cidade vai se arrastando
Ninguém sabe como fica
também a madrugada.
Por causa do medo
por causa da fome há gente em luta
e a vida de cada um não sabe
que todas as outras são aquela força
que nenhuma indiferença vai eliminar.
O olhar ficou água
e o homem ignorado
continua a dissipar as nuvens escuras
e segue pela cidade e fala com o mar
Quando a solidão parece crescer
antes do dia que vem a seguir
ele quer ouvir, ele quer abraçar
e a vida de cada um não sabe
que todas as outras são aquela força
que nenhuma indiferença vai eliminar.


Lobo

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Este lugar nao é meu

Este lugar não é meu
mas o corpo no entanto está
este estar e não ser
não sei como responder
não sei como perguntar
Imaginemos a onda
não ser do mar e no entanto
ser como ele uma coisa funda
um imenso pranto a difícil definição
das coisas simples do amor
Este lugar não é meu
mas o corpo no entanto está
com a alma pronta, preparada para ver
o invisível Deus que me habita de poesia o meu coração.

Este lugar não é meu
mas mesmo assim eu gostaria
que este meu corpo desencontrado
não fosse desencontrado da poesia
mas eu sei mesmo assim
que não estou do lado errado
que não estou no fim

Este lugar não é meu
mas eu também não sei
se haverá crime se não houver lei
este estar e não ser
não sei como perguntar
não sei como responder
lobo

Sabe mal o vinho

Sabe mal o vinho
não tem travo nem melodia
Acabaram-se os malmequeres
os cavalos a galopar
não oiço dizer palavras assim
do tipo ainda me queres.

Sabe mal o vinho
tu já não és capaz
Os espelhos já não adivinham
as cartas não fazem a sorte
e tu pensas que as coisas más
estão no bolso das calças da morte.

O vinho não tem mesmo gosto
e tu és mesmo infeliz
Há uns que usam o fracasso
para provocar o susto
nas almas criadoras
e esses vivem como ratos dando aos outros
o veneno que lhes foi destinado.

O vinho está mesmo podre
e nem a musica vale alguma coisa
não há malmequeres
nem lábios pintados no retrovisor.
Tu és uma bruxa, uma ave super
tens medo do amor e inventas historias
para o desacreditar
 
Lobo

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Ao redor do fogo

Ao redor do fogo
podes desperdiçar as palavras
inventar as tempestades
ou agarrar as asas
alguma nuvem irás seguir
mas não te deixes torturar em nome do amor

Ao redor do fogo
podes ferir os teus pensamentos
estragar os mais sublimes planos
engendrar os mais sangrentos crimes
inventar gostos estranhos
agarrar as asas que vão dentro de ti
adiando esse espaço feliz

Alguma nuvem irás seguir
mas não te deixes torturar em nome do amor.


lobo

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Os Sons do Silêncio



Que saudades eu tenho do silêncio das ruas. do chiar do eléctrico do sonoro tilintar Da calma e tranquilidade de passear na cidade E o silêncio do autocarro que parou Da porta que se abriu Da menina que sorriu E o silêncio da fava- rica que passa da boa castanha assada e do toc-toc da chinela da varina com os restos na canastra. Que silêncio! Que saudades! Do dlim-dlam do sino da igreja Do gri-gri dos grilos, nas noites de verão E do pipilar das aves O silêncio das vidas em segredo nem as ruas os sabiam O silêncio da bota grossa da tropa dos magalas que passavam E do apito do policia sinaleiro. Que saudades destes sons que eu ouvia no silêncio que existia. Que saudades! Maria Antonieta Oliveira

Quando ela sai de entre as folhas

Quando ela sai de entre as folhas
parece um animal a esconder o rosto, a chuva é forte e a terra cobre a pele como um vestido transparente de inverno.

Quando ela sai de entre as folhas parece um animal envergonhado e inocente. A chuva é forte e as flores estão fracas e não conseguem respirar o perfume subentendido das palavras de amor.

Quando ela sai de entre as folhas
parece um animal rasgando o sol que desperta os olhos de uma cria
o sabor quente de um frio nascimento.

Quando ela sai de entre as folhas
parece um animal a esconder o rosto.
A chuva é forte e a dança fica por fazer
no abismo infinito dos olhos.