terça-feira, 7 de abril de 2026

Do mal, o menos

 





Do mal o menos
repetia
baixinho
o homem que alimentava pombos
com migalhas de pão seco.

 

As aves vinham
confiantes
como se cada migalha fosse a promessa
de que o mundo
ainda podia ser simples.

 

O homem observava o voo breve
as asas
a riscarem o ar
a escreverem
sem tinta
uma esperança discreta.

 

E
enquanto o pão se desfazia
entre os dedos gastos
o homem pensava que talvez a vida
fosse isso mesmo.

Um gesto pequeno
um cuidado anónimo
um instante de paz
no meio do ruído.

 

Do mal o menos
repetia.

 

E
naquele murmúrio
cabia tudo o que ainda o mantinha de pé.