quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Antes do início


o lume do choro não se acendeu ainda
neste lugar ermo anterior à infância
como se estivesse à espera de nascer
ou o vento sussurrasse o meu nome
enquanto não chegam as primeiras chuvas
para celebrar o feitiço da quimera

estou onde ainda não sou eu
e o tempo não começou a girar
pousado num horizonte longínquo
a olhar para dentro daquilo que não se abriu
frágil cortina que me separa
das memórias que em breve esquecerei

desembaraço os derradeiros nós
que prendem o corpo ao esplendor do vazio
antes que a maré suba à superfície
e a praia se inunde de pequenas pegadas
assinalando o ciclo de efémeras primaveras
cada vez mais perto de um início

estou parado à entrada do quarto
atento às mãos hábeis e ternas que tecem
a pele lisa que me irá revestir
a luz branca que me há de iluminar
e por onde lentamente regresso
ao trilho que errantes ciganos desenharam
com os pés descalços e gastos
na poeira embaciada das manhãs


domingo, 20 de setembro de 2015

O tu ca tu la agradece

Por onde andam os poetas deste espaço?
por onde anda a vossa poesia? 
desanimados? 
afastados?

Postem poetas, postem...
poesia ou 
desabafos explicativos da vossa ausência

Postem poetas, postem 

domingo, 7 de junho de 2015

rasgado gesto...




Teu tacto fica surpreendido
com a leveza da minha mão
que te procura
apesar do gesto tão conhecido
que milhares de vezes vai rasgando com
doçura...
E nem uma palavra, nem um aviso
sentir é a única ideia
às cegas minha mão sem juízo
o teu corpo serpenteia...

Uma oscilação aqui e ali
um sussurro inquieto
como se fosse um gemido
perdido entre si
verte-se sobre nós súbita
loucura
são momentos de vida. únicos
de explosão e doçura
como o grito dum relâmpago
 a estourar
assim é a loucura
do nosso amar...

E é como se o tempo flutuasse
entre a noite e o dia
ou sobre o muro de mais um sonho
que se anuncia...

natalia nuno
rosafogo

sábado, 6 de junho de 2015

.... visto-me ao avesso


Toco no reverso da alma,
visto-me do avesso e rio-me do tempo,
em gargalhadas cínicas, desafio-o
poderosa força avassalando a mente
numa brisa translucida que me cobre
ao de leve
e transporta-me
num adejar de asas febris
ao teu encontro despida

Escrito a 1/06/15

domingo, 10 de maio de 2015

Cada noite é um poço onde o dia vai matar a sede

No campo o dia é quente
E quente, trago a alma à realidade dos factos
O corpo, amarrotado de dormir, fica pendurado no roupeiro

Cada noite é um poço onde o dia vai matar a sede

No quarto a noite é fria
E frio, visto o corpo à imaginação do sono
Enquanto a alma vai fazer castelos na praia dos sonhos

No tecto da imaginação faltam telhas à realidade
O céu, azul durante o dia ou constelado de noite
É oferta da alma para um corpo cansado de existir
E tudo é sonho na realidade que a vida veste
Quando se acorda para morrer.

No campo os dias são quentes
E frias, são as noites no meu quarto.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Odes


Falem-me coisas
as coisas boas 
e também as más
mas falem
digam dos motivos
porque se criam 
as coisas
que para lá
há uma imensidão
do cosmos que espera 
por odes
a todas as coisas

Em uníssono
cantemos ao vento
sobre os ventos passados
e até os futuros
que os ecos vindouros
chegaram
e arrumaram-se
junto de todos
que somos NÓS

Mas falem
digam as coisas
sem segredos
que os silêncios
tais carícias
a afagar-nos
por dentro
podem ser 
maliciosos
quando ruidosos
a uma só voz

Dolores Marques 2015

domingo, 26 de abril de 2015

Ser grande é não ter tamanho

As pessoas podiam ser grandes
Deviam ser, sem reservas, maiores do que o corpo que vestem
As pessoas deviam ser grandes
E ser grande é não ter tamanho.

As pessoas compram casas grandes, paredes meias com o corpo
Para mostrarem que o seu corpo é grande
E pensam que isso é importante

Mas somos todos pequenos por fora
E o tamanho que as pessoas pensam que têm
É só o tamanho das coisas que mostram
E coisas assim têm a alma pequena.

As pessoas compram casas grandes
Porque não sabem, que são maiores que as casas que compram.

As pessoas podiam ser grandes
E ser grande, é não ter tamanho por dentro.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

quinta-feira, 23 de abril de 2015

a alma em devaneio...



quantos lírios e quantas rosas
quanto amor ardente, frenesim
tantas noites d'amor generosas
passadas, que te dei e tu a mim

foram doces as voltas do amor
hoje as descrevo com saudade
beijos, o cheiro do amor ao redor
o fogo quente que era eternidade

ai... se fosse esse tempo agora!
em teus braços feliz, cada aurora
ver o teu olhar brilhar sem fim

este amor que o tempo invejou
pra longe dessas noites nos levou
passadas, que te dei e tu a mim

natalia nuno

terça-feira, 14 de abril de 2015

Quão fundo é o areal de pedra e sargaço


Quão fundo é o areal de pedra e sargaço
por onde adormece o cansaço dos meus passos
abandonados ao perfume salinizado  dos mares
e ancorados ao pontão das longínquas memorias

Perdem-se no murmurar surdo dos temporais
o eco das palavras multíplices de desejo
que anoiteceram  na quentura ausente dos corpos
das diáfanas caricias  memoriais do tempo

E na boca de todos os infernos, pernoitam
os pedaços de silêncios adormecidos
e nas vagas chamuscadas do olhar persiste
a cor vermelha das malvas e o tilintar 
dos suspiros fatigados na tez acerejada da pele


Escrito em multi datas

quinta-feira, 9 de abril de 2015

sou ainda jovem...


sou ainda jovem
como jovem é a primavera
sou águia que espera
pelas ondas do vento
que me levam ao sonho
caindo lentamente no azul
desprendida do pensamento
ave distante que desvanece
na linha do poente,
em mar transparente
na quietude do entardecer
e nos sonhos me perder.

e a vida como se nova fosse
bela e doce
só felicidade
como se nunca mais pudesse ser
apenas saudade…

natalia nuno
rosafogo
imagem da net


domingo, 23 de novembro de 2014

meus passos...



num lapso de tempo foi-se a vida
felicidade é como água que corre
de cheio e vazio, descida e subida
tudo à mercê do tempo vive e morre

mergulho num torvelinho de ideias

à mente os anos felizes descuidados
ainda ontem comigo, paredes meias
hoje fardos a cada dia mais pesados

num vôo como águia no céu planando

ou como uma pena levada pelo vento
entre dúvida e esperança vou acabando

meu sonho é vela já meia consumida...

na tremura dos dedos procuro alento
uma razão, raiz que me agarre à vida


natalia nuno

rosafogo

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Quando digo de mim


                              
Quando digo de mim
há um bocal ofuscado que me suga
nos beirais dos olhos insanos
um ciclo perigoso cola-se ao peito
e desdiz as mares secas dos olhos

Quando digo de mim
da ponta do espinho solta-se
o reverso do tempo por onde escorre
enxames de beijos roubados
presos à boca.

Alucinando…

Quando digo de mim
o aço estremece
na lisura dos dedos febris
e as partículas adormecidas
gemem ao lado do vento
famintas de ti

Quando digo de mim
calo-me num rosário aceso
na sombra da noite

Escrito a 14/11/14

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Se aquele chão falasse

Foto: CS

Ah se aquele chão falasse…

Aquela terra calcada
lisa e brilhante
(de tão pisada)
contaria tantas histórias
a cada folha que cai
a cada gota que absorve quando chove.

Ah se aquele chão falasse…

Chão de lugar
tantas vezes desprezado
brilha como vibra
de vida
sem a vida
de outros tempos.

Continua a brilhar
para mim
quando observo
cada planta que volta a nascer
cada flor que volta a desabrochar
cada vida que ali viveu
e continua a viver
dentro de mim.


Clarisse Silva
16 de Abril de 2014





quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Esses teus braços



Esses teus braços me rodeiam o corpo
num afago permanente de intenção,
à plenitude relevante que sorvo
apogeu variável duma sedução.

Esses teus braços me apertam tanto
num sorridente nó sem avaliação,
cobrindo meu peito como um manto
que faz bater meu singelo coração.

Esses teus braços são a força maior
que incentiva na vida meu caminhar
num porvir de amplitude bem melhor.

Os teus braços definem o desbravar…
como se da Terra conhecessem de cor
a conjugação real do verbo amar.

 
António MR Martins

contemplativo fascínio



a pedra imobilizada
toca-nos o olhar
neste denso caminhar
por onde a vida nos vai fugindo

a pedra vai permanecendo
serena e estática
na frágil estante transparente
de um chão
nas emoções perdido

os dias pendentes
vão encurtando a caminhada
da resistência

a pedra
essa
lá se mantém
mas tudo em sua volta
é pura e simples fascinação

 
António MR Martins

sábado, 25 de outubro de 2014

Tenho em mim

Tenho em mim
nada do que poderia
ter.
Tenho tudo o que
terei
para ser
aquilo que já
sou.
Tudo do nada
acomodada
empreitada
fatigada
caminhada
para o nada.
Fantasia
prodigiosa
alegoria
vertiginosa.

Quem me retira
este direito
que aspira
a eleito
que suspira
a satisfeito?

Tenho em mim
todas as ilusões
realidades
não vividas
superações.


Clarisse Silva
15.04.2013

domingo, 24 de agosto de 2014

Para que a morte não possa chegar mais cedo


As palavras atravessam o carril branco da folha
para poderem chegar ao lugar dos comboios
que desconhecem as linhas do seu destino.
É aqui que os labirintos se abrem à febre da lonjura
e a viagem resvala para a escuridão dos túneis
onde a próxima estação é a vertigem do silêncio.

As palavras avançam por dentro do frio noturno
traçando um rasto de fumaça e gritos descarrilados.
Sílaba a sílaba escoam nos relógios de areia
à procura da geometria que reequilibre a paisagem.
Mas só o poema conhece os caminhos da manhã.
A luz que se acende no interior dos atalhos
para que a morte não possa chegar mais cedo
nem desvende o mistério que nos guarda o rosto.

terça-feira, 29 de julho de 2014

As palavras secam-se nas entranhas do palato

As palavras secam-se nas entranhas do palato
o silêncio descreve esta inercia
que catapulta de mim

reinvente-a …

sussurra as paginas brancas do poema
ouço-me na brandura do verso
em ninhos emaranhados de ilusões
asas soltas nas palavras por escrever
sois bravios colorindo horizontes
da cor dos olhos meus

Reinvente-a ..                

gesticula  as mãos translucidas da poesia
fadando o corpo teu
na longura diáfana da mente perdida

E as palavras nascem sem ecos
na sombra do verbo por dizer

Reinvento-te
no silencio da noite
desnuda de mim

Escrito a 27/07/14

quinta-feira, 29 de maio de 2014

este poema...



neste poema há o rosto
duma mulher triste
nas palavras abriga-se assustada
tem a idade dum tempo sem idade
e o bocejar cinzento
quando o pensamento se passeia
pelos labirintos da saudade.
neste poema há ainda outros sinais
palavras surdas de consoantes e vogais
que ora são rios de mel
ora são agitações e fel...

este poema é feito
de cicatrizes, rugas e sonhos
e insónias que não deixam adormecer
encantos e desencantos
memórias de momentos de prazer
de ternura, de dureza e insensatez
de palavras surdas providas
da minha surdez...
palavras encostadas aos meus lábios
alheias ao tempo
surgem em ventos de desejo
recordando o tempo que me agasalhou
outrora...
e eu acalento o sonho...hora a hora...

natalia nuno
rosafogo