domingo, 10 de maio de 2015

Cada noite é um poço onde o dia vai matar a sede

No campo o dia é quente
E quente, trago a alma à realidade dos factos
O corpo, amarrotado de dormir, fica pendurado no roupeiro

Cada noite é um poço onde o dia vai matar a sede

No quarto a noite é fria
E frio, visto o corpo à imaginação do sono
Enquanto a alma vai fazer castelos na praia dos sonhos

No tecto da imaginação faltam telhas à realidade
O céu, azul durante o dia ou constelado de noite
É oferta da alma para um corpo cansado de existir
E tudo é sonho na realidade que a vida veste
Quando se acorda para morrer.

No campo os dias são quentes
E frias, são as noites no meu quarto.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Odes


Falem-me coisas
as coisas boas 
e também as más
mas falem
digam dos motivos
porque se criam 
as coisas
que para lá
há uma imensidão
do cosmos que espera 
por odes
a todas as coisas

Em uníssono
cantemos ao vento
sobre os ventos passados
e até os futuros
que os ecos vindouros
chegaram
e arrumaram-se
junto de todos
que somos NÓS

Mas falem
digam as coisas
sem segredos
que os silêncios
tais carícias
a afagar-nos
por dentro
podem ser 
maliciosos
quando ruidosos
a uma só voz

Dolores Marques 2015

domingo, 26 de abril de 2015

Ser grande é não ter tamanho

As pessoas podiam ser grandes
Deviam ser, sem reservas, maiores do que o corpo que vestem
As pessoas deviam ser grandes
E ser grande é não ter tamanho.

As pessoas compram casas grandes, paredes meias com o corpo
Para mostrarem que o seu corpo é grande
E pensam que isso é importante

Mas somos todos pequenos por fora
E o tamanho que as pessoas pensam que têm
É só o tamanho das coisas que mostram
E coisas assim têm a alma pequena.

As pessoas compram casas grandes
Porque não sabem, que são maiores que as casas que compram.

As pessoas podiam ser grandes
E ser grande, é não ter tamanho por dentro.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

quinta-feira, 23 de abril de 2015

a alma em devaneio...



quantos lírios e quantas rosas
quanto amor ardente, frenesim
tantas noites d'amor generosas
passadas, que te dei e tu a mim

foram doces as voltas do amor
hoje as descrevo com saudade
beijos, o cheiro do amor ao redor
o fogo quente que era eternidade

ai... se fosse esse tempo agora!
em teus braços feliz, cada aurora
ver o teu olhar brilhar sem fim

este amor que o tempo invejou
pra longe dessas noites nos levou
passadas, que te dei e tu a mim

natalia nuno

terça-feira, 14 de abril de 2015

Quão fundo é o areal de pedra e sargaço


Quão fundo é o areal de pedra e sargaço
por onde adormece o cansaço dos meus passos
abandonados ao perfume salinizado  dos mares
e ancorados ao pontão das longínquas memorias

Perdem-se no murmurar surdo dos temporais
o eco das palavras multíplices de desejo
que anoiteceram  na quentura ausente dos corpos
das diáfanas caricias  memoriais do tempo

E na boca de todos os infernos, pernoitam
os pedaços de silêncios adormecidos
e nas vagas chamuscadas do olhar persiste
a cor vermelha das malvas e o tilintar 
dos suspiros fatigados na tez acerejada da pele


Escrito em multi datas

quinta-feira, 9 de abril de 2015

sou ainda jovem...


sou ainda jovem
como jovem é a primavera
sou águia que espera
pelas ondas do vento
que me levam ao sonho
caindo lentamente no azul
desprendida do pensamento
ave distante que desvanece
na linha do poente,
em mar transparente
na quietude do entardecer
e nos sonhos me perder.

e a vida como se nova fosse
bela e doce
só felicidade
como se nunca mais pudesse ser
apenas saudade…

natalia nuno
rosafogo
imagem da net


domingo, 23 de novembro de 2014

meus passos...



num lapso de tempo foi-se a vida
felicidade é como água que corre
de cheio e vazio, descida e subida
tudo à mercê do tempo vive e morre

mergulho num torvelinho de ideias

à mente os anos felizes descuidados
ainda ontem comigo, paredes meias
hoje fardos a cada dia mais pesados

num vôo como águia no céu planando

ou como uma pena levada pelo vento
entre dúvida e esperança vou acabando

meu sonho é vela já meia consumida...

na tremura dos dedos procuro alento
uma razão, raiz que me agarre à vida


natalia nuno

rosafogo

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Quando digo de mim


                              
Quando digo de mim
há um bocal ofuscado que me suga
nos beirais dos olhos insanos
um ciclo perigoso cola-se ao peito
e desdiz as mares secas dos olhos

Quando digo de mim
da ponta do espinho solta-se
o reverso do tempo por onde escorre
enxames de beijos roubados
presos à boca.

Alucinando…

Quando digo de mim
o aço estremece
na lisura dos dedos febris
e as partículas adormecidas
gemem ao lado do vento
famintas de ti

Quando digo de mim
calo-me num rosário aceso
na sombra da noite

Escrito a 14/11/14

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Se aquele chão falasse

Foto: CS

Ah se aquele chão falasse…

Aquela terra calcada
lisa e brilhante
(de tão pisada)
contaria tantas histórias
a cada folha que cai
a cada gota que absorve quando chove.

Ah se aquele chão falasse…

Chão de lugar
tantas vezes desprezado
brilha como vibra
de vida
sem a vida
de outros tempos.

Continua a brilhar
para mim
quando observo
cada planta que volta a nascer
cada flor que volta a desabrochar
cada vida que ali viveu
e continua a viver
dentro de mim.


Clarisse Silva
16 de Abril de 2014





quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Esses teus braços



Esses teus braços me rodeiam o corpo
num afago permanente de intenção,
à plenitude relevante que sorvo
apogeu variável duma sedução.

Esses teus braços me apertam tanto
num sorridente nó sem avaliação,
cobrindo meu peito como um manto
que faz bater meu singelo coração.

Esses teus braços são a força maior
que incentiva na vida meu caminhar
num porvir de amplitude bem melhor.

Os teus braços definem o desbravar…
como se da Terra conhecessem de cor
a conjugação real do verbo amar.

 
António MR Martins

contemplativo fascínio



a pedra imobilizada
toca-nos o olhar
neste denso caminhar
por onde a vida nos vai fugindo

a pedra vai permanecendo
serena e estática
na frágil estante transparente
de um chão
nas emoções perdido

os dias pendentes
vão encurtando a caminhada
da resistência

a pedra
essa
lá se mantém
mas tudo em sua volta
é pura e simples fascinação

 
António MR Martins

sábado, 25 de outubro de 2014

Tenho em mim

Tenho em mim
nada do que poderia
ter.
Tenho tudo o que
terei
para ser
aquilo que já
sou.
Tudo do nada
acomodada
empreitada
fatigada
caminhada
para o nada.
Fantasia
prodigiosa
alegoria
vertiginosa.

Quem me retira
este direito
que aspira
a eleito
que suspira
a satisfeito?

Tenho em mim
todas as ilusões
realidades
não vividas
superações.


Clarisse Silva
15.04.2013

domingo, 24 de agosto de 2014

Para que a morte não possa chegar mais cedo


As palavras atravessam o carril branco da folha
para poderem chegar ao lugar dos comboios
que desconhecem as linhas do seu destino.
É aqui que os labirintos se abrem à febre da lonjura
e a viagem resvala para a escuridão dos túneis
onde a próxima estação é a vertigem do silêncio.

As palavras avançam por dentro do frio noturno
traçando um rasto de fumaça e gritos descarrilados.
Sílaba a sílaba escoam nos relógios de areia
à procura da geometria que reequilibre a paisagem.
Mas só o poema conhece os caminhos da manhã.
A luz que se acende no interior dos atalhos
para que a morte não possa chegar mais cedo
nem desvende o mistério que nos guarda o rosto.

terça-feira, 29 de julho de 2014

As palavras secam-se nas entranhas do palato

As palavras secam-se nas entranhas do palato
o silêncio descreve esta inercia
que catapulta de mim

reinvente-a …

sussurra as paginas brancas do poema
ouço-me na brandura do verso
em ninhos emaranhados de ilusões
asas soltas nas palavras por escrever
sois bravios colorindo horizontes
da cor dos olhos meus

Reinvente-a ..                

gesticula  as mãos translucidas da poesia
fadando o corpo teu
na longura diáfana da mente perdida

E as palavras nascem sem ecos
na sombra do verbo por dizer

Reinvento-te
no silencio da noite
desnuda de mim

Escrito a 27/07/14

quinta-feira, 29 de maio de 2014

este poema...



neste poema há o rosto
duma mulher triste
nas palavras abriga-se assustada
tem a idade dum tempo sem idade
e o bocejar cinzento
quando o pensamento se passeia
pelos labirintos da saudade.
neste poema há ainda outros sinais
palavras surdas de consoantes e vogais
que ora são rios de mel
ora são agitações e fel...

este poema é feito
de cicatrizes, rugas e sonhos
e insónias que não deixam adormecer
encantos e desencantos
memórias de momentos de prazer
de ternura, de dureza e insensatez
de palavras surdas providas
da minha surdez...
palavras encostadas aos meus lábios
alheias ao tempo
surgem em ventos de desejo
recordando o tempo que me agasalhou
outrora...
e eu acalento o sonho...hora a hora...

natalia nuno
rosafogo

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Fases Lunares

Se o meu ventre
se alimentasse das tuas mãos
sempre que te dispões a tê-lo
debaixo dos teus lençóis
seria num dia de sol
sem a lua por perto

Sinto que no corpo da lua
há ramificações dispostas
a prender-te os movimentos

Imagino-te deitado sobre a terra
banhado pelo seu brilho nocturno
confundindo-te com os raios solares

Não esqueças que te amo
desde a formação do mundo

Dakini - Mulheres de Areia/2010

sábado, 17 de maio de 2014

Num foliar de melodias


Deixa-me perder-me
no murmulhar ensurdecedor das ondas
onde se sente a macieza translucida dos sons
pernoitar a pele enclausurada de silabas

Deixa-me visitar-te
antes que as heras cubram o meu corpo
e a palidez das horas escorram por entre as mãos
num foliar de melodias transversas á pele, quente

Deixa-me abraçar-te
em gemidos transeuntes de sol
num tiritar de pássaros que habitam em mim
debicando inquietos, os sonhos cilíndricos
que devoram o meu corpo, num antro de loucura

E dá-me a leveza das palavras com que arquitetas
os versos que pincela o teu peito robusto de tons

Calo-me… e abandono-me á fúria dos ventos
que me arranca de ti


Escrito a 14/05/14


terça-feira, 8 de abril de 2014

Ela anda pela cidade
parece que anda naquela postura da meditação
e os meus olhos revirados fazem aquela oração
que faz fogo no corpo

A meditação que ela faz
eu acho que não é coisa sagrada
mas mesmo assim eu vejo o céu
e é como se eu fosse o seu Deus operário
Ela anda pela cidade
parece que anda naquela postura da meditação
e os meus olhos revirados fazem aquela prece o movimento
da língua quando apetece.

Ela anda pela cidade
parece que anda naquela postura da meditação
é uma postura assim
sexual - oriental

E os meus olhos revirados fazem aquela oração
que faz fogo no corpo

E os meus olhos revirados fazem aquela prece
o movimento da língua quando apetece

Guardei um segredo

um peixe musica no aquário do teu quarto
toquei para ti um solo, amarrei um lenço no teu cabelo

Guardei um segredo
um anjo com cabelos de flor
a tocar guitarra como um ser de fogo

Guardei um segredo
um peixe musica no aquário do teu quarto
toquei para ti um solo e numa visão tu eras um pássaro

Guardei um segredo
um peixe musica no aquário do teu quarto
passei os dedos na fotografia e nela vi os olhos do mundo

Guardei um segredo
um peixe musica no aquário do teu quarto
toquei para ti um solo, amarrei um lenço no teu cabelo 


lobo