sábado, 25 de outubro de 2014

Tenho em mim

Tenho em mim
nada do que poderia
ter.
Tenho tudo o que
terei
para ser
aquilo que já
sou.
Tudo do nada
acomodada
empreitada
fatigada
caminhada
para o nada.
Fantasia
prodigiosa
alegoria
vertiginosa.

Quem me retira
este direito
que aspira
a eleito
que suspira
a satisfeito?

Tenho em mim
todas as ilusões
realidades
não vividas
superações.


Clarisse Silva
15.04.2013

domingo, 24 de agosto de 2014

Para que a morte não possa chegar mais cedo


As palavras atravessam o carril branco da folha
para poderem chegar ao lugar dos comboios
que desconhecem as linhas do seu destino.
É aqui que os labirintos se abrem à febre da lonjura
e a viagem resvala para a escuridão dos túneis
onde a próxima estação é a vertigem do silêncio.

As palavras avançam por dentro do frio noturno
traçando um rasto de fumaça e gritos descarrilados.
Sílaba a sílaba escoam nos relógios de areia
à procura da geometria que reequilibre a paisagem.
Mas só o poema conhece os caminhos da manhã.
A luz que se acende no interior dos atalhos
para que a morte não possa chegar mais cedo
nem desvende o mistério que nos guarda o rosto.

terça-feira, 29 de julho de 2014

As palavras secam-se nas entranhas do palato

As palavras secam-se nas entranhas do palato
o silêncio descreve esta inercia
que catapulta de mim

reinvente-a …

sussurra as paginas brancas do poema
ouço-me na brandura do verso
em ninhos emaranhados de ilusões
asas soltas nas palavras por escrever
sois bravios colorindo horizontes
da cor dos olhos meus

Reinvente-a ..                

gesticula  as mãos translucidas da poesia
fadando o corpo teu
na longura diáfana da mente perdida

E as palavras nascem sem ecos
na sombra do verbo por dizer

Reinvento-te
no silencio da noite
desnuda de mim

Escrito a 27/07/14

quinta-feira, 29 de maio de 2014

este poema...



neste poema há o rosto
duma mulher triste
nas palavras abriga-se assustada
tem a idade dum tempo sem idade
e o bocejar cinzento
quando o pensamento se passeia
pelos labirintos da saudade.
neste poema há ainda outros sinais
palavras surdas de consoantes e vogais
que ora são rios de mel
ora são agitações e fel...

este poema é feito
de cicatrizes, rugas e sonhos
e insónias que não deixam adormecer
encantos e desencantos
memórias de momentos de prazer
de ternura, de dureza e insensatez
de palavras surdas providas
da minha surdez...
palavras encostadas aos meus lábios
alheias ao tempo
surgem em ventos de desejo
recordando o tempo que me agasalhou
outrora...
e eu acalento o sonho...hora a hora...

natalia nuno
rosafogo

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Fases Lunares

Se o meu ventre
se alimentasse das tuas mãos
sempre que te dispões a tê-lo
debaixo dos teus lençóis
seria num dia de sol
sem a lua por perto

Sinto que no corpo da lua
há ramificações dispostas
a prender-te os movimentos

Imagino-te deitado sobre a terra
banhado pelo seu brilho nocturno
confundindo-te com os raios solares

Não esqueças que te amo
desde a formação do mundo

Dakini - Mulheres de Areia/2010

sábado, 17 de maio de 2014

Num foliar de melodias


Deixa-me perder-me
no murmulhar ensurdecedor das ondas
onde se sente a macieza translucida dos sons
pernoitar a pele enclausurada de silabas

Deixa-me visitar-te
antes que as heras cubram o meu corpo
e a palidez das horas escorram por entre as mãos
num foliar de melodias transversas á pele, quente

Deixa-me abraçar-te
em gemidos transeuntes de sol
num tiritar de pássaros que habitam em mim
debicando inquietos, os sonhos cilíndricos
que devoram o meu corpo, num antro de loucura

E dá-me a leveza das palavras com que arquitetas
os versos que pincela o teu peito robusto de tons

Calo-me… e abandono-me á fúria dos ventos
que me arranca de ti


Escrito a 14/05/14


terça-feira, 8 de abril de 2014

Ela anda pela cidade
parece que anda naquela postura da meditação
e os meus olhos revirados fazem aquela oração
que faz fogo no corpo

A meditação que ela faz
eu acho que não é coisa sagrada
mas mesmo assim eu vejo o céu
e é como se eu fosse o seu Deus operário
Ela anda pela cidade
parece que anda naquela postura da meditação
e os meus olhos revirados fazem aquela prece o movimento
da língua quando apetece.

Ela anda pela cidade
parece que anda naquela postura da meditação
é uma postura assim
sexual - oriental

E os meus olhos revirados fazem aquela oração
que faz fogo no corpo

E os meus olhos revirados fazem aquela prece
o movimento da língua quando apetece

Guardei um segredo

um peixe musica no aquário do teu quarto
toquei para ti um solo, amarrei um lenço no teu cabelo

Guardei um segredo
um anjo com cabelos de flor
a tocar guitarra como um ser de fogo

Guardei um segredo
um peixe musica no aquário do teu quarto
toquei para ti um solo e numa visão tu eras um pássaro

Guardei um segredo
um peixe musica no aquário do teu quarto
passei os dedos na fotografia e nela vi os olhos do mundo

Guardei um segredo
um peixe musica no aquário do teu quarto
toquei para ti um solo, amarrei um lenço no teu cabelo 


lobo


Quando a nossa infância

não teve um trono
imaginamos que usamos a coroa do rei vagabundo

O rei vagabundo está mesmo dentro de nós
e tem uma estrela no céu a apontar em nossa direcção.

Nós usamos a coroa do rei vagabundo, dividimos com ele o peixe do rio.

O rei vagabundo está mesmo dentro de nós, muitos não sabem que ele existe mas já viram o seu caminhar e pensaram que era a terra que andava.

Quando a nossa infância
não teve um trono
imaginamos que usamos a coroa do rei vagabundo


lobo


domingo, 2 de fevereiro de 2014

Paginas emprenhadas


Crivo-me de ânsias, no limiar do desejo
sinto-te raiz enroscada no meu corpo
em seiva bruta despetalo-me febril
num  abraço profundo em teu dorso

esvoaça-me asas de beija-flor, tremulas
no enroscar da face um beijo suave
e estremeço qual flor lançada ao vento
no estio rubro de madrugadas quentes

ato gemidos num mapear  de caricias
no  entrelaçado húmido dos poros
da pele una dos corpos distantes

e num rodopiar de versos alados
reescrevo em paginas emprenhadas
a melodia deste meu triste fado


Escrito a 28/01/14


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Proliferam

Proliferam palavras em explosão de guilhotina na carne humana. Jazem corações espatifados aos olhos, alimentando a mente de sangue fresco como veneno. É só deixar fluir que ele espalhar-se-á, tomando conta da pouca Luz que existe…

Clarisse Silva


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

A Melodia do Tempo

Meu 2º livro de Poesia «A Melodia do Tempo» foi publicado pela editora Lua de Marfim e apresentado pelo Poeta Julião Bernardes no Hotel Palácio Real em Lisboa no dia 11/01/2014



cala-te ó vento

Cala-te, cala-te ó vento
deixa-me neste pesadelo
que é meu destino
de Poeta
deixa-me o pensamento menino
e esta inquietação resignada
deixa-me neste frenesim
adoça a solidão que há em mim.
Cala-te, cala-te ó vento
leva contigo a ventania
deixa-me nesta esperança fria,
deixa-me apenas o silêncio
em melodia,
e o cheiro das ervas da madrugada
deixa-me, deixa-me
nesta inquietação resignada.

Quero sentir o eco dos meus passos
ainda que sonâmbula eu siga
sentir  o gozo da lembrança dos abraços
e a sedução que lembro da tua cantiga
cala-te, cala-te ó vento
não vês o meu sofrimento
e esta dor verdadeira
quando me olho aos espelhos
e outra me invento?

Quem dera enganar o destino
ser como era,
e esquecer como sou
deixa-me ó vento
deixa-me com meu pensamento
menino...
num sonho debruçado
mesmo que,
de coração apertado.

natalia nuno
rosafogo

NOTA: Este foi o poema que fiz e li durante a apresentação do Melodia do Tempo.



terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Em frente ao mar encrespado


Esse beijo que me roubaste
em frente ao mar encrespado
foi doçura molhada
nos meus lábios grudada

Os olhos com que me olhaste
eram ondas de incertezas
cegos aos desejos
que de mim emergia

O corpo com que me abraçaste
sufocou no peito a voz
num silencio orquestrado
dum louco ardor castrado

E as mãos que me tocaram
foram pétalas de flores
caricias desvairados
em mim meu amor

Escrito a 24/11/13

variações temporais


Imagem da net, em: www.r7universal.blogspot.com


fecham-se as portas
lentamente
de um dia
de um mês
de um ano
onde as paisagens
foram secas e húmidas
a destempo

fecham-se as portas
na dor
que nos tormenta o íntimo desflorido
na inquietude dos sobressaltos
em correntes de desespero
nos episódios da vida…
daquela vida verdadeira

fecham-se as portas
rangendo
nos intervalos do silêncio
ante a lágrima não escorrida
pelo peito do sofrimento

fecham-se as portas
mas outras se reabrem
dizem!…

que as portas do amanhã
nos proporcionem
vistas verdejantes
com azuis cintilantes
e que um novo ar
mais puro
possa entrar em nossas narinas
rejuvenescendo-nos as memórias
e acicatando-nos para o futuro

a vida é assim
plena de altos e baixos

as portas
essas
consoante a ferrugem das dobradiças
e dos fechos que as sustentam
vão rangendo nos seus desígnios
umas mais que outras
entreajudadas pelas janelas
que entreabertas
as vão rodeando

que a abertura de novas portas
nos sustentem na felicidade
tanto no sentido da vida
como no silêncio da morte!...

António MR Martins

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Dois Homens e Três Mulheres (Entre Parêntesis-extracto)


(Uma árvore enraizada num grão
e três ventanias granuladas
que são o povo
em exclamação
que são na minha mão
a água
em reticências ...)



Luiz Sommerville Junior, 191220101629
Eu Canto o Poema Mudo


 Festas Felizes e Bom Ano 2014


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Abnegações

Transformar o nosso olhar num lugar inóspito, onde o sol despeja todos os detritos luminosos, e não abrirmos os olhos para a segunda metade de nós. Ir ao encontro do mar onde guardamos os restos mortais de um corpo que quer a todo o custo vencer a tormenta.

Resíduos que se afogam num mar de lágrimas que não sabem onde mora a fonte de todas as abnegações.

Dolores Marques; (Dakini - Ilusorium/11)
Foto:  DM: Bem perto do mar

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Sem palavras ou gestos, e gemidos de dor


 A noite resvala na densidade do tempo
de  obscuro é o odor, acobreado ao vento
na taça repleta de sons incompreendidos
embebeda-se os silêncios em cúpulas de ti

os lírios sufocados na intensão conseguida
amarfanhados na subtileza das mãos evasivas
desmaia na luz dispersa das carumas vividas

e as vestes soltam-se do corpo fingido
na terra pisam-se a simplicidade  da cor
mágoa que destrói o ventre sofrido

sem palavras ou gestos, e gemidos de dor


terça-feira, 5 de novembro de 2013

o meu vôo...
























Concluí que tenho medo
medo do desconhecido
medo...medo...medo!
não sei como viver
não sei o que fazer
sei...que o futuro é temido.
A vida caminha, até durante o sono
e a noite de temor me agita
deixo nela a vida ao abandono
aflita...aflita...aflita.

De onde venho?
Cantei madrigais,
agora estou cansada e nada levo
apenas tenho
alguns anos a mais...
que a contar não me atrevo.

Mas nada tão cruel
como aguardar o desconhecido
que vai enrugando nossa pele
em troca do tempo vivido.
Labirinto que ameaça profundo
o coração dolorosamente
mas o caminho está em aberto
e não acabaram no céu as constelações
o sonho está presente... por perto,
e o vento agita e troca desilusões
por ilusões.

natalia nuno
rosafogo

domingo, 3 de novembro de 2013

As casas perfiladas

As casas perfiladas
os rebanhos nos olhos alucinados.
Chegou o viajante tocando as árvores
e imaginando que são gigantes

As casas perfiladas
e os tanques que esmagam
Chegou o viajante tocando a água
e imaginando uma sede solar.

As casas perfiladas
os rebanhos nos olhos alucinados
Chegou o viajante tocando os cabelos
de um anjo que lhe aparecia em sonhos

As casas perfiladas
e os tanques que esmagam
Chegou a breve noticia
desses que morrem frios e tristes.

As casas perfiladas
os rebanhos nos olhos alucinados


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

entre ser ou não ser



há sempre uma hora que morre
 deixa meu coração ermo
 e minha face amadurecida
 na escuridão,
 minhas mãos me parecem alheias
 de rabiscos cheias
 com poesia inacabada
 entre ser e não ser nada.
 ao redor a solidão me cerca,
 como um corredor sombrio
 meu tempo se enche de vazio
 e frialdade...
 sou solidão e saudade!


 mais uma hora morta
 como impedi-la de passar?
 ouço os passos do tempo,
 deste tempo que teima meu sonho
 quebrar.

 esta hora é tudo que resta
 vejo passar os dias um a um
 e já nem sei a idade
 e como se não restasse nenhum,
 meu sonho
 permanece na obscuridade
 tudo parou na tarde que morre
 parar o tempo como queria!
 rente à sombra das àrvores a escuridão
 a noite desce, não há saída
 morreu o dia,
 o sono traz-me o sonho p'la mão
 amanhã haverá novo sentido
 para a vida.

natalia nuno
rosafogo