domingo, 3 de novembro de 2013

As casas perfiladas

As casas perfiladas
os rebanhos nos olhos alucinados.
Chegou o viajante tocando as árvores
e imaginando que são gigantes

As casas perfiladas
e os tanques que esmagam
Chegou o viajante tocando a água
e imaginando uma sede solar.

As casas perfiladas
os rebanhos nos olhos alucinados
Chegou o viajante tocando os cabelos
de um anjo que lhe aparecia em sonhos

As casas perfiladas
e os tanques que esmagam
Chegou a breve noticia
desses que morrem frios e tristes.

As casas perfiladas
os rebanhos nos olhos alucinados


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

entre ser ou não ser



há sempre uma hora que morre
 deixa meu coração ermo
 e minha face amadurecida
 na escuridão,
 minhas mãos me parecem alheias
 de rabiscos cheias
 com poesia inacabada
 entre ser e não ser nada.
 ao redor a solidão me cerca,
 como um corredor sombrio
 meu tempo se enche de vazio
 e frialdade...
 sou solidão e saudade!


 mais uma hora morta
 como impedi-la de passar?
 ouço os passos do tempo,
 deste tempo que teima meu sonho
 quebrar.

 esta hora é tudo que resta
 vejo passar os dias um a um
 e já nem sei a idade
 e como se não restasse nenhum,
 meu sonho
 permanece na obscuridade
 tudo parou na tarde que morre
 parar o tempo como queria!
 rente à sombra das àrvores a escuridão
 a noite desce, não há saída
 morreu o dia,
 o sono traz-me o sonho p'la mão
 amanhã haverá novo sentido
 para a vida.

natalia nuno
rosafogo

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O olhar ficou água

O olhar ficou água
e o homem pobre
pela cidade vai se arrastando
Ninguém sabe como fica
também a madrugada.
Por causa do medo
por causa da fome há gente em luta
e a vida de cada um não sabe
que todas as outras são aquela força
que nenhuma indiferença vai eliminar.
O olhar ficou água
e o homem ignorado
continua a dissipar as nuvens escuras
e segue pela cidade e fala com o mar
Quando a solidão parece crescer
antes do dia que vem a seguir
ele quer ouvir, ele quer abraçar
e a vida de cada um não sabe
que todas as outras são aquela força
que nenhuma indiferença vai eliminar.


Lobo

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Este lugar nao é meu

Este lugar não é meu
mas o corpo no entanto está
este estar e não ser
não sei como responder
não sei como perguntar
Imaginemos a onda
não ser do mar e no entanto
ser como ele uma coisa funda
um imenso pranto a difícil definição
das coisas simples do amor
Este lugar não é meu
mas o corpo no entanto está
com a alma pronta, preparada para ver
o invisível Deus que me habita de poesia o meu coração.

Este lugar não é meu
mas mesmo assim eu gostaria
que este meu corpo desencontrado
não fosse desencontrado da poesia
mas eu sei mesmo assim
que não estou do lado errado
que não estou no fim

Este lugar não é meu
mas eu também não sei
se haverá crime se não houver lei
este estar e não ser
não sei como perguntar
não sei como responder
lobo

Sabe mal o vinho

Sabe mal o vinho
não tem travo nem melodia
Acabaram-se os malmequeres
os cavalos a galopar
não oiço dizer palavras assim
do tipo ainda me queres.

Sabe mal o vinho
tu já não és capaz
Os espelhos já não adivinham
as cartas não fazem a sorte
e tu pensas que as coisas más
estão no bolso das calças da morte.

O vinho não tem mesmo gosto
e tu és mesmo infeliz
Há uns que usam o fracasso
para provocar o susto
nas almas criadoras
e esses vivem como ratos dando aos outros
o veneno que lhes foi destinado.

O vinho está mesmo podre
e nem a musica vale alguma coisa
não há malmequeres
nem lábios pintados no retrovisor.
Tu és uma bruxa, uma ave super
tens medo do amor e inventas historias
para o desacreditar
 
Lobo

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Ao redor do fogo

Ao redor do fogo
podes desperdiçar as palavras
inventar as tempestades
ou agarrar as asas
alguma nuvem irás seguir
mas não te deixes torturar em nome do amor

Ao redor do fogo
podes ferir os teus pensamentos
estragar os mais sublimes planos
engendrar os mais sangrentos crimes
inventar gostos estranhos
agarrar as asas que vão dentro de ti
adiando esse espaço feliz

Alguma nuvem irás seguir
mas não te deixes torturar em nome do amor.


lobo

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Os Sons do Silêncio



Que saudades eu tenho do silêncio das ruas. do chiar do eléctrico do sonoro tilintar Da calma e tranquilidade de passear na cidade E o silêncio do autocarro que parou Da porta que se abriu Da menina que sorriu E o silêncio da fava- rica que passa da boa castanha assada e do toc-toc da chinela da varina com os restos na canastra. Que silêncio! Que saudades! Do dlim-dlam do sino da igreja Do gri-gri dos grilos, nas noites de verão E do pipilar das aves O silêncio das vidas em segredo nem as ruas os sabiam O silêncio da bota grossa da tropa dos magalas que passavam E do apito do policia sinaleiro. Que saudades destes sons que eu ouvia no silêncio que existia. Que saudades! Maria Antonieta Oliveira

Quando ela sai de entre as folhas

Quando ela sai de entre as folhas
parece um animal a esconder o rosto, a chuva é forte e a terra cobre a pele como um vestido transparente de inverno.

Quando ela sai de entre as folhas parece um animal envergonhado e inocente. A chuva é forte e as flores estão fracas e não conseguem respirar o perfume subentendido das palavras de amor.

Quando ela sai de entre as folhas
parece um animal rasgando o sol que desperta os olhos de uma cria
o sabor quente de um frio nascimento.

Quando ela sai de entre as folhas
parece um animal a esconder o rosto.
A chuva é forte e a dança fica por fazer
no abismo infinito dos olhos.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Navego

NAVEGO Nesse mar navego que me leva… Meu corpo desliza nas ondas Meu ser perdido na terra O coração, esse, perdi-o ontem, quando ao monte subi. Perdi-o, perdi-me, esqueci. Ouvi teu corpo gemendo Vi teus braços erguidos ao Céu suplicando baixinho a Deus. Tentei erguer-te e lavar tua alma negra Tentei dar-te carinho e limpar o teu caminho Tentei tudo o que podia Tu, nada quiseste ou fizeste E eu, que nada sou, nada sabia Orei por ti. Meu corpo deslizando nas ondas Desse mar que me leva Navego… Maria Antonieta Oliveira
O teu gesto são as flores a ondular
certos segredos amargos e uma longa viagem.
Amanhã voltará o tempo da chuva.
O teu gesto são as flores
essa marca no corpo fraco
O teu gesto são esses segredos
uma distancia que se encurta
essa luta corpo a corpo
não pode ser o amor.
O teu gesto são as flores a ondular
certos segredos amargos
Amanhã voltará a ser outro espaço
e uma longa viagem...
O teu gesto são as flores a ondular
um pressentimento adiado dessa despedida
O teu gesto são as flores a ondular
certos segredos amargos e uma longa viagem.
Amanhã voltará o tempo da chuva.


lobo
Outro dia escreverás
se o outono for longo
e as tempestades irão ler as tuas cartas
quando vieres de longe tentando esquecer
essas cruéis guerras

Outro dia escreverás
se o olhar não se fechar
e se o outono for longo os viajantes tu acalmarás
quando vieres de longe tentando acordar os pássaros.

Outro dia escreverás
se o outono for longo
e as tempestades tu acalmarás
se os pássaros regressarem dessa cidade

Outro dia escreverás
se o outono for longo
e as tempestades vão empurrar
de ti o fogo
quando vieres tentando esquecer
essa cruel duvida do amor

Outro dia escreverás
se o outono for longo
e as tempestades irão ler as tuas cartas
quando vieres de longe tentando esquecer
essas cruéis guerras


lobo

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Banco de jardim


Zona Envolvente do Nabão, em Ansião (parte recente),
foto de António MR Martins.


No isolamento da simples solidão
te encontrei só, à minha passagem,
por ti passei sem qualquer intenção,
descobrindo-te na mera paisagem.

Olhei de frente, de lado e para trás
nessa quietude que por aqui implantas,
vínculo tão forte que tanto satisfaz
quem se cansa de observar as plantas.

Aconchego pra muitas caminhadas
acolhimento de leituras dispersas
descanso de tantas pernas cansadas.

Picam-se aos topos anseios às avessas
és cenário com pessoas enamoradas
e também palco de muitas conversas.

 
António MR Martins

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Levei o meu mundo


Imagem da net, em: www.redballoon1.com.br


Levei o sol no bolso da camisa
e a lua na capa presa às costas,
nuvens no cinto de forma precisa
água num cantil para as respostas.

Levei as estrelas como lanternas
e o ar em balões de muitas cores,
o vento seguiu-me junto às pernas
num saco cheiro de todas as flores.

Levei também a noite e o dia
e a madrugada e a tarde quente,
juntinhas à manhã da ousadia.

Levei sementes do verde ausente
e os paladares duma frutaria
com a natureza da minha gente.

 
António MR Martins

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Livre solidão


Caído
Sobre a mesa
O chão

O piso
Que não conheces
E tentas desvendar

Mas não sabes como fazê-lo
Não entendes sua composição

Não te queiras enganar

Lá fora
Também há um solo

Uma terra assente
No pressuposto da negação

Por lá
Tudo é mais feroz
Pelo menos
Altera-se a voz

Lá fora
É outro pólo

Não o queiras deslindar

E a mesa
É bem diferente
Com muita gente

Uma outra
Sofreguidão
Até à exaustão

Peço-te
Para permaneceres
Nesta solidão

Neste chão
À nossa mesa

Aqui podes prevaricar

 
António MR Martins

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

crédula esperança



estou dos versos esquecida
me anima uma crédula esperança
que o que me resta de vida
é esta saudade nua e crua
que de lembrar não me cansa.
e este ânimo constante
que me vem ao semblante
que sempre assim em mim esteja.
quero que todo o mundo veja
que aos versos não ando atada
mas anda louco o pensamento
e a alma arrebatada...

a morrer sentenciada
anda a minha poesia
no silêncio e esquecimento...
se pudesse a pouparia.

já fui moça...moça ardente
já fiz versos de repente

estou dos versos esquecida
eles que foram meus amantes
deram golpes ficou a ferida
já nada é como dantes...
versos que eram raridade
onde conservava a saudade
hoje resta a aparência
nada tinham de ciência
quem sabe...a eternidade!

não deixo que nada me entristeça
a vida é cruel ameaça
só a lembrança me estremeça
para esquecer qualquer desgraça
e se a vida me consente
caminhar sem receio
a minha metade igualmente!?
então:
farei da caminhada passeio.

natalia nuno
rosafogo

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Calo-me para que não oiças o gemido

Calo-me para que não oiças o gemido
nem sintas o uivo do vento na tua face ausente
para que eu te possa escutar, fecunda dum olhar… quente

Calo-me…de tantas vezes que choro, sem soluços
como quem pede uma prece, calando o verbo inerte
no sepulcro silente dos meus lábios,  incongruentes

Calo-me no fulgor da palavra, despindo a madrugada
numa quietude perigosa, lavrando o poema cansado
e no silencio visto-me subtilmente, do verbo ainda quente.
fluindo centelhas nos olhos esquecidos, longínquos de ti

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Toca a figura que caminha
desenha a figura sobre a água
inventa uma linha
para cortar o corpo
e faz aquela dança mas não convides a morte
mesmo que não tenha par.

Toca a figura que caminha
o sangue que corre vai pintar a lua
inventa uma linha
sobre a pele nua
uma flor e um cântico antigo
e faz aquela dança quando se aproxima a liberdade

Toca a figura que caminha
e cruza os dedos e faz a jura
inventa uma linha para cortar a noite
a sorte levando o jogo
para a sorte que não tem o amor

Toca a figura que caminha
desenha a figura sobre a terra
uma sombra vai abrigar a canção
e proteger-te das feridas da guerra

Toca a figura que caminha
desenha a figura sobre a água
inventa uma linha
para cortar o corpo
e faz aquela dança mas não convides a morte
mesmo que não tenha par.


lobo
o é o homem que decide, não é guiado pelo pensamento, a emoção ou a racionalidade existe mas não decide, o que decide é a maquina, é a maquina que indica o que fazer como fazer, o momento de rir, o momento de chorar, as horas de trabalho, o tempo de lazer. A maquina está instalada, indica os programas que devemos ver, os livros que temos de ler, as vezes que devemos fazer sexo. O homem não decide, o que decide nele é o mecanismo de prazer que é o mecanismo de submissão, o casamento social formaliza essa submissão, todo o homem está dependente de um contrato, não há liberdade quando se compromete a fazer o socialmente certo, é tudo contabilizado, os ruídos da respiração, tudo está cronometrado, os beijos que dá, os desabafos, as declarações de rendimentos, o perfume que usa, as vezes que chamou filho da puta ao patrão e bebeu sumo sem gaz . A máquina decide, decide tudo, o capitalismo decide tudo, como te vestes, como te controla, está tudo medido, sempre os mesmos ingredientes, a maquina faz te bonito, jovem produtivo e depois vais avariando, ficas velho, doente, fraco, os fios da televisão nos pulsos, queres que desliguem a máquina? Não tu não queres, estás feliz, eles tratam de ti


lobo
Imagino o gato que vê o frio dentro das pessoas. Imagino que podias tocar para mim uma musica é suficiente que te esqueças das palavras e te lembres do café quente, imagino que passas na igreja e que todos os homens sabem a oração do teu corpo e o gato que eu imagino fica amigo dos ratos e não percebe os homens a comer os homens, saberá um gato o que significa capitalismo. Imagino o gato que vê o frio dentro das pessoas, imagino que podias inventar uma musica, que pudesses lançar na terra e isso seria a tua resposta quando te perguntassem como nascem as flores, imagino o gato que vê dentro das pessoas. As janelas todas fechadas e uma pessoa estranha, era como se estivesse ali o mar, uma relação intima entre a minha distancia e as coisas que não entendo, imagino que podias tocar para mim uma musica, imagino que afinal não sabes nenhuma musica nem nenhuma palavra mas que tens uma maneira de dar confiança e de compartilhar uma bebida e uma pedra para a construção de uma casa. Imagino o gato que vê o frio dentro das pessoas, imagino que passas na igreja e que todos os homens sabem a oração do teu corpo


lobo

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

poema de amor também...



lanço a rede ao fundo,
para vislumbrar o poema
feito de palavra de nada
ou do que não foi dito ainda,
talvez da palavra calada,
duma porta fechada ou aberta,
alento de minha boca
uma dor que aperta,
memória dum tempo
ou da minha força, já pouca.

será o poema pássaro
que voa para o poente
de asas fatigadas
tocando as águas do mar
rumando à eternidade
docemente,
levando com ele meu olhar?

este poema é cego
e causa-me calafrio!
os seus resignados olhos,
são os meus,
às vezes são rio
que já corria
no ventre de minha mãe,
num sussurro morno
onde não há volta.
mas ainda assim me alegro,
porque este poema
é de amor também.

natalia nuno
rosafogo