sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Os Sons do Silêncio



Que saudades eu tenho do silêncio das ruas. do chiar do eléctrico do sonoro tilintar Da calma e tranquilidade de passear na cidade E o silêncio do autocarro que parou Da porta que se abriu Da menina que sorriu E o silêncio da fava- rica que passa da boa castanha assada e do toc-toc da chinela da varina com os restos na canastra. Que silêncio! Que saudades! Do dlim-dlam do sino da igreja Do gri-gri dos grilos, nas noites de verão E do pipilar das aves O silêncio das vidas em segredo nem as ruas os sabiam O silêncio da bota grossa da tropa dos magalas que passavam E do apito do policia sinaleiro. Que saudades destes sons que eu ouvia no silêncio que existia. Que saudades! Maria Antonieta Oliveira

Quando ela sai de entre as folhas

Quando ela sai de entre as folhas
parece um animal a esconder o rosto, a chuva é forte e a terra cobre a pele como um vestido transparente de inverno.

Quando ela sai de entre as folhas parece um animal envergonhado e inocente. A chuva é forte e as flores estão fracas e não conseguem respirar o perfume subentendido das palavras de amor.

Quando ela sai de entre as folhas
parece um animal rasgando o sol que desperta os olhos de uma cria
o sabor quente de um frio nascimento.

Quando ela sai de entre as folhas
parece um animal a esconder o rosto.
A chuva é forte e a dança fica por fazer
no abismo infinito dos olhos.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Navego

NAVEGO Nesse mar navego que me leva… Meu corpo desliza nas ondas Meu ser perdido na terra O coração, esse, perdi-o ontem, quando ao monte subi. Perdi-o, perdi-me, esqueci. Ouvi teu corpo gemendo Vi teus braços erguidos ao Céu suplicando baixinho a Deus. Tentei erguer-te e lavar tua alma negra Tentei dar-te carinho e limpar o teu caminho Tentei tudo o que podia Tu, nada quiseste ou fizeste E eu, que nada sou, nada sabia Orei por ti. Meu corpo deslizando nas ondas Desse mar que me leva Navego… Maria Antonieta Oliveira
O teu gesto são as flores a ondular
certos segredos amargos e uma longa viagem.
Amanhã voltará o tempo da chuva.
O teu gesto são as flores
essa marca no corpo fraco
O teu gesto são esses segredos
uma distancia que se encurta
essa luta corpo a corpo
não pode ser o amor.
O teu gesto são as flores a ondular
certos segredos amargos
Amanhã voltará a ser outro espaço
e uma longa viagem...
O teu gesto são as flores a ondular
um pressentimento adiado dessa despedida
O teu gesto são as flores a ondular
certos segredos amargos e uma longa viagem.
Amanhã voltará o tempo da chuva.


lobo
Outro dia escreverás
se o outono for longo
e as tempestades irão ler as tuas cartas
quando vieres de longe tentando esquecer
essas cruéis guerras

Outro dia escreverás
se o olhar não se fechar
e se o outono for longo os viajantes tu acalmarás
quando vieres de longe tentando acordar os pássaros.

Outro dia escreverás
se o outono for longo
e as tempestades tu acalmarás
se os pássaros regressarem dessa cidade

Outro dia escreverás
se o outono for longo
e as tempestades vão empurrar
de ti o fogo
quando vieres tentando esquecer
essa cruel duvida do amor

Outro dia escreverás
se o outono for longo
e as tempestades irão ler as tuas cartas
quando vieres de longe tentando esquecer
essas cruéis guerras


lobo

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Banco de jardim


Zona Envolvente do Nabão, em Ansião (parte recente),
foto de António MR Martins.


No isolamento da simples solidão
te encontrei só, à minha passagem,
por ti passei sem qualquer intenção,
descobrindo-te na mera paisagem.

Olhei de frente, de lado e para trás
nessa quietude que por aqui implantas,
vínculo tão forte que tanto satisfaz
quem se cansa de observar as plantas.

Aconchego pra muitas caminhadas
acolhimento de leituras dispersas
descanso de tantas pernas cansadas.

Picam-se aos topos anseios às avessas
és cenário com pessoas enamoradas
e também palco de muitas conversas.

 
António MR Martins

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Levei o meu mundo


Imagem da net, em: www.redballoon1.com.br


Levei o sol no bolso da camisa
e a lua na capa presa às costas,
nuvens no cinto de forma precisa
água num cantil para as respostas.

Levei as estrelas como lanternas
e o ar em balões de muitas cores,
o vento seguiu-me junto às pernas
num saco cheiro de todas as flores.

Levei também a noite e o dia
e a madrugada e a tarde quente,
juntinhas à manhã da ousadia.

Levei sementes do verde ausente
e os paladares duma frutaria
com a natureza da minha gente.

 
António MR Martins

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Livre solidão


Caído
Sobre a mesa
O chão

O piso
Que não conheces
E tentas desvendar

Mas não sabes como fazê-lo
Não entendes sua composição

Não te queiras enganar

Lá fora
Também há um solo

Uma terra assente
No pressuposto da negação

Por lá
Tudo é mais feroz
Pelo menos
Altera-se a voz

Lá fora
É outro pólo

Não o queiras deslindar

E a mesa
É bem diferente
Com muita gente

Uma outra
Sofreguidão
Até à exaustão

Peço-te
Para permaneceres
Nesta solidão

Neste chão
À nossa mesa

Aqui podes prevaricar

 
António MR Martins

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

crédula esperança



estou dos versos esquecida
me anima uma crédula esperança
que o que me resta de vida
é esta saudade nua e crua
que de lembrar não me cansa.
e este ânimo constante
que me vem ao semblante
que sempre assim em mim esteja.
quero que todo o mundo veja
que aos versos não ando atada
mas anda louco o pensamento
e a alma arrebatada...

a morrer sentenciada
anda a minha poesia
no silêncio e esquecimento...
se pudesse a pouparia.

já fui moça...moça ardente
já fiz versos de repente

estou dos versos esquecida
eles que foram meus amantes
deram golpes ficou a ferida
já nada é como dantes...
versos que eram raridade
onde conservava a saudade
hoje resta a aparência
nada tinham de ciência
quem sabe...a eternidade!

não deixo que nada me entristeça
a vida é cruel ameaça
só a lembrança me estremeça
para esquecer qualquer desgraça
e se a vida me consente
caminhar sem receio
a minha metade igualmente!?
então:
farei da caminhada passeio.

natalia nuno
rosafogo

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Calo-me para que não oiças o gemido

Calo-me para que não oiças o gemido
nem sintas o uivo do vento na tua face ausente
para que eu te possa escutar, fecunda dum olhar… quente

Calo-me…de tantas vezes que choro, sem soluços
como quem pede uma prece, calando o verbo inerte
no sepulcro silente dos meus lábios,  incongruentes

Calo-me no fulgor da palavra, despindo a madrugada
numa quietude perigosa, lavrando o poema cansado
e no silencio visto-me subtilmente, do verbo ainda quente.
fluindo centelhas nos olhos esquecidos, longínquos de ti

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Toca a figura que caminha
desenha a figura sobre a água
inventa uma linha
para cortar o corpo
e faz aquela dança mas não convides a morte
mesmo que não tenha par.

Toca a figura que caminha
o sangue que corre vai pintar a lua
inventa uma linha
sobre a pele nua
uma flor e um cântico antigo
e faz aquela dança quando se aproxima a liberdade

Toca a figura que caminha
e cruza os dedos e faz a jura
inventa uma linha para cortar a noite
a sorte levando o jogo
para a sorte que não tem o amor

Toca a figura que caminha
desenha a figura sobre a terra
uma sombra vai abrigar a canção
e proteger-te das feridas da guerra

Toca a figura que caminha
desenha a figura sobre a água
inventa uma linha
para cortar o corpo
e faz aquela dança mas não convides a morte
mesmo que não tenha par.


lobo
o é o homem que decide, não é guiado pelo pensamento, a emoção ou a racionalidade existe mas não decide, o que decide é a maquina, é a maquina que indica o que fazer como fazer, o momento de rir, o momento de chorar, as horas de trabalho, o tempo de lazer. A maquina está instalada, indica os programas que devemos ver, os livros que temos de ler, as vezes que devemos fazer sexo. O homem não decide, o que decide nele é o mecanismo de prazer que é o mecanismo de submissão, o casamento social formaliza essa submissão, todo o homem está dependente de um contrato, não há liberdade quando se compromete a fazer o socialmente certo, é tudo contabilizado, os ruídos da respiração, tudo está cronometrado, os beijos que dá, os desabafos, as declarações de rendimentos, o perfume que usa, as vezes que chamou filho da puta ao patrão e bebeu sumo sem gaz . A máquina decide, decide tudo, o capitalismo decide tudo, como te vestes, como te controla, está tudo medido, sempre os mesmos ingredientes, a maquina faz te bonito, jovem produtivo e depois vais avariando, ficas velho, doente, fraco, os fios da televisão nos pulsos, queres que desliguem a máquina? Não tu não queres, estás feliz, eles tratam de ti


lobo
Imagino o gato que vê o frio dentro das pessoas. Imagino que podias tocar para mim uma musica é suficiente que te esqueças das palavras e te lembres do café quente, imagino que passas na igreja e que todos os homens sabem a oração do teu corpo e o gato que eu imagino fica amigo dos ratos e não percebe os homens a comer os homens, saberá um gato o que significa capitalismo. Imagino o gato que vê o frio dentro das pessoas, imagino que podias inventar uma musica, que pudesses lançar na terra e isso seria a tua resposta quando te perguntassem como nascem as flores, imagino o gato que vê dentro das pessoas. As janelas todas fechadas e uma pessoa estranha, era como se estivesse ali o mar, uma relação intima entre a minha distancia e as coisas que não entendo, imagino que podias tocar para mim uma musica, imagino que afinal não sabes nenhuma musica nem nenhuma palavra mas que tens uma maneira de dar confiança e de compartilhar uma bebida e uma pedra para a construção de uma casa. Imagino o gato que vê o frio dentro das pessoas, imagino que passas na igreja e que todos os homens sabem a oração do teu corpo


lobo

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

poema de amor também...



lanço a rede ao fundo,
para vislumbrar o poema
feito de palavra de nada
ou do que não foi dito ainda,
talvez da palavra calada,
duma porta fechada ou aberta,
alento de minha boca
uma dor que aperta,
memória dum tempo
ou da minha força, já pouca.

será o poema pássaro
que voa para o poente
de asas fatigadas
tocando as águas do mar
rumando à eternidade
docemente,
levando com ele meu olhar?

este poema é cego
e causa-me calafrio!
os seus resignados olhos,
são os meus,
às vezes são rio
que já corria
no ventre de minha mãe,
num sussurro morno
onde não há volta.
mas ainda assim me alegro,
porque este poema
é de amor também.

natalia nuno
rosafogo

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Submundos


Cometi um erro, ao permitir-me entrar num sonho que não era meu. Deixei-me conduzir por caminhos que me levaram ao abismo – esse submundo, onde só quem lá chega, sabe definir na derradeira viagem, a tormenta que se manifesta em lugares isentos da verdade.

Enquanto o meu corpo era amofinado por uma densidade estática, eu, viajante em outros mundos, não sabia como inverter o ciclo, e ser dona deste meu querer - ser de novo, no lugar onde medram todos os seres em corpos virgens e imaculados. Completava-se já a imagem que iria ser o protótipo de mim, e do outro lado, eu nem conseguia fazer acontecer um novo sonho, para voltar, e ver com os meus próprios olhos, o que estava a ser programado para dar nova vida ao meu corpo inanimado. Fiz-me então ao caminho - o mesmo caminho que me levara, e abandonei o sonho. Decidi assim, terminar com aquele cenário macabro, de me quererem transformar em algo, que nem o meu sonho permitia. 
(Era um sonho devoto, mas desabrigado de todos os temporais, que por sua vez surripiavam até das copas das árvores, todos os ninhos, para que nada fosse criado e nem nascido naquele lugar).

Completava-se assim um ciclo. Na terra, cresciam já as novas tulipas brancas – a marca do futuro de todos os homens, com vontade de criarem novos sonhos de verdade. Na noite, nascia um vento miudinho, a fecundar-se na luminosidade crescente. Vi então claramente nos intervalos da luz, muitos pontos luminosos, que esperam ainda para nascer e difundirem-se como a luz forte de um farol. 

Dolores Marques – Eventos Ônix 2013

quarta-feira, 17 de julho de 2013

o passar dos dias...



o sol inaugura o dia,
luminoso
e eu de negro intenso
e nada se apaga do que penso...
gosto do outono chuvoso
e ameno
entrego ao passado o pensamento
e tudo ao redor fica sereno,
não tenho ambições
nem vaidade
e creio que a solidão é
minha liberdade.

sinto a vida em mim
e a morte pouco importa,
hei-de cantar um sem fim
de refrãos que lembro,
tanta dor sentida
ou pensada,
tendo tudo e não tendo nada.
hei-de procurar o campo por companhia,
receber no rosto o hálito dos salgueiros,
no fundo será mais um dia
um, entre tantos,
a lembrar-me os primeiros.
hei-de ouvir as horas, no badalar
do sino o som duro
porque alguém morreu,
talvez o sol por cima do muro?!
ou quem sabe... também EU!

trago o olhar poisado sobre os dias
levo alguns versos para o caminho
olho as aves que sulcam os céus
deixo-me a flutuar em fantasias
o coração em descaminho,
fala por mim o olhar
levo sonhos a transbordar
e o vento traz consigo
este rumor sereno...
onde me abrigo.

natalia nuno
rosafogo

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Avaria

Ando adiantado
 estou além e o tempo aqui
ou atrasado
estou aqui e o tempo além 
chegará o dia em que terei o relógio acertado 
numa cadeira vazia ...


 
Luíz Sommerville Junior , 1974

quinta-feira, 20 de junho de 2013

há um não sei quando...



trémula a última estrela
soltam-se palavras na memória
a dor ri de mim
é tanta a sombra que me envolve
no escuro
debalde a claridade procuro
no tempo que me tem,
e só é a saudade que vem
do tempo de além.

tiro da gaveta o linho
com o olhar turvado
morro como um passarinho
com seu cântico acabado.

trago o silêncio na garganta
e já nada me espanta
há um não sei quando
que me persegue
e um não sei onde me leva
há uma loucura de saudade imensa
uma coragem que se nega
e um frio que se faz presença.

natalia nuno
rosafogo

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Adormeço lagrima esguia

 

Adormeço lagrima esguia
gota ansiada na boca seca
blasfemos sentires desgarrados
devorando o sonho agonizante

no hiato do medo transforma-se
em marasmos incorporados
nas aselhas profundas da iris
em confluências
de desacatos neurais

quimeras oxigenadas de bolores
libertas na ferrugem das ondas
nuances de cores, rascunhando
o corpo albergue d`amor.


Escrito a 12/06/13

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Goimbrassa

Loytyi taas vihdoin nettipaikka.  Tata paasi kayttamaan kun naytti passia, ottivat jotain tietoja ylos.

Toissailta meni vahan pitkaksi kun innostuttiin pelaamaan biljardia paikallisten biljardihaitten Josen ja vaimonsa Katarinan kanssa.  Esa voitti Josen kerran ja miesparka jarkyttyi kovasti.

Eilen sitten ajeltiin aivan upeissa maisemissa.  Braga oli hiljainen, kaunis kaupunki.  Niin hiljainen, etta kuvasimme valilla puluja uimassa suihkulahteissa.  Mutta kun kaupungin 60 kirkkoa alkoivat soittamaan kelloja, oli hiljaisuus kaukana.  Lahella Bragaa kavimme ihailemassa Bom Jesuksen kirkkoa ja varsinkin sen vieressa olevaa puistoa.

Seuraavaksi suuntasimme Guimaraesiin ja siellahan kaikki olivat pikkuruisessa kaupungissa.  Meilla on jostain syysta tapana osua paikallisille juhlille ja tietysti taallakin oli sellaiset. Tykit jyskyivat, rummut ja muut soittimet pauhasivat ja kulkue kulki pitkin kaupunkia, lopussa varmaan kaikki guilmaerilaiset laulaen  ja turistit ihmetellen.  Suuntasimme keskusaukiolle, jossa varsinainen juhla oli.

Yopaikkamme oli upealla nakymalla vuoristossa jossain pikkukylassa.

Tanaan ajoimme aamupaivan pienia vuoristoteita, sitten moottoriteita kohti Goimbraa, jossa taas tungimme automme hotellin parkkihalliin.  Muuten edellisessa tallissa Portossa autoa oli ottamassa viisi (5) henkea pois parkista ja siina meni noin 15 minuuttia.  Kolme senttia taakse, kaksi eteen...  Olisi varmaan ollut helpompi kantaa se parkista ulos.