domingo, 17 de março de 2013

As brancas do meu pensamento

?

Doravante quero todas as casas da minha rua pintadas de branco
E em todas as janelas cortinas brancas
De um branco intencional, como as cortinas da minha janela

E todos os carros devem ser brancos também, sem excepção.

[Então, com a rua toda de branco, de tão previsível que será
Será única, saberei que é a minha sem precisar olhar para ela.]

E esta comodidade, sem que ninguém desconfie
Far-me-á sentir cómodo, com as brancas do meu pensamento.

sábado, 16 de março de 2013

RIO

Foto: ms

Contemplo o Rio Douro, séculos de água a deslizar
A caminho do mar, sonho e pesadelo de multidões
Que criaram laços com a água opaca, às vezes verde
Outras vezes castanha, das terras que trás consigo

Fico a olhar as cores vivas do casario velho em cascata
Uma travessia diáfana pela estrada líquida, inquieta
Com vontade de navegar e ir nessa corrente determinada
Tocar o mar, e olhar para a profundeza deslumbrante

Desprendo-me do cais e vou com a brisa fria, como gaivota
Na luz do sol descendente do fim da tarde, na magia do lilás
Ouvindo as vozes sonoras de outrora, no pulsar das águas!

O barulho das naus, o espalhafato das suas velas endemoninhadas
O avanço solitário de cada um, olhando em frente a vida
O caminho incerto, das tempestades e das fulgências do amanhã

sexta-feira, 8 de março de 2013

MEMÓRIA SENTIDA!


Subo a montanha de pedras em busca de água
Água da vida, para parir a vida no meu corpo, seco
A água que escorrega, que limpa as lágrimas negras
No meu solo sedento, na via-sacra da minha sede

Quero voltar a mergulhar o meu rosto nos teus cabelos
Perder-me nos teus olhos de água, ciano e magenta
Tu que és mais quente que o sol, que borbulhas de suor
E que me habitaste fundo, deixando-me em chaga

Desvendaste os teus segredos, senti os teus furores
Acariciaste os meus suspiros, de solitário cio reprimido
E foste uma divina fonte de amor, solidária e jorrante

Agora moras no meu castelo de sonhos, que criei no anseio
Nos degraus do desejo pulsante nas veias, que sinto latejar
E deixas-me entumecida e delirante, no desejo cego de ti

TU QUE EXISTES LATENTE EM TUDO…


Só tu me amparas neste mundo inóspito…
As vagas uivam, rugem furiosamente
O nevoeiro é cerrado e espesso
A ira do mar parece uma agonia
Enraivecida em catadupas de espuma
De violento excesso!

De cabelo emaranhado
Os olhos ficam parados no desvario do pavor
Sinto a angústia do desamparo
E de coração rasgado
Corro para ti meu amor
E aperto nos meus braços
O teu corpo gelado
Tão faminto de enlaços!

O QUE DE AR SE FEZ PEDRA


Fonte de luz que faz da noite dia…
Cercas-me, abraças-me seguras-me, prendes-me
E eu deliro…
Difícil suster a comoção
A lágrima deslizante
A emoção da felicidade….
Nasci nascendo em ti
Toda a vida anterior
Ficou perdida
Na musicalidade
Do teu corpo de cisne
Até ao nó cego…
Animo, atracção, desejo, tumulto
És a pessoa incontornável
À minha felicidade e esperança
Que andou sempre adiada!

domingo, 3 de março de 2013

Já não me assusta o fantasma das horas



Já não me assusta o fantasma das horas
nem o amargo sabor da espera
sou como pássaro furtivo planando
numa candeia dispara de quimeras.

Já não me assustam as horas
os segundos pontiagudos do tempo
sou cântico boiando ao vento
nesse teu vento macio e quente

Já não me assusta o medo de ter medo
nem a saudade que sempre me espera
sou tronco enraizado em terra ardente
e nuvem deslizando no céu imenso

Já não me assusta o fantasma das horas


Escrito 2/03/13

sexta-feira, 1 de março de 2013

Crescimentos

Crescimentos


Assola-me um medo de desperdício
Sem vício

De oportunidades perdidas
Cem vidas
E quantas mais serão
Sem coração
Capaz de vencer a mente
Sem presente
E passados fustigados
Abandonados
E futuros avistados
Não concretizados.


Assola-me uma rotina
Sem retina
Em si mesma fechada
Acomodada
Ao conforto imaginário
É calvário
Para o ser interior
É superior
Mas posterior às obrigações
Perpetuações
De um crescimento universal
Mas…
Terá assim mal?
Rotina é vida
Mas vida é muito mais
Que rotina!



Clarisse Silva
1 de Novembro de 2012 © Direitos de autor reservados.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Falha Sensorial

andam
pela terra em mãos
d´azuis sem céu
bebem, comem,gozam
e dormem
em corpos de carne
sem alma
parece que também falam
prosas corroídas disparadas para o vácuo
não ouvem ninguém
escutar é demasiado
para tão ilustres cérebros
de ouvidos desconectados dos tímpanos
têm antenas ligadas a um só canal
o ego do poder e o poder do ego
sem exclamações - nossas !
e com todas as admirações - deles !
dos seus grandiosos feitos
que de tão pequeninos e insensíveis
são a desgraça em fila de espera
- sopa dos pobres ! -
e morte abrupta , antecipada
de tantas vidas
que ainda não viveram
mas eles persistem no querer
auditórios cheios
para as suas surdas e mudas retóricas
tempo em que é urgente ver
alargar a visão
mas eles, que vêem tudo,
trocaram os olhos
por estranha e mui moderna telepatia ,
comunicam-se pela via da insensibilidade
será que não possuem o cheiro ?
do tacto já muitos sabem
que o cambiaram por tudo o que é imóvel
e do resto ...
e do que resta ...
falta o que faz mais falta ...


Luiz Sommerville Junior , 190220121216

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

CÁ POR DENTRO...


Janelas que se abrem para um universo
Que portas encerram
De um modo perverso!
Dentro o abrigo, o quarto, a mesa, o sofá
Palco íntimo de achados
Por aqui e por acolá!
Livros, filmes, música, imagens
Cosmogonia particular
Fragmentos de interseção
Construindo uma identidade peculiar
De combinações contraditórias de divagação!
Rituais de revoltas cismadas…
Socar, enganar, perfurar, esfaquear
Mente, sexo, veias…pulsões estranguladas!
A violência e depois o abandono
A mão sobre o dorso da outra
A mão no pé, na perna, no regaço
Um imenso cansaço
O cotovelo no joelho, as pernas cruzadas
O braço entre as pernas
Prostradas!
Entre o desassossego e a letargia
No dia após dia!

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

trovas...dias cinzentos

 
 
 
Começa a chuva a bater

bate o coração no peito

é o inverno a acontecer

e esta saudade sem jeito.


bate no vidro da janela

não me deixa ver o rosto

que eu amo através dela

de manhã ao sol posto...


já são as horas tardias,

nada me traz as respostas

luzes nos vidros sao frias

angústias me são impostas


sugam a alma num estertor

óh...estes dias tão cinzentos!

embaciado anda nosso amor

são cinza os sentimentos...


desfazem-se palavras a medo

já não sabem nem que dizer!

abrandam-me a dor em segredo

ah...não deixa a chuva de bater!


natalia nuno

rosafogo

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

...nas mãos esbeltas d`um louco amor errante


A manha enlouquece nas mãos esbeltas
d`um louco amor errante cativo do tempo
e as pétalas nos corpos brancos resvalam-se
despindo-os sôfregas numa volúpia quente

São horas de despudorados aconchegos mil
nas bocas salivantes gemendo momentos,
e os asteriscos saltitantes, perdem-se nús
nos olhos chamejantes de aromas, do rosto teu

A voz embarga-se num rouco vagir, ciciado
nos lençóis cobertos dum querer escarlate
e as horas inundam pueris os corpos desnudos
num precipício alucinante da doce palavra “céu”

Escrito 12/12/12

Ano Novo



















Além
O sino tocou
O nascer do menino
Tocou
O morrer do velhinho
Tocou
À bênção do Senhor
Tocou
À chegada do Salvador.

Dlim dlão
Toca o sino de novo
Dlim dlão
Vem aí um ano novo
Dlim dlão.

Que dê pão
A quem tem fome
Que se unam e abracem
Os povos em guerra
Que haja bom senso
Nos homens da terra.

Que a luz ilumine
Os corações carentes
E haja paz e amor
Entre as gentes.

Maria Antonieta Oliveira

sábado, 29 de dezembro de 2012

Ilusão

Trago uma mão cheia de verdade
Faço dela o farol dos meus dias
Na alma um sol de alegrias
Caminho que me leva à liberdade

Desconheço o conceito de mentira
Creio que é apenas ilusão
Nunca me movi pela ambição
Nem vou me abalar por quem me fira

Não me cabem juízos de valores
Nem pretensos falsos moralismos
O bem é a luz universal

A verdade não é coisa de doutores
É abrangente e não tem preciosismos
Já a ilusão é o sinónimo do mal

sábado, 22 de dezembro de 2012

Por Um Pedaço De Terra III
















O rodopio forte da ventania
fez desaparecer na atmosfera
as letras do poeta
de seguida ...
a chuva ! implacável !
um caminhante
que por ali passava
sentiu-se loucamente embriagado
pelo cheiro irresistível
da terra húmida
e com um largo sorriso no rosto
clamou :
- este é um bom chão
para semear poemas .


Luíz Sommerville Junior , 221220120023

Nota : será reeditado com uma ligeira modificação , pois esqueci de colocar o primeiro
verso e de acrescentar um outro, de qualquer das formas, mantenho o texto , por enquanto,
sem acrescentar a frase em falta que é o seguinte: Neste lugar sem paternidade .

Para todos : Admin, colaboradores, autores e leitores, votos de continuação de Festas Felizes e de Ano Bom de 2013 . Fiquem bem .

261220121705

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Por Um Pedaço De Terra II













O poeta morreu
com seus cabelos
caídos por caminhos dispersos
ao longo duma rota sem destino
caligrafou a morte
depois
caíu de joelhos
até ...
sumir-se ...
na terra
os seus ossos escreveram
aqui jaz o meu nome ...



Luíz Sommerville Junior(JouElam) 201220122340

Ilimitadas sensações



Nessa pele, remendada de carícias amorfas, onde se enrugam as esperas consumadas. Nesse condimento revelado pelas intenções omitidas em ânsias de tanta espera. Nesse subtil corpo decorado pelo rubor de uma qualquer cereja, estendida na plenitude de toda a contemplação. Nesses poros sequiosos, onde manobram as glândulas de toda a exposta sensualidade em metamorfoses de movimentos inesperados, mas determinantes. Nesse perjúrio revoltante cintila a luz de todo o fragor, regurgitado pela adjacente exteriorização. Nesse todo clamam as fontes das águas onde prima a clarificação do teu ser. Torna-se inebriante esse expoente sem mácula e o sagaz efeito de tanto desejo. Há prazeres que as palavras não conseguem justificar, nem sequer enunciar.

António MR Martins

sábado, 15 de dezembro de 2012

Encontro de amantes



No largo se encontraram
Numa manhã de domingo
Encontro premeditado
Por entre a multidão
Que despercebida
Ali os deixou sós

Questionaram seu anseio
Por entre seus quentes corpos
Alheios à sua paixão
Que a tanto respondeu

Ruídos vaguearam
Nas pedras daquele chão
E a voz que vinha da gente
Fez silêncio para eles

Deram-se nas suas mãos
E sorriram-se loucamente
Num abraçar que tanto aperta
Enquanto o sol se despedia
À chegada da nova lua
Naquela praça já deserta

 
António MR Martins

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Lá fora


A profundidade é algo que não tem fundo, sendo que todos os fundos são a espera até que se defina em qual deles se quer despejar todas as vontades de se ser uno ou por vontade própria, indivisível numa multiplicidade de formas. A grandiosidade está na forma como nos despimos e nos vestimos para algo que desconhecemos, mas sabemos existir na forma mais grandiosa, mas que não se vê. Eu tento abrir os olhos para essa grandiosidade mas quanto mais os abro, mais eles se fecham para que a veja cá dentro e não lá fora. La fora estão os gestos corrompidos e amaldiçoados por todos os olhares que se esforçam por multiplicar-se, não sem antes se fecharem para a verdade residual e plena que existe desde que o mundo é mundo, ainda mesmo antes de dele sabermos. 

Lá fora é o mundo a querer endireitar o mundo,
é a vida que corre,
é a dor que se encolhe,
é a felicidade pintada de fresco nos rostos que passam,
é o amor desenhado nas paredes de betão,
é o desamor pela falta de pão,
é a verdade que se cruza com a mentira em cada esquina,
é a perfeição catalogada nas mãos estendidas,
é a desordem natural dos mais crentes
é a crença na desordem natural,
é naturalmente a ordem inscrita na desordem também natural

Lá fora está tudo o que compõe um belo quadro, enquadrando tudo o que é uno e por si só se desintegra no espaço que o próprio espaço criou
é a metafísica existente,
é o lado obscuro da mente,
e a mente disfarçada de forma eloquente,
é o negro e o escuro,
é a noite e o dia....

Lá fora está tudo menos a vontade de ser feliz, porque é cá dentro a morada onde todos os fogos ardem e se consomem, onde todos os amores se conhecem e se fundem num só.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

sonhando de novo...



estendo a manteiga,
numa fatia de pão
faço chá, com casca de limão,
os pedaços de pão que levo à boca,
são coisa pouca...
tão pequenos quanto eu.
meu rosto reflecte vários
sentimentos,
estou no céu...no meu céu!
tendo esta saudade presente
de quando era dez réis de gente.

extasio-me diante das brasas
da lareira,
o fumo provoca cegueira,
os olhos fazem arder!
dou uma olhadela ao relógio
e relaxo com prazer...

que quadro realista,
voltar à antiga cozinha...
por mais que o sonho insista
não regresso sem ver os parentes,
que por ora estão ausentes,
irei à horta das traseiras,
onde passei manhãs inteiras
a ver crescer os gerâneos
e as margaridas,
curarei da saudade
e suas feridas.

exala um aroma fresco e amargo
da folhagem que sussurra,
e meu sonho não largo,
sem uma ponta de amargura.
na saboneteira
resta ainda um pouco de sabão,
o santo na cómoda carunchosa
e é tanto o amor
que meu coração,
fica pregado ao chão...

as vidraças têm os caixilhos negros,
já não ouvem minha voz, nem minhas
aventuras,
já não lhes conto segredos...
por preço algum deixaria de sonhar,
meu rosto fresco e são
cantarolando baixinho,
neste meu amado cantinho
que bela recordação...

Impossível melhor coisa p'ra lembrar..

natalia nuno
rosafogo
imagem da net

A tez branca da nudez

Contorce-se -nos os corpos em vultos vivos
na manhã que nos espia arregalada de espanto
e em lençóis vadios, acaricia-mo-nos delirantes
no vaivém sedento dos corpos, blasfémicos

As mãos percorrem a tez branca da nudez
em soluços trémulos, deliram insaciáveis
nos corpos orvalhados de rubra avidez

As bocas devoram-se em saborosas iguarias
desejos acre-doces de exímias  poesias
em desnudas bússolas de mapas corporais
desbravam livres tesouros ancestrais.

E o tempo dá-nos o tempo de ser tempo
num momento do tempo sem nada mais
os corpos saboreiam o bónus do destino
num caminhar fugaz de simples peregrino

Escrito a 04/11/12