quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Ilimitadas sensações



Nessa pele, remendada de carícias amorfas, onde se enrugam as esperas consumadas. Nesse condimento revelado pelas intenções omitidas em ânsias de tanta espera. Nesse subtil corpo decorado pelo rubor de uma qualquer cereja, estendida na plenitude de toda a contemplação. Nesses poros sequiosos, onde manobram as glândulas de toda a exposta sensualidade em metamorfoses de movimentos inesperados, mas determinantes. Nesse perjúrio revoltante cintila a luz de todo o fragor, regurgitado pela adjacente exteriorização. Nesse todo clamam as fontes das águas onde prima a clarificação do teu ser. Torna-se inebriante esse expoente sem mácula e o sagaz efeito de tanto desejo. Há prazeres que as palavras não conseguem justificar, nem sequer enunciar.

António MR Martins

sábado, 15 de dezembro de 2012

Encontro de amantes



No largo se encontraram
Numa manhã de domingo
Encontro premeditado
Por entre a multidão
Que despercebida
Ali os deixou sós

Questionaram seu anseio
Por entre seus quentes corpos
Alheios à sua paixão
Que a tanto respondeu

Ruídos vaguearam
Nas pedras daquele chão
E a voz que vinha da gente
Fez silêncio para eles

Deram-se nas suas mãos
E sorriram-se loucamente
Num abraçar que tanto aperta
Enquanto o sol se despedia
À chegada da nova lua
Naquela praça já deserta

 
António MR Martins

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Lá fora


A profundidade é algo que não tem fundo, sendo que todos os fundos são a espera até que se defina em qual deles se quer despejar todas as vontades de se ser uno ou por vontade própria, indivisível numa multiplicidade de formas. A grandiosidade está na forma como nos despimos e nos vestimos para algo que desconhecemos, mas sabemos existir na forma mais grandiosa, mas que não se vê. Eu tento abrir os olhos para essa grandiosidade mas quanto mais os abro, mais eles se fecham para que a veja cá dentro e não lá fora. La fora estão os gestos corrompidos e amaldiçoados por todos os olhares que se esforçam por multiplicar-se, não sem antes se fecharem para a verdade residual e plena que existe desde que o mundo é mundo, ainda mesmo antes de dele sabermos. 

Lá fora é o mundo a querer endireitar o mundo,
é a vida que corre,
é a dor que se encolhe,
é a felicidade pintada de fresco nos rostos que passam,
é o amor desenhado nas paredes de betão,
é o desamor pela falta de pão,
é a verdade que se cruza com a mentira em cada esquina,
é a perfeição catalogada nas mãos estendidas,
é a desordem natural dos mais crentes
é a crença na desordem natural,
é naturalmente a ordem inscrita na desordem também natural

Lá fora está tudo o que compõe um belo quadro, enquadrando tudo o que é uno e por si só se desintegra no espaço que o próprio espaço criou
é a metafísica existente,
é o lado obscuro da mente,
e a mente disfarçada de forma eloquente,
é o negro e o escuro,
é a noite e o dia....

Lá fora está tudo menos a vontade de ser feliz, porque é cá dentro a morada onde todos os fogos ardem e se consomem, onde todos os amores se conhecem e se fundem num só.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

sonhando de novo...



estendo a manteiga,
numa fatia de pão
faço chá, com casca de limão,
os pedaços de pão que levo à boca,
são coisa pouca...
tão pequenos quanto eu.
meu rosto reflecte vários
sentimentos,
estou no céu...no meu céu!
tendo esta saudade presente
de quando era dez réis de gente.

extasio-me diante das brasas
da lareira,
o fumo provoca cegueira,
os olhos fazem arder!
dou uma olhadela ao relógio
e relaxo com prazer...

que quadro realista,
voltar à antiga cozinha...
por mais que o sonho insista
não regresso sem ver os parentes,
que por ora estão ausentes,
irei à horta das traseiras,
onde passei manhãs inteiras
a ver crescer os gerâneos
e as margaridas,
curarei da saudade
e suas feridas.

exala um aroma fresco e amargo
da folhagem que sussurra,
e meu sonho não largo,
sem uma ponta de amargura.
na saboneteira
resta ainda um pouco de sabão,
o santo na cómoda carunchosa
e é tanto o amor
que meu coração,
fica pregado ao chão...

as vidraças têm os caixilhos negros,
já não ouvem minha voz, nem minhas
aventuras,
já não lhes conto segredos...
por preço algum deixaria de sonhar,
meu rosto fresco e são
cantarolando baixinho,
neste meu amado cantinho
que bela recordação...

Impossível melhor coisa p'ra lembrar..

natalia nuno
rosafogo
imagem da net

A tez branca da nudez

Contorce-se -nos os corpos em vultos vivos
na manhã que nos espia arregalada de espanto
e em lençóis vadios, acaricia-mo-nos delirantes
no vaivém sedento dos corpos, blasfémicos

As mãos percorrem a tez branca da nudez
em soluços trémulos, deliram insaciáveis
nos corpos orvalhados de rubra avidez

As bocas devoram-se em saborosas iguarias
desejos acre-doces de exímias  poesias
em desnudas bússolas de mapas corporais
desbravam livres tesouros ancestrais.

E o tempo dá-nos o tempo de ser tempo
num momento do tempo sem nada mais
os corpos saboreiam o bónus do destino
num caminhar fugaz de simples peregrino

Escrito a 04/11/12

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O vão do poeta

Com a minha voz d’ emoção
Eu canto com liberdade
Os versos desta canção
Como o fado da saudade
Que tenho na minha mão.

Com a minha pena em ação
Eu faço com a lealdade
A rima do meu refrão
Com efeitos d’ amizade
Que trago no coração.

Com a minha vida ou não
Eu faço com a vaidade
Mil gestos d’ ilusão
Castrados e sem verdade
Por tudo aquilo que são.

Com a minha poesia então
Eu toco tudo à vontade
Em momentos de tensão
Já cansados pela idade
Não sabem por onde vão.

E o vão do poeta em questão
Só escreve aquilo que sabe.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Lar de idosos



Um sótão de eternas velharias
guarda uma paisagem virada do avesso
as cores exíguas de uma sina exilada
sem porta nem janelas
por onde a claridade possa respirar

A aranha cerca os cantos da casa
corroendo a geometria das paredes
lado a lado com a poeira empilhada
onde numa lenta insónia colige
suas teias de fio de baba e alabastro

Sombras de uma luz esvaída
na intimidade oxidada da ruína
flores secas mirram à ponta da mesa
sobre a toalha enrugada
numa jarra branca de porcelana

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Árias do vento





tanto tempo vazio e mudo
nesta tarde formosa de estio,
árias dos ventos escuto
como se fossem meus dedos
a executa-las em cadência,
sonoridade de gotas de orvalho,
múrmurios de paz ao ouvido,
ecos de saudade
que fazem a vida ter sentido...

os sorrisos confundem-se com
as lágrimas
e a felicidade com raio de sol,
a tristeza com chuva matinal
e tudo vai na paz do Senhor,
enquanto não chega o final...

folhas levadas pela corrente,
flores de laranjeira lembrando
noivado...
e o céu um grande toldo azul,
bordado...
uvas maduras, longas parras,
meu olhar é de curiosidade!
só tu, saudade, me agarras
neste sonho de saudade!

e o vento canta notas que ninguém
lhe ensinou,
e diz tanta coisa ao coração,
tanto prazer ao ouvido,
ecos de saudade
que fazem a vida ter sentido.

nesta tarde distraída e fria
surge o negro no horizonte,
acabou o estio, o sonho, o dia
ficou minha esperança a monte,
meu coração, pássaro que tenta
voar,
ou bola de neve pronta a desfazer
à falta de amor que o possa suster.

o vento é companheiro vivo
da minha solidão,
e diz-me tanta coisa ao coração,
tanto prazer ao ouvido,
ecos de saudade
que fazem a vida ter sentido...

natalia nuno
rosafogo
A foz do fim do dia

Pôs-se o sol quase ao fim do dia
E sereno o tempo se calava
Pusera-se a noite a cantar
O sonho que à muito trazia
No silêncio que em mim pairava
Viera a trote e sem parar
A onde já nada bulia
E por fim o dia que deixava
De ser na noite que rompia
Em gritos mudos a minha voz
Com a arte modesta e nobre
Como um refugio do povo a sós
E nas garras de quem é pobre
Que em luta anda por nós
E não há grito que ocorre
Para chegar com o ar feroz
É mais uma brisa que já corre
Pela corrente nua do dia para a foz.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Estou presa na bestialidade

Foto: Clarisse Silva
 
 
Estou presa na bestialidade
Surpresa com a infantilidade
De uma inteireza com a idade
Na certeza da futura realidade.


É ridícula mais uma vírgula
Sou dois pontos à espera
De uma lista que não se iniciou
Um ponto final que se afastou.

Inteira é marca certeira
Parca em espaço preenchido
Baço o presente tido.

Eis o futuro detido
Num presente ausente
De um passado indiferente.



Clarisse Silva
27 de Outubro de 2011

Tu vieste cobrir-me de palavras nuas


Tu vieste cobrir-me de palavras nuas
trajei-me de luar, apaguei as estrelas
deliciei-me no teu corpo…sôfrega
provando o desejo, descaradamente nua
e em orgasmos vítreos, fiz-me tua

Tu vieste cobrir-me de palavras nuas
estremeci no areal em seiva pura
e aspergi a noite de sublime loucura

Tu vieste cobrir-me de palavras nuas
o desejo morreu asfixiado de beijos
e em delírios palatais gemi solfejos

Ah! Tu vieste cobrir-me de palavras nuas
e o meu olhar projectou a cor tingida da lua

Escrito a 20/10/12

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

um sonho apenas


Lá no alto
está pousado um pardal
atiro-lhe uma pedrinha
sem o intuito de acertar
fico assim em sobressalto
foi só vontade de atirar
sinto ganas de rebolar no chão
de dizer parvoíces, gritar...
meus gestos ficaram na criança
ainda por lá estão...

balouço as pernas pendentes
meus cabelos são chuva de verão
e meus olhos são como batentes
em tudo pousam com sofreguidão
vou buscar os brinquedos
à casa da avó...
trago-os em segredo
pra não me sentir só.

o cão preso à corrente
ao longe o uivo da locomotiva
e eu sinto-me gente
sinto-me viva!

o que me falta está ausente
meu pai e minha mãe
e minha avó também
corajosamente,
prossigo sozinha
levo sonhos
nas mãos nodosas
e a criança em mim adormece
sente falta das mãos carinhosas
deita a cabeça
sobre um pedaço de bolo

mas que sonho tão tolo!

atrás duma cortina
de cores desbotadas
me vejo menina
de faces coradas
faço o caminho de regresso,
sem interesse
ah...se eu pudesse lá ficar
se pudesse!
lá no alto continua
pousado o pardal
e a lua
e eu criança sei quando faço
algo mal,
prometo não atirar mais pedrinha
deixem-me ficar
por favor, nesta infância minha


natalia nuno
rosafogo

sábado, 20 de outubro de 2012

Refrescar da alma



Intervalo os meus receios
onde escondo um sorriso
estabelecendo os meios
para tudo o que preciso

me inundas de fragrâncias
sensibilidade sem apelo
pelas leves ondulâncias
que enfeitam o teu cabelo

o teu aroma benfazejo
me envolve em novas rotas
entre tanto e mais desejo

se esquecem tantas derrotas
quando me dás outro beijo
e alegre me amarrotas

António MR Martins

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A Chuva


A chuva é agora o pranto de todos os rostos 
E que bebo como quando bebia de todos os aromas primaveris



A chuva cai lá fora
E tu, colhes uma a uma, as folhas caídas no outono dos teus passos ainda verdes

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Cada vez que assomo à janela e o vento bate assim


?

Cada vez que assomo à janela e o vento bate assim
[fresco na cara
Ah, sinto o meu mundo todo estremecer, sinto um arrepio
[no corpo inteiro.

Das savanas de África aos néones de Tóquio
Tudo me diz quem sou e que o meu lugar é aqui.

Aquilo que sei de mim e do mundo, é porque não fui, indo
[porque nunca me esqueci.
Apesar de todas as viagens
Nunca chego a esquecer a transparência do que me leva

E as viagens são como o vento que bate fresco na cara
As partidas espontâneas, os percursos com todos os seus tesouros
Os regressos onde o pó do caminho se torna origem de novo

Mas, cada vez que assomo à janela, é sempre aqui que me encontro
Que estremeço e tenho esta certeza de fazer parte de tudo.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Julgamentos



Julgamentos

Actos julgadores
De supostos
Mensageiros de Deus
Querendo-O substituir
Sentam-se em altas poltronas
Ditando as suas leis
Aos abnegados fiéis.

Fiéis da igreja
Que despeja
Sobre sua alçada
Adornadas palavras
E ficam por aí…

A teoria
Apodrecida
Acabará
Desaparecida!

A teoria
Sem seguimento
É como prática
Sem fundamento.


Clarisse Silva



quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Ah tempo maldito que me invade


Tenho saudades de mim, das palavras que brotavam apaixonadas dos meus dedos, em versos embriagados de paixão, lavra incandescente saída abrupta do coração.

Tenho saudades da suavidade do mar banhando a avidez salvagem da minha pele, feito poema

O tempo decorre manso, insólito, perpendicular às linhas do meu corpo ressequido…

A mente vagueia abstracta por entre as paisagens vivas que se mexem no meu olhar, sem o fulgor de antes, num perigoso desinteresse existencial.

Nas noites quentes, os sonhos desapropriados se repetem no cérebro, desconexos.

O desenrolar de situações rotineiras engorda o corpo de inercias desconcertantes. É um tempo desconhecido, um tempo ausente no tempo…

Pudera eu reinventar a poesia nas minhas mãos, fazê-la galgar o cosmos e cavalgar ao infinito da ilusão.

Pudera eu voltar a dissecar o meu corpo em fonemas de amor banhando as vogais inertes.

Mas …só me resta esperar que novamente o amor fervendo nas minhas veias…rubro, volte a enlouquecer nas páginas brancas do papel amarelecido, guardado nas gavetas húmidas do meu peito.

Ah tempo maldito que me invade em total desinspiração.

Escrito a 11/10/12


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

a barca do sonho


hoje recolho-me com a lua
olho-me mais uma vez
no espelho das águas
e pergunto ao barqueiro
onde deixou minhas mágoas
e meu coração desgarrado,
volvendo assim olvidado...?

ah!...meu rosto não tem nada
de excepcional,
mas a saudade ao olhar-me,
faz-me mal,
há quem diga
que a face já foi beldade,
hoje resta a saudade,

da frescura e mel da minha boca,
do coração á flor do peito,
nardo a florescer...idade louca,
canteiro de amor perfeito
resta a saudade, até dos cardos
do caminho
do sol ardente,
da sombra dolente,
hoje sou o reflexo de alguém
na tarde que vai morrendo
e a noite aí vem...

hoje sou como a voz do sino
que ecoa peregrino
como se lhe sobejasse a dor,
ou serei sangue sem côr?
serei silêncio ou rumor?

trago a voz adormecida
depois de tão largo tempo
e minha carne que era florida
adormece sem lamento
Mas eu sei!
que já tive o que não mais terei,

aquieto o cansaço dos dedos
hoje me recolho com a lua
esqueço o sabor amargo
e os medos
e minha alma se apazigua.

natalia nuno
rosafogo


domingo, 7 de outubro de 2012

Invento-te pelas palavras



São as grades do teu coração
que me aprisionam o ser
e nessa vasta imensidão
se percorre o acontecer

sem limites deito o olhar
numa infinita mensagem
pelas palavras de encantar
que entre tudo interagem

soltam as raízes dispersas
no desenvolver do alento
duma qualquer flor às avessas

sonho-te como um portento
e não te suplico por meças
nos versos em que te invento

António MR Martins

Paralelepípedo


Nem sempre fui esta sombra
que repousa nos recantos
onde brilhou um dia a luz.

Sentado na escuridão
fechos os olhos
e sustenho a respiração.

Nem sempre fui
um paralelepípedo.

Houve um tempo
em que era esférico

e podia rolar…

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