sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Estou presa na bestialidade

Foto: Clarisse Silva
 
 
Estou presa na bestialidade
Surpresa com a infantilidade
De uma inteireza com a idade
Na certeza da futura realidade.


É ridícula mais uma vírgula
Sou dois pontos à espera
De uma lista que não se iniciou
Um ponto final que se afastou.

Inteira é marca certeira
Parca em espaço preenchido
Baço o presente tido.

Eis o futuro detido
Num presente ausente
De um passado indiferente.



Clarisse Silva
27 de Outubro de 2011

Tu vieste cobrir-me de palavras nuas


Tu vieste cobrir-me de palavras nuas
trajei-me de luar, apaguei as estrelas
deliciei-me no teu corpo…sôfrega
provando o desejo, descaradamente nua
e em orgasmos vítreos, fiz-me tua

Tu vieste cobrir-me de palavras nuas
estremeci no areal em seiva pura
e aspergi a noite de sublime loucura

Tu vieste cobrir-me de palavras nuas
o desejo morreu asfixiado de beijos
e em delírios palatais gemi solfejos

Ah! Tu vieste cobrir-me de palavras nuas
e o meu olhar projectou a cor tingida da lua

Escrito a 20/10/12

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

um sonho apenas


Lá no alto
está pousado um pardal
atiro-lhe uma pedrinha
sem o intuito de acertar
fico assim em sobressalto
foi só vontade de atirar
sinto ganas de rebolar no chão
de dizer parvoíces, gritar...
meus gestos ficaram na criança
ainda por lá estão...

balouço as pernas pendentes
meus cabelos são chuva de verão
e meus olhos são como batentes
em tudo pousam com sofreguidão
vou buscar os brinquedos
à casa da avó...
trago-os em segredo
pra não me sentir só.

o cão preso à corrente
ao longe o uivo da locomotiva
e eu sinto-me gente
sinto-me viva!

o que me falta está ausente
meu pai e minha mãe
e minha avó também
corajosamente,
prossigo sozinha
levo sonhos
nas mãos nodosas
e a criança em mim adormece
sente falta das mãos carinhosas
deita a cabeça
sobre um pedaço de bolo

mas que sonho tão tolo!

atrás duma cortina
de cores desbotadas
me vejo menina
de faces coradas
faço o caminho de regresso,
sem interesse
ah...se eu pudesse lá ficar
se pudesse!
lá no alto continua
pousado o pardal
e a lua
e eu criança sei quando faço
algo mal,
prometo não atirar mais pedrinha
deixem-me ficar
por favor, nesta infância minha


natalia nuno
rosafogo

sábado, 20 de outubro de 2012

Refrescar da alma



Intervalo os meus receios
onde escondo um sorriso
estabelecendo os meios
para tudo o que preciso

me inundas de fragrâncias
sensibilidade sem apelo
pelas leves ondulâncias
que enfeitam o teu cabelo

o teu aroma benfazejo
me envolve em novas rotas
entre tanto e mais desejo

se esquecem tantas derrotas
quando me dás outro beijo
e alegre me amarrotas

António MR Martins

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A Chuva


A chuva é agora o pranto de todos os rostos 
E que bebo como quando bebia de todos os aromas primaveris



A chuva cai lá fora
E tu, colhes uma a uma, as folhas caídas no outono dos teus passos ainda verdes

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Cada vez que assomo à janela e o vento bate assim


?

Cada vez que assomo à janela e o vento bate assim
[fresco na cara
Ah, sinto o meu mundo todo estremecer, sinto um arrepio
[no corpo inteiro.

Das savanas de África aos néones de Tóquio
Tudo me diz quem sou e que o meu lugar é aqui.

Aquilo que sei de mim e do mundo, é porque não fui, indo
[porque nunca me esqueci.
Apesar de todas as viagens
Nunca chego a esquecer a transparência do que me leva

E as viagens são como o vento que bate fresco na cara
As partidas espontâneas, os percursos com todos os seus tesouros
Os regressos onde o pó do caminho se torna origem de novo

Mas, cada vez que assomo à janela, é sempre aqui que me encontro
Que estremeço e tenho esta certeza de fazer parte de tudo.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Julgamentos



Julgamentos

Actos julgadores
De supostos
Mensageiros de Deus
Querendo-O substituir
Sentam-se em altas poltronas
Ditando as suas leis
Aos abnegados fiéis.

Fiéis da igreja
Que despeja
Sobre sua alçada
Adornadas palavras
E ficam por aí…

A teoria
Apodrecida
Acabará
Desaparecida!

A teoria
Sem seguimento
É como prática
Sem fundamento.


Clarisse Silva



quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Ah tempo maldito que me invade


Tenho saudades de mim, das palavras que brotavam apaixonadas dos meus dedos, em versos embriagados de paixão, lavra incandescente saída abrupta do coração.

Tenho saudades da suavidade do mar banhando a avidez salvagem da minha pele, feito poema

O tempo decorre manso, insólito, perpendicular às linhas do meu corpo ressequido…

A mente vagueia abstracta por entre as paisagens vivas que se mexem no meu olhar, sem o fulgor de antes, num perigoso desinteresse existencial.

Nas noites quentes, os sonhos desapropriados se repetem no cérebro, desconexos.

O desenrolar de situações rotineiras engorda o corpo de inercias desconcertantes. É um tempo desconhecido, um tempo ausente no tempo…

Pudera eu reinventar a poesia nas minhas mãos, fazê-la galgar o cosmos e cavalgar ao infinito da ilusão.

Pudera eu voltar a dissecar o meu corpo em fonemas de amor banhando as vogais inertes.

Mas …só me resta esperar que novamente o amor fervendo nas minhas veias…rubro, volte a enlouquecer nas páginas brancas do papel amarelecido, guardado nas gavetas húmidas do meu peito.

Ah tempo maldito que me invade em total desinspiração.

Escrito a 11/10/12


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

a barca do sonho


hoje recolho-me com a lua
olho-me mais uma vez
no espelho das águas
e pergunto ao barqueiro
onde deixou minhas mágoas
e meu coração desgarrado,
volvendo assim olvidado...?

ah!...meu rosto não tem nada
de excepcional,
mas a saudade ao olhar-me,
faz-me mal,
há quem diga
que a face já foi beldade,
hoje resta a saudade,

da frescura e mel da minha boca,
do coração á flor do peito,
nardo a florescer...idade louca,
canteiro de amor perfeito
resta a saudade, até dos cardos
do caminho
do sol ardente,
da sombra dolente,
hoje sou o reflexo de alguém
na tarde que vai morrendo
e a noite aí vem...

hoje sou como a voz do sino
que ecoa peregrino
como se lhe sobejasse a dor,
ou serei sangue sem côr?
serei silêncio ou rumor?

trago a voz adormecida
depois de tão largo tempo
e minha carne que era florida
adormece sem lamento
Mas eu sei!
que já tive o que não mais terei,

aquieto o cansaço dos dedos
hoje me recolho com a lua
esqueço o sabor amargo
e os medos
e minha alma se apazigua.

natalia nuno
rosafogo


domingo, 7 de outubro de 2012

Invento-te pelas palavras



São as grades do teu coração
que me aprisionam o ser
e nessa vasta imensidão
se percorre o acontecer

sem limites deito o olhar
numa infinita mensagem
pelas palavras de encantar
que entre tudo interagem

soltam as raízes dispersas
no desenvolver do alento
duma qualquer flor às avessas

sonho-te como um portento
e não te suplico por meças
nos versos em que te invento

António MR Martins

Paralelepípedo


Nem sempre fui esta sombra
que repousa nos recantos
onde brilhou um dia a luz.

Sentado na escuridão
fechos os olhos
e sustenho a respiração.

Nem sempre fui
um paralelepípedo.

Houve um tempo
em que era esférico

e podia rolar…

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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Cabem no meu corpo todos os rios do mundo

?

Cabem no meu corpo todos os rios do mundo
Trago-os nos sulcos da pele, como vida nas mãos
Com os que já morreram e com os que em mim ainda irão nascer

E tocando-lhes, percorro-os com os dedos
Seguindo novos caminhos, novos sentidos
Pois cada ruga da minha pele é água e terra
É corrente e paisagem da vida que vivi

Sinto-lhes o norte, o sul, e sei para onde vou

Assim será até ao dia que morrer, e se entretanto me olharem
Se de mim falarem, não digam que sou velho
Digam antes que sou um coleccionador de rios.

E o poema reescreve-se....prisioneiro


São nos segredos com que alinhavo
os silêncios  nús dos meus lábios
á brisa que me afaga… esquiva
que eu me reinvento em sóis passados
e presentes, selvagens  em mim

Vendo tempos por palavras,
nos círculos cartesianos do teu corpo
esfinge purificada
nos arcaboiços de Deuses descrentes
e em cavalos alados, unicórnios
dançando imponentes no fogo
de um poema rendilhado de ternuras
por onde se perdem rubras
nas labaredas apagadas do teu corpo
cego em mim

E o poema reescreve-se em silêncios
escondidos
na epiderme desidratada

E o poema reescreve-se húmido
em lampejos  puris  da mente desatinada

E o poema reescreve-se, prisioneiro…

Escrito 20/09/12

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Íntimos momentos


Entre uma página
Desfolhada
E outra que aparece
O imaginário
De te sentir
Nas palavras lidas

Parece que leio
Mas não

Parei de súbito
Pensando em ti
Num meditar intenso
E afoito ao que me rodeia

Alguns momentos depois
Expresso um leve sorriso
E após um rápido piscar de olhos
Regresso à leitura

Mas questiono-me

Não sei porque parei
E porque a tua imagem
Me envolveu a mente
Como um feliz sonho
De belas sensações
Desejadas por intermináveis

Será por ter lido a palavra amor?

 

António MR Martins

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

à espera de um abraço



entre o chocalhar das tensões
na espera que as embala
se sentem as manifestações
de fluídos em larga escala

vem mais uma unha ruída
entre um coçar repetente
naquela ânsia abatida
no imaginar do poente

um movimento incessante
e tanta imagem filtrada
num desespero cativante

grata saudade mutilada
num abraço tão delirante
pela espera compensada

 

António MR Martins

terça-feira, 11 de setembro de 2012

A VISITA DA SAUDADE...


Aos meus Pais, Maria Helena e Eduardo Roseira

 

um dia, sem bater à porta, aconteceu a visita da saudade…

a casa ficou com mãos de nada…

as paredes, vestiram-se de nudez…

o ranger da porta deixou de cantar…

de tristeza, as molduras, ficaram vazias…

as cortinas, outrora bordeaux, viraram cor da palidez…

o gato, esse, deixou de connosco falar…

as paredes, nuas…frias…

os móveis prontos a partir…

o silêncio das noites, invadiu os dias nesta casa solidão…

por detrás dos armários, as teias, agora são rugas…

o que antes falava da história da casa, é agora velha tralha…

as prateleiras, plenas de cultura, estão ocas…nuas…

o tapete, primeira serventia da casa, já só atrapalha…

num canto, esquecida, uma jarra de rosas murchas, solta um lamento…

do velho relógio, ainda na parede, o cuco já não sorri…

é a invasão da tristeza em lume brando e tempo lento…

o piano, agora desafinado, em desafio toca um dó, em lugar dum si…

a ferrugenta gaiola de vazia, emudeceu…

num constante martelar a saudade, apenas o “ping…pang…ping…pang…”

da torneira do lavatório, como que reclamando o seu eterno adiado arranjar…

perdido neste silêncio,  ecoa um fado saudade, tocado no avariado gira-discos …

colado na parede do escritório, o amarelecido mapa…da geografia da vida,

já não nos seduz para qualquer destino…

a carunchosa credência, junto à entrada, aguarda a chegada do lixeiro,

e ironicamente, na sua gaveta conserva uma velha cautela que a vida não premiou…

 

...eis a história do dia em que dentro da casa a saudade se instalou…

 

Eduardo Roseira

 

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

sonho de amor




a noite estremece ao redor
da nossa cama,
o amor ainda fulgura,
ainda por nós chama
é grande a ventura,
apesar da memória já obscura
povoa-se de fantasia,
enquanto eu sou
e tu és
a minha força, a tua força,
dia a dia.


o fogo é esse,
ainda temos muito prá andar
deixa nos teus braços descansar,
do cansaço que o inimigo tempo
em mim plantou
quero sempre voltar a te ofertar

o amor
que em nós nunca se recusou.

entra a lua pelas frestas
esquecemos o mundo á nossa volta
afecto é o que nos resta
só o tempo me traz revolta.
e o sono sem saber
se deve ou não aparecer
assim nos amaremos
até Deus querer.

natalia nuno
rosafogo

domingo, 9 de setembro de 2012

Serás tu, Xerazade ?


Esta noite sonhei contigo, Bagdad
Em ti buscando a minha verdade
Segui caminhos já caminhados
Cruzei-me com tempos já passados
Vivi vidas já vividas
E por desertos que não conheci
Mas a marca da minha pegada
Prometem eternizar-se
Desertos que da aridez e da secura
Não ostentam as cores
Porque na linha do horizonte
Como fluxo de divinal fonte
De ti vislumbro a silhueta
Que serena e sem alarde
Me diz que és tu
Essa que desde sempre busco
Minha amante, Xerazade

LuciusAntonius

nos teus braços de algas verdes


Pudera eu deixar a gaivota que há em mim
sobrevoar a longura dos céus
planar o sonho trancado na outra margem
desértica                    

Pudera eu inebriar-me do teu perfume doce,
aspergido de sal
transformar as minhas lágrimas num bote frágil
deslizar pelas ondas embravecidas da minha alma
repousar ao por do sol, nos teus braços de algas verdes

Ah pudera eu transformar o poema no meu corpo
enxague de mim

Escrito a 8/6/12

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

sonhos e magia



oiço
o estalar da caruma
pisada pelos passos teus
à chegada da lua
na sua fase companheira

sobressai o semblante
em que assentas
teu corpo
perante deslumbrante luar
que te ilumina a fronte

na noite
a plataforma do entendimento
na mistura dos sentidos
pelo cheiro
que os provoca

sorris
pertinente e sedutora
entre a magia que vem dos céus
e na aureola que é tua
numa imagem derradeira

retenho-me caminhante
no trilho me acalentas
rastreio
de um pleno brindar
ao longínquo horizonte

em ti
poderoso elemento
para um abraço contido
e um afago matreiro
para o prazer que se evoca

a caruma se desprende
a lua nos observa
o horizonte não se entende
e o luar nos reserva

sublimam-se tantos travos
o suor nos sacia
no beijo das descobertas
que nos eleva o rubor

fantasia de um sonho
na magia de uma noite

 
António MR Martins