quarta-feira, 27 de junho de 2012

insinuações


insinuam as vozes matreiras
as manhas da pertinência
onde desatinam os ânimos
pelos sintomas indefinidos
que calcam todos os sentidos
em afrontas desmedidas

insinuam sem balançar
com atropelos mascarados
que não escutam as palavras
suplicadoras dos sofredores
na derradeira expressão
onde a contenda termina

insinuam a cada final
sem atentar das razões
como se fora no princípio
e nas estatísticas doentes
tudo acontece corrente
sem o encontro da solução

insinuam até mais não
que a febre traz a secura
e a fome a insanidade
tudo se perde sem apelo
e a mágoa já não persiste
nesta rude imensidão

António MR Martins

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Tanta pompa, tão pouca circunstância


Foto: CS
Dá que rir. Rir para não chorar, ao assistir a palavras grandiosas ao serviço do vazio. São escritas, são faladas, tão badaladas na banalidade de vidas caídas no abismo há muito tempo. Vivem no precipício do despenhadeiro adornando suas casas, não se dando conta do ridículo da situação. Os que em volta não olham, nem percebem as grandes rochas que rodeiam esta edificação - fixando o olhar para as luzes a piscar, tal como crianças a olharem para a árvore de Natal -, prontas a tombarem a qualquer momento. Não ousam pensar em sair dali, tão acomodados àquela posição confortável, ganhando no vazio.

17Jan12

domingo, 24 de junho de 2012

CARÊNCIA


Meu corpo indigente, derrama-se desolado
num choro contido soluçante
desertificado dos teus dedos,
que me faltam, no meu corpo distante, do
teu corpo de transcendência, do
teu corpo do meu descanso!

Entre longe e perto, no vendaval do desejo
 vivido sofregamente no vazio
transpiro avidez no meu leito, encolhida em feto
mãos entre as coxas
apertando o frio!

Exausta das sombras difusas
aconchego-me nos lençóis alvos
e reclino-me na invenção, emudecida!


MarisaSoveral - Junho -2012

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Calem as vozes

Do Céu brilham as estrelas
Ao meu olhar de fatigada
Espera-me a cama deserta
Funde o pensamento vago.

Da Lua iluminada nas telas
Com a minha mão desafinada
Rabisco a vida vazia, incerta
De tantos feitiços, que trago.

Do Céu e da Lua, ou de mim
Ó brilho iluminado do além
Deixa-me luz de vida, sem fim
Dá-me o amor puro de alguém.

Calai-vos almas no firmamento
Das inquietações tão regulares
Mais controladas e com talento
Calai os ódios de outros lugares.

Calai meus versos descuidados
Derrubai expressões singelas
Suspendei desvalores e pecados
E dividam fadários em parcelas.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

DESENCANTO




O sol espelha é meio dia
Olho as bagas vermelhas
da amoreira
O destino destece o que tanto queria
Agora sou só poeira
Quer queira ou não queira!

E quando o sol se apaga
Meu coração naufraga...
Diga eu o que disser
Vivo a vida a recordar
Não sei se é fado ou destino
Ou apenas meu querer
Em qualquer caso... desatino.

O tempo que é agora agreste?
Já foi tempo de prata!
Não há dia que não se manifeste,
na saudade que quase me mata.
A batida das horas é ameaça
Como fugir ao cativeiro?
Assim é o tempo que passa!
Rasgando meu corpo inteiro.

natalia nuno
rosafogo

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Hoje apeteceu-me escrever-te

Naquele dia parti meu amor, sem saber o que me esperava, levava comigo o perfume da saudade, aquela saudade que se me entranhava nas entranhas e me deixava um doce amargo na boca, mas o sol brilhava na janela do meu olhar. Era um daqueles dias em que me afastava do tempo e a vida, aquela minha vida rotineira desaparecia.

Toquei-te com a ponta do pensamento e o meu corpo saltou, ansioso, desconexo, impaciente e as mãos vazias destilaram paixão.

 Ali estavas tu no barulho da cidade, esperando-me e nos meus olhos dançaram borboletas, é sempre assim quando te olho, e vejo o negro cintilante murmurar-me palavras quentes, poesias feitas de seda, que esvoaçam no meu peito arfo.

 Nas entranhas, entranhou-se-me a sofreguidão do tempo e os nossos braços ávidos, acoplaram-se aos peitos loucos, naquela manhã datada na nossa memória.

 E o tempo parou, testemunhando aqueles momentos que nos tomaram de assalto e o preço do resgato foi a nossa loucura, num leito coberto de pétalas, num quarto qualquer e ficamos ali, sem memórias, deleitando-nos no calor dos corpos como se fossemos eternos, ouvindo os nossos lábios num murmurar só nosso. Lembras-te?

 Depois… regressei e no olhar o mar dançava em pequenas pérolas que deslizavam pelo meu rosto feito de felicidade e de aromas mil.

 Hoje apeteceu-me escrever-te e dizer-te o quanto te amo

 Escrito a 12/06/2012

segunda-feira, 18 de junho de 2012

AS BALIZAS DO TEMPO


 Se há coisa que me perturba é o tempo. A sobrepor-se-lhe, só o amor, esse fazedor de deslumbramentos e de êxtases. Mas por alguma razão a ideia do tempo me persegue e quase comigo convive. Umas vezes revolto-me contra ele, por nele ver o absurdo, a não resposta. Outras vezes sinto-me caminhar lado a lado com esse inimigo que, bem feitas as contas, paulatinamente me devora. Pensei já em fazer com ele as pazes, estabelecermos um protocolo que salvaguardasse o interesse de ambos. Mas se assim o pensei, logo me desiludi, porque o tempo não me deu tempo para o diálogo. Mal iniciado este, já o tempo ia lá longe indiferente á minha sonhada proposta. Desisti de dialogar com o tempo. De uma vez por todas me rendo ao seu ímpeto e prepotência. Limitar-me-ei entrementes a preenche-lo de maneira positiva e na medida em que ele o consinta. Sei que ele me domina e que estou por ele balizado. Não tenho mais do que aceitar essas incontornáveis balizas.

 António Bernardino

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Não prometas poesia

?

Foram vertigens que alimentaram o fogo
Preso às mãos

No cansaço do corpo, na rendição do tempo
O rescaldo dos dias quentes

No esforço de derrubar o castelo que construímos
Dissolvemos lágrimas de pólvora
Incendiamos as ruínas de tudo

São memórias de uma guerra não declarada
Que travamos em silêncio
E em silêncio depusemos o sonho

Não prometas poesia
Não digas que vens

No cansaço do corpo as mãos repousam
Sobre o vento do amanhã

Sopra-me seco para longe.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Perdi a carruagem do tempo
Fi-lo propositadamente
Deixei-a partir...
E por aqui me fiquei
Queda, na idade dos sonhos
Por mais que vasculhe
as sobras de mim
Deduzo e concluo
e tiro a elação
que nada perdi
Não mudei o mundo
Tão pouco o moldei
à imagem de mim
E a paz que procuro
é o apeadeiro
que trago na alma
Lugar onde troquei
a amargura pela fantasia
duma gargalhada


domingo, 10 de junho de 2012

Assim somos nós amantes vagabundos


Aves libertas nos passos da madrugada
tempos fecundos em ruelas esquecidas

Sonhos renascidos nas mãos amadas
brisas aprisionadas nos peitos arfos

Corpos amando aos pés da encruzilhada
em becos vadios grávidos de nada

Sombras frutíferas d`almas embriagadas
mágicos instantes que se diluem no tempo

Assim somos nós amantes vagabundos

Escrito a 10/06/12

quinta-feira, 7 de junho de 2012

PELA CIDADE PENSANDO EM TI


Peregrino pelas ruas da cidade, cruzo
a violência urbana  e o tempo em flaches mentais.
Vejo os slogans modernos e sedutores das fachadas,
presumidos aglutinadores
e os cobertores deixados pelos cantos
dos encharcados de miséria, acompanhada!
Tudo está podre e corrompido! Putrefacto!
Os rostos passam por mim absortos
naquele vértice sombrio
onde conflui preocupação e tristeza
em rostos mortos!

Tu nunca me disseste, a verdade
pousavas a tua mão na minha e dos teus dedos
brotavam fadas, nada era real
a não ser o teu colo macio para me aninhar e sonhar
com cores e luzes artificiais!
E os meus olhos reluziam tanto até ficarem cansados
e as tuas palavras para me embalar,
 iam fugindo, numa melopeia de conforto
como cobertores de lã e alfazema
para me aconchegar!

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Perdidos na espiral vibrante do amor

Perdidos na espiral vibrante do amor
os hálitos cortam-se nas lascas do desejo
as bocas sufocam-se em doce domínio
e na avidez sôfrega das  mãos… trémulas
esboçam-se poemas nos corpos violino

Imponentes….. cavalgam imprudentes
nos despenhadeiros verdejantes da paixão,
gemendo-se em vocábulos ardentes
no rubro fogo da repetição

E as pálpebras húmidas encerram-se
numa ultima satisfação

domingo, 27 de maio de 2012

NO VAI-VEM DO AMOR



















Espero que apareças...
Espero-te aqui na esquina,
mas não esqueças!
Traz contigo o perfume campestre,
o mesmo que me ofereceste
quando era menina.
Chorei,
no dia em que nos despedimos.
Só eu sei!
O gosto das lágrimas salgadas,
as vozes enamoradas,
o beijo exasperado,
a lembrança de mão na mão.
O coração trémulo, calado.

A nossa sede, o nosso abraço
A minha oração sem esperança
O meu rosto sem traço
Aquele que me viste em criança.

Sangue sem sangue, sem pulsação
E a noite, a mansidão?
Meu vestido branco, flores no cabelo
louco, louco este meu desvelo.
Com meus olhos digo que amo
Meu andar fica cativo
No meu sonho por ti chamo
Amo-te, amo-te!
Docemente te digo.

Espero que apareças!
Recolhe-me no teu olhar
e não esqueças,
traz contigo a magia do luar,
e uma ou duas lágrimas para às minhas juntar.
Faremos um lago a soluçar,
e dos meus olhos cairão rosas,
que crescem ainda, por entre pedras preciosas.
E nossos dias serão de marfim.
Falaremos de magnólias, de jasmim,
enquanto os nossos sonhos adormecem.
E depois, por fim...
o tactear que buscámos tanto
Milagrosos sonhos que permanecem,
e vamos sonhando por enquanto.


natalia nuno
rosafogo
imagem ret.da net

sexta-feira, 25 de maio de 2012

TRAÇO A TRAÇO



Ao desenhar-te
Traço a traço
Compreendo porque meus olhos te soletram e respiram
Faça brisa ou sol pela manhã.

Chuva seremos sempre nós dois
Em pranto pelo nosso (a)mar…
Numa partilha que não se quer p’ra depois
Se a pele pede p’ra se entregar!
Tua boca arrebatada beija o silêncio nu
Das minhas mãos suadas
Pelos teus contornos acesos
Sobrando eu e tu
À palavra amor a dar-se em uníssono…

24.05.12

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Um poema

um poema
esbatido
no olhar
é o canto
no canto
 da boca

 nos lábios
a pele
 ressequida
na língua
a folia
 arrependida

 um poema
a lembrar
um dilema
no corpo
que antes
foi de mulher
e agora
é estátua
caída

domingo, 20 de maio de 2012

Isto é amor

Na doçura dos teus beijos
O amor brota a florir
Como num fechar e abrir
A caixinha dos desejos.

Na ternura dos teus braços
A paixão fluí, flutua, eu amo
Com minha boca amor te chamo
Minhas mãos são como laços.

Na perdição do meu amor
Onde enlouqueço um pouco
Ao trocar um beijo louco
Que em nós eterniza o sabor.

sábado, 19 de maio de 2012

TRAGO NA MÃO UM ROUXINOL


















Quero aguardar o dia que se avizinha
A única porta para mim aberta
Com as mãos molhadas de ternura
e sonhos que a vida ainda em mim desperta.
Despeço-me desta noite deserta
Que me deixou o sonho destroçado
Quero mais um instante para amar
Voltar a ter-te a meu lado.

Trago na mão um rouxinol
Que canta a tristeza e a alegria
E nos olhos cresce um girassol
Lembrando-me que amanhã é
outro dia.

Esta viagem já me tolhe
os gestos e os pensamentos
Não há chuva miúda que não molhe
Nem vidas sem sofrimentos.
É breve o tempo que nos resta
Nada o faz adiar
Daí a saudade é o que resta
Para a solidão enfrentar.

Chega a madrugada soalheira
Cantam os pássaros aos milhões
E a vida vai pregando sua rasteira
Com ela levando-nos os corações.

rosafogo
natalia nuno
imagem da net

sexta-feira, 18 de maio de 2012

A noite foi uma epopeia passada dentro de um quarto fechado!


Na praia olhando o pôr-do-sol
Teu sorriso bailava em subentendidos
O silêncio quedou,
Nas tuas palavras acaloradas
De sensações emaranhadas,
Cavalgando em marés de espuma
Como um animal louco!

Bates-te à porta das minhas sensações
E a música passou frenética aos meus ouvidos
Caminhamos no reflexo do sol tímido
De mãos dadas, com os dedos cruzados
De desejos líquidos embebidos!

Devagar nos abraçamos  com zumbidos de emoção
E partimos para a epopeia da noite
Dentro de um quarto fechado!

quinta-feira, 17 de maio de 2012

...Já nada sei de mim


Já não caminharei nas áleas do teu corpo
nem nas nuvens cristalinas do teu olhar oásis
nem no rio ameno dos teus braços quentes

Não mais penetrarei nesse olhar vulcão
incandescente lava que me abraça a ilusão
nem mais o meu corpo sentirá o tempo
aprisionado nas nossas mãos, indolente…

Dispersa piso a densa floresta da inanição
onde o sol chamusca as copas secas das árvores
onde os pássaros cantam no horizonte desconexo
na magnitude vítrea de ser poesia… mais além
e onde as ruas se estreitam nos olhares baços
em lamentos calados dos seres ainda crentes

Sabes amor? já nada sei de mim

Escrito 16/05/12

domingo, 13 de maio de 2012

SUBLEVAÇÃO


O teu território de sedução
É tão distante e tão real!
Cruzamo-nos todos os dias no éter
Seguindo em frente contra a injustiça
É duro este impacto dia após dia
Com a minha consciência despertada
Pela engrenagem injusta que vivemos!

Sinto-me enclausurada na aridez
Lábios gretados pelo pó barrento
Clamando água da tua boca!
 O mistério de que estou impregnada
Materializa-se em rebelião
No vértice sensório
Do corpo alvoraçado!
                                                     
                                        
Arranco máscaras de hipocrisia                                                                        
Dinamito interditos
Liberto furores do corpo
Desvendo o excelso prazer
Ascendo-me esbraseada!