quarta-feira, 25 de abril de 2012

Canção do poeta livre

A minha pena que grita
O meu desabafo de ventura
A minha voz mais aflita
Quando me falta a ternura
Meus poemas que escrevo
Para ti minha vontade
São como as folhas do trevo
A dançar em liberdade.

Meu suspiro e meu suporte
Meu sentido e minha voz
São como a minha sorte
De cantar para todos vós
Meu raiar da tua aurora
Minha manhã serena e calma
Já canta comigo agora
O refrão que vem da alma.

Meu amor minha aventura
Minha vida de tristeza
Minha ânsia branca e pura
Nos braços da natureza
Vai dançando com saudade
De cravo encarnado na mão
Para não morrer a liberdade
E a poesia também não.


Maria Gomes

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Faíscas púrpuras













Nos açaimes rubros do tempo
na garganta funda…
os ecos humedecidos
transviados, travestidos
aguçados sons da mágoa
zumbem em violinos gretados
de vagidos iluminados de sol
no areal encharcado
de uma qualquer praia sem mar

As areias mirram flechadas
por lágrimas amargas de sal
e o vento acoita o rosto
na revolta impotente das ondas
de todo o vasto areal

Caiem faíscas púrpuras
nos braços enevoados do vento
e a brisa trajada de pérolas
perde-se no amontoado tempo

20/03/12

sábado, 21 de abril de 2012

Corrente d’ água

Canta a água do ribeiro
Quando corre alegremente
Porque quer chegar primeiro
Aonde a leva a corrente.
Dança a água no riacho
Quando se enrola pela encosta
Com pressa de chegar lá abaixo
Desaguar é o que mais gosta
Corre a água, corre, corre
Pelas colinas da montanha
Sabendo que nunca morre
Corre, corre e sempre ganha
Passa a encosta e a colina
Como o caminhar do peregrino
Porque é esta a sua sina
Pois é este o seu destino.

ABREVIATURAS


Trago o peito em cruz, desperta uma fissura
Dói-me a vida, dói-me o canto do rouxinol
Colossal é a pobreza, pobre é a fartura
Dói-me a morte aquando a ausência do sol!

Trago o peito em cruz, alastra-se a fissura
Dói-me a alma, dói-me a luz da natureza
Tu dóis(-me) cá dentro! Quanta tristeza!
Quisera eu que abalasse est’amargura!

Neste cais da vida que me leva e nada (me) traz
Insisto em querer saber se algum dia fui audaz
Agora, olhando para o tamanho desta fissura

Encerra-me a vontade de querer ser capaz
Resta-me falsificar em itálico minh’assinatura
Não sou completa (já disse)! Sou abreviatura!

19.04.12

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Os Eleitos




Existe o lugar dos eleitos, onde te coloco e te elejo o sabedor de todas as minhas formas obscuras e sem sentido, de todo o meu jeito que te arrasa enquanto ser. Todos os outros se sentaram ao meu lado e não me souberam sentir nem me souberam mostrar o seu jeito e que por forças adversas não se conseguiram reerguer, tentando levar-me para um espaço que tento abandonar há muito - o lugar dos mortos.


Existe agora um novo ser, um ser que tem medo até de ser, pelo que sentiu e viveu no lugar dos eleitos. Saberão eles continuar o caminho e dizerem-se mestres de todas as formas que lhe foram dadas e relatadas até ao mais ínfimo pormenor? Saberão eles que o meu lugar foi só um espaço ocupado por todas as formas que se diziam disformes, para que se pudessem desenterrar todos os pontos negros que se foram amontoando até à conclusão de um processo que se diz agora morto mas que ainda não foi liberto para se poder processar de novo?


Existe sim o medo, um calafrio na espinha, um desmembrar de um corpo que se remete de novo ao isolamento, enquanto a alma parte em busca de todos os seres e quer encontrar o teu lado lunar, o espaço onde guardas todas as memórias de uma vida que se quis mostrar, que se quis sentar a teu lado para que lhe desses novas formas. Este será sempre um modo único de ser um ser em movimento, enquanto a lua se movimenta para dar nova luz à noite que me acolhe, enquanto não chegas.

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(tela de Paula Rego)

domingo, 15 de abril de 2012

MIL PEQUENOS NADAS


Mil pequenos nadas
Cheiros e sensações,
Me dando boas razões
Para minhas noites acordadas.
Neste momento de solidão
Único, imenso.
Na serenidade e em escuridão
Fecho os olhos e penso.

Como são pequenos meus dias
Passando, sem qualquer resposta.
Morrendo. Feitos de realidades frias.
E logo a noite se mostra.
Olho para trás, uma recordação vivo,
A cada passo mais uma revivo.
Até que a memória fica despovoada
E eu tranquila, satisfeita,
Deixo-me para além de mim, abandonada.

Na sucessão dos dias
Saram velhas feridas, dou mais um passo
Mais um palmo de terra, semeio alegrias
E vou mantendo, com o passado um laço.

Restam sonhos e vontades!
Sinto ainda os traços que alguém me roubou.
Chorarei até à última gota as saudades
Sucumbo ao cansaço, o tempo me enganou.
Vou a página virar!
Lembrarei o que houver a lembrar!?
Neste fim de tarde,
Já se vai do céu o azul profundo.
Com pequenos nadas e em liberdade.
Sigo alheia ao Mundo.

rosafogo

Hoje, espero mais um pouco

Sou um esboço daquilo que planeei ser
Um projecto adiado, a espera, uma folha amarrotada
Largada no chão.

Hoje, espero mais um pouco

Sem forma concreta, vou deformando os dias
Saltando metas, esperando, adiando prazos definidos
Na esperança de um dia me definir

E espero mais um pouco, só mais um pouco
Por esse dia que ainda há-de vir.

Hoje, a espera.

sábado, 14 de abril de 2012

Amor

Eu vou à beira mar, impaciente
Fogem de mim ondas enfurecidas
Onde levo eu as mãos erguidas
Ao pedir saúde, amor suficiente.

Tu vais à beira mar, já coerente
Levas as tuas mãos, já estendidas
A pedir a união, às escondidas
Rezas no sentido árduo presente.

Eu vou, tu vais no verbo penitente
Do passado ao futuro, com as vidas
Nós vamos os dois como quem sente.

Ver-se unidos pelo amor de repente
De mãos dadas com elas mais unidas
Nós vamos ao mar!... E humanamente.

O que vamos lá fazer!...

Poema de água mel

















Escorre-me um poema
Por entre os cantos da boca
São versos de água mel
Favos de doces aromas
Palavras que a granel
São potes cheios de sonhos

Flores polinizadas pl’o vento
Uma mão de rosmaninho
Lábios de frutos vermelhos
Hálito de amora e romã
Cabelos de ouro e alecrim
Num altar de laranjeira

E o sol na minha pele
A corar devagarinho
A lembrar-me que a paz
É uma pomba branquinha
Pousada a repousar
Num ramo de oliveira

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Miragens e passagens

Vejo o exterior
da desabitada casa
onde dantes a vida permaneceu

Nas cores esbatidas
de suas paredes envelhecidas
se ramificam as tenazes do desmoronamento

Tanto tempo passou
desde a última visita a este lugar
e as memórias são as mesmas

Nada mais de sólido resta
nesta surdez que tudo envolve
perante o ruído do vento que passa

Tantas gerações
aqui depositaram seus alicerces
e inundaram este espaço de alegrias e tristezas

Vejo neste exterior mutilado
o sentido de que nada mais vale
que a coerência connosco e com os outros

E a verdade
é simplesmente o sentido de cada vida
mesmo que a mentira caminhe em paralelo

Restam as imagens
que ocupam a retina
de cada um dos seus passageiros


António MR Martins

BEIJO(-TE)



(Es)corre-me pelo corpo ardente o desejo
Teus lábios ávidos poisando em girassóis
Trazem-me (n)o licor aceso dum beijo
Que te roubo gingando numa valsa a dois

Beijo-te incessantemente à sede da paixão
Num tocar de lábios calados e demorados
Desabotoando a janela do nosso coração
Toco(-te) meu sonho de olhos fechados

Todas as palavras se consomem num beijo
Porque só a tua boca pertence à minha boca
Sabe tão bem no calor do nosso ensejo

Dizer-te que ao beijar-me deixas-me louca
Quando vens para mim de lábios carnudos
Somos sempre um poema de versos mudos.

11.04.12
Porque hoje é o Dia do Beijo, beijo-vos também :)

HEI-DE SER LEMBRANÇA



















Hei-de um dia ser lembrança
Numa fotografia antiga
Numa tarde que declina
No rosto da menina!
Numa voz amiga.
No grito duma hora
Numa criança que chora
No silêncio dos rios que passam
No desatino do vento
Numa sombra que se liberta
Na renúncia do sofrimento
duma ferida aberta.

Hei-de ser lembrança
No bater do mar
Numa noite preciosa
Numa semente de esperança
Num sorriso, num olhar
No odor duma rosa.

Porque eu sou árvore aqui!
E serei sombra ali...

Fui criança reluzente
P'lo caminho fiz-me gente
Orvalho campestre p'la aurora
Cheguei à idade mofenta sem demora
P'la mão da madrugada
Pela vida cercada.

Serei ausencia, serei lembrança
Serei manhã, serei tarde
Serei criança, musica, flor!
Serei saudade...
De tudo ao meu redor.
Serei um verso vazio,
neve a cair, chuva, frio.
Solidão do campo, flor do laranjal
Poeta rendida... ensurdecida
Mulher do retrato,
mas poeta até ao último acto.
Poesia é em mim, manancial...

natalia nuno
rosafogo

segunda-feira, 9 de abril de 2012

(AMOR) FOI ONTEM A PRIMAVERA

Amor, foi ontem a Primavera!
Trazia-te em rosas os olhos rasgados
Tantos foram os poemas declamados
Ainda há um abraço à tua espera!

A sede que dos teus beijos trago
O laço (e)terno de cada afago
Do meu corpo jamais (te) apago

Amor, foi ontem a Primavera!
Poisavam andorinhas na minha mão
Desenhava-se no céu a nossa união
Ainda há um sorriso à tua espera!

É no presente d’Outono que te quero
Ao ver as folhas carcomidas desespero

Se um dia se cruzarem outros olhos com os teus
Outras mãos (sem serem as minhas) com as tuas
E se os teus lábios não forem mais os meus
No meu olhar não haverá mais sóis nem luas

Sei que foi ontem a Primavera
Traz papoilas rubras e volta
Não quero que sejas quimera
Dum amor que anda à solta!
05.04.2012

sábado, 7 de abril de 2012

SEXTA-FEIRA SANTA

Hoje é sexta-feira santa e é com alguma razão que sinto o peso do meu pecado maior – o da omissão. O qualificativo de santa tem a particularidade de me conduzir a um certo grau introspectivo, que tem que ver com o transcendente de um instante do passado remoto, mas que me transporta ao presente, isto é, a todas as sextas feiras e a todos os dias do ano. Nesta viagem ao meu passado e ao meu subconsciente e aquele que sou na hora que passa, sinto a necessidade de confessar o dito meu maior pecado, na perspectiva do homem crente que sou. Pecado que me incomoda e me conduz a grandes interrogações… é o dito pecado da omissão, num mundo pleno de carências de toda a ordem, de sofrimento feito de solidão, de fome, de indiferença do outro, da minha própria indiferença, (ou quase…). Estou neste instante a prometer a mim mesmo desenhar uma curva na minha vida. Oxalá seja capaz. É no agir de cada um e na sua soma que reside a grande força que ainda não actuou.

Antonius

Olhos verdes são traição

Em teus olhos vi amor quando me viste
Logo o olhar percorreu serras e montes
Ao saber, que o teu olhar no meu existe
Assim ficou o meu olhar nos horizontes.


Lágrimas que correm, num rosto triste
Destes meus olhos, que parecem fontes
Onde se perdeu o que por mim sentiste
No infinito olhes e meu olhar encontres.


Por estranhos caminhos vais meu olhar
Na esperança de te voltar a encontrar
Agora, que caiu meu olhar em tentação.


Tenho os olhos tristes com mais saudade
Como vi em teus olhos, essa verdade
Sabendo eu que olhos verdes são traição!

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Desfilar da vida



Nasce um começo encanto
num anseio de continuar,
perante todo o espanto
de uma vida a desbravar.

Cresce o corpo e a mente
pelo conhecer permitido,
não há descobrir que atente
entre tanto caso perdido.

Seguindo o trilho, em frente,
por entre rasgos envelhecer
à passagem de tanto ano.

Tendo amor sempre presente
sabendo então reconhecer
que a saudade é desengano.


António MR Martins

foto de Kaunas (Lituânia), by Gonçalo Lobo Pinheiro
Feliz Páscoa



Será sempre este o tempo

de silêncios imprimidos

no corpo,na terra
...
na solidez da fé

caminhos percorridos

tantas vezes...na escuridão

na passagem das horas

fugaz o tempo ...frágil o corpo.


Enigmas seculares

que nos elevam o espírito

e nos mostram a verdade

tempo de renovação



Será sempre este o tempo

de um novo recomeço de

corpos cansados à deriva

almas perdidas

numa qualquer ilusão

a vida arrastada nos caminhos

a esperança desfalecida

o gestos ausentes

as mãos vazias de abraços

vazias de nada.


Será sempre este o tempo

onde as portas se abrem

a terra se ajeita

o corpo se liberta

o espírito se ilumina.

Ressureição.


São Gonçalves.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Para me lembrar de quem um dia fui


Abro o livro do tempo perdido
na página branca que resta
da erosão mórbida dos crepúsculos
e volto aos parágrafos antigos
onde a luz cintilou um dia
procurando as sílabas esquecidas
que a memória tenta refazer
num assombro de primaveras coaguladas.

Debruço o corpo tolhido
sobre a espiral nervosa dos relógios
seguindo os ponteiros lentos do destino
e o sortilégio anónimo dos ventos
na única janela onde encaixa
a agonia do meu rosto desfigurado
e no vazio das manhãs adiadas
convertidas agora nas mortalhas do breu
que vela o silêncio dos pátios corrompidos.

Nos folhos sombrios da névoa
procuro ainda a cor amordaçada
de fugazes e transparentes sorrisos
consumidos nos retratos da infância
e o eco da recordação fumegante
de um tumulto de estrelas incandescentes
para me aquecer no clarão desse incêndio
e me lembrar de quem um dia fui.
____________________________________________

NO FIO DA MEMÓRIA


Adormece em mim o dia que passa
Vagaroso sem se dar por achado
Deitou-se em mim como quem abraça
Não trouxe notícias da desgraça!
Como se o mundo corresse maravilhado.

Num cinzento intenso.
Nasceu apressado,
p'la tarde é já levado
num estremecer entrecortado,
de horas silenciosas.
Agora talvez me deixe adormecer.
Devagar como esta luz que morre
Enredo-me no perfume das rosas
Generoso que no meu coração corre.

De olhos fechados...atravesso a vida
E sonho de cor,
de tanto ter sonhado!
Menina flor,
tão florida
de tanto ter amado.

**
Estrela da manhã toda alegria
Te encontro perdida
Tão sombria
Tão esquecida.

**

Adormeceu o dia é noite na tarde
que em mim se aninha...
Me entrego à saudade e à verdade,
dum amanhã que se adivinha.

Haverá sempre um fio
da memória que nos prende?
Ou será apenas o esquecimento
que em nós se acende?

A indiferença se alojará então!
Esvaído de saudade o coração.


rosafogo
natalia nuno

Correm as águas dos rios


Transcorrem alegres os rios
nas águas em movimento,
entre margens em desvarios
e solos do consentimento.

Carregam as vozes do pranto
nas suas vestes cristalinas,
resguardando seu encanto
no vale de belas colinas.

Caminham tenazes correndo
para um final destinado,
até à foz do seu acolher.

Abraçam não percebendo,
em enlace doce ou salgado,
o porquê daquele receber.


António MR Martins

foto do Rio Ceira, Góis, by Gonçalo Lobo Pinheiro