quinta-feira, 5 de abril de 2012

Para me lembrar de quem um dia fui


Abro o livro do tempo perdido
na página branca que resta
da erosão mórbida dos crepúsculos
e volto aos parágrafos antigos
onde a luz cintilou um dia
procurando as sílabas esquecidas
que a memória tenta refazer
num assombro de primaveras coaguladas.

Debruço o corpo tolhido
sobre a espiral nervosa dos relógios
seguindo os ponteiros lentos do destino
e o sortilégio anónimo dos ventos
na única janela onde encaixa
a agonia do meu rosto desfigurado
e no vazio das manhãs adiadas
convertidas agora nas mortalhas do breu
que vela o silêncio dos pátios corrompidos.

Nos folhos sombrios da névoa
procuro ainda a cor amordaçada
de fugazes e transparentes sorrisos
consumidos nos retratos da infância
e o eco da recordação fumegante
de um tumulto de estrelas incandescentes
para me aquecer no clarão desse incêndio
e me lembrar de quem um dia fui.
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NO FIO DA MEMÓRIA


Adormece em mim o dia que passa
Vagaroso sem se dar por achado
Deitou-se em mim como quem abraça
Não trouxe notícias da desgraça!
Como se o mundo corresse maravilhado.

Num cinzento intenso.
Nasceu apressado,
p'la tarde é já levado
num estremecer entrecortado,
de horas silenciosas.
Agora talvez me deixe adormecer.
Devagar como esta luz que morre
Enredo-me no perfume das rosas
Generoso que no meu coração corre.

De olhos fechados...atravesso a vida
E sonho de cor,
de tanto ter sonhado!
Menina flor,
tão florida
de tanto ter amado.

**
Estrela da manhã toda alegria
Te encontro perdida
Tão sombria
Tão esquecida.

**

Adormeceu o dia é noite na tarde
que em mim se aninha...
Me entrego à saudade e à verdade,
dum amanhã que se adivinha.

Haverá sempre um fio
da memória que nos prende?
Ou será apenas o esquecimento
que em nós se acende?

A indiferença se alojará então!
Esvaído de saudade o coração.


rosafogo
natalia nuno

Correm as águas dos rios


Transcorrem alegres os rios
nas águas em movimento,
entre margens em desvarios
e solos do consentimento.

Carregam as vozes do pranto
nas suas vestes cristalinas,
resguardando seu encanto
no vale de belas colinas.

Caminham tenazes correndo
para um final destinado,
até à foz do seu acolher.

Abraçam não percebendo,
em enlace doce ou salgado,
o porquê daquele receber.


António MR Martins

foto do Rio Ceira, Góis, by Gonçalo Lobo Pinheiro

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Desconhecido




Se todas as teorias fossem levadas a sério, não seríamos nós, mas bonecos de porcelana teorizando a vida; uns sem saber onde começar, outros sem saber onde acabar e outros ainda, com receio de que os cacos os refaçam de novo, para sarapintar a desgraça. Conhece-la de perto é como saber de nós e dos que nos são chegados. É tarefa árdua, chegar perto do que está perto. É um movimento que nos leva onde não queremos ir. Estranha forma essa que nos faz tão pequenos, quando nos confrontamos com o desconhecido. Será sempre esse que nos diz outras verdades mais de acordo com a nossa busca. O que desejamos, o que não esperávamos, o que já sabíamos e até o que à partida é um começo para saber que já nada é nada, se não nos fizermos ao caminho em busca de outras verdades mais profundas.

Lá nas terras altas, o céu está mais próximo, o sol mais quente, o gelo mais seco, o caminho mais pedregoso, e mesmo assim ainda não consegui enxergar a distância que nos separa. Decisão difícil, esta, de me entregar a outras paisagens citadinas, outras correntes sanguíneas que escorrem por entre o betão. Será sempre esse que abafará todo o passado e mostrará um futuro, próximo. São tantos os rostos que vejo, são tantas as lamúrias que ouço, são tantas as igrejas por onde passo. Estão cada vez mais vazias de gente e cheias de mosquitos que varrem com as suas asas o ar poluído que circunda por entre os santos no altar. Esses já sabem o que é existir, sem existir. Estão simplesmente à espera que alguém os limpe do passado, para não caírem feito bonecos de porcelana junto ao altar, onde de terço na mão, estamos todos numa espera inquieta pelo desconhecido.

BELEZA NA SOLIDÃO

foto: Torreira - Aveiro


Aleatoriamente de forma irrepetível
Na intensidade da beleza avistada
Carregada da poética do instante
E do tempo que eternizo
Comunico com a visceral solidão
Onde me sinto liberta
Objetivando o subjetivo da vida!

O SURREAL EM MIM

foto:google

Ciosa de sopros de essência
Povoada pelas almas que andam comigo
Não me contamino por acenos de circunstância
Nem por oportunismos
Em jeito de máscara!
Fico em vigília
No outro lado de mim
Fluindo entre lendas e mitos
Antiquíssimos…
Visões recorrentes!
Vejo mais pelos sentidos
Do que pelos olhos
Vejo na mente
A verdade evanescente
Dos mundos que guardo
De seres inomináveis
Paisagens impossíveis
Galáxias faustosas
Seres sublimes
Atmosferas
Que só se descobrem
Do outro lado da alma!

terça-feira, 3 de abril de 2012

Encontro-me nas palavras




Encontro-me nas palavras
mesmo que não seja eu!

Faço delas novelinhos
Loucuras e desatinos
Desejos e fantasias
Tristezas e alegrias.
Deixo-as voar ao vento
levando meu pensamento
e entre nuvens pousar
e numa estrela me encontrar
Nesse momento me quedo
sinto em mim tal medo
dessa estrela ser cadente
e o equilíbrio perder
e a minha mente demente
transformar para sempre
esse sonho que era viver.

Trago-as de volta à terra
numa folha vão pousar
e sem que façam guerra
logo, logo uma a uma
começam a desfilar.
Por entre o sol e a bruma
entre o lápis e o papel
faço lençóis de espuma
e romances de cordel.

Nas palavras me encontro
mesmo que não seja eu!



Maria Antonieta Oliveira

(Poema que deu o titulo ao meu 2º livro de poesia)

Rima cansada

Saltam lírios dançantes
na penumbra alva do caminho
grinaldas de doces encantos
alegrando o poeta tristinho

Gargalhadas transvertidas
em suaves pérolas desmaiadas
enfadem o poema
assim…sem mais nada

E o sentido da frase
morre no esquema
de mais uma rima cansada

Escrito 3/04/12

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Pela verdade

A verdade
não é são sentir…
tornando-se banal no seu teor.

O pranto
floresce negritudes inflamadas,
em vazios
sem paralelo,
de plena inquietação.

O rosto,
desencontrado da sua alma…
esquartejada,
regela os condimentos
da sobrevivência sentida.

E a verdade
jamais assentará,
como deveria,
numa textura de perfeição.


António MR Martins

domingo, 1 de abril de 2012

Foto-Firman Hananda Boedihardjo


Desabitadas as paisagens onde a luz é mais intensa

Neste pequeno espaço,nesta bucólica visão

descanso os sentidos,fugazes os ruídos

... as vozes da ilha ,ausentes,silêncio apenas

Não há melhor ar ,nem a sede de viver

é tão real nesta paz acolhedora ...


Atemporal a cor ,o azul cristalino do mar

nesta intenso abraço...


Velejo em espaço abertos e silenciosos

entre praias imaginarias e desertas

de areais brancos e sedutores

ébrio o olhar na magia da luz

na solidão pacificadora de uma cabana

perdida entre o céu e o mar.

Se me afundar no oceano

visível no canto do olhar

perderme- ei na luz intensa

que me enlaça.

São Gonçalves.

Mentira




















Vício...
insanidade
perturbação
bloqueio
devaneio dos sentidos

Imaturidade...
hesitação
conflito interior
fraqueza
medo, cobardia

Ausência de valores
necessidade de acreditar
no delírio imaginário
que lhes serve de alimento
Uma enorme bola de neve
que é a teia da mentira

sábado, 31 de março de 2012

1 DE ABRIL EM ALENQUER - TERTÚLIA POÉTICA - TRÊS GERAÇÕES NA POESIA

Mantas de retalhos

No meio das minhas mantas
Da vida dos meus retalhos
Cubro as minhas fantasias
E enquanto tu me encantas
Eu perco-me nestes atalhos
E acho-me nas minhas poesias.

E numa estância de espera
As plumas andam pelo ar
Flutuam mentes em percussão
E agora a mim quem me dera
Lá debaixo das mantas ficar
E pernoitar junto do teu coração.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Abraça-me, mãe


Abraça-me, mãe
que acabei de chegar
do outro lado do túnel escuro
e não consigo ainda abrir os olhos
para desvendar a luz que me estendes.
Perdi as asas que tinha dentro de ti
quando de súbito se rasgou
aquele cordão que nos unia,
e tenho medo agora.

Ensina-me, mãe
a descobrir os caminhos por percorrer,
traça no chão de poeira
as fogueiras que sinalizam o horizonte,
tece o fio que irá guiar
a memória frágil dos meus passos
e o mistério das travessias por desvendar.
Sou ainda uma sombra clandestina
à procura de um novo lar.

Mostra-me, mãe
as cores novas deste sonho
que iremos sonhar acordados,
canta-me as doces melodias
que nunca ninguém cantou,
conta-me os segredos que não conheço
e as histórias que não vivi ainda,
afaga-me suavemente
com o tato perfumado dos teus dedos.
Tudo para mim
é um universo em expansão.

Embala, mãe
no teu colo de linho brando
este meu coração de papel
que bate impaciente
açoitado pelos ventos da madrugada,
sacia com o açúcar dos teus seios
esta sede que trago comigo,
este desejo de infinito,
esta sedução fugaz que me anestesia.
Dá-me uma razão para desafiar o futuro.

Protege-me, mãe
das grandes rodas do destino
que começaram já a girar
no roxo débil da minha carne,
acende com a luz do teu sorriso
os espelhos de prata do meu futuro.
Sou o barro que moldaste
na paciência demorada do teu ventre
para que a alquimia do sonho
se tornasse realidade.

Chego-me a ti, mãe
e lentamente me enrosco
no refugio quente dos teus braços
para que laves este corpo
ainda despido de tudo
com a água benta que transborda
do teu choro de felicidade.
Faltam-me as palavras ainda
para dizer quanto te amo.
Abraça-me, mãe.
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quinta-feira, 29 de março de 2012

Eras

(Rio Paiva)



O tempo escorre
Como o leito
De um rio
Corre para a foz

Indefinição
Que mede
Um espaço
e
O renega
Fraco espírito pedinte
A passar pela
Nova Era
Na espera

Refinado lugar das águas
Atroz
Veloz
Perdido
Sem voz
A cessar
Nas correntes prenhes
Dos detritos
Graníticos da serra
Que não ouve
O uivo do vento
Nem o sente
Senhor
e
Rei

O tempo
É cicatriz
Em ardósia protectora
De um telhado tosco
Assente em barrotes
De madeira de lei

Feito
Ou contrafeito
Movimento interno
Alimentando o tempo
Da mudança
Cravado
e
Estancado
Nos medos grotescos
Nos feitos gigantescos
De todos os tempos
Que eu simplesmente
Não guardei

quarta-feira, 28 de março de 2012

arde o horizonte da nossa contemplação

poisam as fagulhas doentes
nos intervalos da terra queimada
e na outra,
virgem deste lesar,
ao suspiro de um vento
que não acode ao salvamento.

o fumo avassala a serra
numa espessa nuvem,
que só transmite calor
e uma dificuldade no respirar.

este vil sofrer
do apaziguar sem contemplação,
nos submete
ao desapreço do desassossego.

na naturalidade das coisas…
há o gesto criminoso
que tanto maltrata o que nos rodeia.

o desatino não tem medida,
a incompreensão não se revela.

tanta coisa se perde…
sem a transformação devida
e salutar da Humanidade.

e o crime tanto compensa
a baixeza das mentalidades,
sem preconceitos.

cada vez mais…
nos sentimos tão pequeninos.


António MR Martins

terça-feira, 27 de março de 2012

Sol Fugidio


(Imagem google)



Pensei que hoje te via
ao acordar de manhã
Mas não te vi.
Vi uma nuvem, mais outra,
mais outra e muitas mais
E de ti, nada
Olhei de novo em redor
Cada vez o céu mais negro
E no meu desassossego
Não encontrei teu calor
Nem teu brilho reluzente
Nem a luz que me aquece
quando meu coração arrefece
de não te ter, meu amor.
As nuvens olhavam-me
Como que a pedir perdão
Suas lágrimas cairiam
No fundo do meu coração.
Mas hoje,
eu lhes sorri
e lhes disse:
- não tenhais medo
hoje nada fará
meu coração esfriar
Nem a chuva que molha
Nem se neve cair
Meu coração está feliz
Meu EU está contente
Estou rodeada de amor
E em mim,
O sol brilha!

Maria Antonieta Oliveira

segunda-feira, 26 de março de 2012

Enseada Da Tua Ternura


Viajo na tua rua
apanhando a água
que de ti
choveu
um dia...

E... é tão salgada
tão cristalina
tão agitada
tão cheia de vida
que fecunda nas minhas mãos,
estas mãos com que eu te acaricio,
a flor

domingo, 25 de março de 2012

As lágrimas que não ficaram

















Traço-me em cortes perpendiculares á dor
cravam-se-me borboletas no avermelhado olhar
e as lágrimas que não ficaram, sulcam a terra
rente às gerberas que um dia plantei

Falecem as papoilas, que outrora
ondulavam na colina repleta de cor
e as acácias floridas arrancam-se pela metade
na noite adiante á dor

Tremelicam as cíclicas paredes
no trilho agreste do ancoradouro
e as lágrimas que não ficaram
jazem em palancos de branca cor
rente às gerberas que um dia plantei

sábado, 24 de março de 2012

É o destino

Eu caminho só!...
Na estrada do bem,
Onde tantos me dão a mão
Já vazia de bondade.
Estendo a minha também
Como um jogo de dominó,
Que eu perco como quem
Abre o seu coração,
À mão de uma amizade,
Que em necessidade que tem
Vestígios de uma saudade,
Num percurso peregrino,
Que caminha com liberdade,
Porque é este o seu destino.