quarta-feira, 7 de março de 2012

A FUGA DO TEMPO



Neste dia quanta coisa por dizer
As palavras se repetem
Mas escrevo, escrevo e assim
a morte, nada intenta contra mim.
Nos olhos as lágrimas se metem
Como os últimos raios nas vidraças
batendo, batendo como ameaças.

Queria tanto ser uma garça
Ou uma narceja!
E num vôo adensar por entre nuvens
correr mundo.
É tudo que meu olhar deseja!
Aproveitar o vigor
Seguir o suspiro do vento
Abandonar-me ao amor
Que ainda no coração acalento.

Trago os olhos húmidos de emoção,
e na noite de repente caída,
uma lágrima rebelde incontida,
de tristeza e confusão.
A fuga do tempo me acompanha
Levo no coração confiança,
deixo-me ir na corrente,
sou como em criança.

Vou sonhando sómente...

natalia nuno
rosafogo

Qual o sabor do luar?


Existem luares salgados
que rasgam a boca
no uivar do céu.
São peitos encrespados
pelo sal das lágrimas
que escorrem em gritos
entre as estrelas.
De braços abertos
a terra recebe
o fruto do medo
enquanto os olhos se fecham,
um a um…
A esperança está em ti,
que sente o luar doce,
e recebe o amor em segredo,
como a brisa que se recolhe
na face quente.

Vanda Paz (6.03.12)

Manifesto Outono Milenar

Outono Milenar.
Árvore despida no canto da nuvem.
Folha seca, caída.
Tapete de chão, agitado no vento.
Vento seco, queimado.
Sopro do peito deserto.
Húmido, cinza molhado.
Brisa de céu encoberto.
Corpo caído…
Galho quebrado na força da vida.
Ninho desfeito.
Ave perdida…
Murmúrio, lamento de tempo.
Chuva miúda, suicida.
Prédio molhado, sente passos.
Passos de gente na avenida.
Estrada aberta, artéria que aperta.
Som de silêncio.
Alma calada…
Olhos fechados, janela esquecida.
Pedra lançada.
Eterno segundo, vidraça partida.
Tempestade, trovão.
Boca no grito, credo na mão.
Hora…
Raio de choro, seduz sem luz.
Cheiro de terra pela manhã.
Taça vertida.
Licor negro, adormecido.
Calma…
Sabor de vida.
Calma…
Véu transparente, brilho no ar.
Manifesto!
Manifesto.
Outono Milenar.

Mirrada

Lá no alto a Penha - Guimarães

Dependurei-me na árvore a descansar depois de a escalar. Tarefa difícil foi esta. Os ramos estavam despidos e secos, a uma altura acima do alcance dos meus braços. Com manobras, umas mais, outras menos decididas lá me espetei nela, como se fosse mais um ramo mirrado à espera que chegasse a primavera. Esta tardava a chegar. Os dias eram pequenos e as noites longas demais.


terça-feira, 6 de março de 2012

Ser Mulher














Ser Mulher é...trazer nos genes a força, a coragem,dar incondicionalmente de si,amar sem pedir nada em troca,parir para perpetuar a vida,sofrer calada,dançar, cantar, sorrir,mesmo que a dor lhe estrangule a alma,espalhar esperança onde ela já não exista,esgotar-se em dobradas tarefas,cuidar primeiro dos outrose abdicar, por amor, dos direitos mais elementares,nada exigir dos demaise exaltar a Deus o pouco que lhe foi destinado.
Ah, mas ser Mulher, pode também serbeleza, alegria, paixão!Tudo isto num só dia...Este ser, perfeito e únicofaz da vida uma festae não se cansa de agradecer ao Senhor.

A SC

Subindo as escadas
Percorro salas
Paro aqui e ali
Leio e observo!
.
Tu estás e não estás!
.
Corre a brisa
Da tua essência
Da tentativa conseguida
De deixares algo de ti,
Penetrando
Fundo nas gavetas da alma!
.
Olho em volta
E numa revolta
Dou uma reviravolta
E olho através da janela…
Uma estrela brilha
E num fio de música
Solto-me da gente envolta!


domingo, 4 de março de 2012

Ao som do amor

Torrentes de areia fina
Vem em direcção ao amor
No olhar desta menina
Que o abraça com rigor!

Melodias da noite escura
Escuto no silêncio do dia
À margem do rio, tão só.

Sintonias da noite, pura
Já dotada de muita magia
Quando de mim não tem dó.

Sinfonias da noite ao luar
Eu sinto e o amor continua
Dentro de mim para ter.

Fantasias da noite a passar
Sobre a minha pele já nua
Quando ama sem saber!...
Caudais...
 
Já não desço as montanhas

já não sulco a terra

do centro das entranhas

... sou hoje o caudal denso

e farto de um rio

a serenidade das águas

na meia estação

vestida de verde

esperança renascida

correntes intensas

no sopé da vida.

São magestosas

as pontes que me abraçam

passagens aérias

nos céus desta cidade

e do casario plantado

nas margens do meu leito

cores vivas do mundo

erguidas nas encostas

do meu rio

pedaços de gente

fragmentos de tempo

memórias sem idade.

E a foz ali tão perto

águas mansas

abraçando o mar

e a paz

no convés de um navio

invisível da terra

neste meu longo

caminhar.

São Gonçalves

sábado, 3 de março de 2012


A autora, Maria Antonieta Oliveira, e a Temas Originais têm o prazer de o convidar a estar presente na sessão de lançamento do livro “Encontro-me nas palavras” a ter lugar no Auditório do Campo Grande, 56, em Lisboa, no próximo dia 24 de Março, pelas 18:30.

Obra e autora serão apresentadas pelo poeta Emanuel Lomelino.


sexta-feira, 2 de março de 2012

Hora de partir


São horas de partir.

O sol dobra já as colinas do poente.
Os relógios marcam o tempo de dizer adeus.
Faz as malas e despede-te,
como quem se precipita das inadiáveis alturas
de um solitário pontão.

A casa fervilha de inquietas sombras.
Acendem-se lâmpadas frias no cais cinzento.
Os últimos ventos
dançam na penumbra das camas desfeitas.
É tarde para sonhar.

Azedam as horas no lume brando dos ponteiros.
Rangem dobradiças velhas na ferrugem dos portões
que se abatem sobre as rugas de um fôlego derradeiro.
São horas de partir.

O tempo não espera por ninguém.

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No mar revoltoso do teu corpo náufrago feliz


Marés vivas
Que afrontam a praia deserta
Paisagem turvada e violenta
Catarse que me revigora
Corpo e alma
Em cascatas de maresia!

Vagas incessantes
Ondas a explodirem
Cuspindo para o ar
Em fulgores de pujança!
Sinto a minha vulnerabilidade
Mas a tua mão na minha
Arrebata-me o medo
Das forças contraditórias da vida!

Apesar da tontura das expectativas
Ladeio todos os riscos
Olhando os teus olhos
E mergulho no teu mar amotinado
Cheio de promessas de purgação!

foto:google

quinta-feira, 1 de março de 2012

Gotas perdidas

Uma gota de água
escorre no sentido
da negação constante
como vaga de esperança

Outra gota
salgada
lágrima de tantas outras
inventa o que não consegue

Já não há gotas
que alimentem a sede
da secura de tantos sóis
e do frio desesperante

Os rios desaguam
menores
no mar que lhes cabe em foz

E os barcos deixaram de navegar


António MR Martins

SONETO: DO(RM)ENTE


E se minha alma ao compasso da carne ferve
Mordo a língua em cegas tiras de inquietação
Doença triste que o deserto sombrio me serve
Só um corpo amorfo me cabe na palma da mão

Sou renda desafinada tentando arranhar sedas
Ferida incurável em pele do(rm)ente
Aos olhos em cinzas ardendo entre labaredas
Quisera eu um dia neste mundo ser gente

Oh quimera ingénua, pureza de criança
Entre montes e vales havia um olhar risonho
Soltava-se a voz em timbre de esperança
 
Porque é que acordei daquele belo sonho?!
Arrepia-se a garganta, tenho foles nos dedos
Vendaram-me os olhos, tropeço nos meus medos.

20.02.2012


NOVELOS METAFÍSICOS


Entre a angústia e a estranheza
Sinto o espanto de estar viva!
Misto de medo, júbilo e inquietação
Com a diagonal presente
Da finitude inevitável!
Essa é a maior e mais esmagadora certeza
É o peso da temporalidade
Do grão passageiro
Descoordenado do sentido
Do fundamental além de si!

Desejo o infinito, a eternidade
Cair dentro da pulsação do Absoluto
Na claridade do invisível!
Busco o elementar
Na percepção de vozes desconhecidas
Para além do som!
O mistério além de mim, que mistério já sou!

Uma intuição, latente e implícita,
Do cerne do transcendente
Negado, acolhido,
Debatido, velado, configurado…
Motivando
Descontentamento e desassossego
Consciência de uma irremediável esfinge!
Além inatingível
No meu intrínseco limite
Sempre aquém
Do insondável conhecimento pleno da vida!

Marisa Soveral

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Renascer

O som do mar,


O encontro das ondas no beijo na praia


Escuto…


Abraçando a sua imensidão


Naquele momento


Onde renasço.





segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Está tudo ali



está com abraços

nos braços

está tudo ali

nas azinhagas


e eu rio

com um rio

ainda de prata



perco-me

nos labirintos frios

em cantos e prantos

dizem-me

das avenidas novas

tão perto

mas tão longe

das mulheres

de antes

que branqueiam os pátios

com as mãos enrugadas

e esperançadas

na nova cidade

que um rio cuida

e a noite descuida

Na confluência do tempo

Há na confluência do tempo
Um marejar doce de águas
Uma ponte iluminada de outros rios
Aqueles que se serpenteiam pelo mar
Na orla fresca da praia distante

Há na confluência de mim
Um soltar de estrelas findas
Na orla remota do cosmos
Numa colmeia de astros virginais

Há no corpo um rasgar doce
Dos traços suaves de poemas vadios
Lavrando a beira pura da semente
Estendida no húmido sol do querer

E são os teus olhos ….amor
que me confluem no etéreo lusco-fusco
da infinidade dialéctica de ser dor

Escrito a 25/02/12

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Nos teus braços

A menina dos teus olhos, queria ser
Iludia o coração enquanto te amava
E adormecia enquanto te embalava
Com eles podia olhar só para te ver.

E a alma do teu peito, eu queria ter
Iludia a vida com amor continuava
E adormecia, enquanto me deitava
Assim bem podia, deixar de sofrer.

A saudade de amar, só eu podia sentir
Iludia a verdade por tudo o que é teu
E com ela eu vivia, sempre a sorrir.

A vontade de voltar, só eu podia ter
Iludia a ansiedade, a que já se perdeu
E com ela me perdia morta por morrer.

Depois da tempestade


Que memória restará do clarão branco
do relâmpago que acende a imensidão nocturna
quando a voz cega do trovão
rugir sobre o dorso sombrio das colinas?

E das águas que caem em bátegas possessas
saciando a sede profunda das valetas,
que recordações sobrarão pela manhã
quando o sol se incendiar num aforismo de luz?

Gastei todas as vidas a atravessar pontes
só para ver se me esperavas do outro lado do rio.
Com que mãos vou agora agarrar a eternidade
sabendo que nada restará da transparência do teu rosto
depois de passar o cortejo fúnebre da tempestade?


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sábado, 25 de fevereiro de 2012

O teu amor e um maço de cigarros

O teu amor
e um maço de cigarros
enquanto ficas na janela
passam os carros
com a musica alta
e o vento descarrega as suas canções
na curva das estradas

O teu amor
e uma garrafa de vodka
Enquanto a madrugada
não se levanta
alguém espera que acordes
para ouvir as tuas musicas
O teu amor
e um pacote de chocolate
o termómetro marca a tua febre
a tua temperatura é uma canção rock

O teu amor
e um maço de cigarros
A chuva é uma cobra
que deita veneno
no tempo vago das coisas

Enquanto a madrugada
não se levanta
alguém espera que acordes
para ouvir as tuas musicas

lobo 012