quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Coração Rubro




No aconchego desta sala fria
Aqueço o meu coração
Pinto a lua de negro
para se confundir com o céu
e não aclarar o meu sono.
Salpico as estrelas de dourado
e assim, vejo o céu mais estrelado
Brilham os meus olhos tristes
Lágrimas escorreitas
dão nova cor à lua
parece prata.
No meu coração sangue rubro
falta o calor do amor
Que sinto
Que tenho
Que pressinto
Que espero
O brilho da lágrima perdida
Retornou a mim
Meu coração aqueceu
Minha lágrima correu.
Há um perfume no ar, um perfume pestilento que sai do cano da espingarda. Na sala de espera do hotel está um homem velho, usa uma farda de funcionário dos correios, vem oferecer condolências ao gerente do hotel pela morte da esposa encontrada morta e pendurada como um amolgado coador no sótão do hotel. O gerente do hotel disse que a policia está a investigar, que naquele caso não há um motivo para alguém matar e que existem todos os motivos para se morrer, o motivo de se ter os pés na terra e a cabeça no ar, qualquer razão é boa para morrer mas nem todas são boas para matar. Muitas perguntas eram feitas e sempre aquela pergunta: A quem interessava o crime?! Matou-se por dinheiro, por amor, alguma loucura, a inconsciência cuspida da boca, mata-se porque a profissão de matar é a mesma de qualquer outro trabalho e na cabeça de quem mata é um trabalho limpo, há-de haver uma explicação para esse macabro crime, uma coisa inexplicável. Aqui vive gente de bem, nao sei de quem suspeitar?! Suspeitar do barbeiro que corta os pelos ou afia descuidadamente a navalha na garganta e logo o sujeito não vai cantar mais a canção que denuncia a tristeza . Desculpe se com isto faço poesia, sei que a poesia se suja com esta historia, não é a poesia suspeita deste crime,o ciúme acerta mais fundo, penetra com tanta violência como uma bala no crânio de um rinoceronte, na verdade também o rinoceronte pode ser suspeito, tudo o que mexe é suspeito mesmo a folha do nenúfar poisada nas paradas águas. Estava na hora de servir os almoços, o chefe tinha ido á praça comprar um coador, era noticia no lugar que o ar condicionado tinha avariado, um cheiro podre vagueava por ali, a defunta cheirava a peixe de muitos dias e o turismo era afectado. A equipa municipal da higiene publica estava a limpar o ar, um aspirador sugava as pestilências das narinas daquela pobre criatura.Desculpe perguntar faz muito que eram casados? lembro-me da voz dela, um sotaque carregado, típico da Baviera. nunca estive por lá, vi algumas fotografias, a respeito da comida não sou grande apreciador, prefiro os pratos Franceses e os vinhos. Sei que escreveu aos seus filhos, a sua filha mais nova está numa escola privada, ensina árabe e álgebra, o seu filho alistou-se no exercito, é atirador. Devem ter ficado perturbados Não ficaram perturbados, ficaram frios e imóveis como a linha vermelha de um termómetro. Sim esta juventude já não se perturba, vivem em constante representação. Está a dizer-me que vieram por causa da herança, não há nada para herdar, umas notas magras, uma professora de musica não ganha muito por isso ela se refugiava no jogo, era um prazer, o prazer é uma expressão tremendamente Francesa, os países frios precisam de saboreá-lo com drama. Vejo que está abatido, antes não tinha duvidas, tem agora muitas, imagina que ela tinha amantes no armário, guardava segredos como se escondem ratos numa ratoeira, acha que ela era infiel, que foi morta por causa de um divida de jogo. Não quero meter palavras na sua boca, as palavras são perigosas e sedutoras, uma bomba que faz saltar muitas exclamações, muitos pontos de interrogação como uma etiqueta. É preciso perguntar ao corpo do cadáver como eram as mãos que lhe tocaram, como lhe tocaram, porque lhe tocaram?Quero que saiba que no caso de precisar de alguma coisa, posso mandar imprimir uns cartões, uma simples dedicatória eterna saudade e posso ainda encomendar umas flores de plástico e uns óculos três dimensões que fazem parecer as flores muito verdadeiras. Nestas alturas um homem precisa de conforto, uma almofada para descansar a alma nostálgica. Desculpe se roubo o seu tempo, vou regressar aos correios, gosto da humidade do escritório muito agradável neste tempo de calor, há por perto uma videira, costuma trepar pela janela, quando abro a janela parece que me consigo embriagar, uma sensação de regresso ás minhas festas de juventude, ainda tenho fotos, um dia destes mostro-lhe, tenho algumas fotos de família, a minha mulher morreu faz cinco anos, eu pensava que com a solidão tinha morrido o amor, mas agora eu acho que com a solidão se fortalece o amor. Bem espero que tenha um bom dia. Sinto que o Outono é a estação dos apetites, nos dias de Outono fazia amor mais vezes que nas outras estações, gostava de me sentir nostálgico, ficava parado assim que a modos que inerte a olhar os olhos dela como quem fica a olhar o céu. Num dia assim estou a olhar os olhos dela e ela tem os olhos parados, o coração não bate, está morta. Foi uma paragem cardíaca. Depois da morte dela julguei que tinha perdido a vontade de recomeçar, mas nós somos como a videira que trepa á janela e se dá ao sol, todos os dias olho-a da janela e saudo-a em pensamento, acredito que ela é a minha mulher de braços abertos a exclamar que aquele é o seu corpo e o seu sangue. Sei que na cabeça das pessoas deste lugar há a curiosidade sobre o meu interesse a respeito da morte da mulher do dono do hotel. Na verdade sempre gostei de enigmas, costumo decifrar as charadas dos suplementos dos jornais de domingo, escondo-me no gabinete dos correios e passo lá as tardes, levo uma sandes e um termo com refrigerante fresco. Ontem depois de ter estado no gabinete dos correios passou por mim um grupo de soldados a marchar, acho engraçado parecem bonecos articulados, já imaginou a guerra dos bonecos articulados, era um bom titulo para uma peça de teatro. Está a dizer-me que não gosta de teatro, que a voz de certos actores parece como uma faca a penetrar no estômago, tem alergia ao teatro, eu tenho alergia á impaciência, quando estou impaciente aparecem-me borbulhas, sofro deste problema desde criança. Ainda sobre o caso da morte de sua esposa e por ela tocar piano, pois sei que tinha formação clássica, qual era o seu compositor de eleição?! Ela gostava de Wagner, de facto Wagner podia seduzir um assassino para a musica, talvez fosse essa a ultima musica da vida dela e isso depende da crença de cada um, há uma tribo do norte que acredita que depois da morte nascemos em forma de bactéria para entrarmos no corpinho dos doentes e assim curarmos as maleitas dos que cá ficam, imagine nós sermos transformados em bactérias depois da morte e nascermos vamos supor alguma espécie de queijo, um queijo da ilha por exemplo, essas ideias são de facto malucas, coisas de gente selvagem,lugares onde ainda não chegou a civilização, na verdade a civilização não è um bom exemplo, matamos pessoas com malvada delicadeza, quando somos crianças as vacas a pastar no prado è algo romântico, depois quando olhamos para dentro do talho aquilo parece o holocausto, claro que matamos para nos alimentar-mos e matamos para alimentar o ódio sobre o outro, já me vi com muito ódio a esmurrar a almofada, depois dentro de nos fica um vazio, amamos alguém com a mesma intensidade com que sentimos repugnância, estou a dispersar-me, a filosofia toma conta de mim, todo este meu discurso lhe deve parecer incoerente e nao esclarece a morte de sua mulher, não explica porque tinha ela o corpo cheio de buracos tal qual um coador, seria para o assassino filtrar os seus maus instintos?! Deixo a pergunta no ar, hoje faz muito calor, um calor impróprio da época , há um estudo que revela que com o calor os crimes aumentam, o calor provoca tensão, os criminosos gostam de sangue para se refrescarem, ouvi a história que conta que o Marques de Sade se lavava com sangue, tinha uma preferência por cabidela, já provou arroz de cabidela e que tal, bom não é? A minha mulher preparava o melhor arroz de cabidela do universo, vai deliciar as hostes celestiais, era um bom titulo para um filme, os anjos comem arroz de cabidela. Desde que transformaram os cinemas em igrejas deixei de ir, não gosto dos centros comerciais, apanhar com a brutalidade daquele som digital nos tímpanos, na minha idade a audição já não è o que era, o ouvido esquerdo, o ouvido das más noticias está completamente surdo, mas voltando ao assunto sobre a morte da sua mulher, sabe qual foi o resultado da autopsia? - Está a dizer-me que não foi encontrado um autor para o crime, não encontraram impressões digitais, que uma mão invisível levantou a espingarda, premiu o gatilho e transformou aquele corpinho num coador manchado de sangue como se fosse polpa de tomate a salpicar os fios de esparguete, ainda a respeito da morte da sua mulher e da natureza desse hediondo crime o mesmo me lembra aquela pintura da Frida, aquela artista mexicana, a mulher de Diego Rivera, um tipo gordo e comunista, estaria mais na natureza dos comunistas serem magros, a magreza seria uma forma de o corpo representar a fome das classes oprimidas pela gordura capitalista, ainda a respeito da Frida kallo há uma pintura dela que podia ilustrar o crime de que foi vitima a pobre de sua Senhora. Estou a pensar vir almoçar aqui, reserve-me uma mesa no jardim, perto do lago, enquanto como gosto de ouvir o som da água, quero saborear um peixe grelhado acompanhado por um bom vinho, por volta da uma estarei por aqui. Naquela tarde veio novamente a policia, era um grupo da policia cientifica que vinha recolher novas amostras de sangue das paredes, aquele sangue parecia como a tinta das pinturas rupestres, sabia-se que o sangue era rh  negativo, o sótão onde o tal crime tinha sido praticado se parecia a um lugar do submundo, havia recortes pessoas torturadas e cenas do mais obsceno teatro, a mulher do dono do hotel tinha tocado em cabarés e até em prisões para confortar os condenados á morte, é possível que nestas horas os pobres fiquem com o gosto musical mais apurado, nestas situações os homens e as mulheres ficam mais perto da condição animal, a cara de um homem é o focinho de um porco. O céu que parecia cinzento reflectido dos olhos dos que são marcados por estes momentos voltava a ficar azul, a vida que trazia a morte era agora a vida que se reconstituía no novo ar marcado pelo poder do nosso trabalho, das nossas convicções, as nossas convicções são como a força dos barcos empurrando a água, mesmo que seja suja, é a nossa vontade que limpa, é o nosso querer que repõe a ordem mesmo quando precisamos da desordem para a sobrevivência do nosso ser. A mulher do dono do hotel tinha um rosário de cento e oito contas, um objecto comprado num antiquário em Viena, um homem ateu mas devoto incondicional do Deus dinheiro. A propósito do Deus dinheiro e do vicio que ela tinha ao jogo, quando a via a passear no jardim girando a sua sombrinha me lembrava a roleta de um casino e pensava que talvez ela transporta-se um numero mágico, parece que era possuída por um numero fatal, há um momento que nos vai cair a desgraça das escadas abaixo por mais azul que o céu se levante acima dos nossos olhos, reparei que ela tinha um andar leve, como será o andar da morte sobre a nossa pele?! Antes do almoço vou desentorpecer as pernas, o meu médico aconselhou que fizesse muitas caminhadas, que evitasse as gorduras, o colesterol é como um assassino em serie, vou provar como já disse um peixe grelhado com um pouco de manteiga por cima, depois vou fazer a sesta, gostaria de me deitar á sombra de uma macieira e sentir o bicho da fruta a andar-me nos olhos, ter a memória povoada de coisas da adolescência, se ainda me apetecer faço aqueles enigmas, este caso da mulher esvaída em sangue e cheia de buracos como um coador é um quebra cabeças que hei-de solucionar. Naquela tarde o funcionário dos correios dormiu um sono pesado, um sono sem sonhos e sem insectos a passear na ponta do nariz, acordou como se o céu tivesse a infância que ele procurava, a madrugada sorria para eles nos olhares que com ele se cruzavam, caminhava em direcção ao hotel, o dono não estava por lá, aos domingos costumava ir pescar, era um exercício de paciência, atirava o que pescava de volta, atirava a impaciência ao rio, se pudesse premia o gatilho e fazia saltar os miolos daquela cabeça impaciente. O funcionário dos correios sentou-se numa mesa situada no jardim, uma toalha de linho cobria a mesa, lembrou-se quando esteve de férias num pais em guerra e de uma explosão numa praça publica,, a toalha de mesa do café ficou tingida de vermelho, se parecia ao sangue da guelra do peixe, parecia o sangue que jorrava da guelra do mundo. Enquanto saboreava o peixe observava os empregados com os fatos muito vincados, olhava-os e olhava a sua gravata, não tinha muita habilidade a fazer o nó, habitualmente era a mulher que lhe fazia o nó da gravata. Entretanto chamou o empregado de mesa e pediu a conta, ele e o homem falaram um pouco sobre o caso da mulher do dono do hotel, para o empregado aquele crime parecia coisa dos filmes ou quem sabe de criaturas de outro planeta, talvez ela gostasse de jogar á roleta com os Marcianos, talvez aquele corpinho transformado em coador tivesse sido cometido por um artista contemporâneo, havia um artista germânico que usava carne putrefacta para fazer as suas esculturas. O Funcionário dos correios levantou-se, saiu para a rua e seguiu até ao edifício dos correios, olhou mais uma vez a videira que trepava á janela do seu escritório, parecia a imagem de uma escultura grega, veio-lhe á ideia a imagem de uma escultura putrefacta, a visão clássica do mundo futuro. Por aquela altura lembrava-se ele de ter andado por ali uma companhia de circo ambulante, um dos números em destaque era o do lançador de dardos, havia aquela parte em que o atirador tinha os olhos vendados, a tal companhia estava de novo instalada na praça, a policia tinha um suspeito segundo uma noticia publicada no jornal vendido exclusivamente na drogaria do bairro e que servia para embrulhar a mercadoria, o atirador de facas tinha um caso secreto com a mulher do dono do hotel, nas conversas de rua ironizava-se que ele tinha treinado a despontaria no corpo dela, que aquele caso era de faca e coador, a policia interrogou o sujeito que á hora do crime disse estar a tomar um banho com muita espuma e que tinha tido com ela um romance sem importância, uma novela pobre como o destino , a policia quis uma amostra do ADN, saber se o sangue encontrado no sótão correspondia ao dele, o atirador mostrou-se disposto a colaborar, no dia seguinte deu corda aos sapatos e nunca mais ninguém soube nada dele, a policia enviou comunicados por toda a parte, mandou patrulhas cercar as estradas e nada de nada, o atirador de facas possivelmente vagueava por algum estranho lugar ou planeta ou outra opção seria andar ele por terras da China com outra cara graças a uma operação plástica na figura de um turista Americano, chegar a ele era como chegar ao sol. O dono do hotel aproveitou ainda a tarde para visitar a filha, levava com ele uma caixa de costura da falecida onde ela guardava botões coloridos, linhas e bocados de tecido de padrões diferentes que ele comprara numa velha retrosaria. A filha tinha uma paixão por aquela caixa, se por um lado se inclinava para o valor material dos objectos por outro ainda salvaguardava o valor sentimental, ainda conservava um certo modo de vida ,romântico. o olhar dela era austero, parecia que dos seus olhos pretos saiam raios, falava monocordicamente. perguntava sobre os negócios do hotel. O Senhor Simões que era assim que se chamava o dono do hotel olhou para o relogio e despediu-se da filha, não queria voltar muito tarde para casa,não gostava de conduzir de noite embora de noite haja o encanto de se verem os coelhos e as raposas, também tinha de estar no hotel para organizar a ementa do hotel, ir ao mercado comprar legumes frescos e dar um salto á lota para encontrar bom peixe. Quando chegou havia um carro da policia estacionado perto.  Um agente de oculos escuros e cabelos grisalhos aproximou-se e entregou-lhe um cartão com a morada do posto da policia, estivesse lá quinta feira por volta das duas. Naquela tarde no gabinete do tal agente a conversa andou á volta da suposta relação entre o atirador de facas e a mulher deste e se ele sabia deste falatório popular, se alguma vez achou estranhou o comportamento da vitima, as pessoas comentavam que a comunicação entre ela e ele era como um pedregulho a cair sobre uma flor, havia quem andasse a espalhar que ela sofria maus tratos, de certo que não se devia acreditar em tudo o que se dizia , tudo devia ser devidamente investigado com rigor, a policia suspeitava que aquele crime tinha sido encomendado mas faltava no puzzle uma peça . O agente bateu com os óculos suavemente na mesa, pegou numa folha de papel, era o extracto de uma conta, um deposito bancário num banco Suíço, o director do referido banco era cliente habitual do hotel, o agente quis saber se o dono do hotel tinha conhecimento desta transacção, se aquilo que se falava sobre as dividas de jogo em que ela estava metida não tinha sido um plano para desviar as atenções. Por agora não havia mais nada que fosse do interesse da investigação, naquela tarde o acontecimento importante era  a volta em bicicleta, o agente ia estar lá ao vivo sentir a multidão empunhando pequenas bandeiras, gesticulando pela vitória daqueles homens que pedalam, como operários pedalando até ao cume da revolução, ele pedalava num certo sentido em direcção a uma meta, descobrir o verdadeiro assassino, descobrir os actores daquele teatro, fazer cair o pano, aquele crime tinha algo de folclórico e de sinistro, parece que esta terra está contaminada por um insustentável vazio. O dono do hotel regressou ao trabalho, novamente na sala de espera estava o velho funcionário dos correios, vinha entregar o jornal, na primeira página o relatório policial, nada de muito concreto, apenas nas entrelinhas a insinuação de que Simões Costa e o atirador de facas o presumível amante da defunta estariam envolvidos naquele crime, o funcionário dos correios entregou o jornal e saiu, tinha coisas a fazer nos correios, a caminho encontrou uma velha criada do hotel, a velha criada trazia umas flores para por no quarto da filha que tinha morrido num desastre de automóvel, as flores precisam de sol e aqueles que guardamos no coração precisam de serem recordados disse ela com ar de quem  pegava nas desgraças e forçava um sorriso,contou ainda que trabalhou muitos anos naquele hotel, sabia muita coisa, sabia  que o atirador de facas e o marido da morta tinham algum negócio, que aquele dinheiro ganho por ela no jogo, uma parte foi para pagar dividas anteriores relacionadas com o jogo, ela era viciada em sexo , costumava ficar fechada no quarto e fingir que era possuída, depois saia do quarto aos gritos como uma actriz pobre, a velha criada tinha visto tudo com os olhos que a terra havia de comer, que indecências , agora que estava velha é que via as porcarias do mundo, aquele crime tinha posto tudo em alvoroço, o Senhor diga-me honestamente estas coisas nem no tempo da rainha, se ela tivesse ficado no País dela, mas ninguém pode prever, a cabeça manda e o corpo desmanda, que posso dizer mais, não tenho muitas letras, mas vejo para alem deste nevoeiro cerrado e o meu palpite e que isto fique entre nós o criminoso para mim foi o marido
 lobo 

     

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

MORREM-ME POEMAS NA BOCA DO ALÉM


Quando um verso me quer desafiar o sono
Pés sorrateiros vêem a janela sem ninguém
Num sopro solta-se o peito ao abandono
Morrem-me poemas na boca do além

Os olhos contornam barcos em declive
As mãos vestem-se numa guerra de fendas
Em sufoco quase o corpo não sobrevive
A alma sedenta destina-se às emendas

Morrem-me poemas na boca do além
O aço que cobre o corpo é o único refém
Cortaram as raízes dum verso mudo
Deram-me um bilhete sem qualquer morada
Aquilo que um dia se resumiu a tudo
Hoje resume-se à palavra NADA!

10.02.12

Retalhos V


Fui crescendo na morte, que corroía as linhas paralelas das minhas mãos semiabertas. Aprendi rapidamente a renascer nos braços abertos de um espantalho, usurpando o medo que consumia os horizontes da minha solidão. Quis correr mas não tinha pernas, qualquer mortalha ostentava a minha condição de pássaro ferido, à procura de uma migração prematura onde os poetas só mudam de pena.
Nem as serpentes de aço em que me enclausuraste calaram a minha austeridade de mulher, [deformada] por um vilão que se alimentava de pombos mal definidos.


Conceição Bernardino

Simplesmente FADO


Páginas desbotadas privadas de palavras
mãos dedilhando violinos em dedos febris
metamorfose de toadas desanexas de cor

Páginas coloridas ansiadas de cores prorrogadas
de arco íris cristalino em âmagos magoados

Paginas vestidas de borboletas esvoaçantes
no verde vento ameno da amizade

Paginas molhadas de constantes gemidos
de uma lua enxameada de cor

Páginas e mais páginas desgastadas
tacteando a vida em sombreados poemas

São paginas brancas invisuais desconhecidas
Simplesmente FADO

Escrito a 18/1/12

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Ponto de partida

Uma linha de luz arqueada
Flutua suspensa
Na extensão do braço, onde a força
Abandona o corpo

O grito de vidro soprado vazio
Impera calado
Quando o silêncio reflecte a voz
Da sombra quebrada

Em passos
Que se afastam e convergem

Ao ponto, onde a tristeza absorvida
É libertada
No instinto irracional e separador
De um adeus.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Por entre Lisboa e o Tejo

Na estática morada
Permanecem os passos dados
Desenquadrados das imagens
E das pedras da calçada
Pelas pegadas descobertas

No poiso das pombas soltas
Onde as fontes então secaram
E o rio caminha em paralelo
Ladeando as suas margens
De onde brotam tantas memórias

Sem rodeios
Tanto te esperam e anseiam
Na fé de tantos caminhos
Que os desígnios enumeram
Como sentença de vidas

Esta Sé que aqui se demora
E o carro eléctrico que a namora
Num circuito de tantas passagens
Entabulam suas histórias
Num compasso sorrateiro

É o guinchar de tanta descida
Ao cruzamento da Madalena
Rumo à Rua da Conceição
Nos carris desta cidade
Em plena sedução

Prazeres é o seu destino
Como o serão tantos outros
Pela Sé o seu caminho
Deste sentir silencioso
Entre Lisboa e o Tejo


António MR Martins

O gesto é tudo

Logo à entrada, eu vi
Ali uma mão estendida
Como a dizer sobe para aqui
Para levares melhor a vida.

Logo subi aquela mão
Ali encontrava o paraíso
Mas eu, logo fui parar ao chão
Porque não fiz uso do juízo.

Nunca façam como eu
Que esta vida ficou feia
E esta desgraça só aconteceu
Porque me dei à mão alheia.

Não há sorte sem desgraça.

Poema feito em pensamento
Na 1ª visita ao Castelo de S. Jorge,

Em 31-10-2001 (Lisboa)

Atalhos

No banco de trás de um autocarro
por remotos caminhos sem rumo
devorando o verde da paisagem
através das janelas embaciadas

quantos quilómetros de asfalto
te separam da derradeira paragem
onde ninguém te aguarda
e a fantasia dos mapas não alcança?

quantas curvas errantes
se atravessarão no teu caminho
entre promontórios e falésias
de um destino mal alcatroado?

quantos atalhos te restam ainda
até prescrever o gozo da viagem?

SILÊNCIO

damas vintage

Voou amor o meu brilho
Cerro os olhos ao presente sombrio
Esqueço o sonho sigo o trilho
E ao viver não renuncio.
Trago a mente povoada de salgueiros
E o vento é flauta de encantar
Sonho amanhãs como primeiros,
na margem da lembrança a chegar.

Cabelos soltos à velocidade das horas
Andorinhas riem e choram
Também volto a rir e a chorar
Chega a noite sem demoras
Assim te quero, mas demoram!
Teus braços pra me abraçar.

O amor do sonho se alimenta
Passa a tarde, chega a lua,
passa a tormenta...
Passa a saudade, chega o desejo
de ser tua.
E os jasmins no seu odor descuidado
Esquecem o perfume no ar derramado.
Durmo nos teus braços, agora segura
Enquanto semeias palavras de amor e
ternura.

O sol esforça-se por romper
E os dias vão tecendo,
minha voz mais tímida, vacilante
E no rio do meu entardecer,
o sol vai morrendo
instante a instante...

natalia nuno
rosafogo
imagem do blog imagens para decoupage

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

DESALENTO


Fixo os olhos nas vidraças
Lá ao fundo, a porta abre e fecha
Geme sem dó
Na toada do burburinho…
Levo a chávena à boca,
O líquido espesso e negro
Queima-me os lábios…
Meus lábios
Que morrem por beijar os teus!
E tu estás na última gota
Que me aquece a alma.
Saio para ir pelas ruas
Hoje, como ontem,
Talvez amanhã também!
Sem rumo certo
Na busca do anteontem!

Dor



Rosto cálido

Mas deformado

Pelas agruras

Dum tempo

Sem tempo



Face nua

Marcada

No espelho

Pelo infortúnio

Cicatrizada

Pela corrente

De uma lágrima

De esperança



(Tempo

Dá-me tempos

De incenso)



Alvura da montanha

Mágica, peregrina

Do seu tempo

********************


Foto; D.M. - Serra de Montemuro)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Mis escritos... poemario: luna ...

Mis escritos... poemario: luna ...: Luna Hace mucho, tanto ya, que olvidó el canto de los espejos. Algún tiempo ... Nació en una mirada de gloria intensa, una prome...

Efeitos e sentidos do amor

Entre a luz
E o brilho intenso
Há a diferença da cor
E da luminosidade

Aquela que vemos
E a que não conseguimos ver

Tal como na paixão
E no amor
Há a diferença da dor
E da intensidade

Aquela que é intensa
E a que não o sendo
Nos fica para sempre
Apensa

Como tudo o que não temos
Mas que sempre sentimos nosso

Tão nosso como esse tudo

Ou o nada
Que tudo representa


António MR Martins

Nas falésias insólitas



Quando os olhos ardem nas labaredas do desejo
deslizam grãos de areia no areal da cor do mar
Quando as mãos ensopam-se de tesouros escondidos
nas falésias insólitas do pretérito tempo esquivo
despontam asas húmidas, de uma lágrima furtiva
Quando os braços abraçam as carícias ciliciais
os lábios secam-se na porta entreaberta da vida
imóveis demoram-se no silencio carente de iguais


E quando o dia amanhece as nuvens alongam-se
nas folhagens secas da árvore sem flor, orvalhada
e os passos invisíveis deambulam-se até ao mar
cegos…. adormecem no vácuo escondidos de si

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

ESCULPIR NO VENTO


Há uma linha, mesmo que subtil e inconsciente
Que nos une, testemunho de relação
Tantas vezes tensa, por vezes inquisitiva
Mas reveladora,
Uma resistência aos tempos agrestes,
Do grito mecânico
Baço, angustiante, repetido
Onde a voz quase foi silenciada
Numa sobrevivência triste
E sempre omitida!
Modelando, busco a essência
Aprofundo pormenores
Para encontrar veios novos
Emoções e sentimentos
Que tenteiam o espiritual na carne
Sem desalentos!
Polifonia de tons
Tocando os pólos da diversidade
Da leveza, beleza, profundidade
Em excelsos sons!
Tocando os limites
Fragmentando o labirinto
Da corola bem urdida
Vendaval interno
Brisa forte que levanta os véus
Da súmula essencial da vida
Feliz conjugação do corpo e da alma
Concentração exacta e íntima
Na gravidade da forja
Na leveza aquosa da vindima!

Jan.2012

Ainda ouço as lágrimas de Shubert


O sol enterra-se na areia
Temo que a luz se apague
Dentro do meu corpo
E o mar se afogue perto
Da boca dos peixes

As ruas pintam-se de cinza
Numa paleta manchada de óleo
Derramado por um petroleiro
Feito de ondas de néon

Restam as traças que copulam
Sobre as flores plásticas
Que enfeitam as montras
Despidas dos meus olhos

Ainda ouço as lágrimas de Shubert
Cravadas no negro d’ Ave Maria


Carlos Val

Vão de Escada




Aninho-me no vão de escada
perdida no meio do nada.
Na rua,
o frio gélido, congela meu ser.
A chuva,
flocos de neve quer parecer.
Aninho-me no vão de escada…
De coração vazio
Sem nada para dar ou receber
Sem te querer ou não querer
Sem a mim próprio pertencer
Aninho-me no vão de escada…
Perdida no meio do nada…




(Imagem google)

Bom dia

Faz frio lá fora
Mas dentro de mim,
nesta alma rendida,
neste peito pulsante,
ainda fervilha a emoção
de perder-me nos teus beijos
...e o sorriso amanhece feliz!

Bom dia, Amor, Meu Amor