sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Por entre Lisboa e o Tejo

Na estática morada
Permanecem os passos dados
Desenquadrados das imagens
E das pedras da calçada
Pelas pegadas descobertas

No poiso das pombas soltas
Onde as fontes então secaram
E o rio caminha em paralelo
Ladeando as suas margens
De onde brotam tantas memórias

Sem rodeios
Tanto te esperam e anseiam
Na fé de tantos caminhos
Que os desígnios enumeram
Como sentença de vidas

Esta Sé que aqui se demora
E o carro eléctrico que a namora
Num circuito de tantas passagens
Entabulam suas histórias
Num compasso sorrateiro

É o guinchar de tanta descida
Ao cruzamento da Madalena
Rumo à Rua da Conceição
Nos carris desta cidade
Em plena sedução

Prazeres é o seu destino
Como o serão tantos outros
Pela Sé o seu caminho
Deste sentir silencioso
Entre Lisboa e o Tejo


António MR Martins

O gesto é tudo

Logo à entrada, eu vi
Ali uma mão estendida
Como a dizer sobe para aqui
Para levares melhor a vida.

Logo subi aquela mão
Ali encontrava o paraíso
Mas eu, logo fui parar ao chão
Porque não fiz uso do juízo.

Nunca façam como eu
Que esta vida ficou feia
E esta desgraça só aconteceu
Porque me dei à mão alheia.

Não há sorte sem desgraça.

Poema feito em pensamento
Na 1ª visita ao Castelo de S. Jorge,

Em 31-10-2001 (Lisboa)

Atalhos

No banco de trás de um autocarro
por remotos caminhos sem rumo
devorando o verde da paisagem
através das janelas embaciadas

quantos quilómetros de asfalto
te separam da derradeira paragem
onde ninguém te aguarda
e a fantasia dos mapas não alcança?

quantas curvas errantes
se atravessarão no teu caminho
entre promontórios e falésias
de um destino mal alcatroado?

quantos atalhos te restam ainda
até prescrever o gozo da viagem?

SILÊNCIO

damas vintage

Voou amor o meu brilho
Cerro os olhos ao presente sombrio
Esqueço o sonho sigo o trilho
E ao viver não renuncio.
Trago a mente povoada de salgueiros
E o vento é flauta de encantar
Sonho amanhãs como primeiros,
na margem da lembrança a chegar.

Cabelos soltos à velocidade das horas
Andorinhas riem e choram
Também volto a rir e a chorar
Chega a noite sem demoras
Assim te quero, mas demoram!
Teus braços pra me abraçar.

O amor do sonho se alimenta
Passa a tarde, chega a lua,
passa a tormenta...
Passa a saudade, chega o desejo
de ser tua.
E os jasmins no seu odor descuidado
Esquecem o perfume no ar derramado.
Durmo nos teus braços, agora segura
Enquanto semeias palavras de amor e
ternura.

O sol esforça-se por romper
E os dias vão tecendo,
minha voz mais tímida, vacilante
E no rio do meu entardecer,
o sol vai morrendo
instante a instante...

natalia nuno
rosafogo
imagem do blog imagens para decoupage

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

DESALENTO


Fixo os olhos nas vidraças
Lá ao fundo, a porta abre e fecha
Geme sem dó
Na toada do burburinho…
Levo a chávena à boca,
O líquido espesso e negro
Queima-me os lábios…
Meus lábios
Que morrem por beijar os teus!
E tu estás na última gota
Que me aquece a alma.
Saio para ir pelas ruas
Hoje, como ontem,
Talvez amanhã também!
Sem rumo certo
Na busca do anteontem!

Dor



Rosto cálido

Mas deformado

Pelas agruras

Dum tempo

Sem tempo



Face nua

Marcada

No espelho

Pelo infortúnio

Cicatrizada

Pela corrente

De uma lágrima

De esperança



(Tempo

Dá-me tempos

De incenso)



Alvura da montanha

Mágica, peregrina

Do seu tempo

********************


Foto; D.M. - Serra de Montemuro)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Mis escritos... poemario: luna ...

Mis escritos... poemario: luna ...: Luna Hace mucho, tanto ya, que olvidó el canto de los espejos. Algún tiempo ... Nació en una mirada de gloria intensa, una prome...

Efeitos e sentidos do amor

Entre a luz
E o brilho intenso
Há a diferença da cor
E da luminosidade

Aquela que vemos
E a que não conseguimos ver

Tal como na paixão
E no amor
Há a diferença da dor
E da intensidade

Aquela que é intensa
E a que não o sendo
Nos fica para sempre
Apensa

Como tudo o que não temos
Mas que sempre sentimos nosso

Tão nosso como esse tudo

Ou o nada
Que tudo representa


António MR Martins

Nas falésias insólitas



Quando os olhos ardem nas labaredas do desejo
deslizam grãos de areia no areal da cor do mar
Quando as mãos ensopam-se de tesouros escondidos
nas falésias insólitas do pretérito tempo esquivo
despontam asas húmidas, de uma lágrima furtiva
Quando os braços abraçam as carícias ciliciais
os lábios secam-se na porta entreaberta da vida
imóveis demoram-se no silencio carente de iguais


E quando o dia amanhece as nuvens alongam-se
nas folhagens secas da árvore sem flor, orvalhada
e os passos invisíveis deambulam-se até ao mar
cegos…. adormecem no vácuo escondidos de si

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

ESCULPIR NO VENTO


Há uma linha, mesmo que subtil e inconsciente
Que nos une, testemunho de relação
Tantas vezes tensa, por vezes inquisitiva
Mas reveladora,
Uma resistência aos tempos agrestes,
Do grito mecânico
Baço, angustiante, repetido
Onde a voz quase foi silenciada
Numa sobrevivência triste
E sempre omitida!
Modelando, busco a essência
Aprofundo pormenores
Para encontrar veios novos
Emoções e sentimentos
Que tenteiam o espiritual na carne
Sem desalentos!
Polifonia de tons
Tocando os pólos da diversidade
Da leveza, beleza, profundidade
Em excelsos sons!
Tocando os limites
Fragmentando o labirinto
Da corola bem urdida
Vendaval interno
Brisa forte que levanta os véus
Da súmula essencial da vida
Feliz conjugação do corpo e da alma
Concentração exacta e íntima
Na gravidade da forja
Na leveza aquosa da vindima!

Jan.2012

Ainda ouço as lágrimas de Shubert


O sol enterra-se na areia
Temo que a luz se apague
Dentro do meu corpo
E o mar se afogue perto
Da boca dos peixes

As ruas pintam-se de cinza
Numa paleta manchada de óleo
Derramado por um petroleiro
Feito de ondas de néon

Restam as traças que copulam
Sobre as flores plásticas
Que enfeitam as montras
Despidas dos meus olhos

Ainda ouço as lágrimas de Shubert
Cravadas no negro d’ Ave Maria


Carlos Val

Vão de Escada




Aninho-me no vão de escada
perdida no meio do nada.
Na rua,
o frio gélido, congela meu ser.
A chuva,
flocos de neve quer parecer.
Aninho-me no vão de escada…
De coração vazio
Sem nada para dar ou receber
Sem te querer ou não querer
Sem a mim próprio pertencer
Aninho-me no vão de escada…
Perdida no meio do nada…




(Imagem google)

Bom dia

Faz frio lá fora
Mas dentro de mim,
nesta alma rendida,
neste peito pulsante,
ainda fervilha a emoção
de perder-me nos teus beijos
...e o sorriso amanhece feliz!

Bom dia, Amor, Meu Amor

Casulo

Saio do negro que veste o meu espaço,
Despido,
Com a carne vestida em chagas
Quando rompem
As palavras.

Perdi nos silêncios,
A alvorada.

Nada mais resta de mim,
Nem mesmo o poema cravado,
Pelos pregos da alma
Renasce os sabores.

A mortalha assombra o meu destino,
Asfixiando,
A alquimia da liberdade.


Inventem-se novas palavras


Inventem-se novas palavras,
Fora dos lugares comuns
Que acabamos por pronunciar,
Sem mais palavras para verbalizar.

Inventem-se novas palavras
Quando o silêncio impera
Perante uma alma que desespera…

Inventem-se novas palavras
Perante a dor sem esperança
Na resistência à resignação
E negação da condição!

Inventem-se novas palavras
Para servir de anestesia
Perante a martírio que permanece
Quando a dor não adormece!

Na ausência
De neologismos
Fica o silêncio
Invadido
Pelas lágrimas…
19 de Outubro de 2010

AO PARTIR DA TARDE

Four Vintage Ladies

Quero ouvir cantar
um pássaro com doçura,
no silêncio do campo adormecido.
Sentir que há felicidade,
e com ternura,
lembrar nesta hora os passos,
e as vozes que me dão saudade.
Tudo o que existe além...
que a minha memória retém.

As árvores despem-se da folhagem
sem nenhum esplendor
No crepitar das faúlhas lembro a imagem
restos...
da felicidade e amor.
Como a árvore, meu coração morrerá
A vida sempre acaba em podridão,
assim será!

O dia apagou-se
O pássaro calou-se,
e o escuro se amontoa.
Surge a perturbação,
a solidão
e o coração não perdoa.
Nada se acaba completamente!
Olho os dias passados e
tento abarcá-los
com a memória, com o olhar
e abeiro-me ainda a contemplá-los
e, há uma sombra perdurável no ar.
Como é belo viver!
Apesar de o tempo nos corroer.

Também o tempo dentro dos meus olhos
está a morrer!
Já nada se sustém,
só a saudade
que sempre vem,
ao partir da tarde.

rosafogo
natalia nuno
imagem do blog imagens para decoupage

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Longe vão os tempos

chegou o fim da noite

e há um dia para começar

longe dos olhares indiscretos


a madrugada é tardia

e fria

e há quem diga

que viu

e sentiu

o desfalecer

das novs folhas

mesclas cores

têm os jardins de pedra


que é do tempo

dos vendavais

atafulhado nos canaviais?


(longe vão os tempos das searas)


*******************

(Foto D.M.)

É preciso escutar
O silêncio
Saber ouvir
O que ele
Nos diz
No sussurro
De um leve
Sopro
D'alma...

Antes que o eco
Ensurdecedor
Do seu grito
Nos acabe
Por emudecer...

domingo, 5 de fevereiro de 2012

As pálpebras desidratadas da paisagem

Na veia óssea da noite a cal endurece
Os meus olhos tingidos de negro
O pavio da vela mastiga as fotografias
Onde nos olhamos como heras na sombra
Das pálpebras desidratadas da paisagem

A noite agasalha-se nas memórias
Da lareira apagada onde aqueço
A presença dos nossos corpos agitados

Invade-me o desejo, nos teus lábios
Brilha um fio de azeite por trás
Das zígnias que guardo nos bolsos


Carlos Val

GRATA

Grata, sempre em mim a gratidão
Pelo jardim que plantas-te na minha alma
Com flores de cores exuberantes
E pássaros chilreando
Cânticos de paz e harmonia!
.
Grata, sempre será o que sentirei
Por escutares as minhas palavras
Sôfregas de carência de eco
Palavras impulsivas e compulsivas
Gritando nas batidas do coração!
.
Grata, por sentires em mim um espírito
Perdido no que não vale a pena
Iluminando-me com a grandeza da vida
Mostrando-me a beleza que existe
No simples acto de viver de olhos abertos!
.
Grata, pelo teu carinho
Pela forma como me fizeste crescer
Como partilhas-te comigo teus sonhos
Tuas tristezas e alegrias
Como abris-te caminhos ao meu sentir!

Jan-2011