quinta-feira, 13 de outubro de 2011

PÁSSARO DE FOGO


Entro nos jardins encantados e temíveis

Habitados pelo misterioso e pelo ameaçador

Persigo o amor sonhado

Seguindo o maravilhoso pássaro de fogo

Que capturo e logo liberto

Às suas veementes súplicas

Ele quer a sua liberdade

E promete-me auxílio

Para te encontrar e seduzir

.

Criaturas malévolas e mágicas

Espíritos vulcânicos flamejantes

Rodeiam-me sem tréguas

O pássaro surge rompendo o ar

Fico suspensa pela sua dança infernal

Cheia de vivacidade e ligeireza

.

As forças do mal são destruídas

O pássaro desaparece no infinito

Tu chegas como uma lâmina de luz

E ficamos no encantamento do beijo

E na imortalidade do amor…

OUT. 2011

(Inspirado no «Pássaro de Fogo» de Igor Stravinsky)

terça-feira, 11 de outubro de 2011

QUANDO SE NOS ABREM OS OLHOS

Neste instante
Neste preciso instante
Está a acontecer em mim
O milagre de te ver
E ao sentir o milagre
Ao dele tomar nos punhos
A consciência
Senti arrasar-me o remorso
Sentimento amargo
Que nos faz recuar no tempo
Mas não mais que no tempo
No azedume do imponderado
Da distracção sem retorno.
Ao ver-te assim tão linda
No deleite do teu encanto
Considerei o tempo perdido
Tempo que todos perdemos
Distraídas criaturas que somos.
Proíbo-me de descurá-lo já amanhã
Fazer dele coisa vã
Exijo de mim fundo despertar
Ao mais belo
Ao mais apetecível
Ao mais suculento dos frutos
Esse que do Amor furta o nome

Antonius

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

para não dizerem que falei do mar...


descaracterizo o tempo
em estações de ventos azuis.
ao longe, em terra instável,
os gritos das folhas arrancadas a seco
são crosta quente desprezada,
pot-pourri sem cheiro
de originais memórias.

aqui, o olhar atreve-se às águas
sem arco-íris,
só cristais de sol virgem...

aproveito o tempo:
é sempre tempo de sombras
se a luz assiste,
mas nem sempre nos sobra
o tempo que existe...
Sterea

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

NÃO É FELIZ QUEM QUER

às vezes há…um nó na garganta, um frio no peito…

pedras cuspidas…reflexões que não mudam nada …

peso de culpa não existe, só peso do sentir persistente…

caminhando por aí de olhos vendados…

fazendo as coisas do dia a dia com tristeza ou alegria…

a noite chega o sono não vem…

a visão de ti burila nos dedos e na alma…

tudo num andamento de éter …

e se existes é porque penso em ti…

uma leveza pesada de te ter em mim…

barco com roubo sempre a meter água em dias de sol…

chuva de Inverno e de Verão…

ponho uma venda nos meus olhos, não quero ver…

quero manter meu reduto de pureza…

algo imaculado que emana da minha alma…

que me deste com palavras do além…

não quero ver nem ser vista…

basta esta emoção…esta confiança…

este sorriso por dentro de mim…

não estou no escuro…estou em leveza…em apaziguamento…

guiada pela posse de ti no meu pensamento…

que ocupou um grande espaço…

estou a segurar a simplicidade purificadora…

num afecto que desliza como um rio…

há o carinho, o apelo ao cuidado, os olhos da essência…

estou cega e confio, vou existindo…permanecendo…

guardei -te cá dentro… tu dizes que não…

tu dizes que é ilusão…tu dizes que é nada…

e eu sinto-me golpeada no meu âmago…

Outubro - 2011

A cor da terra

No abismo
onde se reflecte a cor da terra
fenecem as asas da liberdade
num prelúdio gemente
de cordas soltas e gastas
em mãos enclausuradas
no aconchego do passado

Num horizonte embuçado de nuvens
onde o mar se perfuma da própria maresia
há um declínio liberto no cerrado da noite
um vagido silencioso na voz da madrugada
um desfraldar gélido de um vento vigil
que antecede a derradeira morada

E num leito de secas pétalas
jaz moribunda a primavera
na mente perdida no ermo do nada

Escrito a 9/10/11

terça-feira, 4 de outubro de 2011

QUE DIA É HOJE QUE JÁ LHE PERDI A CONTA?

(Museu do Chiado - autor ?)

Passam dias e dias …passam anos

Instantes que depressa deixam de ser

Com enganos e desenganos…

Seivas na penumbra a irromper…

A minha mente é uma biblioteca

Em caótica desordem alfabética

Pesada nos dias mais sombrios

Bafienta, desalinhada e hipotética…

Sítios…pessoas…cores e cheiros

Uma bicicleta…uma bola…um jardim

Uma bolsa de tabaco…um isqueiro…

Um busto esbelto de marfim…

Um cão apaixonado e rafeiro…

.

Como conseguir esquecer tudo?

A dissonante babel de sonoridade…

Como conseguir lembrar tudo?

Este caos de diversidade…

.

São gotas de água diluídas

Que se juntam numa poça…

Memórias vastas e poluídas

Filme «noir» que em mim roça…

Livros…casos…palavras…segredos…

Oscilações…entre o real e o onírico

Dia a dia de acaso e justaposição

Com muito de errático e de empírico…

Imagens granuladas de cores desbotadas

Casas de espaços moídos e mofados …

Com portas e janelas assaz afeiçoadas

Poeiras voadoras quentes de afecto

Sem contornos nos olhos cegos pela luz

No caminho de um devoluto sem trajecto…

Out.2011

domingo, 2 de outubro de 2011

Feridas oblíquas

no corpo aflito do nada
caem-me feridas oblíquas,
elos de águas indevidas
do esgar bravio da sonolência.

há em cada poro,
um som decapitado de preces,
uma utopia de alforria decorada de Inverno.

hesito na travessia 
e no pano da lógica, 
que me confundem o degrau da existência.

e nos passos que não dei
e nos traços que apaguei
visto-me da realidade que não sou.

Eduarda

Na reentrância da noite


Torno a roçar-me no reflexo vítreo do corpo
navegar num céu dourado, coberto de pólen
pendurar-me na corda que prende o rastilho
emergente da janela do meu olhar insípido
atear-me nas fagulhas púrpuras de ti, poesia
no anseio de ser simplesmente ….presença

Traço os contornos das palavras impressas
dos versos cilíndricos das silenciosas vogais
trajo de alento as vagabundas consoantes
num denso mar alvo de insónias palpebrais

A noite adormece quieta na orla do desejo
e as heras despojadas crescem enregeladas
na confluência febril das entranhas caladas
perdidamente perco-me em ti desnudada

Escrito 02/10/11

sábado, 1 de outubro de 2011

Dança do fogo


Ergo o cálice de sol e bebo a luz que transborda do peito
derretendo a ilha de gelo que o frio teceu nos teus lábios.
Pedra a pedra desvendo a trilha oculta nos teus ombros
cumprindo o ritual de sangue que teus deuses reclamam.
Desço a escadaria que me leva aos teus seios macios
onde a persistência do vento ergueu imponentes dunas
deixando em cada degrau o eco de mil gemidos.
Dou as mãos à fúria dos presságios que te sacodem
com as unhas feridas de acariciar falsas rosas
tateando com o frémito ofegante dos meus dedos
os caminhos proibidos que me levam ao templo escondido.
Mordo-te o ventre incendiado com dentes que roubei a um cego
cavando minha perdição no abismo que te cerca as entranhas.

É hoje que me deixo imolar nas labaredas do teu abraço
para amanhã renascer com asas de homem novo.

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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Abri a Porta à Saudade


(Imagem google)





Sem querer
abri a porta à saudade
atrevida e de mansinho
ela entrou
Acomodou-se
e no lugar de um sorriso
uma lágrima deslizou.
Molhou o teu retrato
aquele que tirámos os dois
quando ainda felizes
num olhar sorriamos.
Outra lágrima
retida no beiral de uma pestana
lembra o caminho vivido
aquele que tinha escolhido
onde tu sempre estarias.
Mas partiste
e na bagagem levaste
tudo aquilo que vivemos.
Levaste o meu amor e carinho
todo aquele que te dei,
o meu ser que te ofertei
e esse beijo onde bebemos.
Partiste!
E eu,
sem querer
abri a porta à saudade.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Cascata

Parque Nacional Peneda Gerês - Clarisse Silva
 
Cascata

E tenho uma cascata
D’ água cristalina
A cair nos lençóis
E deslizando
Pelo meu corpo
Me banha
Me aquece
M’ enlouquece…

Apetece
O irresistível.
Mergulho
Nado
Na correnteza
Do teu corpo
Entregue
A mim…

Cai a água
Sobre a água
Tal
O Amor
Sobre o Amor
Da nascente
À foz
Numa única voz.


31 de Agosto de 2011

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Saudade


Além…onde as gaivotas grasnem
e o lusco-fusco abraça os montes

Lá…onde o silencio dos silêncios
grita silêncios confusos

Ao longe…onde o vento beija
os cumes adormecidos

O olhar geme … errante
no lapido fogo corpuscular
e liberta-se em fios de água
translúcidos de poesias ímpias,
esvoaçantes rasgando o horizonte
perdidas….nas tonalidades coloridas
de que são feitas as cores profundas
do profundo sonho

Algures no monte longínquo
onde o olhar desnuda
o galope do pensamento
o céu e a vida une-se na cor do desejo
liberto das profundezas da pele
no orvalho da selvática cor.

Saudade

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

RESTO DA JORNADA


Pálidas são as ondas do meu mar
Deste mar ofegante que não acaba
De contornos inquietos
E escuro ao olhar.
Ninguém escuta a sua dor
Nem o vazio que se abriu
Nem a solidão do corpo e da alma.

No peito se levanta a angústia
Pálidas são as ondas do meu mar
Nele terei partido entristecida
Vazia e silenciosa
Que o viver é sonhar.
Mas é também sofrer.
Ainda que já seja Outono
E a solidão me atinja?
No meu coração sem dono
Há amor...inda que finja.

rosafogo
natalia nuno
imagem retirada blog imagens vintage.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Proposta da Editora

Após comunicação via mail através da Liliana Jardim, referente ao ficheiro enviado para edição da Antologia, agradeço que todos os participantes se manifestem quanto á forma e à disposição dos poemas no livro, para se poder decidir da possível edição por esta editora.

De facto, o formato da editora, irá afectar os valores da proposta e do proprio livro, (já que existem poemas que irão ocupar mais do que uma página), mas é esse o formato adoptado e assim sendo cabe-nos a nós aceitar ou não esse mesmo formato, pelo que é importante que todos participem opinando sobre isto.

Aqui…

Aqui
Neste chão
Eu
Os pés
As mãos
O tudo
De nada
Aqui
Deixo
As raízes
Planto
Ilusão
A origem
Continuação
Do meu ser
O meu viver
No morrer
Aqui
Nesta cadeira
Penso
Sou
Movimento
Ar
Só pensamento
Livre
Ao vento
Aqui
Pertenço
Ao tempo
Incorporal
De mim
Intemporal
Do fim
Sou
Liquido
Na chuva
Que cai
Aqui
Nesta terra
Onde
Serei pó
Poeira
Na beira
Desta árvore
Crescerá
De mim
Outrora dor
A flor
Um jasmim
Aqui
Sou eu
A ilusão
Ar
O pó
Poeira de mim
A flor
O final
Continuado
Sem fim
Aqui
Eu
Para sempre
Um jardim.

MEU MAR DE ENLEIOS


Chorando e sorrindo…ouço o que o mar me diz…

fala-me de um fado…pungente e embriagado…

romance precípuo e tão perseverante

com perfume de sal etéreo, entranhado…

.

o sol na sua agonia pinta o mar de encarnado…

o mar segreda-me magias de dormir e de acordar…

voz de amor e de verdade, ao ouvido sibilada…

voz acre de saudade do que não foi feito…

voz de partir e fazer…tremente e ciciada…

.

o mar faz em mim eco…e no mar vejo o fruir…

vejo subtileza e mistério…vejo-te a ti…

pulsante…nas minhas veias túrgidas a tinir…

.

assim faz-se a noite…faz-se o dia…

e todos os dias olho o mar que pari…

em marés de todos os enleios de poesia…

.

Setembro - 2011

Fot.ms

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Palavras


(Imagem google)



Usa-as de qualquer modo
Desde que saibas usá-las.
Abre mentes
Cala gentes
Grita à fome
À guerra
À morte fria.

Escreve-as ensinando
Dita-as cantando
Faz delas sentimentos
Alegres, dor, lamento.

Faz flores
Sem jardim
Noites sendo dia
Faz sonhos acordada
Versos e poesia.