sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Palavras
(Imagem google)
Usa-as de qualquer modo
Desde que saibas usá-las.
Abre mentes
Cala gentes
Grita à fome
À guerra
À morte fria.
Escreve-as ensinando
Dita-as cantando
Faz delas sentimentos
Alegres, dor, lamento.
Faz flores
Sem jardim
Noites sendo dia
Faz sonhos acordada
Versos e poesia.
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
ESPERO A CHEGADA…
amo-te com o fulgor,
imperecível do silêncio,
num espaço movediço…
tempo feito de muitas demoras
de mãos atadas, atrás das costas
sem voz nem gesto recalcitrante…
aflige-me este meu desterro
nesta terra flutuante sem estrada…
ausente estou…numa espera
como sopro de semente sem raízes…
que almeja a frescura do orvalho
para a vida acontecer inteira
respirando palavras, suor, seiva e sangue!
Setembro - 2011
foto - marisa soveral
O sopro
o sopro que de mansinho afaga a dor
e nas ervas que se soltam da terra
desenha-se a luz tremula do amor
É a chama que subjuga o sopro
onde sussurram os silêncios queridos
e nas ténues acrobacias sumidas
permanece cintilante na cor da vida
Derramam-se gotas vítreas
nos reflexos iluminantes da noite
são pérolas silenciosamente coloridas
que se perdem nas mãos da própria dor
E o sopro solta-se de mansinho
galopando no agitação do amor
afaga lentamente o teu rosto ferido
numa doce carícia trajada de cor
Escrito a 1/09/11
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
MURMÚRIOS DO MARÃO
Implorei ao tempo
Que contra-natura embora
Me tomasse e arremessasse
Às remotas horas da infância.
Aquiescente foi o tempo
Que num rasgo fraterno
Ao meu desafio acedeu.
Num repente não sonhado
Figura que me era então cara
Providencial se me depara
Num pasmo que me esmaga.
É Pascoais!
Ao tempo já
Insigne Homem da palavra
Que evidencia na poética
E no saudosista
E fecundo pensamento,
De Unamuno se irmanando
Na identidade de ideais.
Mero cidadão em que se tem
Encontra no simples jogo de bilhar
Valioso lúdico instante.
Mas porque o sonho é fecundo
E o tempo mostra ter tempo
O meu devaneio
Passa pela paleta
Que para mim, criança
Se mostra translúcida
Do seu patrício já então saudoso
E que obra de mérito também deixou
Amadeu Sousa Cardoso.
Grato hei-de estar
Eternamente ao Tempo
Por ao meu apelo aceder.
Antonius
Ciclos
Abra-se Setembro ao novo ciclo que se aproxima
Abra-se a terra para receber novas fragrâncias
Abram-se as gentes:
- ao novo caminhar das águas,
- aos novos rumos dos ventos,
- às novas fragrâncias de Inverno
Sinta-se no corpo, o aconchego da nova energia quente a ultimar os sentidos mais profundos do Ser – esse lugar afrodisíaco que renova a fonte de prazer até que chegue de novo a Primavera e com ela tudo o que a terra fecundou e afundou.
sábado, 27 de agosto de 2011
DESEJO
SONHO E REALIDADE
Mulher e Rosas - Marc Chagall
«Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo».
TABACARIA poema do heterónimo de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos
Gosto…
De sonhar todos os sonhos que sou capaz de agarrar…
Da mulher violentada que ainda sonha com um grande amor…Do homem velho ainda carregado de sonhos…
Da criança que sonha, sem saber o que isso é…
Das pessoas que conseguem voar sem asas…
E das que de mãos vazias sonham…
Do gato que olha não sei para onde e parece sonhar…
Daquele olhar que parece parado e caminha no sonho…
Dos pensamentos num estado de sonolência…suspensos...
Gosto…
Do sofrimento que se torna leve…
Da liberdade dentro da prisão…Do homem pobre que já não quer ser rico…
Do esforço que cria sem ambição…
Da morte que passou a ter o mesmo sentido da vida…
Das lágrimas que se misturam aos risos…
Do sábio que sabe que é ignorante…
Do ignorante que não se esconde…
De todas as histórias de amor…
Do meu voo de amanhã de manhã…
Do silêncio que vem depois da música…
Gosto…
De ficar a divagar por dentro de mim…até me esquecer de mim…
AGOSTO - 2011
Simplesmente voz
no esvoaçar dos lábios
inquietos
sou tonalidade esguia
que te enfada as pálpebras
húmidas de dor
sou simplesmente… voz
dispersa no vento da vida
calada por um olhar
esquecido de mim
sou sopro remoto
no vendaval de um peito
….o teu
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Em mim
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
SOBERBA VISÃO
Adivinhei-te na silhueta
Que a luz da outra banda
Desenhava no azul poente
Na luminosa e radiante poeira
Que o núcleo de sol que se exauria
Emprestava à última réstia
Do esplendoroso Astro.
Mais do que reconhecer-te
Senti viva a tua presença
Nas cores da penumbra que te vestiam
No passo cadenciado
E de uma elegância sem limites
Só podia ser o teu,
No desenho que se estampava
Nesse azul que se esbatia
E apontava já para a noite.
Mas esse desenho
Falava-me do belo
Do belo feminino
Da beleza feita mulher
Das curvas soberbamente desenhadas
Obra-prima de mestre
Que só poderiam ser,
Sonhei ver-te deter o passo
Porventura deliciosamente
Prostrares-te diante de mim
Acordar-me para um mundo
Feito das coisas sublimes.
Mas como o sublime
Nunca se eterniza
Nesse instante que acreditei glorioso
Fez-se noite
E nem do céu as estrelas
Escutaram a minha prece.
antónio bernardino da fonseca
AS PESSOAS PRECISAM DE FIOS…
As pessoas precisam de fios
Para dar sentido à vida...
A vida é perversa
É uma loucura do avesso e do direito!
Sou dependente do direito
Sou fascinada pelo avesso
E pelos dois me disperso…
As pessoas precisam de fios
Porque os fios dão sentido à vida...
Mesmo os fios que se quebram
Que se enchem de nós
Que não levam a parte nenhuma...
Apesar de tudo
Sempre andamos atrás de fios…
Não me canso da vertigem de me enrodilhar
Em fios de cristal ou de navalha
Que dão sentido à vida
E estou sempre por um fio...
E depois?
O que há a seguir?
Não, não é o resto…
É o a seguir?
Divago e me extravio…
Agosto - 2011
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
NO PRINCIPIO ERA A ÁGUA
Aquilo que trago das entranhas da mãe
E pressinto no instante
Em que me senti ser gente
E vai já lá tão distante
É uma sede insaciável
A de ser aquele que sou
Na plenitude da minha humanidade.
E pergunto-me: estarei a sê-lo?
No concretizar deste sonho
Muitas são as vertentes
As cascatas de água que jorram
Da montanha do meu ser
E que espelham o lado sublime
Do que penso ser
A vertigem da minha passagem.
Desfiladeiros de águas
Que na impetuosidade
Dos invernais desmandos
Perdem as cores da primavera
Mas nem por isso, descartam de si
Eflúvios de esperança.
Antonius
TEIA
Teço os fios por onde me persigo
São viagens circunscritas
Não mais além
Que um caminho de regresso
Num traçado inevitável…
Fios delicados de seda pura
Ímpetos de energia
Prementes de sobrevivência
E modelados com sagacidade…
Neles quero te prender
E te saborear
Na essência!
E bordo
Com a minha baba
A teia de encantos
Que retêm a poeira
Que reluz ao sol
Que se esconde na noite
E surge ao amanhecer
Cheia de gotas do suor nocturno!
agosto - 2011

