quarta-feira, 17 de agosto de 2011

NO PRINCIPIO ERA A ÁGUA



Aquilo que trago das entranhas da mãe
E pressinto no instante
Em que me senti ser gente
E vai já lá tão distante
É uma sede insaciável
A de ser aquele que sou
Na plenitude da minha humanidade.
E pergunto-me: estarei a sê-lo?

No concretizar deste sonho
Muitas são as vertentes
As cascatas de água que jorram
Da montanha do meu ser
E que espelham o lado sublime
Do que penso ser
A vertigem da minha passagem.
Desfiladeiros de águas
Que na impetuosidade
Dos invernais desmandos
Perdem as cores da primavera
Mas nem por isso, descartam de si
Eflúvios de esperança.

Antonius

TEIA


Teço os fios por onde me persigo

São viagens circunscritas

Não mais além

Que um caminho de regresso

Num traçado inevitável…

Fios delicados de seda pura

Ímpetos de energia

Prementes de sobrevivência

E modelados com sagacidade…

Neles quero te prender

E te saborear

Na essência!

E bordo

Com a minha baba

A teia de encantos

Que retêm a poeira

Que reluz ao sol

Que se esconde na noite

E surge ao amanhecer

Cheia de gotas do suor nocturno!

agosto - 2011


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Vida

São gastas as lágrimas escorridas
nas asas aladas do lamento
cores sombrias de vendavais
que se perdem ao longo do tempo

São símbolos das raízes pintadas
no corpo perdido de esquecimento
são as dubiedades do amanhecer
nas mãos abertas ao vento
em suspiros que se soltam
nas sombras ainda vigentes

Traçam-se metas invisíveis
nos rasgos acutilantes de dor
e a vida torna-se esvaída …
nos braços aconchegantes
do teu amor

Escrito a 15/08/11

terça-feira, 9 de agosto de 2011

A Barca de Caronte

Em troca de uma moeda
posso conduzir qualquer um
à outra margem do rio.
Ricos ou pobres,
católicos ou judeus,
homens ou mulheres,
nada me importa
o que poderão ter sido um dia.
É este o meu destino.
Prometeu atado aos remos da penitência,
para trás e para a frente,
num interminável corrupio
seguindo o destino dos ventos.

Não me compadecem gritos nem choros,
não me peçam para retornar
forçando o leme e as velas;
a nenhum eu posso valer.
Os que estavam vivos
estão agora mortos
e o lugar da morte
é do outro lado da margem,
onde o silêncio ergueu catedrais
e a terra fervilha de ossadas frias;
onde todos os sonhos se esgotam
e todas as ilusões se afundam;
onde não existem horizontes
e tudo é coberto por um manto de nada,
sem luz a alumiar os caminhos;
onde já não há esperança
nem alivio,
e a ninguém é permitido respirar.

A troco de uma moeda,
um simples óbolo de níquel,
posso levar qualquer um
para o outro lado do rio.
_____________________________________________________

Cherry Kiss

Gosto das noites que terminam em risadas exaladas na ombreira do crepúsculo, presa ao olhar enigmático que me fazes enquanto falo, divagamos em conversas e desconversas que, desconfio, nem a lua entende. Esse teu sorriso traquina - sempre a medo, mas sempre a queimar – provoca-me e acabo por ir mais além e desfiar um pouco mais de mim, como se cada palavra tua fosse um rastilho de pólvora. E o meu coração bate num descompassado fogo de artifício estourando a cada gesto teu, na proximidade da doçura do teu hálito quente.
Quando enfim te deixo acercar da minha boca, rendo-me ao teu fechar de olhos, segundos antes de me beijares, como se fosses confiar o teu mundo nos meus lábios ou se neles buscasses a catarse da tua alma. Sem vontade ou argumentos para te resistir, deixo que cada suspiro meu seja afagado no aroma macio da tua pele, e no fulgor primaveril de tão precioso momento, os teus beijos-cereja adoçam a perfeição desse instante em que esqueço que não há distância entre um sorriso e uma lágrima, porque não há beleza mais plena do que a magia dos momentos irrepetíveis.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Eros e Psique

Às portas da Meia-Noite

Eros e Psique encontram-se…

Corpo e alma…

Olham-se entre si…em silêncio…

Eros quer seduzir Psique…

Psique fica fascinada por Eros…

São o fogo e a borboleta…

Voláteis e cativantes

Contrários e atractivos

Tocam-se e transformam-se…

Em fulgores ofegantes…

Relação de vida

Expressão de êxtase

União perfeita

De

Eros e Psique…

Vida e arte em simbiose…

Em

Suspiros de vibração

Em

Gritos de explosão!

Julho - 2011


quinta-feira, 28 de julho de 2011

SEM QUÊ, NEM PORQUÊ


No canavial o sol se deitou
E as estrelas chegaram atrasadas
Até a lua tardou,
Tarda a morte as passadas.
Eu recolhi serena
Como uma folha pequena
Ao vento minha vida embalei
Esqueci a pena,
e como pesa a ameaça
da vida que passa.

O coração sabe
Da sombra que a alma habita
Neste meu verso não cabe
A água dos meus olhos tristes,
nem a minha desdita.
Tão pouco os sonhos meus
que fogem, fogem para nada
Sem lua nem estrelas, sigo desolada.

Sigo arrastando-me
e ninguém me vê
A vida gastando-me
Sem quê nem porquê!

No meu olhar de frio aço
O verde é já desbotado
Na paisagem da alma o cansaço
A cor do desespero é o meu fado.
Suspensa na minha face
Há uma lágrima a rolar
Como se a vida me arrancasse
A última janela, a que ainda quero assomar.

rosafogo
natalia nuno
imagem do blog- imagens para decoupage

quarta-feira, 27 de julho de 2011

A luz do teu olhar


O mundo corre ante os meus olhos
paisagens verdes, brilhantes de sol
fecho os olhos e é o meu mundo
que num ápice
penetra o pensamento
alagando o olhar

São cores esborratadas
neblinas matinais que se confundem
com o negro da noite
são tons escuros correndo nos afluentes
deste rio que se quer fértil
mas que se perde nas escarpas da vida

Adormeço num bote sem remos
frágil, mortal
e lá…. além, fica a luz
que me ameiga de mansinho….longe
deslizo veloz… mais além
onde ao luz do teu olhar já não me alcança
e o meu…. entristece –se
no brilho do sol e no corpo da lua

terça-feira, 26 de julho de 2011

PELOS CAMINHOS DA MÚSICA…



Ouço o lamento, o suspiro…o gemido…

O sussurro…o sentimento contido…

Ferido no arco das cordas…

Tensão… ressonância…

De deslumbramento provido…

.

A alma dos cedros…

As pedras que falam…

As flores que sorriem…

O perfume do mar…

Os murmúrios da relva…

A água da fonte a cantar…

.

Uma infinidade de possibilidades…

Que são em mim…

Como tu és em mim…

Num elo envolvente…

.

Voo e mergulho, caminhada e viagem…

Com a tua mão apertando a minha

Por onde escorre a tua essência

Esvaindo-se dos teus dedos gota a gota…

Que levo um a um à boca

Mitigando minha avidez e carência…

.

Julho - 2010

domingo, 24 de julho de 2011

Adeus Amy WineHouse…



Cruéis sensações que me despem em sexo banal, em retraídas masturbações hórridas, não quero um corpo. Não quero que o meu corpo se misture na conformidade de uma simples penetração sem que a arte o envolva em lirismo, em espasmos poeticamente concedidos.
Sei que os olhos por onde me passeio libam o meu peito atrevido, de uma menina com impaciência de mulher.

Que se encarnicem todos esses olhares!

Todos eles me olham com o mesmo sentido, fornicar como se fornica uma cadela com cio. Chega de me censurar, se me procuro entre olhares desejosos, quase tão cegos de gozo quanto os meus.

E agora?

Condenem-me ou chamem um padre que exorcize este ardor que sinto, quando me esguio nos lençóis devassos, mutilados pelo sexo. Quando penso que todo este cenário não passa de uma ilusão carnal, o meu sonho morre da mesma forma arcaica como o pintei. A impotência mora no descarnar de rostos fingidos onde definho os meus gemidos quase tão decrépitos como os palhaços que nunca chegaram a sorrir.

Parto sem me vir, como outra qualquer prostituta, onde o adeus é um pronuncio de versos fúteis, dentro de uma garrafa de álcool qualquer. Dou um “xuto” e a solidão avança sem me condenar às exigências da linha recta onde pendurei as minhas veias.

Conceição Bernardino

sábado, 23 de julho de 2011

ENCONTRO NA NOITE ESCURA

Escondido por trás da noite
Onde o vento se acoite
Longe do sol nascer

Estrelado estava o céu
Que a noite era de breu
Olhos não tinha para ver

Mas a noite me fascina
E não sei se é por sina
Tenho que a encarar

É nela que os meus intentos
Vitorias ou desalentos
Deveras vou confrontar

O que tinha dentro de mim
Aconselhava-me sim
A discreto ser no agir

Que o amor em mim arfava
Era força que animava
Intento que me movia

Procurei na noite escura
Esgotei-me até à secura
Já que na noite não via

Confiei na intuição
Em súplica pedi a mão
A quem me pudesse ajudar

Um anjo caído do céu
Retirando à noite o breu
Ofertou-me mulher amante

Reconquistado o amor
Colhi a mais bela flor
E num beijo lha ofertei

Ganhador me senti ser
Por ver que voltava a ver
A mulher que tanto amei

Antonius

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Talvez





Afigura-se-me uma tempestade ao longe


Talvez os ventos tragam boas novas


Talvez o resgate dos vivos


Talvez a contagem dos mortos


Talvez a consumação da vida


Sempre que antevejo uma manhã tardia





Mas sinto o sangue a ferver


E não vejo as mãos as tremer


Talvez seja só um sonho


Talvez me isole do mundo


Talvez seja só miragem


E o deserto a figura carismática


Onde entrego o corpo


E liberto a alma

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Naufrágio da emoção

Numa onda d’ amor

Navegou a minha ilusão

De mui’ estranha dor

Feri o meu coração

E na cabana da solidão

Viveu a minha ousadia

De mui’ contente o refrão

Cantou a chorar nesse dia

E numa nuvem de magia

Voava azul a minha cor

Cheia de vida e alegria

No jardim da emoção em flor

Que se distinguia ao Sol-pôr

E rumava por tradição

Sobre a onda deste amor

Que naufragava de emoção.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Sinto-te nas águas vivas do Mondego





















Deslumbro-me na visão nobre do Mondego
em gestos ansiosos, semicerro as pálpebras
sinto as ondas rebolam no meu corpo translúcido
e os gemidos murmurantes da folhagem algures
funde-se com o grasnar das gaivotas
testemunhas de mim

Permaneço nessa êxtase estonteante
ausento-me na lonjura dos corpos
e na fundura da minha pele ouço-te gemer
num acariciar fecundo de um sol apaixonante
que me envolve num estado de emoção
e os vagidos do meu corpo dançam no teu corpo
em abraços longínquos que se perdem
na minha louca agitação

O ciciar do vento beija em laivos de ternura
os meus olhos encurralados no tempo
e no alaranjado entardecer de mim
sinto-te amor, nas minhas mãos paixão
em caudais de doces canduras
na foz do teu corpo vulcão

domingo, 10 de julho de 2011

Cem horas, a contar os minutos

Cem horas, a contar os minutos.
Gritassem as flores rios de vento
na subtracção das horas ao tempo
a um batalhão de campas desarmadas
na bandeira de uma nação.

Gritassem as dores salvas de amor
pelas lágrimas derramadas.

Pudessem, todas as balas disparadas
fazer o percurso inverso
e vergariam as próprias armas
aos olhos dos homens
que deixam cair o mundo dos braços.

Pelo Planisfério, o atrito duma borracha
e uma guerra de girassóis
a desenhar fronteiras sobre as ruínas
de dias bombardeados com nuvens.

Cala-se o tempo…
sem horas a contar os minutos.
Cala-se o grito, ao tempo dos homens.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

SOMBRA DA AUSÊNCIA



O teu corpo é como se fosse
o meu único destino,
quando não sei
como encontrar-te.
O meu olhar te rodeia repentino
E no vazio do meu corpo
vou vivendo para amar-te.

Assim vou tropeçando e caindo
Neste destino cansado
E no meu peito sentindo
Este amor arrebatado.

Inquieta, cega
e desmemoriada
Teu corpo é minha terra, o meu mar
A luz dos meus olhos incendiada
És meu tempo, minha vida, meu respirar
Corro alegre na vastidão do Outono
Em plenitude e alvoroço
Iluminada me deixo ao abandono
Sou jovem, a desejar-te
Quando no silêncio te ouço.
No silêncio,
onde não sei encontrar-te.

A sombra da tua ausência
Deixa em mim!
Uma ferida em permanência
Uma inquietude sem fim.

rosafogo
natalia nuno
imagem ret. do blog imagens para

RECORDAR ISTAMBUL

Guardar-te-ei para sempre na retina
Cidade que és três vezes cidade
Ante tua grandeza, oh Istambul
Deteve-se o tempo
Que em aparente, absurdo advento
Impotente se mostrou em deter-te o passo.

Tu Istambul três vezes cidade
Memória guardas de Bizâncio e Constantino
Do remoto burgo guardas a saudade
Aos guardas do império empolgada cantas
As glorias e feitos em inspirado hino.

Em cálida noite de Junho me enfeitiçaste
Sob a luz de lua cheia esplendorosa
Portentosa aos olhos do homem te mostraste
Cidade meeira de três impérios
Que fronteira de dois mundos te tornaste.

Das tuas Mesquitas e Minaretes
Enternecedores cânticos chegam até mim
Em ressonâncias de lírica oração
Neles te sinto o palpitar da alma
Inebriando-me o idílico do silêncio
Nas estrelas reflectindo a tua história.

Sinto-me abraçar-te oh Istambul
Nas entranhas de incontida emoção.

Luciusantonius

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Quem...

quem me rasgou a manhã,
com adagas de frio,
me golpeou o ar
e  me apagou os traços em fios...

quem entre aspas,
me devorou o silêncio,
como pássaro cruel,
calcando-me os passos de lume,
dobrando-me a boca
com punhos em redor...

quem me espadejou os pés,
enterrando-os no coalho da areia,
no vento alto e cavo
com os versos molhados,
atirados para dentro do espelho...

Eduarda

terça-feira, 5 de julho de 2011

HAIKAIS

I

Entre costelas
Meu músculo vermelho
Bate só por ti!


II
Estás na mente
Os meus olhos reviram

Querem olhar-te!

III
Pensarás em mim?
Loucura não me tens

Por dentro de ti!

IV
Olhos mortiços

Ocultam um sol quente

de Agosto!

V
Sorris, para quem?
Rasgo aos bocadinhos

essa ilusão!

VI
As mãos são longas

Tocarão todas as teclas

do meu piano?


JULHO - 2011

domingo, 3 de julho de 2011

Na rebeldia de sabores


















Nas pinceladas enleadas
com que pinto
os amores-perfeitos
desenhados
repousa a alegoria
da cor dos olhos teus

São traços aprimorados
pelos odores do corpo teu
tintas matizadas
na rebeldia de sabores
dos lábios meus

Dedos esculpindo-se
no ímpeto da alma minha
em esguios pincéis
escrevo na entrelinha
da tela rendilhada de cor

E no suspiro da manhã
o céu cobre-se de sol