domingo, 10 de julho de 2011

Cem horas, a contar os minutos

Cem horas, a contar os minutos.
Gritassem as flores rios de vento
na subtracção das horas ao tempo
a um batalhão de campas desarmadas
na bandeira de uma nação.

Gritassem as dores salvas de amor
pelas lágrimas derramadas.

Pudessem, todas as balas disparadas
fazer o percurso inverso
e vergariam as próprias armas
aos olhos dos homens
que deixam cair o mundo dos braços.

Pelo Planisfério, o atrito duma borracha
e uma guerra de girassóis
a desenhar fronteiras sobre as ruínas
de dias bombardeados com nuvens.

Cala-se o tempo…
sem horas a contar os minutos.
Cala-se o grito, ao tempo dos homens.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

SOMBRA DA AUSÊNCIA



O teu corpo é como se fosse
o meu único destino,
quando não sei
como encontrar-te.
O meu olhar te rodeia repentino
E no vazio do meu corpo
vou vivendo para amar-te.

Assim vou tropeçando e caindo
Neste destino cansado
E no meu peito sentindo
Este amor arrebatado.

Inquieta, cega
e desmemoriada
Teu corpo é minha terra, o meu mar
A luz dos meus olhos incendiada
És meu tempo, minha vida, meu respirar
Corro alegre na vastidão do Outono
Em plenitude e alvoroço
Iluminada me deixo ao abandono
Sou jovem, a desejar-te
Quando no silêncio te ouço.
No silêncio,
onde não sei encontrar-te.

A sombra da tua ausência
Deixa em mim!
Uma ferida em permanência
Uma inquietude sem fim.

rosafogo
natalia nuno
imagem ret. do blog imagens para

RECORDAR ISTAMBUL

Guardar-te-ei para sempre na retina
Cidade que és três vezes cidade
Ante tua grandeza, oh Istambul
Deteve-se o tempo
Que em aparente, absurdo advento
Impotente se mostrou em deter-te o passo.

Tu Istambul três vezes cidade
Memória guardas de Bizâncio e Constantino
Do remoto burgo guardas a saudade
Aos guardas do império empolgada cantas
As glorias e feitos em inspirado hino.

Em cálida noite de Junho me enfeitiçaste
Sob a luz de lua cheia esplendorosa
Portentosa aos olhos do homem te mostraste
Cidade meeira de três impérios
Que fronteira de dois mundos te tornaste.

Das tuas Mesquitas e Minaretes
Enternecedores cânticos chegam até mim
Em ressonâncias de lírica oração
Neles te sinto o palpitar da alma
Inebriando-me o idílico do silêncio
Nas estrelas reflectindo a tua história.

Sinto-me abraçar-te oh Istambul
Nas entranhas de incontida emoção.

Luciusantonius

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Quem...

quem me rasgou a manhã,
com adagas de frio,
me golpeou o ar
e  me apagou os traços em fios...

quem entre aspas,
me devorou o silêncio,
como pássaro cruel,
calcando-me os passos de lume,
dobrando-me a boca
com punhos em redor...

quem me espadejou os pés,
enterrando-os no coalho da areia,
no vento alto e cavo
com os versos molhados,
atirados para dentro do espelho...

Eduarda

terça-feira, 5 de julho de 2011

HAIKAIS

I

Entre costelas
Meu músculo vermelho
Bate só por ti!


II
Estás na mente
Os meus olhos reviram

Querem olhar-te!

III
Pensarás em mim?
Loucura não me tens

Por dentro de ti!

IV
Olhos mortiços

Ocultam um sol quente

de Agosto!

V
Sorris, para quem?
Rasgo aos bocadinhos

essa ilusão!

VI
As mãos são longas

Tocarão todas as teclas

do meu piano?


JULHO - 2011

domingo, 3 de julho de 2011

Na rebeldia de sabores


















Nas pinceladas enleadas
com que pinto
os amores-perfeitos
desenhados
repousa a alegoria
da cor dos olhos teus

São traços aprimorados
pelos odores do corpo teu
tintas matizadas
na rebeldia de sabores
dos lábios meus

Dedos esculpindo-se
no ímpeto da alma minha
em esguios pincéis
escrevo na entrelinha
da tela rendilhada de cor

E no suspiro da manhã
o céu cobre-se de sol

a fisga e as tranças

Podemos até saber o que queremos da vida, mas nunca o que esperar dela. A vida é como aquele colega da carteira ao lado meio incerto, que nunca percebemos se é mesmo nosso companheiro, ou se pela calada faz queixinhas de nós à professora, o tal que nunca sabemos se nas brigas nos vai defender ou ajudar bater.
Deixa-me ser a miúda das tranças que te sorri com ternura, e cúmplice, te pisca o olho enquanto levas a reprimenda da professora, a que te ajuda a tratar as feridas depois do pugilato, e ainda diz que da próxima vez é que vai ser! Ah, pois vai! Da próxima vez vamos arquitectar uma estratégia de contra-ataque absolutamente perfeita. E vamos fazer a folha ao gajo! Ideias largadas na prateleira da nossa inocência que sabem bem acalentar.
Era bom se a vida se fizesse apenas de dança, sorrisos e ternuras… Mas não, às vezes parece que faz até questão de nos atormentar, de não deixar que nos sintamos tranquilos. Nem felizes. Como se ser feliz não fosse vencer na vida, mas sim vencer à vida.
Todavia, essa mesma vida castrante que tão mal pode fazer, de quando em vez traz-nos um punhado de coisas boas, que ficam, que amaciam e adoçam o caminho… Há que saber segurá-lo de mão firme para nada se esvaia entre os dedos. É onde te seguro: na palma, de encontro ao peito.
E perde essa mania irritante de dizeres que me aborreces! Sempre contigo no dia a seguir, lembras-te? Porque só assim sei ser junto de quem me faz bem.
(E se voltas a repetir a mesma cantiga, juro solenemente pelas minhas tranças, que te atiro a fisga ao ribeiro e digo a todos na escola que ainda usas chupeta para dormir! Podem nem acreditar, mas fazem pouco de ti na mesma!)

Marina do Freixo, Junho de 2011

sábado, 2 de julho de 2011

NEGO QUE TE AMO


Nego que te amo obstinadamente
Nego que te quero à boca cheia
No meu olhar o amor é transparente
E meu coração ao teu se enredeia.
Como é ingrato envelhecer!
Ver-me nos teus olhos e sentir
Que sou água que corre por correr
Não aquele rio de verdade
Que se perdeu no tempo e é saudade.

Nego que te amo arrebatadamente
E o tempo já não sorri pra mim
Trago sede do amor de antigamente
Que enchia os corações de odor a jasmim.
Agarro-me à lembrança do teu rosto
E meu coração ainda vibra e clama
Para mim o amor é ainda uva em mosto
Há fogo nas entranhas de quem te ama.

E a vida é chuva derramada no olhar
É noite em mim, apagada a esperança
Já os sonhos partem do cais, deixei de sonhar!
Sonhos são apenas minhas relíquias de criança.
Cantam nas minhas mãos melros em liberdade
Encandeio-me no sol que me queima
Meu pensamento fica inacabado
Só a saudade,
Teima
Neste amor engendrado
Nos teus braços,
ficou tudo o que sonhei
Ainda sigo teus passos
Deste amor não me libertei.
Vou lembrando-te, entre os aromas da tarde
E de pés descalços corro na saudade.

rosafogo
natalia nuno

ACORDAR...

Hoje o sol ainda não acordou…

mas eu acordei,

com a luz do teu sorriso,

sorri para o teu sorriso…

e neste sorriso trocado...

a brisa do amor

faz-me levitar de nuvem em nuvem...

É bom sentir-me feliz ao despertar…

e sentir-me dentro do teu espírito…

dentro dos teus fulgores

correndo nas tuas veias

sabendo que me guardas em ti

e que entre nós há caprichosas teias…

Eu tenho o sonho

e sei que faço parte de um sonho

teu e meu

essa é uma certeza…

assim sinto o caminho,

o caminho que nos escolheu...

o caminho

que estamos a percorrer

com dedos inquietos

e com a força de um sopro de brisa

em nossas almas a bater!

Há o carinho desejado

quando nos sentimos frágeis,

aquele colo…

o véu diáfano com que nos cobrimos

e o silencio da tranquilidade da paz interior…

Uma ilha aconchegante

tão perfumada e multicolor…

2.Julho.2011

terça-feira, 28 de junho de 2011

Informação aos Participantes na Antologia

Olá a todos!


Informo que após a última comunicação, (há cerca de um mês) com a editora, a qual me comunicou que iria enviar o PDF, para ser revisto por todos os participantes, de que ainda não recebi o ficheiro para vos ser também reencaminhado. Lamentavalmente, o valor que me foi indicado, como custo do livro é elevado e pedi para ser revisto o ficheiro. A conclusão, mediante a conversa que tive com o Xavier Zarco, é de que, existem poemas de alguns autores, que ultrapassam uma página, daí haver essa discrepância no tamanho do livro e por consequência do valor do mesmo.


Aguado ainda que me seja enviado o ficheiro, (PDF), para que todos possam avaliar e corrigir e/ou substituir, caso seja necessário, os poemas, para que possamos então avançar de forma que a editora avance também com a proposta final.


O meu abraço a todos

Dolores Marques

Face Oculta da Lua




(Desenho de António Moura: Eu)

Não me tocas
Não me sentes
Nem me ouves
Num só grito
Enquanto sossegas
Sobre o meu cansaço
E não vês o espaço aberto
Ao desejo de um voo nocturno

Não consomes a fluidez
D’uma lágrima minha

Que se verte
Na face oculta da lua

domingo, 26 de junho de 2011

PÁSSAROS...

imagem - google


Lembras-te como éramos pássaros

Irrequietos e sedentos

Saltitando de momento a momento

Alegremente…

Debicando sensações

Pelos nossos caminhos

E sempre esfomeados

Procurando sempre ir mais longe

Em rumos encantados?

Lembras-te como as nossas asas se uniam

E voávamos em uníssono

Conquistando novos terrenos

Perdendo a noção do tempo

E entrando pela noite escura

A embalar num mesmo tom a fantasia

Até o sono nos haurir e declinar

E dormirmos em perfeita harmonia?

Hoje os nossos voos

São arrevesados...

Não são a linha intangível...

São como cordas

enroladas...com nós...

Difíceis de desembaraçar...

Vais, partindo de desassossego

Vens depois com promessas

Mas basta uma nota desafinada

Para te distanciares

E o tudo delineado fica em nada!

Assim caminhamos pelo avesso

Sem conseguir vivermos desligados

Com uma anilha não visível

Mas sem cadência, desafinados…

Junho - 2011

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O MEU QUERER



Queria seguir a corrente
Das águas do teu mar
E aprisionar-me a ti únicamente
Rendida ao teu amor ficar.
E viver em ti e contigo
Desde o ressurgir ao morrer do dia
Até ao levantar das estrelas
Até que a lua sorria.

Dois corpos que se incendeiam
Que morrem no mesmo abraço
Queria ficar nessa teia
Seguir contigo teu passo.
Ser ave livre de repente
Nessa luz amanhecida
Ser tua água transparente
Ser teu poema, tua vida.

Ser a paisagem do teu olhar
O horizonte da tua memória
Ser a fuga e o aproximar
Renascer de novo na tua desmemória.
Percorrer o teu corpo, sedenta
Reacender o alento apagado
Esquecer as rugas, como quem inventa
Que o Sol entrou em nós inesperado.

Banhar as palavras em insanidade
Lançá-las do alto dos rochedos
Fazê-las brotar em fontes azuis de saudade
E rodopiá-las na febre dos meus dedos.
E eu continuo a querer!
Estar contigo até ao esquecimento
Deixar os anos decorrer
Em fantasias ébrias
Largar o pensamento.

rosafogo
natalia nuno

O poema que nunca havia sido terminado



Ecos de tinta negra
chegam de um poema que nunca terminei,
quando tropeço numa inesperada rebentação
de folhas velhas e amarrotadas.
Um emaranhado de sílabas que sacode
a clausura bafienta
de uma inércia de fundo de gaveta,
recordando uma dor antiga
que nenhum parágrafo pôde finalizar.
Palavras esquecidas,
fechadas num silêncio mutilado,
num sono profundo e lazarento,
esvaindo-se num vazio de raízes,
acorrentadas à ferrugem de um grito incompleto.

Numa vertigem de nostalgia,
sopro do papel a poeira amarelecida
onde o poema rumina a réstia de memória
que se desmoronou na lentidão sufocante dos dias,
e junto-lhe as palavras que lhe faltam
para que se liberte, finalmente,
de uma dor que já não me pertence.

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terça-feira, 21 de junho de 2011

Só Com Deus


(Imagem google)




Por entre silvados
caminhaste ao vento
Perdida entre labirintos
Perdida em pensamentos
Caminhaste só
Só, contigo e com Deus
Tentaste abrigar-te
nos braços Seus
Estavas carente
triste, desesperada
precisavas um colo
sentir-te acarinhada
E nesse torpor
caíste cansada
a noite se findo
já era madrugada
Por entre silvados
caminhaste ao vento
Só, mas com deus
superaste o lamento.

domingo, 19 de junho de 2011

Lembras-te amor?

Lembras-te amor
quando dançaram borboletas
nos nossos peitos nús
carícias esvoaçantes
em mãos sedentas de ter

Lembras-te
quando a nossa voz
aprisionou-se na boca agitada
e o corpo estremecia
em gemidos descontínuos
libertos no leito feito de querer

Lembras-te
quando o tempo
deslizava rapidamente
ao encontro da tarde
enlouquecendo nos nossos braços
ávido de ficar em nós parado
esquecido do entardecer

Lembras-te
quando os nossos corpos
segredavam-se numa redoma invisível
bafejando o ardor frenético da paixão
no desassossego louco de ser doação

Lembras-te? foi ontem amor

PARA SEMPRE….

Naquele mundo nebuloso e à margem… amo-te tanto!..

Suavemente o teu corpo percorro com beijos insaciáveis

Deixando a tua pele humedecida de saliva

E as mãos num corrupio a percorrer-te incansáveis…

,

Palavras sussurradas como sopros de lume

Agitam-te como uma cana abanada pelo vento

Nas planícies fulgentes e excitantes do deleite

Nossos corpos dançando em ritmo turbulento…

.

Contigo atinjo a paz, o universo prometido!..

Depois de tantas palavras trocadas, envolventes

O encontro carnal desejado, tantas vezes esculpido…

.

Fico nua na essência, pelos teus braços abraçada

Com o desejo de aderir a ti, para sempre

Pelo teu amor, protegida e aconchegada.

.

Junho-2011

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Cansada

Cansada

 
Um quebra-gelo glaciar
Que quebre sem esforçar
Ou que o derreta de uma vez
E perceba a lucidez.

Estou cansada…
Cansada de pensar
Cansada de remar
Contra a maré…
Que apenas encontra
Verdades obstruídas
Tentativas suicidas
Actividades furtivas
De supostas felicidades
Compostas no exterior
Onde não existe amor.
 
 
Estou cansada…
Cansada de filosofias
De breves poesias
Profundamente ensaiadas
Estou cansada…
Cansada de teorias
Dia após dia
Sem vislumbrar a realidade
E expandir a claridade.


Cansada
Com sede
Com fome
Desacreditada
Nos homens
Sem crença.


Quero dormir
E repousar
E quando acordar
Voltar a sorrir.
16 de Novembro de 10

quarta-feira, 15 de junho de 2011

DOMINGO NA DOCA

(Video: Marisa Soveral)

Percorro o espaço solitário…

Os barcos são embalados

Pela inquietude das águas…

Tudo está suspenso…mas preparado…

De madrugada rasgarão o mar

De risos e mágoas…

O silêncio é quebrado

Pelo grito das gaivotas

E pelos ruídos das coisas

Que o vento agita…

Numa estranha melodia

Sem pauta, nem notas!

Daqui por umas horas

Será o burburinho, o alvoroço

A labuta de mais uma jornada…

Solitariamente faço um esboço

Coragem e medo

Alegria e tristeza…

Amanhã muito cedo

Partem transpirando de incerteza…

Mas atarefados na faina

Sem tempo para pensar

Será mais um dia para colher

O pão que lhes dá o mar!...


quarta-feira, 8 de junho de 2011

GAIVOTAS



Passam as gaivotas, voam rente à água

Batem asas... ouço seus gritos de carências

São gritos rudes, inquietantes de mágoa

Olhos esgazeados clamando sobrevivência

.

Olho e acompanho as suas deambulações

Em cada uma me vejo buscando alimento

E vou voando nas minhas divagações

Olhando o azul para além do firmamento

.

Gaivotas têm asas leves muito limitadas

Impedidas de voos de longa travessia

Suas zonas de acção estão demarcadas

Condenadas a um espaço de monotonia

.

Queria grandes asas, velozes e fortes

Que me levassem a todos os mundos

Que me levassem a todas as sortes

Aos lugares mais intensos e profundos!


Junho - 2011