quinta-feira, 7 de abril de 2011

Silênciosas as madrugadas.

Silênciosas e serenas são as madrugadas que me vêem despertar
sou por vezes um barco solitário a deriva num lago de águas calmas,
sombra espelhada em espelhos de águas prateadas.
Lá no alto vela por mim a lua
bela exeburante no seu vestido prateado,
conta.me historias dos amores errantes
e embala-me o sono com uma doce melodia de encantar.
Ao longe a cidade adormecida
desperta de um sono de sonhos
de vidas errantes.
E eu barco solitário a deriva
sigo viagem neste leito
de esperança num novo dia
debaixo deste céu de matizes
violetas e cinza
transmutação da energia
que da noite se faz dia.


São Gonçalves
.

Apetece-me…amar-te

Apetece-me beijar-te
sugar os silêncios profundos
e libertar as palavras trancadas no baú
da sapiência

Apetece-me abraçar-te, expirar
o ultimo folgo que te torna frágil
e lapidar-te diamante
nas minhas mãos estrelícia

Apetece-me soltar os nós
tornar-te Apolo
talvez assim me encontrasses
à luz da candeia que me ilumina
nas noites em que te procuro

Apetece-me olhar-te
transformar os teus olhos
em estrelas esvoaçantes
relampejando os sonhos teus

Apetece-me tocar-te
bordar-te em lençóis de cetim
com os fios delicados da vida
tatuagens febris da minha
própria amência

Apetece-me……amar-te

terça-feira, 5 de abril de 2011

SERÁ QUE EXISTES?

Oh Deus, porque não existes? É tão lindo este mundo, há nele tanta coisa preciosa! Há sentimentos, coisas que sentimos lá bem nas profundas da alma que nos estremecem, trazem até nós sentires inefáveis como esse a que chamamos Amor.
Este fala-nos numa linguagem muito própria, inatingível para a nossa inteligência mas que a nossa sensibilidade misteriosamente agarra e digere em delírios enternecedores que nos despertam o espírito e estremecem o corpo físico que nos acompanha.

No meio de tanto encantamento, como não existes oh Deus? Como vibra em nós esse sentimento fabuloso, inigualável, mas também outras sensibilidades que não têm preço, como a Amizade, apesar dos riscos de ser enganadora. Isto no que respeita ao nosso mundo interior e às efabulações da nossa mente. Mas oh Deus! Tu não existes apesar dos meus argumentos, mas há mais: há todo um mundo fantástico ao alcance daquilo a que chamamos sentidos e que alcançamos através dos nossos olhos, dos nossos ouvidos e de outros agentes físicos. É que com os olhos eu vejo a natureza, vejo os rios e as montanhas, as quedas de água, os desfiladeiros, os prados verdes e as árvores, esse milagre cresce e se torna frondoso e dá frutos que são delicias, tudo isto por obra e graça não sei de quê. E os meus ouvidos? Se os não tivesse ou por absurdo não funcionassem, eu não ouviria coisas maravilhosas, como o murmúrio das águas, o canto do rouxinol, a Tosca de Puccine, o alarido das crianças, a voz de uma mulher. Além disso, apesar de não existires, como pode oh Deus existir o sol, essa lua que sempre apaixonou os mortais.
Eu sei que há sofrimento também, e que tantas vezes tortura a alma. Eu conheço-o. Quase todos o conhecemos. Mas justamente porque ele existe, Tu devias existir, para aplacar os demónios que o injectam na vida dos homens.
Sinceramente, acho absurdo que não existas para que nós, pobres criaturas ignorantes víssemos lógica, entendêssemos o fantástico da vida e interpretássemos o porquê do sofrimento. Sabes uma coisa? Eu às vezes penso que Tu se calhar até existes, por aí escondido algures, atrás de um penedo no cocuruto de uma árvore, no cimo de uma montanha ou com mais lógica ainda, por detrás das estrelas. Só que escondido. Mas escondido porque? Pensando bem, talvez haja lógica nessa coisa de te ocultares aos olhos dos homens. O que seriam eles, o que seriamos nós se te víssemos, se estivesses ao nosso alcance? Acho que tenho que concluir que o homem só consegue ser homem às escuras, isto é, não Te vendo. No dia em que Te visse estaria chegado ao cume da montanha, teria acabado o tempo.
Sabes uma coisa? Às tantas Tu até existes, só que para nossa realização plena, fora do nosso alcance, apenas nos dando a chance de Te pressentirmos.

Antonius

O almocreve do tempo

 
Não pertenço aqui

Não sou da terra
Nem do mar
Viajo p'lo infinito...

Sou o âmbar antigo
Incrustado
Na resina sem idade

O elixir da vida
Para sempre
Perdido

... e da alquimia
O segredo
Ainda por desvendar...

Sou o almocreve
Do tempo

Um mago errante
Que busca
P'la encantada

Mágica planície
Dos seus sonhos...

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Na cama feita do presente



















Na cama feita do presente
em lençóis imprudentes
ondeiam-se os corpos
olvidados de tudo
e no tudo que nos cerca
metamorfoseamo-nos
em sinfonias de amor
na liberdade de existirmos
em dádivas …..frementes

Nos olhares semi-serrados
de delicados solfejos
a minha boca sôfrega
….. selvática,
anseia teus lábios gulosos
….de querer

Os rostos aprisionados
no silêncio das bocas
lêem-se carentes…. desnudos
num espaço sem tempo de ser

Sentem-se os corpos em voos alados
cobertos pelo entardecer

E a tarde cai fria nos lençóis
….vazios
mas o aroma do prazer
permanece bravio
na alvorada
do nosso próprio viver

domingo, 3 de abril de 2011

LAMENTOS DE POETA



Trazia as mãos pejadas de sonhos
Os sonhos repletos de promessas
Endoidecidos os dias, tão risonhos
Numa solicitude pedindo meças.
Mas os passos tornam-se pesados
As gargalhadas vão ficando apertadas
Ao desespero enlaçadas
Assim mirram os sonhos desgrenhados.

E a vida se fecha sem aviso
Marcada p'la nostalgia
Vincadas as rugas, é preciso
tolerá-las dia após dia.

Pensamentos em desalinho
Já não guardam segredo
Não sabem nada do caminho
Mas vão-no seguindo a medo.

Não me falem com palavras piedosas
Nem me digam só o que me convém
Prefiro engolir palavras audaciosas
Digam...digam que não sou ninguém!
Deixem-me partir cansada
Deixem que me vá embora
Com o rosto em pranto calada
Deixem-me no meu refúgio por agora.

Trago as mãos inábeis como ventos
Cruzo os braços e medito, a sós!
Ouço Cânticos de Poeta, lamentos
Que são rios que me correm na voz.


rosafogo
natalia nuno

Sombra

Os dedos
rasos de utopia
colam-se a devaneios
fantasia
que me desliza na pele
e arrasta pegadas do tempo
em nós desarticulados
de certezas que jazem no chão
inertes.
Ri-se de mim
a indiferença dos relógios
lenta anestesia
do sopro que me corre nas veias.

De que vento gelado me tornei matéria
na desmemória dos incrédulos?


Não sei os deuses nem o céu
esmaga-me a terra
onde me procuro entre as cinzas dos medos
embrião de um ventre renascido
fogo
água
palavra
chão que seria
se nunca tivesse sido.

Em lugar algum me encontro.
Sou a sombra
no voo de um pássaro.



Marialuz

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Neste limbo onde me morro


O que sou
Nem eu sei
Quando me perco
Em pensamentos
Tantas vezes desconexos...

Nada fui
Nada serei
Tudo se resume
Ao que de mim sei
Que sendo tão pouco
É toda a fortuna que tenho
Pois sei das raízes
De onde venho!

O que hoje sou
Nem eu o sei
Serei um fôlego
Do meu desejo
Insatisfeito
Ou
Quem sabe
Um leve sopro de alma
Que do meu corpo
Se escapou...

Invento-me
Em cada esquina
De ruas improváveis
Procurando-me em cada palavra
Com as quais vou compondo
Estes versos
Onde me reinvento
Peneirando-os aos ventos
Que me sopram
Luares de Outono...

Vivo-me e morro-me
Nestas terras do esquecimento
Em desassossegos
Constantes
Pela busca incessante
Deste eu
Que por vezes
De mim se esconde

São inquietantes
Estas sombras que me rodeiam
Que me perseguem
Que nem lobos esfaimados!

E é delas que fujo
Quando me adentro
Neste delírio
Deste limbo
Onde me encontro
Onde me penso
Me castigo
Me vivo
E tantas vezes me morro...

Ao abandono
De mim mesmo...

Definições do Blogue (Para Todos)

A todos os contribuidores do blogue:

O blogue está com as definições que a Fátima, Administradora do blogue atribuiu, e que lhe tem dado muito prazer, no sentido de manter uma imagem que satisfaça um conjunto harmonioso a todos. Assim sendo, e porque a Fátima, não pode e nem deve andar sempre a refazer as cores e os tipos de letra, informam-se todos do seguinte:


- devem postar os poemas sem alterarem, o tamanho, o tipo e a cor da letra, de forma a manter a uniformidade existente


- Não devem postar poemas de outros autores, que não dos próprios. Isto, porque se trata de um blogue, para o qual foram convidados a partilhar a sua escrita. (Existem postagens de poemas em nome de outro autor postadas por Olema Correia, mas que têm um carácter diferente, dado que irão ser publicados na antologia , através de Olema Correia, autorização dada pelo editor) Agradeço a compreensão de todos.

Um abraço: Dolores Marques


Entre um ontem
Já distante
E um amanhã
Ainda longínquo
Há um tempo indefinido
Que o relógio vai marcando
No compasso vazio
Meio cheio de esperança
Por onde vai caminhando
A vida

Entre as memórias
Da lembrança
Que o vento não levou
E o que ainda falta
Do caminho
Lá vai o pobre do engano
Entretido com o sonho
Que toda a vida
Consigo guardou

Ruma decidido!
A passos firmes!
Seguindo as coordenadas do deserto
Que até daqui se avista
No horizonte
Do desconhecido...

Soubera eu o quanto
Do pouco
Que ainda me resta
E não desperdiçaria tanto
Com a ilusão
De que tudo isto
É o que me completa...

Mas que mais poderei eu fazer?
Se do tanto
Que poderia ser
E não fui
Nada guardei
A não ser as penas...

Iludo-me!
Bem sei
Mas mil vezes esta insana
Àquela outra que desiste
E se entrega ébria
Ao malogrado desespero
Do desmazelo da inércia
E se deita
Com ele na cama
Da infinita espera
Sem chegar a conhecer
O fim do caminho!

quinta-feira, 31 de março de 2011

Memórias efémeras


A paisagem não guarda memória
dos rostos que a atravessaram
nem dos sorrisos que se perderam
na moldura de sombra do poente.

O tempo, alheio aos desígnios da luz,
sacode todas as recordações
que não encontraram guarida
na excessiva sucessão de manhãs.

As pedras descoloridas do caminho
cobriram-se de musgo e nostalgia;
as árvores, ora vestidas, ora despidas,
estendem os braços para o horizonte
e permanecem de pé,
mastigando uma solidão de raízes;
mas, dos rostos sorridentes
que um dia atravessaram a primavera,
não guarda a paisagem qualquer memória.

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quarta-feira, 30 de março de 2011

"Poema de agradecimento á corja"


Poema de agradecimento à corja

Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade
de vivermos felizes e em paz.
Obrigado
pelo exemplo que se esforçam em nos dar
de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem
dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar
as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade.
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade.
Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade
e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.
E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer,
o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são.
Para que não sejamos também assim.
E para que possamos reconhecer facilmente
quem temos de rejeitar.

Joaquim Pessoa

QUEM?

Foto: MS
Quem trouxe a serenidade ao meu olhar

Trazendo alegria e paz

Para construir um espaço, crescente

Na aprendizagem, dia a dia e para sempre?

.

Quem está dentro de mim, na essência

Como abelha sorvendo o mel da minha flor

Que bebe, em cálice transbordante

Caminhando no luar invasor?

.

Quem, quando a manhã começa a despertar

Me aconchega a roupa com o olhar, sussurrando

A palavra propulsora do sorriso

Que transborda e desata os nós, cantando?

.

Quem é a corrente continua, que impulsiona

O movimento das ondas do meu corpo

Fazendo dele uma pauta musical, a sinfonia

Do sangue, que fluiu até à ponta dos meus dedos todos?

.

Quem abre todos os portais de mim, toma a forma do absoluto

Deixando êxtases de plenitude, convulsões aquosas

Que caem em gotas de sal nas chamas,

Tornando-as mais densas, audazes e vigorosas?

.

Quem faz a paz e silencia o caos e no silêncio que se faz,

Deixa todas as respostas, que tem para dar

Desliza nas nuvens, tocadas pela brisa, aquieta as dúvidas

E voa no azul livre, para sempre voltar?

.

Marisa Soveral - 30.03.2011


Nada fui
Nada serei
Tudo se resume
Ao que de mim sei
Que
Sendo tão pouco
É toda a fortuna que tenho
Sei de onde venho!

O que hoje sou
Nem eu o sei
Serei um fôlego
Do meu desejo
Insatisfeito
Ou
Um leve sopro de alma
Que do meu corpo
Se escapou

Rodeado
Das inquietantes sombras
Que me perseguem
Vagueio-me
No delírio
Deste limbo
Onde me encontro

Onde me penso
Me castigo
Me vivo
E me morro!

Ao abandono
De mim mesmo...




Lá vem ela
Semi-nua
E sem pudor
Ondulando
Todo aquele corpo
Sedutor

Assim se insinua
A diva
Caneta
Bailarina de ofuscantes
Transparências
Rubras...

Em cada volta
Redonda
Letra a letra
Vai desenhando
O poema
Com a tinta
Que em si fervilha

E por não mais se conter
Se derrama
Por sobre a suposta
Alvura
Da virgem
E submissa
Folha!


Ando a ver
Se escapo
À morte
Desde o dia
Em que nasci

Tenho tido sorte...

À cautela
Fiz um pacto
Com a vida
De ser escrava
No seu domínio
E tudo por ela
Fazer
Em troca
Tem-me dado guarida

E se um dia
A morte
Ainda me quiser
Pois que me venha
Buscar
Mas traga a foice
Bem afiada
Para da vida
A alma me ceifar
Sem que a vida
Dê por isso!

Amanhecer



Ensaio passos


nas memórias que me emprestaste.



Escrevo ao sabor do vento


os cabelos em desalinho


as letras


em palavras,


sem tradução.



Persigo o nascer do sol no lago de um Deserto amado.


Aspiro o perfume das madugadas que transportas no respirar.



Regressas.



Masnão é minha a cor do teu olhar.



E chega a hora do sol partir


e dar lugar


ao luar.


terça-feira, 29 de março de 2011

A graça que roda gira

De graça em graça, que ria

Trazia comigo o meu condão

Da meada enrolada da fantasia

Puxava toda a minha inspiração.

De roda em roda, a nostalgia

Que finge ter demais comoção

Tirava tudo em nada e à revelia

Crescia então, mais séria a ilusão.

De giro em giro, se assumia

E vestia assim, mais reinação

Lia o avesso de tudo, que queria

No lado certo, que bulia o coração.

sábado, 26 de março de 2011

Alzheimer


Ruiu a ponte gasta
que me levava à outra margem
e nenhum barco avisto
deste lado do silêncio.
O dia fecha-se num ocaso salino
e a luz desvanece-se
num voo de sombras perdidas
sobre o leito seco da memória.
Como uma estrela decadente
atraída pelo buraco negro do vazio
tombo no fundo cego
de um alçapão de névoas.

Não sei já quem sou
ou aquilo que algum dia fui.
Tudo se desvanece dentro de mim
numa maré de poeira e esquecimento.
Não reconheço nenhum destes vultos
que murmuram nos véus da penumbra
nem o brilho anónimo e distante
dos olhares que se confundem
numa metamorfose de rostos sem feições.
Confuso, vacilo na retina enferrujada
de um labirinto de fantasmas
mendigando o sol exilado
de velhas lembranças que me pertenceram.

Órfão de um passado sem retorno
persigo o cortejo de sombras
nas paredes caiadas de escuridão
por entre a luz que me resta
e ecos que o vento, ocasionalmente,
traz do outro lado da margem
onde completamente me perdi
à procura de mim.

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sexta-feira, 25 de março de 2011

Lucidez

Branca silhueta ao fundo
das palavras
é a opressa incerteza
da minha lucidez
quando esta por mim passa
pedra
muda
avessa.

Nenhum manto
nem um rio
nem toque de lábios
embrião de espelhos.

Densa superfície de mar
álgida sílaba
cicatriz.


Marialuz