quinta-feira, 31 de março de 2011

Memórias efémeras


A paisagem não guarda memória
dos rostos que a atravessaram
nem dos sorrisos que se perderam
na moldura de sombra do poente.

O tempo, alheio aos desígnios da luz,
sacode todas as recordações
que não encontraram guarida
na excessiva sucessão de manhãs.

As pedras descoloridas do caminho
cobriram-se de musgo e nostalgia;
as árvores, ora vestidas, ora despidas,
estendem os braços para o horizonte
e permanecem de pé,
mastigando uma solidão de raízes;
mas, dos rostos sorridentes
que um dia atravessaram a primavera,
não guarda a paisagem qualquer memória.

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quarta-feira, 30 de março de 2011

"Poema de agradecimento á corja"


Poema de agradecimento à corja

Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade
de vivermos felizes e em paz.
Obrigado
pelo exemplo que se esforçam em nos dar
de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem
dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar
as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade.
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade.
Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade
e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.
E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer,
o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são.
Para que não sejamos também assim.
E para que possamos reconhecer facilmente
quem temos de rejeitar.

Joaquim Pessoa

QUEM?

Foto: MS
Quem trouxe a serenidade ao meu olhar

Trazendo alegria e paz

Para construir um espaço, crescente

Na aprendizagem, dia a dia e para sempre?

.

Quem está dentro de mim, na essência

Como abelha sorvendo o mel da minha flor

Que bebe, em cálice transbordante

Caminhando no luar invasor?

.

Quem, quando a manhã começa a despertar

Me aconchega a roupa com o olhar, sussurrando

A palavra propulsora do sorriso

Que transborda e desata os nós, cantando?

.

Quem é a corrente continua, que impulsiona

O movimento das ondas do meu corpo

Fazendo dele uma pauta musical, a sinfonia

Do sangue, que fluiu até à ponta dos meus dedos todos?

.

Quem abre todos os portais de mim, toma a forma do absoluto

Deixando êxtases de plenitude, convulsões aquosas

Que caem em gotas de sal nas chamas,

Tornando-as mais densas, audazes e vigorosas?

.

Quem faz a paz e silencia o caos e no silêncio que se faz,

Deixa todas as respostas, que tem para dar

Desliza nas nuvens, tocadas pela brisa, aquieta as dúvidas

E voa no azul livre, para sempre voltar?

.

Marisa Soveral - 30.03.2011


Nada fui
Nada serei
Tudo se resume
Ao que de mim sei
Que
Sendo tão pouco
É toda a fortuna que tenho
Sei de onde venho!

O que hoje sou
Nem eu o sei
Serei um fôlego
Do meu desejo
Insatisfeito
Ou
Um leve sopro de alma
Que do meu corpo
Se escapou

Rodeado
Das inquietantes sombras
Que me perseguem
Vagueio-me
No delírio
Deste limbo
Onde me encontro

Onde me penso
Me castigo
Me vivo
E me morro!

Ao abandono
De mim mesmo...




Lá vem ela
Semi-nua
E sem pudor
Ondulando
Todo aquele corpo
Sedutor

Assim se insinua
A diva
Caneta
Bailarina de ofuscantes
Transparências
Rubras...

Em cada volta
Redonda
Letra a letra
Vai desenhando
O poema
Com a tinta
Que em si fervilha

E por não mais se conter
Se derrama
Por sobre a suposta
Alvura
Da virgem
E submissa
Folha!


Ando a ver
Se escapo
À morte
Desde o dia
Em que nasci

Tenho tido sorte...

À cautela
Fiz um pacto
Com a vida
De ser escrava
No seu domínio
E tudo por ela
Fazer
Em troca
Tem-me dado guarida

E se um dia
A morte
Ainda me quiser
Pois que me venha
Buscar
Mas traga a foice
Bem afiada
Para da vida
A alma me ceifar
Sem que a vida
Dê por isso!

Amanhecer



Ensaio passos


nas memórias que me emprestaste.



Escrevo ao sabor do vento


os cabelos em desalinho


as letras


em palavras,


sem tradução.



Persigo o nascer do sol no lago de um Deserto amado.


Aspiro o perfume das madugadas que transportas no respirar.



Regressas.



Masnão é minha a cor do teu olhar.



E chega a hora do sol partir


e dar lugar


ao luar.


terça-feira, 29 de março de 2011

A graça que roda gira

De graça em graça, que ria

Trazia comigo o meu condão

Da meada enrolada da fantasia

Puxava toda a minha inspiração.

De roda em roda, a nostalgia

Que finge ter demais comoção

Tirava tudo em nada e à revelia

Crescia então, mais séria a ilusão.

De giro em giro, se assumia

E vestia assim, mais reinação

Lia o avesso de tudo, que queria

No lado certo, que bulia o coração.

sábado, 26 de março de 2011

Alzheimer


Ruiu a ponte gasta
que me levava à outra margem
e nenhum barco avisto
deste lado do silêncio.
O dia fecha-se num ocaso salino
e a luz desvanece-se
num voo de sombras perdidas
sobre o leito seco da memória.
Como uma estrela decadente
atraída pelo buraco negro do vazio
tombo no fundo cego
de um alçapão de névoas.

Não sei já quem sou
ou aquilo que algum dia fui.
Tudo se desvanece dentro de mim
numa maré de poeira e esquecimento.
Não reconheço nenhum destes vultos
que murmuram nos véus da penumbra
nem o brilho anónimo e distante
dos olhares que se confundem
numa metamorfose de rostos sem feições.
Confuso, vacilo na retina enferrujada
de um labirinto de fantasmas
mendigando o sol exilado
de velhas lembranças que me pertenceram.

Órfão de um passado sem retorno
persigo o cortejo de sombras
nas paredes caiadas de escuridão
por entre a luz que me resta
e ecos que o vento, ocasionalmente,
traz do outro lado da margem
onde completamente me perdi
à procura de mim.

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sexta-feira, 25 de março de 2011

Lucidez

Branca silhueta ao fundo
das palavras
é a opressa incerteza
da minha lucidez
quando esta por mim passa
pedra
muda
avessa.

Nenhum manto
nem um rio
nem toque de lábios
embrião de espelhos.

Densa superfície de mar
álgida sílaba
cicatriz.


Marialuz

quinta-feira, 24 de março de 2011

O tempo morre


No céu mesclo de azul
toca o eu perdido nas gotículas
nostálgicas das nuvens
e no brilho celeste do meu olhar
penso-te….

Os mares ausentam-se
nas cavernas terrenas
sou rio correndo agarrado
à noite lunar…
despido

Trago nas águas malhadas
o meu outro eu
aquele que cega e paralisa
no vácuo doloroso do tempo

E as mares voltam a encher
embebendo-me as veias
dilatadas de ti

Deixo pegadas de pés
na terra ausente
e no ar os aromas de todas as coisas
que me faz gente

Com rasgos de ternura
adormeço-me nos braços da vida

E o tempo morre nas minhas mão entrelaçadas

Pedaços de mim

Ao Sol estendo, a liberdade

E danço, solta nesta poesia

Trago ao peito mais saudade

Que desnuda assim a fantasia

E com cortesia, faço a ilusão

E puxo inspiração com cautela

Singela a alma, abraça o coração

Numa imagem imortal, tão bela

O silêncio trás a sombra pelo chão

Que pisa a chinela, sem piedade

E a penumbra do meu ego, anão

Ainda vive na minha mocidade

Que traz a chama viva, de donzela

Ao baile da saudade, Primavera

Onde estendi o Sol e à janela

Um olhar puro, ainda espera

Voltar a bailar, mais livre e feliz

No chão da vida que trago em mim

E raia um Sol assim e como quis

Matou a saudade, com liberdade, por fim.

Fogo


Céu,
pinheiros ao vento,

nuvens de fumo.


Há um fogo por apagar no meu peito.


O Sol cai direito ao corpo
quente,



(da espera)



as mãos sem direcção,
vazias dos momentos
adiados,
pensados,
os gestos.

A musica trai a memória num despertar
de sentidos
sem nome,
proibidos.

Cai a tarde,
a luz impera
na sombra
impura
até doer.


quarta-feira, 23 de março de 2011

Na mão do amor

Com a mão no peito, enliço

E prendo ousadia, coerente

De tanto, que me ralo com isso

Já vejo o meu universo diferente

Eu, já não tenho o compromisso

E retalio a passagem, indiferente

E contente, flutuo neste universo

Embalo a minha lua, tão sozinha

Do meu peito, o amor submerso

E fica a sós consigo, coitadinha

Vagueia na solidão, perdida

E da vida, eu já quero tudo

Quero ser feliz e mais querida

E por tudo isto, eu me iludo

E só quero amor na mão da vida.

terça-feira, 22 de março de 2011

In-Tolerância

In-Tolerância
 
Peço perdão… peço perdão pela minha frustração perante a intolerância alheia, caminhando para a indignação. Algo de negro se espalha, quando se assiste em directo a imperfeições colocadas no alto, debaixo de um véu de magistralidade? Ou serão os pequenos ciscos de luz no interior da minha pequenez a chocarem com a realidade? Peço perdão por pedir perdão, perante a lágrima que espreita à janela, que escorre por ela, e pisa este chão…

Clarisse Silva


segunda-feira, 21 de março de 2011

EU, POETA

Quando me nasce um poema,
todos os dias do mundo se concentram
na eternidade do sempre
e o instante eleva-me à condição de ser eleita,
afinado instrumento das palavras
que me tocam como mãos de mãe,
apaziguando os nódulos da minha alma imperfeita,
ensinando-me o instinto de ser também
fecunda genitora.
E sinto-me única,
criadora,
poeta.

Um pouco de humildade

Tão belos são, os sentimentos

Da vida, que eterniza um feito

Nas voltas do destino, se figura

Trazem rodopios os movimentos

Que entram soltos no meu peito

Para se prenderem a uma ternura.

Tão nobres os pedaços, que passo

Ao pensamento da mente, sincera

Que gira em meu torno, desnudada

A silhueta de tudo, que por si faço

Não murcham flores na Primavera

E o sonho d’ amor vem de mão dada.

E vai nos sentidos, pedaços de vida

Que enfeitam o peito, transparente

E, humildemente me sinto querida

E querida, eu flutuo, humildemente.

Viver

(Imagem google)



Olho para trás...
O tempo que vivi, sem viver...

Infância perdida no tempo
Entre adultos rígidos a me criar...
Entre brinquedos intemporais,
Minúsculos... dádivas sem pais...
Sem crianças onde me encontrar...
Nessa infância perdida no tempo...

Adolescência que passou...
Entre tabus e crenças d'outra era...
Sem gente da minha idade,
P'ra viver livre a mocidade...
Entre adultos criados noutra esfera...
Adolescência que passou...

Olho para trás...
O tempo que vivi, sem viver!...

domingo, 20 de março de 2011

A rezar de joelhos

Rezo e rogo, de mãos postas

Pela estrada da inspiração

Leva-me o vento de fantasia

Quando gosto do que gostas

Agito em mim, rebelião

E escrevo a rir, poesia.

Rogo e rezo, já de joelhos

Sem rédeas eu vou a caminho

Nos poemas de encantar

Quando não me dão conselhos

Ao ouvido bem baixinho

Tenho eu, alguns para dar.

E se de novo, as mãos erguer

Ajoelho-me à sua frente

A pedir, porque a cantar

De joelhos mais inocente

Eu rio do que estou a escrever

E lá vou eu, ter que rezar.

DIGAM...DIGAM !


Sou quase analfabeta é bem verdade
Mas escrever é o meu papel
Trago poesia entranhada na pele
E em mim trago a saudade.
Digam, façam acusação!
Pois que falem, é a realidade
Trago a poesia no coração
E a escrevo com ingenuidade.

Trago meus sentidos embotados
Desta dor só Deus sabe!
Meus versos não ficarão calados
Cantarão a mágoa que em mim já não cabe.
Meus olhos se perderam
Sabe-se lá por onde!
Os sorrisos se esconderam
Restam vestígios que o rosto esconde.

Quando toma conta
de mim a nostalgia
Choro de noite, sorrio de dia!
E assim a vida corre,
Enrolada num torpor,
Como balde de água fria
Ou um sonho sem sabor.

natalia nuno
rosafogo
imagem retirada - blog imagens para
decoupage.