quinta-feira, 24 de março de 2011

O tempo morre


No céu mesclo de azul
toca o eu perdido nas gotículas
nostálgicas das nuvens
e no brilho celeste do meu olhar
penso-te….

Os mares ausentam-se
nas cavernas terrenas
sou rio correndo agarrado
à noite lunar…
despido

Trago nas águas malhadas
o meu outro eu
aquele que cega e paralisa
no vácuo doloroso do tempo

E as mares voltam a encher
embebendo-me as veias
dilatadas de ti

Deixo pegadas de pés
na terra ausente
e no ar os aromas de todas as coisas
que me faz gente

Com rasgos de ternura
adormeço-me nos braços da vida

E o tempo morre nas minhas mão entrelaçadas

Pedaços de mim

Ao Sol estendo, a liberdade

E danço, solta nesta poesia

Trago ao peito mais saudade

Que desnuda assim a fantasia

E com cortesia, faço a ilusão

E puxo inspiração com cautela

Singela a alma, abraça o coração

Numa imagem imortal, tão bela

O silêncio trás a sombra pelo chão

Que pisa a chinela, sem piedade

E a penumbra do meu ego, anão

Ainda vive na minha mocidade

Que traz a chama viva, de donzela

Ao baile da saudade, Primavera

Onde estendi o Sol e à janela

Um olhar puro, ainda espera

Voltar a bailar, mais livre e feliz

No chão da vida que trago em mim

E raia um Sol assim e como quis

Matou a saudade, com liberdade, por fim.

Fogo


Céu,
pinheiros ao vento,

nuvens de fumo.


Há um fogo por apagar no meu peito.


O Sol cai direito ao corpo
quente,



(da espera)



as mãos sem direcção,
vazias dos momentos
adiados,
pensados,
os gestos.

A musica trai a memória num despertar
de sentidos
sem nome,
proibidos.

Cai a tarde,
a luz impera
na sombra
impura
até doer.


quarta-feira, 23 de março de 2011

Na mão do amor

Com a mão no peito, enliço

E prendo ousadia, coerente

De tanto, que me ralo com isso

Já vejo o meu universo diferente

Eu, já não tenho o compromisso

E retalio a passagem, indiferente

E contente, flutuo neste universo

Embalo a minha lua, tão sozinha

Do meu peito, o amor submerso

E fica a sós consigo, coitadinha

Vagueia na solidão, perdida

E da vida, eu já quero tudo

Quero ser feliz e mais querida

E por tudo isto, eu me iludo

E só quero amor na mão da vida.

terça-feira, 22 de março de 2011

In-Tolerância

In-Tolerância
 
Peço perdão… peço perdão pela minha frustração perante a intolerância alheia, caminhando para a indignação. Algo de negro se espalha, quando se assiste em directo a imperfeições colocadas no alto, debaixo de um véu de magistralidade? Ou serão os pequenos ciscos de luz no interior da minha pequenez a chocarem com a realidade? Peço perdão por pedir perdão, perante a lágrima que espreita à janela, que escorre por ela, e pisa este chão…

Clarisse Silva


segunda-feira, 21 de março de 2011

EU, POETA

Quando me nasce um poema,
todos os dias do mundo se concentram
na eternidade do sempre
e o instante eleva-me à condição de ser eleita,
afinado instrumento das palavras
que me tocam como mãos de mãe,
apaziguando os nódulos da minha alma imperfeita,
ensinando-me o instinto de ser também
fecunda genitora.
E sinto-me única,
criadora,
poeta.

Um pouco de humildade

Tão belos são, os sentimentos

Da vida, que eterniza um feito

Nas voltas do destino, se figura

Trazem rodopios os movimentos

Que entram soltos no meu peito

Para se prenderem a uma ternura.

Tão nobres os pedaços, que passo

Ao pensamento da mente, sincera

Que gira em meu torno, desnudada

A silhueta de tudo, que por si faço

Não murcham flores na Primavera

E o sonho d’ amor vem de mão dada.

E vai nos sentidos, pedaços de vida

Que enfeitam o peito, transparente

E, humildemente me sinto querida

E querida, eu flutuo, humildemente.

Viver

(Imagem google)



Olho para trás...
O tempo que vivi, sem viver...

Infância perdida no tempo
Entre adultos rígidos a me criar...
Entre brinquedos intemporais,
Minúsculos... dádivas sem pais...
Sem crianças onde me encontrar...
Nessa infância perdida no tempo...

Adolescência que passou...
Entre tabus e crenças d'outra era...
Sem gente da minha idade,
P'ra viver livre a mocidade...
Entre adultos criados noutra esfera...
Adolescência que passou...

Olho para trás...
O tempo que vivi, sem viver!...

domingo, 20 de março de 2011

A rezar de joelhos

Rezo e rogo, de mãos postas

Pela estrada da inspiração

Leva-me o vento de fantasia

Quando gosto do que gostas

Agito em mim, rebelião

E escrevo a rir, poesia.

Rogo e rezo, já de joelhos

Sem rédeas eu vou a caminho

Nos poemas de encantar

Quando não me dão conselhos

Ao ouvido bem baixinho

Tenho eu, alguns para dar.

E se de novo, as mãos erguer

Ajoelho-me à sua frente

A pedir, porque a cantar

De joelhos mais inocente

Eu rio do que estou a escrever

E lá vou eu, ter que rezar.

DIGAM...DIGAM !


Sou quase analfabeta é bem verdade
Mas escrever é o meu papel
Trago poesia entranhada na pele
E em mim trago a saudade.
Digam, façam acusação!
Pois que falem, é a realidade
Trago a poesia no coração
E a escrevo com ingenuidade.

Trago meus sentidos embotados
Desta dor só Deus sabe!
Meus versos não ficarão calados
Cantarão a mágoa que em mim já não cabe.
Meus olhos se perderam
Sabe-se lá por onde!
Os sorrisos se esconderam
Restam vestígios que o rosto esconde.

Quando toma conta
de mim a nostalgia
Choro de noite, sorrio de dia!
E assim a vida corre,
Enrolada num torpor,
Como balde de água fria
Ou um sonho sem sabor.

natalia nuno
rosafogo
imagem retirada - blog imagens para
decoupage.

sábado, 19 de março de 2011

A MEU PAI

Ao ler teus versos, ardentes, apaixonados
De saudade transbordou meu coração
Ditados por profundo amor, inspirados
Sonho daquele que com mil cuidados
Poisou sobre mim, de pai, a sua mão

Ao longe muito longe no tempo te venero
Saudoso pai que à vida intenso te doas-te
A tua memória guardo qual tesouro
Filigrana modelada no mais puro ouro
Voraz foi o tempo que por ti passou
Marilia Olema Correia




CORAÇÃO ERRANTE


O meu coração errante
Aportou à tua porta…
E quis reviver a distante
Ilusão talvez d’amante
Mas afinal quási morta.


E reviveu com saudade
Horas que não voltam a sorrir.
Os meus laços d’amizade,
Que para contigo beldade,
Jamais se hão-de partir.


E num momento reviveu
Todas as nossas relações.
Ai!...Infeliz coração meu…
Nem já sei quanto sofreu,
Ao recordar ilusões…


Agora pobre coração,
De que te serve o carpir?...
Se no fim do ano, então,
Partirá teu coração,
Querida colega - a fugir…


Depois um pouco distante,
Lá onde habitam teus pais.
Não ouvirás dissonante,
A voz deste estudante,
A suspirar e aos ais…


E continuará a errar,
Qual judeu débil, cansado.
Exausto de procurar,
Uma alma que saiba amar,
Meu coração malfadado…


Veríssimo Salvador Correia (1933)

FUTURO ONDE ESTÁS?

No meu ancestral impulso de ir ao que está para trás, de visitar horas vividas - aquelas que valeu a pena – porque as há demasiado sofridas a apelarem para o receptáculo do esquecimento - fascina-me viajar no tempo, desde o tempo adulto passando pela adolescência, desaguando na infância e mergulhando no mundo do não conhecimento, da não memória, na semente que germinou e se tornou naquele que hoje caminho na estrada da vida – avançada fase, diga-se. Mas mergulhar no tempo será também visitar aquele que me antecedeu, que outros viveram, mas obviamente vidas que valeram a pena. Aqui e naturalmente ocorrem-me figuras humanas que, como soe dizer-se, deixaram marca, lídima marca da sua passagem. Percursos de vida que para mim, vulgar cidadão são fonte de reflexão e apreço.

Esse apreço ou reconhecimento não se fica por aqueles que deixaram memória na boca das gerações vindouras. Memória nem sempre justa, diga-se em abono da verdade. O meu reconhecimento inscreve-se em letras que eu quereria serem de ouro naqueles que não ficaram na história, mas na simplicidade das suas vidas, em que esteve presente o trabalho insano, a dedicação sem limites, o espírito solidário, a honra que lhes transbordava da palavra, o respeito e estima pelo seu igual. Enche-me a alma empreender este tipo de viagem pelos caminhos da informação séria, mas também da imaginação que acredito brotar dos escanos do meu inconsciente, que creio ser fonte de verdade.
Essa viagem, obviamente ocasional, proporciona-me cenas decerto vividas na infância, mas que não deixam de expressar ou de algum modo traduzir o que foram as vidas das gerações precedentes. Quando penso que a previsão da condição de vida do homem que viveu há mil anos haveriam de ser as do que viveu há setecentos, as do que viveu há quinhentos, e depois há trezentos e até duzentos anos, eram praticamente as mesmas; e de imediato penso, concluindo, que a partir daqui, sensivelmente, se operou uma mudança profunda, fantástica, no ritmo e na qualidade da humana caminhada.
Fico perplexo, repartido entre um saudosismo habitado por uma espécie de ternura ou gratidão e o deslumbramento ante um futuro que começou a desenhar-se há duzentos anos e que nos nossos dias atinge já o inimaginável. Quero dizer: atinge um nível de progresso técnico e cientifico (palavrões outrora desconhecidos) que nos levanta uma interrogação sem limites em relação ao futuro. Naqueles remotos tempos, duzentos, trezentos ou quinhentos anos praticamente nada significavam em termos de avanço nesses domínios. Hoje, a geração onde a história nos colocou, não tem maneira de imaginar o que as coisas serão daqui a cinquenta anos. Em suma a caminhada no progresso do homem é uma vertigem de metas insondáveis.

Mas depois desta breve reflexão uma questão demasiado séria fica a vibrar na minha natureza e na minha própria ancestralidade: será que o homem em termos da humanidade que lhe esteja inscrita nas entranhas ou na essência, está a acompanhar a dita vertigem técnico/cientifica? Até prova em contrario, tudo me leva a crer, preocupantemente, que não.

Antonius

POEMA DE NINAR

(Gustav Klimt)


Quando as sombras caem
e o fogo me reúne
à volta dos meus afectos,
nascem estrelas tímidas,
que me adormecem perfumes
no colo...

Quando as sombras caem,
os ramos fortes das árvores
amparam o azul pálido
(que o lado do fogo cora),
num alcançar de abraço
maternal...

E toda a luz dos meus olhos
sobe do teu rosto ao céu,
agradecendo o teu sono
tranquilo.

Ergo-me, nas sombras caídas,
e aconchego um tesouro,
como quem deita no berço
um filho...
(Sterea)

TEMPO

Salvador Dali
TEMPO

Que faço do meu tempo?
Quanto sobra e quanto falta?
Mole e escorregadio
Derrete-se em desassossego!
E nele eu sou um rio…

Preencho-o em riscos ocasionais
Falo e penso
Num sopro de dentro
Guardando segredos
No silêncio!..
O coração
Bate…pula…
Ao percorrer
Os grafismos
Do teu querer
Da tua promessa
O teu desejo de mim
Que queres profundo
E sem pressa…

Sonho carinhos
Invento palavras
Risos no silêncio
Olhares pulsando
Lábios molhados
Noites intemporais
Paixão latejante
Corridas matinais
Sol abrasante
Corpos suados
Almas libertas
Rolando nos prados!

Quanto sobra e quanto falta?
Mole e escorregadio
Derrete-se em desassossego!
E nele eu sou um rio!

19.03.2011

SONS NO SILÊNCIO

Quando me apercebo, começo a trabalhar as pausas, a descobrir o ritmo, descubro este rito. Um ritual onde me rio comigo mesmo de haver tristeza, mais ainda de conhecer o seu ri(s)o a desaguar sons no silêncio. Vou da nascente à voz onde mudo de mudo ao modo de modelar o casulo do silêncio a criar crisálidas, desvendo-as vendo a transparência tornar-se lúcida da sua opacidade, libertando luz: translúcida.
Solto a perspectiva, vou-a buscar a primeiro momento, voa a referência até ao apetite onde a genealogia se perde nos genes  do génio que escolheu uma lamparina apagada para, uma vez nela, poder ser acordado. Então conheço uma historia fantástica, uma metáfora sem forma, é a forma amorfa dum verso onde o poema não procura a poesia, para curar na prosa, ressaca donde saca: um texto.
Falta-me um último parágrafo que agora ultimo, com os pormenores deliciosos do cio na fase das frases sibilantes de língua bífida serpenteando os sons no grafismo onde a fala fala de gestos numa mímica que mima na perfeição uma feição impávida da vida bem representada pela areia quando cai da fieira da ampulheta deixando esgotar o tempo, como agora digo ser este mesmo: acontecer.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Entre o vazio que cerca as estrofes


entre o vazio que cerca as estrofes,
no chão de pedra do meu silêncio,
desenho as palavras que me restam
e nunca fui capaz de pronunciar

vinco a folha pela dobra do verso
ao atravessar um desfiladeiro de vogais
no frémito lento onde ressoam
os pássaros feridos do meu lamento

como quem borda um rio sem margens
no frio enrodilhado da pele cercada
sacudo as amarras a que me condena
a escassa luz de um coro de consoantes

e sigo o sangue pisado das metáforas
sem adjectivos para fugir ao naufrágio
no grito obscuro que serpenteia
entre o vazio que cerca as estrofes

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quinta-feira, 17 de março de 2011

MÃOS NA NOITE

Quando os meus dedos se soltam de mim
Em fulgurante frenesi
Adivinho-lhes o intento
E na busca que demandam
Há flores de idílico jardim

Soltos os meus dedos
De piano as teclas eles não buscam
Nunca por nunca coisa trivial
Subtil eles sobem as montanhas que há em ti
Na perene ânsia das alturas

A noite harmoniza-se com o sonho
Dos meus dedos que saíram de mim
Que a noite é alfobre do amor
Receptáculo de um sentir profundo
Que não é sempre que emerge

Nesta noite os meus dedo sequiosos
Esventradas do meu ser as raízes
Não buscam a melodia das cordas
Nem da lira sons melodiosos
Tão pouco da harpa as matrizes

O que buscam tensos ansiosos
É floresta que floresce em ti
E em delírio afagam
É o curso de cascatas preciosas
Que o teu corpo em dadiva se oferece
À sede incontornável que há em mim.

Antonius

quarta-feira, 16 de março de 2011

Carta D´Amor - Ao Japão

Escrevo-te , meu doce amor , desta "terra do nunca" ...
podiam ser flores balançando na ponta luminosa
duma lamparina de lágrimas
tombando sobre o teu querido retrato , estilhaçado !
flores dizimadas estampando gritos nos escombros ...
podiam ser estrelas cintilando nos corpos , fragmentados !
nebulosa de sangue escorrendo pelo teu amado vestido ...
pés e mãos em aflição constroem o elo do tecido , paixão !
com amor
dum lado e do outro, por toda a rosa-dos-ventos
sopram pressas de chegar , abraço !
unem-se as velocidades trepando os montes , caídos ...
e em toda a mão há um pedacinho de céu , ajuda !
ante um inferno de mágoa ...

mas ...

é tão sagrado este momento
que se fossem flores
não seriam tantas as letras tingidas
de
sofridas

Teu Akira


Luiz Sommerville Junior , A Madrugada Das Flores ,160320111814


terça-feira, 15 de março de 2011

QUE FIZESTE HOJE AMOR?

Deitada sobre o teu peito
Sinto nos meus seios,
O teu coração…
Arfando ritmado
Em sintonia
De pulsação…
.
Escuto o que dizes…
Palavras balbuciadas
Lânguidas, repercutindo em mim…
Como um fio de cristal
Que vais tecendo
Como um ritual…
.
Olho a tua boca…
Leio no movimento
Dos teus lábios
As palavras…
Perto,
Tão perto
Que respiro
A brisa perfumada
Que exalas
E que vem
De calor impregnada!..
.
Ficamos sem tempo…
Tu falas
Eu escuto
Boca na boca…
Meus olhos
Dentro dos teus olhos…
.
Sinto-me divinizada,
De estar em ti
Assim…
Tão aconchegada
Tão aglutinada
No teu corpo de jasmim!
.
02.03.2011

Dispo o fogo escondido














Nas pálpebras dos teus olhos
dispo o fogo escondido
nas vestes
do meu trémulo sorriso
e alumio o teu olhar... pavio
com as fagulhas rubras
do meu corpo ébrio

em combustões lentas
incendeio-me nos teus braços
esquecida de mim