Ao ler teus versos, ardentes, apaixonados
De saudade transbordou meu coração
Ditados por profundo amor, inspirados
Sonho daquele que com mil cuidados
Poisou sobre mim, de pai, a sua mão
Ao longe muito longe no tempo te venero
Saudoso pai que à vida intenso te doas-te
A tua memória guardo qual tesouro
Filigrana modelada no mais puro ouro
Voraz foi o tempo que por ti passou
Marilia Olema Correia
CORAÇÃO ERRANTE
O meu coração errante
Aportou à tua porta…
E quis reviver a distante
Ilusão talvez d’amante
Mas afinal quási morta.
E reviveu com saudade
Horas que não voltam a sorrir.
Os meus laços d’amizade,
Que para contigo beldade,
Jamais se hão-de partir.
E num momento reviveu
Todas as nossas relações.
Ai!...Infeliz coração meu…
Nem já sei quanto sofreu,
Ao recordar ilusões…
Agora pobre coração,
De que te serve o carpir?...
Se no fim do ano, então,
Partirá teu coração,
Querida colega - a fugir…
Depois um pouco distante,
Lá onde habitam teus pais.
Não ouvirás dissonante,
A voz deste estudante,
A suspirar e aos ais…
E continuará a errar,
Qual judeu débil, cansado.
Exausto de procurar,
Uma alma que saiba amar,
Meu coração malfadado…
Veríssimo Salvador Correia (1933)
sábado, 19 de março de 2011
FUTURO ONDE ESTÁS?
No meu ancestral impulso de ir ao que está para trás, de visitar horas vividas - aquelas que valeu a pena – porque as há demasiado sofridas a apelarem para o receptáculo do esquecimento - fascina-me viajar no tempo, desde o tempo adulto passando pela adolescência, desaguando na infância e mergulhando no mundo do não conhecimento, da não memória, na semente que germinou e se tornou naquele que hoje caminho na estrada da vida – avançada fase, diga-se. Mas mergulhar no tempo será também visitar aquele que me antecedeu, que outros viveram, mas obviamente vidas que valeram a pena. Aqui e naturalmente ocorrem-me figuras humanas que, como soe dizer-se, deixaram marca, lídima marca da sua passagem. Percursos de vida que para mim, vulgar cidadão são fonte de reflexão e apreço.
Esse apreço ou reconhecimento não se fica por aqueles que deixaram memória na boca das gerações vindouras. Memória nem sempre justa, diga-se em abono da verdade. O meu reconhecimento inscreve-se em letras que eu quereria serem de ouro naqueles que não ficaram na história, mas na simplicidade das suas vidas, em que esteve presente o trabalho insano, a dedicação sem limites, o espírito solidário, a honra que lhes transbordava da palavra, o respeito e estima pelo seu igual. Enche-me a alma empreender este tipo de viagem pelos caminhos da informação séria, mas também da imaginação que acredito brotar dos escanos do meu inconsciente, que creio ser fonte de verdade.
Essa viagem, obviamente ocasional, proporciona-me cenas decerto vividas na infância, mas que não deixam de expressar ou de algum modo traduzir o que foram as vidas das gerações precedentes. Quando penso que a previsão da condição de vida do homem que viveu há mil anos haveriam de ser as do que viveu há setecentos, as do que viveu há quinhentos, e depois há trezentos e até duzentos anos, eram praticamente as mesmas; e de imediato penso, concluindo, que a partir daqui, sensivelmente, se operou uma mudança profunda, fantástica, no ritmo e na qualidade da humana caminhada.
Fico perplexo, repartido entre um saudosismo habitado por uma espécie de ternura ou gratidão e o deslumbramento ante um futuro que começou a desenhar-se há duzentos anos e que nos nossos dias atinge já o inimaginável. Quero dizer: atinge um nível de progresso técnico e cientifico (palavrões outrora desconhecidos) que nos levanta uma interrogação sem limites em relação ao futuro. Naqueles remotos tempos, duzentos, trezentos ou quinhentos anos praticamente nada significavam em termos de avanço nesses domínios. Hoje, a geração onde a história nos colocou, não tem maneira de imaginar o que as coisas serão daqui a cinquenta anos. Em suma a caminhada no progresso do homem é uma vertigem de metas insondáveis.
Mas depois desta breve reflexão uma questão demasiado séria fica a vibrar na minha natureza e na minha própria ancestralidade: será que o homem em termos da humanidade que lhe esteja inscrita nas entranhas ou na essência, está a acompanhar a dita vertigem técnico/cientifica? Até prova em contrario, tudo me leva a crer, preocupantemente, que não.
Antonius
Esse apreço ou reconhecimento não se fica por aqueles que deixaram memória na boca das gerações vindouras. Memória nem sempre justa, diga-se em abono da verdade. O meu reconhecimento inscreve-se em letras que eu quereria serem de ouro naqueles que não ficaram na história, mas na simplicidade das suas vidas, em que esteve presente o trabalho insano, a dedicação sem limites, o espírito solidário, a honra que lhes transbordava da palavra, o respeito e estima pelo seu igual. Enche-me a alma empreender este tipo de viagem pelos caminhos da informação séria, mas também da imaginação que acredito brotar dos escanos do meu inconsciente, que creio ser fonte de verdade.
Essa viagem, obviamente ocasional, proporciona-me cenas decerto vividas na infância, mas que não deixam de expressar ou de algum modo traduzir o que foram as vidas das gerações precedentes. Quando penso que a previsão da condição de vida do homem que viveu há mil anos haveriam de ser as do que viveu há setecentos, as do que viveu há quinhentos, e depois há trezentos e até duzentos anos, eram praticamente as mesmas; e de imediato penso, concluindo, que a partir daqui, sensivelmente, se operou uma mudança profunda, fantástica, no ritmo e na qualidade da humana caminhada.
Fico perplexo, repartido entre um saudosismo habitado por uma espécie de ternura ou gratidão e o deslumbramento ante um futuro que começou a desenhar-se há duzentos anos e que nos nossos dias atinge já o inimaginável. Quero dizer: atinge um nível de progresso técnico e cientifico (palavrões outrora desconhecidos) que nos levanta uma interrogação sem limites em relação ao futuro. Naqueles remotos tempos, duzentos, trezentos ou quinhentos anos praticamente nada significavam em termos de avanço nesses domínios. Hoje, a geração onde a história nos colocou, não tem maneira de imaginar o que as coisas serão daqui a cinquenta anos. Em suma a caminhada no progresso do homem é uma vertigem de metas insondáveis.
Mas depois desta breve reflexão uma questão demasiado séria fica a vibrar na minha natureza e na minha própria ancestralidade: será que o homem em termos da humanidade que lhe esteja inscrita nas entranhas ou na essência, está a acompanhar a dita vertigem técnico/cientifica? Até prova em contrario, tudo me leva a crer, preocupantemente, que não.
Antonius
POEMA DE NINAR
Quando as sombras caem
e o fogo me reúne
à volta dos meus afectos,
nascem estrelas tímidas,
que me adormecem perfumes
no colo...
Quando as sombras caem,
os ramos fortes das árvores
amparam o azul pálido
(que o lado do fogo cora),
num alcançar de abraço
maternal...
E toda a luz dos meus olhos
sobe do teu rosto ao céu,
agradecendo o teu sono
tranquilo.
Ergo-me, nas sombras caídas,
e aconchego um tesouro,
como quem deita no berço
um filho...
(Sterea)
TEMPO
TEMPO
Que faço do meu tempo?
Quanto sobra e quanto falta?
Mole e escorregadio…
Derrete-se em desassossego!
E nele eu sou um rio…
Preencho-o em riscos ocasionais
Falo e penso
Num sopro de dentro
Guardando segredos
No silêncio!..
O coração
Bate…pula…
Ao percorrer
Os grafismos
Do teu querer
Da tua promessa
O teu desejo de mim
Que queres profundo
E sem pressa…
Sonho carinhos
Invento palavras
Risos no silêncio
Olhares pulsando
Lábios molhados
Noites intemporais
Paixão latejante
Corridas matinais
Sol abrasante
Corpos suados
Almas libertas
Rolando nos prados!
Quanto sobra e quanto falta?
Mole e escorregadio…
Derrete-se em desassossego!
E nele eu sou um rio!
19.03.2011
Que faço do meu tempo?
Quanto sobra e quanto falta?
Mole e escorregadio…
Derrete-se em desassossego!
E nele eu sou um rio…
Preencho-o em riscos ocasionais
Falo e penso
Num sopro de dentro
Guardando segredos
No silêncio!..
O coração
Bate…pula…
Ao percorrer
Os grafismos
Do teu querer
Da tua promessa
O teu desejo de mim
Que queres profundo
E sem pressa…
Sonho carinhos
Invento palavras
Risos no silêncio
Olhares pulsando
Lábios molhados
Noites intemporais
Paixão latejante
Corridas matinais
Sol abrasante
Corpos suados
Almas libertas
Rolando nos prados!
Quanto sobra e quanto falta?
Mole e escorregadio…
Derrete-se em desassossego!
E nele eu sou um rio!
19.03.2011
SONS NO SILÊNCIO
Quando me apercebo, começo a trabalhar as pausas, a descobrir o ritmo, descubro este rito. Um ritual onde me rio comigo mesmo de haver tristeza, mais ainda de conhecer o seu ri(s)o a desaguar sons no silêncio. Vou da nascente à voz onde mudo de mudo ao modo de modelar o casulo do silêncio a criar crisálidas, desvendo-as vendo a transparência tornar-se lúcida da sua opacidade, libertando luz: translúcida.
Solto a perspectiva, vou-a buscar a primeiro momento, voa a referência até ao apetite onde a genealogia se perde nos genes do génio que escolheu uma lamparina apagada para, uma vez nela, poder ser acordado. Então conheço uma historia fantástica, uma metáfora sem forma, é a forma amorfa dum verso onde o poema não procura a poesia, para curar na prosa, ressaca donde saca: um texto.
Solto a perspectiva, vou-a buscar a primeiro momento, voa a referência até ao apetite onde a genealogia se perde nos genes do génio que escolheu uma lamparina apagada para, uma vez nela, poder ser acordado. Então conheço uma historia fantástica, uma metáfora sem forma, é a forma amorfa dum verso onde o poema não procura a poesia, para curar na prosa, ressaca donde saca: um texto.
Falta-me um último parágrafo que agora ultimo, com os pormenores deliciosos do cio na fase das frases sibilantes de língua bífida serpenteando os sons no grafismo onde a fala fala de gestos numa mímica que mima na perfeição uma feição impávida da vida bem representada pela areia quando cai da fieira da ampulheta deixando esgotar o tempo, como agora digo ser este mesmo: acontecer.
sexta-feira, 18 de março de 2011
Entre o vazio que cerca as estrofes
entre o vazio que cerca as estrofes,
no chão de pedra do meu silêncio,
desenho as palavras que me restam
e nunca fui capaz de pronunciar
vinco a folha pela dobra do verso
ao atravessar um desfiladeiro de vogais
no frémito lento onde ressoam
os pássaros feridos do meu lamento
como quem borda um rio sem margens
no frio enrodilhado da pele cercada
sacudo as amarras a que me condena
a escassa luz de um coro de consoantes
e sigo o sangue pisado das metáforas
sem adjectivos para fugir ao naufrágio
no grito obscuro que serpenteia
entre o vazio que cerca as estrofes
______________________________________
quinta-feira, 17 de março de 2011
MÃOS NA NOITE
Quando os meus dedos se soltam de mim
Em fulgurante frenesi
Adivinho-lhes o intento
E na busca que demandam
Há flores de idílico jardim
Soltos os meus dedos
De piano as teclas eles não buscam
Nunca por nunca coisa trivial
Subtil eles sobem as montanhas que há em ti
Na perene ânsia das alturas
A noite harmoniza-se com o sonho
Dos meus dedos que saíram de mim
Que a noite é alfobre do amor
Receptáculo de um sentir profundo
Que não é sempre que emerge
Nesta noite os meus dedo sequiosos
Esventradas do meu ser as raízes
Não buscam a melodia das cordas
Nem da lira sons melodiosos
Tão pouco da harpa as matrizes
O que buscam tensos ansiosos
É floresta que floresce em ti
E em delírio afagam
É o curso de cascatas preciosas
Que o teu corpo em dadiva se oferece
À sede incontornável que há em mim.
Antonius
Em fulgurante frenesi
Adivinho-lhes o intento
E na busca que demandam
Há flores de idílico jardim
Soltos os meus dedos
De piano as teclas eles não buscam
Nunca por nunca coisa trivial
Subtil eles sobem as montanhas que há em ti
Na perene ânsia das alturas
A noite harmoniza-se com o sonho
Dos meus dedos que saíram de mim
Que a noite é alfobre do amor
Receptáculo de um sentir profundo
Que não é sempre que emerge
Nesta noite os meus dedo sequiosos
Esventradas do meu ser as raízes
Não buscam a melodia das cordas
Nem da lira sons melodiosos
Tão pouco da harpa as matrizes
O que buscam tensos ansiosos
É floresta que floresce em ti
E em delírio afagam
É o curso de cascatas preciosas
Que o teu corpo em dadiva se oferece
À sede incontornável que há em mim.
Antonius
quarta-feira, 16 de março de 2011
Carta D´Amor - Ao Japão
Escrevo-te , meu doce amor , desta "terra do nunca" ...
podiam ser flores balançando na ponta luminosa
duma lamparina de lágrimas
tombando sobre o teu querido retrato , estilhaçado !
flores dizimadas estampando gritos nos escombros ...
podiam ser estrelas cintilando nos corpos , fragmentados !
nebulosa de sangue escorrendo pelo teu amado vestido ...
pés e mãos em aflição constroem o elo do tecido , paixão !
com amor
dum lado e do outro, por toda a rosa-dos-ventos
sopram pressas de chegar , abraço !
unem-se as velocidades trepando os montes , caídos ...
e em toda a mão há um pedacinho de céu , ajuda !
ante um inferno de mágoa ...
mas ...
é tão sagrado este momento
que se fossem flores
não seriam tantas as letras tingidas
de
sofridas
Teu Akira
Luiz Sommerville Junior , A Madrugada Das Flores ,160320111814
terça-feira, 15 de março de 2011
QUE FIZESTE HOJE AMOR?
Deitada sobre o teu peito
Sinto nos meus seios,
O teu coração…
Arfando ritmado
Em sintonia
De pulsação…
.
Escuto o que dizes…
Palavras balbuciadas
Lânguidas, repercutindo em mim…
Como um fio de cristal
Que vais tecendo
Como um ritual…
.
Olho a tua boca…
Leio no movimento
Dos teus lábios
As palavras…
Perto,
Tão perto
Que respiro
A brisa perfumada
Que exalas
E que vem
De calor impregnada!..
.
Ficamos sem tempo…
Tu falas
Eu escuto
Boca na boca…
Meus olhos
Dentro dos teus olhos…
.
Sinto-me divinizada,
De estar em ti
Assim…
Tão aconchegada
Tão aglutinada
No teu corpo de jasmim!
.
02.03.2011
Etiquetas:
QUE FIZESTE HOJE MEU AMOR? - MARISASOVERAL
Dispo o fogo escondido
segunda-feira, 14 de março de 2011
PREIA-(A)MAR
Vogo, vadia, ao sabor do teu corpo
Rogo, rendida, teu gosto salgado
Colo a meu colo o vaivém que te encorpo
Afogo-te em fogo o gozo esperado
Navegas, negas-me a maré descente
Cresce e entumesce, o teu mastro à deriva
Segue, sedento e em busca ascendente
Alcança alvíss'ras, costa prometida
Sacio, sadia, a ânsia guardada
Entrego-me em troca ao teu espraiar
Na areia onde ardes em chuva ansiada
Estremeces, feneces ao sopro d’um beijo
Sagras-me sereia e porto d’ amar
Esmaeces, a esmo, em mar desejo...
Rogo, rendida, teu gosto salgado
Colo a meu colo o vaivém que te encorpo
Afogo-te em fogo o gozo esperado
Navegas, negas-me a maré descente
Cresce e entumesce, o teu mastro à deriva
Segue, sedento e em busca ascendente
Alcança alvíss'ras, costa prometida
Sacio, sadia, a ânsia guardada
Entrego-me em troca ao teu espraiar
Na areia onde ardes em chuva ansiada
Estremeces, feneces ao sopro d’um beijo
Sagras-me sereia e porto d’ amar
Esmaeces, a esmo, em mar desejo...
domingo, 13 de março de 2011
DEIXEI-ME A SONHAR

Deixei-me transportar
Aos dias do passado
Deixei-me a sonhar.
Minha alegria ficou triste
Entrei com cuidado
Mas lá já nada existe.
Só o rio continua a cantar
O salgueiro chora sobre ele
a mágoa.
O velho moinho continua a andar
E o ceu azul espelha-se na água.
Já o forno não coze o pão
E a velha mercearia?
Pobre do meu coração!
Sofre a tristeza e a alegria.
Hoje não lavo no rio
Nem ponho a cântara à cabeça
Minha vida por um fio
Já nem há quem me conheça.
Molham-se me os olhos
Com esta saudade que me domina
Lembro a menina do vestido aos folhos
Lembro, lembro sempre essa menina.
rosafogo
natalia nuno
retitada imagem-blog imagens para decoupage
UM MOMENTO
Para a prosa se encontrar com o silêncio cavalga uma poesia sem versos onde se agarra às crinas sentindo os dedos nas mãos levando o sonho do corpo entregue ao movimento onde se integra e interage com o universo num todo mudo onde a voz modela a fala da escrita e dita este diálogo surdo onde mudo da noite para o dia na alegria dador de coloridos doridos de todos os excessos entregues à escassez capaz de ditar a penúria exótica duma normalidade excelente para absorver a loucura dando-lhe cura numa suave melodia onde canta a cotovia ou viaja onda no mar dum continente a outro até circundar a ilha nua onde se despe o tempo ao deitar nu um momento.
sábado, 12 de março de 2011
Nascem pássaros nos meus dedos
Estendo-me sobre o deslumbramento
do orvalho derradeiro
o campo eliminou o nevoeiro
o céu avança
irradia sonhos
e velas desfraldadas
o mar entende o absurdo
do meu eco
a seara é segura
nos meus olhos de raízes fundas
e fadiga iluminada
o fogo substitui o espelho nu
nascem pássaros insubmissos
nos meus dedos
sóis
poeiras das estrelas
e o caminho
é além dos meus umbrais
trigo
fermento
árvore
tempo
Marialuz
do orvalho derradeiro
o campo eliminou o nevoeiro
o céu avança
irradia sonhos
e velas desfraldadas
o mar entende o absurdo
do meu eco
a seara é segura
nos meus olhos de raízes fundas
e fadiga iluminada
o fogo substitui o espelho nu
nascem pássaros insubmissos
nos meus dedos
sóis
poeiras das estrelas
e o caminho
é além dos meus umbrais
trigo
fermento
árvore
tempo
Marialuz
Tarde de Outono
Hoje neste fim de tarde outonal, em contra-ponto com a atitude de todos os dias, não estou distraído. Quero dizer que estou com os sentidos despertos, os olhos abertos, os ouvidos atentos, o cheiro a inalar fragrâncias, porventura odores desestimulantes, o paladar e o tacto em repouso mas predispostos a assumirem funções. Enfim, no que diz respeito à minha pessoa e ante aquele que sou, sinto-me inteiro.
Mas hoje, neste fim de tarde outonal, não me basta a funcionalidade dos cinco sentidos. Outras vozes, outros sons estranhos a mim mas de que sou espectador me preenchem, de alguma maneira me falam de mim. Falam-me em essência da experiência fantástica de estar vivo. Sobressai aquilo que os meus olhos vêem e os meus ouvidos escutam. Não sei qual mais importante embora até há pouco julgasse que sabia.
Hoje a esta hora deixo-me deslumbrar por aquilo a que chamamos natureza, que é feita de coisas mil. As andorinhas aglomeram-se nos fios eléctricos prontas a partir para outras longes terras, a folhagem atapeta já os campos e os caminhos, o sol prepara-se para desaparecer no horizonte, uma esguia nuvem a acompanhá-lo.
O sol vai-se embora, mas amanhã pela madrugada aí está ele, sempre fiel, a anunciar a sua presença. Como ainda é dia, a lua não passa de uma pequena nuvem redonda, mas que se vai iluminando na medida em que o sol caminha para outras terras, aquece outras gentes.
A terra, o sol, a lua, a estrela da noite (que é a mesma da manhã), que de engrenagem fantástica! Que de poder o do portentoso Acaso! Que de fecundo na diversidade dos frutos que nos prodigaliza! Mas como, Acaso? Não, eu não creio no Acaso. Mas esta engrenagem que nesta hora me prende todas as atenções teve um princípio. Quando e como?
Mas no meu encantamento eu distraí-me sem perdão. Perdi-me nas emoções, tantas que elas são e só agora vi o Amor mas, grande que ele é ofusca tudo o mais, a própria engrenagem cósmica que me arrebatou neste fim de tarde de Outono.
Antonius
Mas hoje, neste fim de tarde outonal, não me basta a funcionalidade dos cinco sentidos. Outras vozes, outros sons estranhos a mim mas de que sou espectador me preenchem, de alguma maneira me falam de mim. Falam-me em essência da experiência fantástica de estar vivo. Sobressai aquilo que os meus olhos vêem e os meus ouvidos escutam. Não sei qual mais importante embora até há pouco julgasse que sabia.
Hoje a esta hora deixo-me deslumbrar por aquilo a que chamamos natureza, que é feita de coisas mil. As andorinhas aglomeram-se nos fios eléctricos prontas a partir para outras longes terras, a folhagem atapeta já os campos e os caminhos, o sol prepara-se para desaparecer no horizonte, uma esguia nuvem a acompanhá-lo.
O sol vai-se embora, mas amanhã pela madrugada aí está ele, sempre fiel, a anunciar a sua presença. Como ainda é dia, a lua não passa de uma pequena nuvem redonda, mas que se vai iluminando na medida em que o sol caminha para outras terras, aquece outras gentes.
A terra, o sol, a lua, a estrela da noite (que é a mesma da manhã), que de engrenagem fantástica! Que de poder o do portentoso Acaso! Que de fecundo na diversidade dos frutos que nos prodigaliza! Mas como, Acaso? Não, eu não creio no Acaso. Mas esta engrenagem que nesta hora me prende todas as atenções teve um princípio. Quando e como?
Mas no meu encantamento eu distraí-me sem perdão. Perdi-me nas emoções, tantas que elas são e só agora vi o Amor mas, grande que ele é ofusca tudo o mais, a própria engrenagem cósmica que me arrebatou neste fim de tarde de Outono.
Antonius
Desejo
Neste rio ameno em que me desvio
na cascata rubra em que mergulho
sinto as algas, tuas mãos
roçando….
perde-se o meu corpo em desvario,
na profunda louquice de ser
….. desejo
na cascata rubra em que mergulho
sinto as algas, tuas mãos
roçando….
perde-se o meu corpo em desvario,
na profunda louquice de ser
….. desejo
sexta-feira, 11 de março de 2011
O Milagre
Deitado com o coração trémulo , apanhado !
agarrado ao fio invisível do primeiro dia , música !
A flutuar ... ó salva das vidas , palmas !
LSJ , 110320111035
LSJ , 110320111035
quinta-feira, 10 de março de 2011
Pertinho do céu

Sento-me num degrau qualquer
pertinho do céu
Desfolho os raios solares
lentamente,
como quem degusta
o corpo do destino
Sinto a suavidade da tua voz
sussurrante
estremecendo-me
em inacabado desatino
Perco-me na infinitude
desse mar
nas sinuosidades escarpadas
do teu corpo.
Em abraço perpetuado,
permaneço
neste meu modo simples
de estar
Liberto-me na mais pura
essência de vida
rasgo as barreiras dos mirares
delatores
e no cume do despenhadeiro,
reinvento
uma nova forma de recomeçar
Num degrau pertinho do céu
quarta-feira, 9 de março de 2011
Almas Quebradas

Sabedores de um círculo aberto, até que seja reposta a ordem inversa, ao traçar-se a única trajectória onde os navegantes circulam sempre no sentido oposto, será assim o indicador dessa mesma ordem. Serão sempre todos os sentidos remetidos ao novo círculo que começa agora a tomar forma, a dizer-se onde e como deve chegar a todos os lugares. Na terra, correm rumores de signos outros, correntes que extravasam as almas quebradas, a atingir a fonte de um espaço aberto, um remedeio deste meu cansaço. Quero que as forças dos teus braços me sigam rumo ao tempo, em que de joelhos no chão, me cegava quando atingia as alturas onde o teu corpo descansava e o meu se entregava às ceifas das searas amadurecidas pelo tempo. Quero que todos os sóis se espalhem por todos os espaços onde acordas as formas e adormeces todos os meus sorrisos. Quero um novo sorriso nas faces da lua, e que a noite seja o novo círculo a afagar os medos e remediar outros cansaços.
Saber que o meu corpo é um desejo e a minha alma uma corrente a gastar-se nas formas dúbias que carrega, é assumir que há correcções que só servem para manipular os sentimentos e disseminar as curvas e contra curvas de um corpo que quer, porque quer, assumir-se inteiro e verdadeiro na proporção dos desejos da alma. Porque os meus sonhos te desenterraram? Porque as minhas mãos manipularam a fome, o desejo, a sede e todos os tempos que me contornaram na procura de um só movimento, de uma só forma que sairá em tempo certo das tuas mãos?
Caíram todos os andores e todos os braços erguidos aos céus se desconjuntaram. Há santos espalhados pelo chão e nódoas negras nas minhas pernas, por me ter permitido ser um, em todos os fragmentos que ficaram. Lembrei-me de um sonho que beliscou a tua mão trémula, quando permitiste ser Homem na terra e Deus no Céu.
terça-feira, 8 de março de 2011
AVISO DE COBRANÇA
Se te disser o que me trouxe aqui, não te assustes... vim só cobrar o que me deves. Ou cobrar o que te devo. Sei que o juro que me tens pago ultrapassou já largamente a dívida a que te obriguei. Sei disso. Mas dívida é dívida, e a hora da cobrança, a minha hora de cobrança, é fatal e impiedosa. Devo-te eu também dividendos que usufrui de ti e a cobrança é mútua: pagaste-me em viço, em vida, em esperança, em lida, em paciência, em dor, em saudade, em alegria, em tristeza, em abnegação, em sacrifício. Apliquei tudo isso ciosamente, avaramente, lucidamente, não penses que esbanjei um sequer cristal de sal ou suor teu. Sou um bom economista (ou economicista?). O lucro, porém, oferto-to. É a renda que te cabe. É a colheita duma vida, os frutos do amor, da resistência, da esperança, da coragem. Mas exijo o capital da dívida na íntegra. Hoje. Não vou esperar mais, o momento é agora, porque o agora é o único tempo que nos resta. Exijo a totalidade do que me vens adiando, uma vida inteira, pagar: os resíduos do teu secreto ser, o joio que extraíste das jóias que facetaste, o cofre onde guardas os teus segredos e fraquezas, faltas e audácias, os talentos que guardaste sob o colchão onde dormiste toda uma vida, os dobrões que amealhaste por não teres, tantas vezes, dado a cara, e escolheres honrar a coroa...
Quero o teu outro lado, aquele que deixaste de viver.
Não tenhas medo. É pagar ou morrer...
Quero o teu outro lado, aquele que deixaste de viver.
Não tenhas medo. É pagar ou morrer...
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