sábado, 12 de março de 2011

Desejo

Neste rio ameno em que me desvio
na cascata rubra em que mergulho
sinto as algas, tuas mãos
roçando….

perde-se o meu corpo em desvario,
na profunda louquice de ser
….. desejo

sexta-feira, 11 de março de 2011

O Milagre



Deitado com o coração trémulo , apanhado !
agarrado ao fio invisível do primeiro dia , música !

A flutuar ... ó salva das vidas , palmas !



LSJ , 110320111035



quinta-feira, 10 de março de 2011

Pertinho do céu
















Sento-me num degrau qualquer
pertinho do céu

Desfolho os raios solares
lentamente,
como quem degusta
o corpo do destino

Sinto a suavidade da tua voz
sussurrante
estremecendo-me
em inacabado desatino

Perco-me na infinitude
desse mar
nas sinuosidades escarpadas
do teu corpo.

Em abraço perpetuado,
permaneço
neste meu modo simples
de estar

Liberto-me na mais pura
essência de vida
rasgo as barreiras dos mirares
delatores
e no cume do despenhadeiro,
reinvento
uma nova forma de recomeçar

Num degrau pertinho do céu

quarta-feira, 9 de março de 2011

Almas Quebradas




Sabedores de um círculo aberto, até que seja reposta a ordem inversa, ao traçar-se a única trajectória onde os navegantes circulam sempre no sentido oposto, será assim o indicador dessa mesma ordem. Serão sempre todos os sentidos remetidos ao novo círculo que começa agora a tomar forma, a dizer-se onde e como deve chegar a todos os lugares. Na terra, correm rumores de signos outros, correntes que extravasam as almas quebradas, a atingir a fonte de um espaço aberto, um remedeio deste meu cansaço. Quero que as forças dos teus braços me sigam rumo ao tempo, em que de joelhos no chão, me cegava quando atingia as alturas onde o teu corpo descansava e o meu se entregava às ceifas das searas amadurecidas pelo tempo. Quero que todos os sóis se espalhem por todos os espaços onde acordas as formas e adormeces todos os meus sorrisos. Quero um novo sorriso nas faces da lua, e que a noite seja o novo círculo a afagar os medos e remediar outros cansaços.

Saber que o meu corpo é um desejo e a minha alma uma corrente a gastar-se nas formas dúbias que carrega, é assumir que há correcções que só servem para manipular os sentimentos e disseminar as curvas e contra curvas de um corpo que quer, porque quer, assumir-se inteiro e verdadeiro na proporção dos desejos da alma. Porque os meus sonhos te desenterraram? Porque as minhas mãos manipularam a fome, o desejo, a sede e todos os tempos que me contornaram na procura de um só movimento, de uma só forma que sairá em tempo certo das tuas mãos?

Caíram todos os andores e todos os braços erguidos aos céus se desconjuntaram. Há santos espalhados pelo chão e nódoas negras nas minhas pernas, por me ter permitido ser um, em todos os fragmentos que ficaram. Lembrei-me de um sonho que beliscou a tua mão trémula, quando permitiste ser Homem na terra e Deus no Céu.

terça-feira, 8 de março de 2011

AVISO DE COBRANÇA

Se te disser o que me trouxe aqui, não te assustes... vim só cobrar o que me deves. Ou cobrar o que te devo. Sei que o juro que me tens pago ultrapassou já largamente a dívida a que te obriguei. Sei disso. Mas dívida é dívida, e a hora da cobrança, a minha hora de cobrança, é fatal e impiedosa. Devo-te eu também dividendos que usufrui de ti e a cobrança é mútua: pagaste-me em viço, em vida, em esperança, em lida, em paciência, em dor, em saudade, em alegria, em tristeza, em abnegação, em sacrifício. Apliquei tudo isso ciosamente, avaramente, lucidamente, não penses que esbanjei um sequer cristal de sal ou suor teu. Sou um bom economista (ou economicista?). O lucro, porém, oferto-to. É a renda que te cabe. É a colheita duma vida, os frutos do amor, da resistência, da esperança, da coragem. Mas exijo o capital da dívida na íntegra. Hoje. Não vou esperar mais, o momento é agora, porque o agora é o único tempo que nos resta. Exijo a totalidade do que me vens adiando, uma vida inteira, pagar: os resíduos do teu secreto ser, o joio que extraíste das jóias que facetaste, o cofre onde guardas os teus segredos e fraquezas, faltas e audácias, os talentos que guardaste sob o colchão onde dormiste toda uma vida, os dobrões que amealhaste por não teres, tantas vezes, dado a cara, e escolheres honrar a coroa...
Quero o teu outro lado, aquele que deixaste de viver.
Não tenhas medo. É pagar ou morrer...

sábado, 5 de março de 2011

AQUELE PARA ALEM DE MIM

Esbracejando deslizo
Sobre o mar dos meus pensamentos
Ignorante a meu respeito
Borbulha nesse mar
O mundo das minhas interrogações
Estranha consciência
De dois que fazem um
Sendo aquele que esbraceja
Sob o tecido aquático
Bem mais que isso
Mas infinitamente
Sou o que feito tornado
Fui construído pelo tempo
E pelo tempo que foi antes de mim
Um sem fim de flashes luminosos
Que se cruzam e entrecruzam
Feitos esse outro eu
Onde com inteireza
Habita num torvelinho
Aquele que deveras sou

Antonius

Soneto heróico

No mar jazem homens, como heróis
Lúgubre ausência, vil morte
Enlutada é, triste consorte
Admoestados ventos, castram sóis

Navegadores que a vida deram
Para conquistar outras paragens
Cheiros intensos, aves, aragens
Lugares, povos que enalteceram

O soneto veste-se de louvor
Sublime o acto que lhe assiste
Na arte, história que persiste
Mapa de sangue feito de amor

Cantam-se himos de saudade
De pé, aplausos, posteridade

Barco de fuga


Sentado no litoral do imaginário
o poeta desenha um barco
com a madeira solitária dos versos
que guarda nas folhas amarrotadas
de um caderno negro

Desenha o mar distante da infância
e a paisagem costeira
de um secreto itinerário de espuma
com a água que lhe sobra
do olhar exausto e vencido

Aos confins longínquos da memória
resgata os traços trémulos do vento
com que acende a luz de um verão antigo
sobre um fundo azul
onde desenha o cais de onde nunca partiu

E espera pela subida da maré
para traçar os caminhos de fuga
por entre as quilhas da página vazia
onde o sol rasga vagas de névoa
e as sereias enredam viajantes perdidos

.

sexta-feira, 4 de março de 2011

OS DIAS POISAM EM MIM



A solidão é uma pedra no peito
O tempo esse passou
Ficou para trás em bocados feito
Como água no cais que enlodou.
Só meu coração
Ainda está quente
e sente,
a cada momento,
um novo alento.
Entre o tempo e a eternidade
Vive nele a caber
multiplicada a saudade.
Neste entretanto que é viver
e morrer.

De súbito vejo cair a tarde
É mais um dia que finda
Mais um que me trouxe a verdade
Que tudo é efemero, nesta vida
desavinda.
Raras vezes conseguida
a paz que tanto se anseia
Á espera dum sentido p'ra vida
Ao lusco-fusco volta e meia.

Há sempre um não sei quê
A vergar-nos os ombros
E eu insisto porquê?
Encher o peito de escombros.
Os dias poisam em mim
Tão velhos quanto eu
E este chegou ao fim
Levando um pouco do que é meu.

Nada sei...

Só sei!

Que o dia passou a correr
E eu aqui fiquei,
nesta solidão,
onde me invento e sinto a desvanecer.
Ou será ilusão?

Mas isso não importa,
Importa!
Que hoje ouvi o som do ribeiro
O chilrear do passaredo
Senti das mimoseiras o cheiro
Respirei o ar puro do arvoredo.

Assim me encontrei a sós comigo
Lembrei quantos amei verdadeiramente
Alguém me falou ao ouvido
Amanhã terás outro dia, de presente.


natalia nuno
rosafogo
imagem retirada do blog-imagens para decoupage

Ai esta solidão!


ai esta estúpida solidão
que me morde a mão...
que me amassa névoas...
no recanto do espelho.

procuro na palavra...
uma terra de sílabas...
um frasco de frases...
para lavar a véspera de tudo.

não!..não partilho a minha embriaguez
com os gestos efémeros de um qualquer copo oxidado
nem dispo o nó cego que me atolaram na garganta

ergo no ar a guilhotina da rima 
que me faz renascer...
que me faz migrar...
na última estrofe com resíduos de insanidade.

Eduarda

Deixa-me ler-te à luz da vela





No deserto do tempo impune
Arranquei labaredas dos teus olhos
Sem saber se as algas
Que me salgavam o rosto
Tinham o mesmo sabor frio
Das mazelas que pintei no teu corpo

Quem me dera poder apagá-las
Num simples traço a carvão
Sucumbindo em seguida
Sob os braços da Mendiga Romana

Talvez o lamaçal d’ escuridão
Que carrego nesta pena incondicional
Partisse com o clarão de luz
Que atravessa esta cela de barro

Deixa-me ler-te à luz da vela
Quando o dia se acabar


Conceição Bernardino

quinta-feira, 3 de março de 2011

Atenção a todos (Antologia - Urgente)

Ainda não recebemos todas as participações dos autores que irão integrar a Antologia.

Solicita-se que os façam chegar até ao final da próxima semana, para que se possa organizar o ficheiro no sentido de vos ser enviado para verificação e/ou correcção, após o que se enviará para a Editora. Só assim se poderá ter a proposta para ser analisada por todos.



Nota: Enviem o documento em formato WORD

No centro de mim.

No centro de mim.

Se me encontrares aqui
neste lado do mundo
onde me encontro
...na nudez do corpo
na paz e na calma
que o silêncio
me traz

se eu te procurar ali
no cimo de tudo
no topo do mundo
nas guerras vencidas
nas lutas perdidas
na força de ser
a coragem
de viver.

Se nos encontrarmos
nas voltas da terra
no centro do meu silêncio
na frágeis flores
testemunhas expostas
ao vento.

se tu e eu
formos a força dos céus
o amanhecer rasgando horizontes
a esperança vencida
a junção do corpo e espírito
num todo que gira
a volta da terra
no incessante procura
que sou EU.


São Gonçalves

TU

Nos teus lábios
Impossibilidade possível
De reinventar a suprema subtileza
Sentindo a essência
brisa abrasiva em lufadas
hálito apelativo
polpa de cereja
voz de emoção
Bela e inquietante
Titubeando comoção!...
.
Nos teus olhos…
viagens
feitiço do mar profundo…
magia da montanha
cheia de assombros…
a descobrir…
laços de cumplicidade
expurgação da sombra
interioridade!
.
No teu corpo conceptual
exercício musical
de contornos ondulantes
Sortilégio lírico invulgar
entidade sensível
paraíso clandestino
de tudo aquilo que é
de tudo aquilo que me completa
de tudo aquilo que quero
de tudo aquilo que acalma
a minha alma inquieta!...
28.02.2011

quarta-feira, 2 de março de 2011

Grande Curva.

Acentuada é a curva da história
Neste tempo não sonhado em que vivemos
Creio não haver registo nem memória
Não ter sido nunca o mundo como o vemos

O progresso chega a ser deslumbramento
Num pasmo vêem os homens o que acontece
Pressentido parece ser o fermento
De algo que vai ser grande ou fenece

Entrou incrédula a minha geração
Nessa curva pelos homens não sonhada
A sentir começa a ter boa razão
De se indagar porque forças é levada

Desconcertante a curva desenhada
Que o homem foi pobre em discernir
Séria se mostra a curva nesta estrada
Inquire-se o homem acerca do devir

Fácil foi para o homem de antanho
Ver o mundo que se lhe seguiria
Pouco mais do que das terras o amanho
Era o que o seu pensar ao longe via

Nestes tempos porém para seu desnorte
A curva faz-se de interrogação
Não sabe se vai para sul ou para norte
Na mente se lhe derrama a confusão

Se a curva está no termo se pergunta
Pressentindo parecer de maior tino
A sua sorte não quer ver defunta
Aforra a sua esperança no destino

Antonius

Eu tive um sonho




Eu tive um sonho de amor feito
Ornado com pétalas de mil cores
Sonhei que esse sonho
Abarcasse o universo
Mas o sonho era tão grande
Que espaço minguava para o acolher
Reguei-o com dourada filigrana
E beijei-o com o beijar dos deuses
Esse beijo de fecundo
O universo fez sem medidas
Tornando-o pátria da beleza
Puxado pelo corcel da realeza
Infinitamente acolhedor
Regaço do mais extremado amor.

Olema

O AMOR ACONTECE


Quando o sol amadurece
Não quero nem saber porque morri
Uma tontura nova e doce acontece
E eu esqueço o muito que já vivi.
Volto ao aconchego das palavras
Morrer foi o que de bom senti
Perfumei o corpo que desvabras
E hoje de amor por ti morri.

O Amor é romã que se abre
Ao sol que a amadurece
É um querer bem
Que bem que sabe
Na margem doce de qualquer tarde
É mel que sempre apetece.
É um frémito de saudade.

Perdidos em mar profundo,
tu e eu,
Surdos ao Mundo
Nesse desejo ardente ,meu e teu.

A parede do quarto já sombria
O sol ainda bordejando a janela,
Suspiros de amor que se sacia
Lá fora a vida, nos esquecemos dela.

natalia nuno
rosafogo
imagem retirada do blog-imagens para decoupage

Um simples sono



sou um simples sono de vida que tenho e ignoro onde vivo.
tive outras vidas e um só sonho.

na que vivo agora sou cor de mar e fujo da alma que tive
e das dores onde estou.

talvez as veja e as sinta, como vento do que ontem fui
e que enrolo hoje na rede da razão.

e já vi tantos sonhos e tantas dores,
que tenho a impressão que sou sono de tela
ou lama lacre do vento que me roça os dedos.

será inútil a mudança da cor, do que já não há
em tanto que supus, como coisa de sonho que tinha dentro
e já não sinto como sono.

quando acordar pergunto-me se sonhei real
ou apenas ébria no assombro lúcido do sono que sou enquanto sonho.

Eduarda

terça-feira, 1 de março de 2011

AMOR EM RÉ MENOR

Sou uma nesga de tempo projectada no desmesurado do Tempo
Meteorito em noite de estrelas cadentes
Madrugada de um dia que muito longe se anuncia
Mergulho no mais fundo de mim rondando a morte
Constelação sem estrelas, dormente

Sou um pedaço de mim que rasgou o tempo
Por fresta aberta no inicial magma
Rajada de vento que num momento
Serenou, pacificou, sem perda do fôlego

Sou mais forte do que eu, eu sei que sou
As minhas contas ultrapassei há muito
Perguntando-me se vou, sem saber se vou
Atrevo-me por caminhos não percorridos
Mais que em coragem invisto na suave brisa

Deixei de ser pedaço desse tempo sem medidas
Inteiro passei a ser cioso da inteireza
Vislumbrei constelações ainda ocultas
Pressenti por detrás do inicial meteoro
Acesas, incandescentes brasas
Do em ré menor, eternamente buscado amor

Antonius

O que somos nós?

O que somos nós
figuras minúsculas
debaixo de um sol
abrasador
seremos apenas
pequenas poeiras
d'estrelas
perdidos entre
vários planetas?

Seremos pequenas luzes
migrantes nos espaços
mistério do universo

pensamos ser tanto
no espaço que nos rodeia
e somos um mundo inteiro
aos olhos
dos que dependem de nós
mas na verdade
não somos nada
comparando
as tempestades de areia
que se levantam
nos desertos
esquecidos
para alem do meu
olhar.

São Gonçalves