quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Esfarelar o pão

Esfarelar o pão.
O que é esfarelar o pão?
Roer as unhas ou dedilhar nas virilhas.
Esfarelar o pão é fugir á responsabilidade, olhar o calendário e ter o olhar num dia de sábado e desejar que todos os dias sejam sábado. Ser um verdadeiro agente imobiliário, um agente imóvel que só mexe os dedos ao telefone.
- Sim
- Não

E já era.

Quem sabe esfarelar o pão?

O exercito esfarela o pão, faz figurinhas em forma de bala.
Esfarelar o pão substitui o trabalho, esfarelar o pão dá trabalho, esfarelar o pão é como espremer borbulhas, não podemos fazer duas coisas ao mesmo tempo. Trabalho é trabalho, esfarelar o pão é o truque de parecer que se faz muito e mesmo não se fazendo nada saem nuvens de cansaço das bocas.

Esfarelar o pão é como guardar rebanhos, mesmo que os rebanhos não estejam lá, qualquer um pode guardar rebanhos. Esfarelar é ficar atrás de um balcão com a sensação inútil de que estivemos a pastar. Assim para fugir a esta sensação esfarelamos o pão, se não há pão para esfarelar olhamos uma pescada num saco de plástico e fazemos uma autopsia.
Esfarelar o pão é demorar o indesejado encontro. Os intelectuais são muito profissionais na arte de esfarelar o pão, esfarelar os livros e isso é muito devagar, como observar uma pessoa importante sempre no mesmo lugar, na mesma página, com a mesma cara, um grande vazio, um aplauso estrondoso.

Esfarelar o pão ou esfarelar a cara do fulano que não nos enche as simpatias.

entrou nas urgências todo esfarelado.
Há todo o tipo de esfarelado, conhecemos o desfarelado, o despenteado papo seco. Enquanto o turista vai esfarelando com a sua máquina fotográfica a cidade outras mãozinhas esfarelam nos bolsos. Esfarelar tanto dá para a virtude como dá não se sabe para onde.

Bem meus amigos vou esfarelar dentro de uns macios cobertores. Quando for grande quero fazer nada, esfarelar o pão como um poeta a divagar na repartição.
Na rua faz muito vento, está tudo esfarelado, parece que passou por aqui um doido varrido

Lobo 011

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

VIAGEM NA ESTRADA DA VIDA

Reflexão necessária
Sobre a incógnita
Lugar de permanente tensão
E de um incomensurável questionamento…
.
Corpo comunicante
Corpo minha única propriedade!
Com a sua medida
No espaço e no tempo…
Road movie
Exercício de inquietação e intimismo
Corpo que canta…corpo que chora…
No efeito hipnótico
E profícuo do ritmo carnal
Das amplidões!
.
Viajas no meu corpo
Cheio de fantasia
E percorres à mão
Cantos e recantos
Espraiando nas ondulações!
Olho o teu rosto
As tuas expressões
As tuas crispações
Toco-te
De forma virtuose
Como se fosses Um violino!
E é na música do teu corpo
Que sinto a transcendência
Via láctea
De estrelas ofuscantes…
Dos lábios
Solta-se
O ai fundo
O alívio
Como se tivesse
Ultrapassado
O mundo!..
.
08.02.2011

Astro

Ó escuridão , escuridão
dia tão claro que não tem dó
do sentido precioso
que é a minha visão
Eu podia anular-te
correr todas as persianas
e trancar todas as portas
para ...
não ...
te ver ...
ó luz !
Mas fechar-te , lâmpada minha ,
que me és Sol
não apagaria do céu
a lucidez que não sou eu
que és tu,
ó astro
meu ...


Luiz Sommerville Junior , 090220111028

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O Ontem e o Amanhã

Se o Futuro me interessa e sobre ele me interrogo, o Passado fascina-me.
O Futuro é anónimo, são mil hipóteses, não está assinado.
O Passado é rotundamente concreto. Aconteceu mesmo. Tem uma forma, tempo, espaço que estão escritos.
Tenho a esperança de pertencer ao Futuro (ainda que de breve futuro possa tratar-se), mas tenho a certeza de pertencer ao Passado. Vivi-o, senti-o, sofri-o.
O Passado está escrito em mim, vibra em mim nos delírios da infância, no sonhar inefável da juventude, na taça inebriante do Amor que me coube, na Ternura.
As frustrações os desencantos, as incompreensões, o drama – agrestes bastante para recusar um regresso no tempo se por absurdo me fosse proposto – a sua sombra nem por isso logra escurecer a luz que me chega das caras e eternas recordações do passado.
Ir ao Passado poderá significar ir buscar lágrimas. Mas como é a saudade que as dita, podem mesmo ser redentoras, reconfortantes. É que as lágrimas, filhas da saudade curtida, têm sentido. Vale a pena serem choradas.

Antonius

SONHOS LOUCOS



Tantos sonhos loucos
E realizados tão poucos.
Por mim o tempo passa
Para o meu olhar envelhecido?
A luz é uma ameaça.
O prazer e a felicidade
são uma urgência,
Peço ao tempo clemência.
Adoço as palavras com mel
e sorrisos artificiais
Trago as marcas na pele
Que à memória me acodem demais.

Agora quando dou por mim?!
Quando me procuro na memória?
Vestígios lá no fundo, bem no fim!

Sou passado... na minha história.

As lembranças são as tais
Que me trazem enternecida
Lembranças dos meus ideais
Que repousam quase esquecidas.

Hoje não abro as janelas
Já se foram minhas ambições
Recordo todas aquelas,
Efémeras, só ilusões.
De que serve procurar-me?
Se já não sei encontrar-me.

natalia nuno
rosafogo

imagem retirada (blog decoupage)

Prisioneira

(Imagem google)


Prendi-me de novo.
Deixei a liberdade
de ser eu na verdade…
Tenho-te sempre a meu lado,
a cada minuto, segundo…
Não sei andar…
Não sei viver…
Não sei sentir…
Quero voltar a ser livre
Correr atrás da vida,
na vida que me foge…
Quero sorrir ao dia,
que outra vida anuncia…
Quero fugir à prisão
que impus a mim mesma.
Quero deixar de ser,
prisioneira de mim.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

MOTIM

Geme o verso
na gota de chuva,
sulca o rosto vencido
rumo à foz revoltada
Clama o corpo em fúria
amotinado

E no dilúvio implacável,
o poema acontece

Escrever Poesia III

Foto: Clarisse Silva


Gosto de musicalidade,
De ritmo frenético
Voracidade
Do ser poético.

Gosto da musicalidade,
De ritmo lento
Ansiedade
Que não aguento.

É explosão de alegria
É estar cá dentro em gritaria.
É construir uma imagem
Nesta alucinante viagem,
De permitir o nascimento
Material, de um sentimento!

Escrever é Ser
Simplesmente.
Liberto de artefactos
Cenários da mente.
É descrição de factos
Pela alma absorvidos.

Escrever é Ser
Simplesmente,
Sonhos sempre sonhados
E nunca antes imaginados
De letras se munir,
E o universo sentir.

Escrever é amar,
Escrever é sonhar.
Escrever é realidade,
Colossal felicidade…!

E escreve…
E descreve…
E vai e vem…
Que depressa tem,
Formigueiro nas mãos…
Vou para cima,
Dom que me aproxima…
Aumenta
A auto-estima…
Não aguenta
Com coisa lenta!
Vai e vem vertiginoso
E que me dá tanto gozo!
Desço…
Mas não perdi
Desconheço…
Como o escrevi!


Vem o rei

Vem o rei
que estava escondido
governar o país
no guarda vestidos

...tem meias compridas
grossas e de lã
governa a vida
no colo da mãmã.

Ainda é rebento
e ja vai combater
matar um cento
no pais cinzento

Este menino
o sebastião
teve o pobre destino
de ser mensageiro da nossa naçao

lobo

Emergência (porque o que é belo é para sempre)

Porque choras , meu amor ?
Amor
o que eu não escrevo
Amor
é sinónimo do teu rosto
Amor 
sorrindo-me
Amor
é sinónimo do meu gesto
Amor
puro.
Amor
de amor abençoado na alvura do teu despertar ...


A Madrugada Das Flores , 090120111636
Luiz Sommerville Junior

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Duas metades

na minha metade,
tenho horas longínquas
onde naufraguei,
tenho anos estéreis de cansaços,
que me ajudaram a descer.

na outra metade,
tenho a utopia
que me faz sentir,
tenho o sonho
que me faz viver.

e assim vivo
em permanente conflito,
entre o ser e a mente
que me faz permanecer

Eduarda

18h35

Seis horas da tarde
Trinta e cinco minutos

Na urgência do tempo,
foge-me o sorriso do rosto
Corro-lhe atrás curiosa
viro aqui, contorno ali...
E lá o alcanço por fim
à porta da entrada:
alargado, potenciado
a ver-te chegar!

…nunca digas adeus

Todas as estações do escarpado calvário
ajoelham-se à minha porta.
Fecho as cortinas dos meus olhos,
saboreio o graal da Primavera amortecida
pelas chuvas que ainda gaguejam
ruídos sonantes,
num malmequer envergonhado.

Os sinos já não acordam de manhã
nem as papoilas se despem de ópio,
retiraram-lhes os cabelos grisalhos das andorinhas
e os braços longínquos do sol.
Se ao menos eu pudesse
devolver-lhes as ladeiras da minha vida,
talvez eles voltassem…
…voltassem, anunciar
como dói o verde cerrado da despedida.

Conceição Bernardino

Publicada por Conceição

Garimpeiro




Destreza na peneira
Mestre do olhar

Agita a cupidez
Perlustra leiras

Na água
Paira a vida

Ora abutre
Ora primavera




sábado, 5 de fevereiro de 2011

Desde Quando

Venho de muito longe
Dos confins do tempo
Venho das eternas madrugadas
Dos dias que o não eram ainda.
Porque ignoto o sol
Que do calor no seu ventre
Não se dera ainda conta.
Rios de gelo cobriam o Nada
Feito gélido mundo.
Todo um mar de água
Era então mãe de todos os seres
Cuja vida acenavam à distância
Em inocentes gotículas
Que prenunciavam já vital amanhã.
É daí que eu venho
Porventura daí que eu venha
Desse ontem de há muito
Metamorfose sem fim
Cruzaram o meu caminhar
Até que, num repente
Milagre que me ultrapassa
Sou aquele que sou
Mas sempre e sempre
Incapaz de ir ao meu principio.

Antonius

Assim....pessoa
















Sou nada no vazio que me consome
nesta inquietação letal,
laje que agasalha o ardor do meu sangue,
já não canto a primavera
nem danço nas falésias do teu corpo

Sou musgo amarelecido,
palanque de fogachos demoníacos
afogueando os contornos do teu rosto,
íris cega da própria cegueira,
carvão desactivado nas brumas do olhar,
vida que se esvai, no longínquo de mim…
um tudo e um nada nesse mar enchente

Sou… o que sou, modelação viva de ti
na impecabilidade do teu próprio existir

Sou eu e tu irrompendo em mim
assim… pessoa

REVOLTA

Vou pôr fim às tuas garras da subjugação
Vou desmantelar a minha redoma de cristal
Acabar a farsa de pseudo-heroína da resignação
Que me deixa em sangue, mortificada e vegetal!
.
Quero abrir uma estrada para o infinito
E percorrer os cantos e recantos da vida
Levo a mala cheia de intenções urgentes
Vou de calçada em calçada, vou de partida!
.
Quero sentir os extremos: o frio e o calor
Comer o pó dos caminhos desconhecidos
Subir às serras, perder-me e encontrar-me
Levando apenas a bússola dos sentidos!
.
O meu objectivo é chegar ao esgotamento
Na erva fazer a minha cama de madrugada
Olhar perscrutando as nuvens no firmamento
E dizer: cheguei ao limite, não há mais nada!
.
05.02.2011

Dilúculo

Acontecia suavemente
O dilúculo.
O cedro amoitava
Um sol: límpido

A gota, minúscula
Da noite lavada
Lembrava
Todos os mares

Deitada sobre o caule
A flor
Espreguiça.
Colhe a primeira vida

À janela: o melro



João Mestre Portugal

Eternas perguntas

Quem sou; De onde venho; Para onde vou, as eternas perguntas ou questões que o homem se coloca, desde que a inteligência chispou com algum «fragor» na sua cabeça.
Até aí, e se nos não repugna que o Homem tenha evoluído através dos tempos, tendo conhecido estádios pré-humanos e mesmo irracionais, aquelas questões nem tinham que se lhe colocar. O problema surge e prevalece a partir do momento fantasticamente histórico em que esse ser, decerto diferente, dá o «salto» para a Racionalidade.
Nessa hora, que terá sido um mundo de Tempo, o universo deve ter estremecido, por que algo de incrivelmente prodigioso estava a acontecer, A partir daí o homem passou a ser Homem ou, pelo menos, a caminhar na senda da humanização.
Mas esse prodigioso Salto não significa que a vida desse Ser se tenha tornado mais fácil. Bem pelo contrário, passou a estar marcada pelo «pesado peso» da Responsabilidade. Poderá pois dizer-se que a inteligência gerou a responsabilidade e, acto contínuo, a busca do Sentido da Vida. Será então que ao Homem se colocaram pela primeira vez, as três grandes questões com que iniciamos esta reflexão: Quem sou, de onde venho, para onde vou.
No tempo do homem das cavernas, essas perguntas essenciais detinham-lhe já o passo ou tiravam-lhe o sono; há cinco mil anos, não presumimos mas sabemo-lo de fonte segura, era essa a atitude do Homem. Incrível é que hoje, em pleno século XXI, quando se tem na conta de civilizado e parece que nesta Terra nada mais há para descobrir, o homem confronta-se exactamente com as mesmas cruciais questões.

Antonius
(António Bernardino)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

2012


Sondo o futuro
com os olhos apocalípticos do profeta
bebendo a treva do caos
na malga de sangue
dos impérios desmantelados.

À minha volta
tudo se desmorona
numa vertigem de sinos
e ânforas quebradas.

Todos os sinais se completam.
Todos os horizontes se fecham
no ponto sem retorno
do fim dos caminhos
e no clamor dos abismos
a retornarem ao pó e às cinzas.

Atrás do reposteiro escuro
do consumar dos séculos
desfolho, lentamente,
as ultimas folhas do calendário,

o derradeiro salmo dos condenados.

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