domingo, 6 de fevereiro de 2011

Garimpeiro




Destreza na peneira
Mestre do olhar

Agita a cupidez
Perlustra leiras

Na água
Paira a vida

Ora abutre
Ora primavera




sábado, 5 de fevereiro de 2011

Desde Quando

Venho de muito longe
Dos confins do tempo
Venho das eternas madrugadas
Dos dias que o não eram ainda.
Porque ignoto o sol
Que do calor no seu ventre
Não se dera ainda conta.
Rios de gelo cobriam o Nada
Feito gélido mundo.
Todo um mar de água
Era então mãe de todos os seres
Cuja vida acenavam à distância
Em inocentes gotículas
Que prenunciavam já vital amanhã.
É daí que eu venho
Porventura daí que eu venha
Desse ontem de há muito
Metamorfose sem fim
Cruzaram o meu caminhar
Até que, num repente
Milagre que me ultrapassa
Sou aquele que sou
Mas sempre e sempre
Incapaz de ir ao meu principio.

Antonius

Assim....pessoa
















Sou nada no vazio que me consome
nesta inquietação letal,
laje que agasalha o ardor do meu sangue,
já não canto a primavera
nem danço nas falésias do teu corpo

Sou musgo amarelecido,
palanque de fogachos demoníacos
afogueando os contornos do teu rosto,
íris cega da própria cegueira,
carvão desactivado nas brumas do olhar,
vida que se esvai, no longínquo de mim…
um tudo e um nada nesse mar enchente

Sou… o que sou, modelação viva de ti
na impecabilidade do teu próprio existir

Sou eu e tu irrompendo em mim
assim… pessoa

REVOLTA

Vou pôr fim às tuas garras da subjugação
Vou desmantelar a minha redoma de cristal
Acabar a farsa de pseudo-heroína da resignação
Que me deixa em sangue, mortificada e vegetal!
.
Quero abrir uma estrada para o infinito
E percorrer os cantos e recantos da vida
Levo a mala cheia de intenções urgentes
Vou de calçada em calçada, vou de partida!
.
Quero sentir os extremos: o frio e o calor
Comer o pó dos caminhos desconhecidos
Subir às serras, perder-me e encontrar-me
Levando apenas a bússola dos sentidos!
.
O meu objectivo é chegar ao esgotamento
Na erva fazer a minha cama de madrugada
Olhar perscrutando as nuvens no firmamento
E dizer: cheguei ao limite, não há mais nada!
.
05.02.2011

Dilúculo

Acontecia suavemente
O dilúculo.
O cedro amoitava
Um sol: límpido

A gota, minúscula
Da noite lavada
Lembrava
Todos os mares

Deitada sobre o caule
A flor
Espreguiça.
Colhe a primeira vida

À janela: o melro



João Mestre Portugal

Eternas perguntas

Quem sou; De onde venho; Para onde vou, as eternas perguntas ou questões que o homem se coloca, desde que a inteligência chispou com algum «fragor» na sua cabeça.
Até aí, e se nos não repugna que o Homem tenha evoluído através dos tempos, tendo conhecido estádios pré-humanos e mesmo irracionais, aquelas questões nem tinham que se lhe colocar. O problema surge e prevalece a partir do momento fantasticamente histórico em que esse ser, decerto diferente, dá o «salto» para a Racionalidade.
Nessa hora, que terá sido um mundo de Tempo, o universo deve ter estremecido, por que algo de incrivelmente prodigioso estava a acontecer, A partir daí o homem passou a ser Homem ou, pelo menos, a caminhar na senda da humanização.
Mas esse prodigioso Salto não significa que a vida desse Ser se tenha tornado mais fácil. Bem pelo contrário, passou a estar marcada pelo «pesado peso» da Responsabilidade. Poderá pois dizer-se que a inteligência gerou a responsabilidade e, acto contínuo, a busca do Sentido da Vida. Será então que ao Homem se colocaram pela primeira vez, as três grandes questões com que iniciamos esta reflexão: Quem sou, de onde venho, para onde vou.
No tempo do homem das cavernas, essas perguntas essenciais detinham-lhe já o passo ou tiravam-lhe o sono; há cinco mil anos, não presumimos mas sabemo-lo de fonte segura, era essa a atitude do Homem. Incrível é que hoje, em pleno século XXI, quando se tem na conta de civilizado e parece que nesta Terra nada mais há para descobrir, o homem confronta-se exactamente com as mesmas cruciais questões.

Antonius
(António Bernardino)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

2012


Sondo o futuro
com os olhos apocalípticos do profeta
bebendo a treva do caos
na malga de sangue
dos impérios desmantelados.

À minha volta
tudo se desmorona
numa vertigem de sinos
e ânforas quebradas.

Todos os sinais se completam.
Todos os horizontes se fecham
no ponto sem retorno
do fim dos caminhos
e no clamor dos abismos
a retornarem ao pó e às cinzas.

Atrás do reposteiro escuro
do consumar dos séculos
desfolho, lentamente,
as ultimas folhas do calendário,

o derradeiro salmo dos condenados.

_
Você vai rodando

mas parece que é o mundo

e enquanto vou dançando

no seu corpo me confundo

e no profundo desse olhar

uma estrela eu agarro

e deixo cair no mar.



Você vai rodando

como se fosse um girasol

mas parece que é uma onda

e enquanto vou dançando

como dança um raio de sol

uma canção vou cantando

esperando como um viajante

se enamorando do mar.



Agora eu queria

ao seu corpo me entregar

assim como a musica

se entrega aos braços da dança

como uma mãe se dá

ao sorriso de uma criança



lobo 011

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Quando o Amor

Amar é sentir-te dentro de mim
É sedento auscultar o mistério
É encontrar na vida refrigério
É tornar-te flor do meu jardim

A tua Efígie mora nas estrelas
Que destas juncado o firmamento
Se amar-te tiver de ser um momento
Dar-me-ei por feliz só em vê-las

Amar é ver-me em ti cegamente
É dentro de mim perscrutar a beleza
A luz do luar deveras ver acesa
É o acto de amar sentir premente

Ah que de delírio que de loucura
Recordar esse dia lá distante
Pela primeira vez senti-me amante
Astro que te fizeste de doçura

Antonius

(António Bernardino)

Agora é a água

Agora é a água dentro dele que canta
A lua vi eu
desceu pela garganta
e no peito do homem rude adormeceu.

...Agora é a água dentro dele que canta. As raizes são silabas que a terra bebe
como uma viagem pelos olhos.

Esse livro que dentro dele a paisagem escreve.

Lobo 010

AQUÉM

Esquálidos versos
cinzelam minhas mãos
Nunca uma rima
mitigará a pena
gravada no peito
Nunca uma estrofe
espelhará a dor
da tua ausência
Nunca um poema
será um hino
justo e perfeito
ao nosso amor



13/01/2010

Adelfas selvagens…



Fala-me de ti,


não, não fales nada.


É no silêncio das palavras


que te sinto renascer nos meus braços


como as primeiras folhas que se abrem


acasaladas, no romper da Primavera.



Olha-me, deixa-me ver-te


onde o céu não se alcança,


entre a corda bamba e a nuvem mais ousada,


que mesmo vestida de negro


me acaricia a dor que já não respiro.



Deita-te a meu lado


e fala-me de ti


antes que a madrugada acorde


o silêncio das andorinhas


que hão-de chegar


despidas nos teus braços.



…fala-me de ti


antes que as nossos lábios se toquem


como duas adelfas selvagens…




Conceição Bernardino

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Cada vez que respiramos



Cada vez que respiramos,
um incêndio de sol
rasga, num sonâmbulo equilíbrio,
a bruma cega do mármore,
abrindo uma nova janela
no litoral negro do abismo.

A pulso,
um pássaro de oxigénio
escala a engrenagem metálica
de um sinuoso horizonte,
irradiando,
num silêncio de narinas,
o cristal sereno das marés
pousadas numa ilusão de eternidade.


A mortalha breve do tempo,
aspirando o pólen matinal,
suspende o abraço de gelo
que cerca a métrica azul
de uma metamorfose de estrelas,
adiando uma vez mais
o bordado húmido da terra
e resgatando, ao pranto dos labirintos,
o voo suspenso da quimera,

cada vez que respiramos,
iludindo
o murmúrio transparente da morte.

_

Passos Perdidos

(Imagem google)

Caminhei
no caminho empedrado
Lutei
contra o mar encarpado
Rastejei
na areia encharcada
Chorei
a lágrima molhada
Cruzei
destinos sem fim
Procurei
o que resta de mim
Na loucura do destino
meu ser perdeu o caminho…

A Beleza no Feminino

És a Lira que desde sempre almejo
As cordas dedilhando em delírio
És Oboé, violino, sonhado Beijo
Dos jardins da minha música eterno hino

És compasso, canção és melodia
Egrégio fazedor de nobres artes
No teu génio fiel a alegoria
Nas mãos a sabedoria de Descartes

Em tuas cordas a mais bela sinfonia
Executo entre incrédulo e surpreso
Sentir teus acordes é pura magia
É sentir o amor em fogo, aceso

Olhar-te é ver claro obra acabada
É ver da mulher símbolo perfeito
É sentir que acima não há mais nada
Que o belo a fazer está já feito

Antonius

(Antonio Bernardino)

Sem Espaço

Preenches cada célula
do meu corpo
Deslizas em cada fio
do meu cabelo
Ocupas cada poro
da minha pele
E eu, habituada
à falta de espaço,
Caminho ao meu lado
…naturalmente.

A Menina Dezassete

Era uma vez uma escola muito grande e bonita para onde muitos meninos gostariam de ir estudar. Nessa escola, havia uma menina que estava quase quase a terminar os seus estudos, mas para isso teria que superar um grande desafio: escrever um trabalho onde demonstraria tudo aquilo que aprendeu, e mais, teria que o apresentar aos professores mais velhos e cultos da escola.
Era difícil, porque quando os alunos tinham que apresentar o trabalho final, mais parecia que estavam num julgamento e os professores mais velhos e mais cultos da escola mais pareciam professores-tubarões.
Como iria ser um momento muito importante na vida da menina, todos queriam saber quando seria o “julgamento”, pelo que movida pelo medo e também pelo embaraço da atenção, a Menina guardou para si essa data e só a revelou à sua amiguinha mais querida e claro, ao Menino Dono do seu Coração. Eles sim, é que estariam presentes no grande dia.
A Menina muito preocupada com este momento, estudou que se fartou durante dias a fio, não saiu de casa, não falou com ninguém, ignorou completamente o Menino Dono do Seu Coração, não atendeu as suas chamadas, enfim…Uma azáfama!
O grande dia lá chegou, e como seria de esperar a menina estava mesmo muito assustada! E se não fosse capaz de falar com os professores-tubarões? E se se esquecesse tudo aquilo que havia preparado? E se os professores-tubarões não aprovassem o trabalho que tanto trabalho lhe deu? E se… Ai! Que nervos! Não, nem pensar! Estava preparada, iria correr tudo bem!
A melhor amiga da Menina já tinha chegado e como companheira que era, tentava acalmá-la e mandar para bem longe todas as suas inseguranças.
A hora aproximava-se e subitamente a Menina lembrou-se do Menino Dono do Seu Coração que tardava em chegar, quer dizer, ainda não estava bem na hora…mas e se ele não viesse? Durante dias a Menina não lhe dissera um olá, não lhe ligara… E se ele de triste e zangado não fosse?! E se ele se tivesse esquecido?!
Então, nada teria sentido, pensou a Menina “Se a pessoa que eu mais gosto não está cá, não quero saber disto para nada” concluiu triste. Como é que ela conseguiria passar por aquela prova sem a presença do Menino Dono do seu Coração? Nem queria! Queria era fugir dali para ir procurá-lo…para lhe pedir perdão por tê-lo ignorado.
E quando ele surgiu ofegante no átrio da escola, a menina correu-lhe para os braços aliviada ao mesmo tempo divertida “Bolas! Isto sem ti não ia ter graça nenhuma!” porque havia percebido que tudo faria sentido apenas com a presença do Menino do Dono do seu Coração ali ao seu lado. Porque ele era a sua força, a sua vida…
Passaram então os professores-tubarões arrastando a sua sabedoria. O “julgamento” ia começar. Hora da verdade!
Antes da Menina transpor a porta da sala o Menino Dono do seu Coração sussurrou-lhe “Boa sorte pequenina! Vai correr tudo bem!” E foi quanto bastou para a menina entrar confiante.
Não precisava de mais nada, apenas de saber que o Menino Dono do seu Coração estava ali perto dela no fundo da sala, observador e expectante. É só lhe escutar a tosse nervosa, confortava-a. E por ele, queria fazer boa figura para que ele se orgulhasse dela! Sempre determinada, respondeu afoita às perguntas dos seus professores, e quando o nervoso miudinho serenou, quase que pareceia estar numa tertúlia de amigos.
Quando terminou a apresentação do trabalho que tanto trabalho deu à Menina, os professores-tubarões, já não pareciam tubarões, na verdade, até pareciam simpáticos a amáveis… Agora era chegada a hora de os professores se reunirem e avaliarem o trabalho trabalhoso da Menina.
Mais tarde quando chamaram a menina, sorriam-lhe gentilmente e disseram que o trabalho estava mesmo muito bom e que reconheciam que a Menina se havia esforçado muito, elogiaram-na pela apresentação e pela segurança nas suas respostas.” Parabéns, você vai tirar dezassete valores!”
A Menina agradeceu atordoada, a amiga da Menina estava muito feliz, os professores agora amáveis sorriam satisfeitos e secretamente orgulhosos, mas isso a menina já não viu...
Só tinha olhos para o Menino Dono do seu Coração que estourava de orgulho enquanto lhe apertava a mão, naquele aperto de mão que só os apaixonados se sabem dar.
Nesse dia o Menino Dono do Coração da Menina decidiu que esta doravante seria a sua a Menina dezassete. Esse dia havia sido uma pequena demonstração de que o seu amor seria eterno pois sentiram o sabor de uma pequena vitória. Da primeira vitória.
E de prova em prova, de vitória em vitória, foram construindo a sua vida a dois, ficando na memória de todos aquele amor tão pleno e intenso sentido pela Menina Dezassete e pelo Menino Dono do Seu Coração
Não, não foram felizes para sempre, melhor do que isso, foram sempre felizes!

Rascunho

Poderia ser um rascunho


esquecido na janela onde encosto
as chuvas da alma ou balanço as memórias
numa tela sem cor


guardado num reduto interior onde embrulho
o vazio do tempo ou afundo
a fria dor


extinto no silêncio das águas onde esvoaço
entrelaços ou diluo
desacertos


dissipado nos ramos do vento
planura de espaços onde me faço
eterno movimento


caído numa lágrima onde me cega
a luz que não passa
e me dói a morte dos pássaros.




Marialuz

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Perscrutando o Nirvana

Às vezes sinto-me no cume do Nirvana, ao limite do prescrito para o poder de ascender do homem. Nessas alturas infinitas estendo o olhar que se alarga para além das estrelas e se esgota na via láctea, por ventura em similar nebulosa.
Penso ter atingido o cósmico termo, mas algo me diz que esse termo não é mais do que um principio de uma nova jornada para o sem-fim do espaço. Recuo o meu olhar com algum desalento, regressando às alturas do outrora sonhado Nirvana. Atiro desta feita o meu olhar para as profundezas que se revestem de um manto da cor da neve. Lá longe, mas não tão longe como a rota das estrelas, eu vislumbro os prados verdes, lá no fundo, onde nascem as montanhas, onde foi semeado e brotou o núcleo do ansiado cume onde me imagino neste instante que passa.
Do cume deste Nirvana há muito sonhado mas só agora alcançado, domino o universo na esfera que o meu sentir constrói. Se esse mundo que a minha razão não entende me deslumbra e apela para a minha inteligência e me faz mergulhar na frescura da pradaria que atapeta a base da minha montanha e se cobre de lírios e da urze do monte, neste instante e num repente desço às alturas que são as minhas, ao mundo que é o meu e que abarco com os olhos com que a natureza me dotou. É que o êxtase teria que ter um fim.
Imperativo era regressar ao meu sitio e à minha condição de mera criatura humana.
Na simplicidade deste sitio há também grandeza e, bem vistas as coisas, há razões de encantamento. Aqui nesta pradaria neste pequeno grande mundo está deposto um passado que não tem preço, o meu passado, aqueles que, uns após outros levaram à construção daquele que, insignificante embora, hoje sou.
Chega até mim uma harmonia que me enche os olhos me impregna a alma e me apura os sentidos. Essa harmonia chega-me de um passado remoto, atravessa o tempo, realiza o maravilhoso que se me depara. Mas tudo se converte em melodia, em música, que não é para ser vista por os meus olhos , mas os meus ouvidos escutam e o meu sentir estremece e lágrimas me assomam aos olhos. Neste instante, sim neste instante, estranha contradição, é-me dada a consciência da grandeza que mora na minha pessoa, na pessoa de cada criatura. Sinto-me mergulhado na mais funda das emoções.

Antonius

(António Bernardino)

MEU TOM CINZENTO



Sou como uma arvore
de pé morrendo
Sonhando com primaveras
por chegar
Minhas folhas voaram
Meus troncos cansaram
Estou querendo
descansar.

Cresce a apatia
no meu peito
Dia a dia
não leva jeito!
Vou talvez mudar de rumo
Dia a dia me consumo.

Como é possível fugir de mim?
Sou uma criança triste
Ou um velho louco
Assim:
Caminho, porque a vida insiste
Mas já lhe quero tão pouco.

O Sol hoje está baço
E a Vida está diferente
E lá sigo passo a passo.

Sempre ela entrelaça,
ramos espinhosos na gente.
Quem me abraça?

Hoje estou descontente
É meu defeito amar,
Amar toda a gente
Ficar com o peito a sangrar
Meus olhos por florir
Minha seiva ressequida
E meu sonho a insistir
Que a esperança,
não me deixe repartida.

natalia nuno
rosafogo