terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

MEU TOM CINZENTO



Sou como uma arvore
de pé morrendo
Sonhando com primaveras
por chegar
Minhas folhas voaram
Meus troncos cansaram
Estou querendo
descansar.

Cresce a apatia
no meu peito
Dia a dia
não leva jeito!
Vou talvez mudar de rumo
Dia a dia me consumo.

Como é possível fugir de mim?
Sou uma criança triste
Ou um velho louco
Assim:
Caminho, porque a vida insiste
Mas já lhe quero tão pouco.

O Sol hoje está baço
E a Vida está diferente
E lá sigo passo a passo.

Sempre ela entrelaça,
ramos espinhosos na gente.
Quem me abraça?

Hoje estou descontente
É meu defeito amar,
Amar toda a gente
Ficar com o peito a sangrar
Meus olhos por florir
Minha seiva ressequida
E meu sonho a insistir
Que a esperança,
não me deixe repartida.

natalia nuno
rosafogo

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Quando eles não estão

Quando eles não estão e tu vais fazendo o teu lugar, julgas que não ha ninguem, não sabes que o amor vem devagar como á margem da terra chega o mar.

Quando eles não estão e tu pensas que estás esquecido.

Mas se tu procuras os amigos são aquela memoria que soa

como soa o sentido da vida.

Quando eles não estão e tu sentes que ficas só e vais fazendo o teu lugar desatando os nós que não de deixam gritar.

Mas aquilo que importa é não pegar a vida pelos cornos da derrota.

E tu vais fazendo o teu lugar, aqueles que são serão inteiros como os amigos que mesmo não estando são verdadeiros.

Lobo 011

Solto a alma















Solto a alma nas folhas tingidas
de aromas rubros do pretérito
e nas margens desmerecidas,
prensados fragmentos de mim

São colagens de ternuras
que me sussurram de ti,
são arremessos de palavras
que o silêncio caligrafou
e outros artefactos
que a aragem bravia
me trouxe e me doou

São imagens furtadas
ao livro que me escreveu,
rascunhos impúdicos, lapidados
pela tinta de Morfeu
são testemunhos docemente cativos
nas paginas que não se perdeu

Sou eu, és tu, é…
a vida que nunca se esqueceu
dos rascunhos que o tempo estagnou.


(Solto a alma nas folhas tingidas do pretérito)

domingo, 30 de janeiro de 2011

A CIDADE

A minha verdade hoje é outra
Porque é hoje outro o meu canto
Do trovador medievo e inspirado
Eu visto hoje garboso manto.
Envolto assim em sobriedade
Acordo para um mundo que me acorrenta
À saciedade gritando
O que de humana é a grande Cidade

A natureza já eu cantei
Do firmamento as estrelas exaltei
O amor, o ar que cuido de respirar.
Mas não é para mim ganho
Cruzar com quem me é estranho
E instalado no meu eu, displicente
Apressado e indiferente
Tempo não ter para lhe dar

Antonius

ÚLTIMO POEMA

Quando passares por mim mar e distante,
lembra-te dos rios que descobriste
na fluidez dos meus olhos que sabem chorar palavras.
E dos beijos que respiraste
na minha boca que cala as dores que escreve sorrindo.
Quando passares por mim nave e ausente
sobre as águas que me matam toda a sede que te traga,
ouve o feitiço do canto que te lembra o meu ser
sereia e doce.

Mas não pares para lembrar
que não sou
só o último poema
que escrevi.

Imortal

Imortal

O sorriso
que ofusca qualquer raio de sol,
O olhar azul
tão maior do que o mundo
A mão
que conduz e protege
A voz
plena de alegria e sedução
O abraço
perfumado de ânsias e suspiros
O beijo
que embriaga a alma desnuda
O desejo
que deu cor à vida

Imortal
Inatingível
Inabalável
Imutável

O nosso amor
Estes versos que bebo
assim quando estou cansado
a tristeza que recebo
desta Lisboa do fado

Não teria sentido
Se o ciúme não corta-se
Como um vidro
Nos olhos desta saudade.

Estes versos que bebo
como se fossem água
do tejo onde levo
as palavras á madrugada.

Estes versos que bebo
assim quando estou cansado
a tristeza que recebo
desta Lisboa do fado

lobo 011

sábado, 29 de janeiro de 2011

DESPOJOS

                                               photo net


Tinha perdido o equilíbrio, de tanto ter caído das escadas, de ter gasto todas as palavras.Era um mero compasso, destituído de cor, uma cicatriz emoldura de cinzas, pano cru dos tecelões ébrios. Tinha nas mãos, quilómetros fátuos dos passos que nunca percorreu, pedaços de silêncios abalroados de quimeras. Tinha desistido! Que lhe importava mais um copo, ou uma cama em ruínas, quando a pele era agora uma dormência quase trágica, uma ossada plantada nas pedras tumulares. Encostada ao rascunho duma lobotomia dispersa de sentidos, tinha abandonada a pele ao porto de onde nunca tinha saído, numa gávea sem ilustração. Era agora andrajo da sua permissão, cinza côncava da mais nutrida infecção.Era agora despojo da sua própria insolação.

Eduarda

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

estaca zero

há um precipício a norte da esperança
e outro a sul do sofrimento

algo me faz manter inerte
a meio dos caminhos

a única estrada
permanece
contendo todos os passos dados

existe a dúvida
e a imprecisão doentia

já não domina
a euforia de outros tempos

por tanta indecisão
tudo volta à estaca zero


António MR Martins

OÁSIS

Vi-te hoje
Não foi por acaso
Eu queria ver-te
Eu tinha que te ver
E ficar nos teus olhos
De oásis
Em fuga do deserto
Que me enruga de tédio!..

Como as tuas mãos estavam quentes
E depressa aqueceram as minhas
Num calor que me provocou arrepios…

Nada mais que um delírio
Delicioso espaço aberto ao afecto
Embalo aconchegante
Cumplicidade que existe
Desperta nas palavras
Que não dizemos
Mas ouvimos…

Olhamos o melro
A saltitar no jardim
Entre as palmeiras
Vemo-nos
Para lá do vidro
De mão dada
Juntos
Como se a ilusão
Nos tivesse levado ao Éden!

29.10.2011

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Último verão



Recordo ainda a glória desses dias
em que resplandecia a esperança
nos bikinis coloridos das raparigas
e o pôr-do-sol no entardecer dos telhados
tinha o gosto salgado das maresias
que nos sopravam um futuro de conquistas.

Era a época em que nos demorávamos
nas esplanadas suspensas da rebentação,
à espera da última bebida do dia,
que só chegava a altas horas da noite,
mas que não nos deitava a baixo,
porque éramos insolitamente jovens
e possuía-nos o vigor ardente dos sonhos.


Agora, que o último verão há muito se foi,
e a enganadora luminosidade do dia
é apenas um rumor surdo da memória
a deambular por entre chapéus de sol
e toldos vergados pela persistência do vento;
sem esperar pela derradeira bebida,
em silêncio me retiro, nada levando
no guardanapo onde embrulho as palavras
que me sussurra, uma maré de nostalgia.

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Passos

(Imagem google)


Passas com teu passo apressado
sem saberes onde ir…
Irás tu a algum lado,
ou vais apenas por ir?!

Não tens noção do caminho
Não sabes o que fazer
Procuras amor e carinho
Queres apenas viver.

Caminhando sem destino,
teus passos vão passando
pelo tempo, e no caminho

Do tempo que vai passando,
nem sempre devagarinho,
teu destino vai marcando.

Certezas

Foto: Clarisse Silva
 
 
Sinto os olhos fumegantes, ardentes. Abro-os no intuito de ver mais além, para além do que eles conseguem. Eles observam a sua própria limitação, o ponto de saturação do que não compreendem. Não adianta fazer o esforço… Será que só a energia que nos anima intrinsecamente, nos movimenta o corpo, consegue ver mais além, para lá de todos os dogmas que nos introduziram, alimentando egos seculares e deixando a verdade de cada um virar cada vez mais uma mentira?! E o cérebro? Qual o papel do cérebro? Mero veículo físico ao serviço da matéria, ou por outra, meio de nos transportar a novas dimensões? Talvez seja o que nós quisermos, mediante a alma que colocamos na nossa vida em cada atitude.

Pairam outras dimensões pela minha cabeça, interrogações, divagações, visões de outros mundos, onde quem nos deixa regressa, deixando-me cada vez mais certezas.



quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

SOLTO A ALMA


Sonhei que meu livro da memória
se fechava...
E o céu passava de azul a vermelho
e sangrava.
Os amores perfeitos e as violetas
continuavam no jardim,
E me procurava, mas nada sabia de mim.

Tudo é tão vago e tão breve
Saio do sonho à procura
Ansiando que me seja leve
O limite dessa brevidade.
O tempo já nada cura
E só me permite a saudade.

Não sei se foi de tarde ou era aurora
Ou de noite que sonhei em desatino
Mas lembro do sonho agora
Da certeza que é senhor do meu destino.

As violetas continuam no jardim
Os amores-perfeitos pulsam-me nas veias
Só não sei pra onde vou, e de onde vim?
Sonho utópico, envolto em teias.

natalia nuno
rosafogo

Encontros



Se os nossos caminhos
Servem para nos encontrarmos
Nos desencontros
Então que nos voltemos todos
E nos foquemos nos novos
Pontos de encontros


Que sejam só pó
Ou só sementes
Mas que nos volvam à terra
E nos façam ser donos
Dos nossos próprios passos

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

…segredam-se

Vem deitar-te comigo no leito dos amantes

para que a madrugada não solte o gemido

do ciúme da manhã.


Trago-te nas palpebras do meu corpo

ainda molhado por um trevo de quatro folhas

na nudez dos lençóis arrefecidos.


Vem estender-te onde os medos são silêncios

à procura de um porto de abrigo, nas nossas bocas

entrelaçadas onde os ais…

…segredam-se.



Conceição Bernardino

A vida torna-se grito

Da roseira brava sem rosas
d`um jardim sepulcral
espreita os espinhos com dor
e nos caules amarelecidos
perde-se a clorofila sem cor

Cantam os pássaros sem asas
nas arvores desnudas de flor
uiva o vento em temporal
e as chuvas gotejam,
entristecidas
a fugidia luz color

No dia perfaz-se a noite
e a noite sepulcro d´ amor
na sombra escura do penhasco
o bramido mudo do Adamastor

E eis que….

Nas folhas desenha-se a gota
do espesso orvalho matinal
e na terra por arar, brota
a semente de todo esse areal

Das rosas vivas flúi o pólen
deste jardim intemporal
e na doce brisa outonal
sopra o aroma dourado
do vasto milheiral

E a vida torna-se grito
no silencio por falar

sábado, 22 de janeiro de 2011

Despedida

Hei de ver-te
ou encontrar-te
quando uma estrela
arder na água
ou morrer a queimar
nos meus olhos
o mar...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

UMA DECLARAÇÃO DE AMOR

Árvore da Vida - Klimt
(Poema dedicado a Natalia Canais)

Por tudo que me deste
Por tudo que me dás
Por aquilo que não deste e não dás
E eu sonho que podes dar
Humildemente
Só te posso venerar!
Também dás e tiras
Com crueldade
E para sempre
Deixando-me a sangrar…
São ganhos e perdas
Lágrimas e sorrisos
Amor e dor
E nesse antagonismo
Eu caminho
Por caminhos suaves e rudes
Na brisa do empirismo!
Olho o mar…que imensidão…que energia…
Nele me abraço e fico com o sal nos lábios
Carícia empolgante que rejuvenesce…
Olho o rio…como desliza ou corre para o mar
Os olhos captam o belo que me empolga
E ao anoitecer minha alma humedece…
Que dizer das frondosas matas
Das pequenas flores aqui e ali
E do mistério de fecharem
As pétalas quando anoitece?
E o canto dos pássaros
As pinceladas diversas das nuvens
Em farrapos flutuando nos píncaros!
Ah vida!?...
És um manancial propulsor de emoções
Suaves e viscerais…
Fico estonteada pela excentricidade
Dos aromas desiguais!
Tanto tens de sublime para eu usufruir
Que me diminui e me eleva
Que me constrói e destrói
Que é uma energia insofismável
Paixão absorvente
Seiva misteriosa e desconhecida
Ardor envolvente!
O bater do meu coração…
Por tudo eu amo o mistério
Que tu és e serás, e te adoro VIDA!..
Marisa Soveral - jan-2011

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

ARAGEM



ARAGEM

É fina aragem que corre
A vida,
me persegue numa pressa amarga
Já o sorriso em mim morre
Com este tempo que não me larga.
Como flecha  me mata
Me tira do meu encantamento
Tempo que não ata nem desata
Me destroça,
e me deixa em desalento.

Diáriamente invento uma alegria
Retiro qualquer pedra do caminho
E procuro de ti uma carícia
Um momento íntimo, um carinho.
Já o desânimo me cerca
Quase o nada me aniquila
Já o tempo faz com que me perca
Minha visão me mutila.

Assim vou fazendo a travessia
Deserto e mais deserto
Já se me priva o dia
Já a noite vem por perto.

natalia nuno
rosafogo