terça-feira, 30 de novembro de 2010

Máscaras

 
(imagem retirada da internet)


Canso-me depois de me cansar, gasto-me depois de me gastar…
Acalma-te coração, não vale a pena a inquietação.

Não deixes as rugas chegarem e se enraizarem,
Respira fundo, na transpiração do rubor em desatino
No desalinho das mentes cansadas das máscaras
Se desmascaram a si próprias, constantemente.

Ouvem-se vozes em harmonia, dia a dia,
Vêem-se rostos de tristes criaturas contentes,
Enchendo os bolsos, cantam, riem, dançam,
Na virtualidade da vida vivida sem existência.

Nessa senda de existência sem vida, na mentira
Mentem ao sabor do ar que respiram,
Ouvimos nós boquiabertos, sem resposta
Ao devaneio louco do embuste aceite pela sociedade.

E assim acaba a história, pois assim se quer
Pensar cansa a beleza, da inimputável gente
… que somos no mundo… mas que mundo?!
Que gente, que futuro, que moral, que valores?!

Permaneço na inquietação de ter que me acalmar.
 
 

domingo, 28 de novembro de 2010

Insónia profana



No silêncio das noites de insónia
vultos febris rondam
as areias remotas dos desertos
soterrados dentro de mim.
Salteadores sem rosto nem identidade
envoltos em turbantes de poeira
vêm, à luz de velhas tochas,
pilhar os túmulos arrefecidos da memória.

Acampam em tendas de ventania
nos vales extintos do passado;
batem com as picaretas no solo,
enfiam as pás nas fendas esconsas
e escavam, revolvem, profanam
as riquezas e misérias deste templo,
trazendo à luz anónima do luar
aquilo que estava destinado à escuridão
e às sepulturas eternas do esquecimento.

A Imponderabilidade Dos Sonhos

Todos os meninos
têm sonhos
inventam as viagens
com seus barquinhos de papel
que colocam
sobre um fio d´água
exploram as terras
com seus aviões d´ aerograma
que entranham no vento
com uma linha invísivel

Por vezes
nao

Limitam-se
a viver e morrer
sobre
o fio
da linha

LSJ , A Madrugada De Lucas , 281120100731

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

NO PALCO


Não vou embalar ímpetos de desdém
De pingos de gelo a desabar no peito
Como agulhas finas de atroz suplício
Não, não pode ser, não tem jeito!
.
Adeus, adeus eu vou embora, vou sair!
Abandono a cena, esta não é a minha peça
Sinto-me para a tragicomédia a resvalar
Estou cansada e sem enredo que me impeça!
.
Sem réplica, como hei-de representar?
Espero, espero e, só encontro o silêncio
Estou farta de no palco a sós monologar!
.
Esta peça tem pouco de real, fracassou!
O «blackout» é absolutamente natural
O espectáculo da quimera terminou!
18.11.2010
Marisa Soveral

Hoje O Meu Sentimento Não Rima


Hoje o meu sentimento não rima
é oração impura
refúgio sem agasalho
hora estagnada
sem cura

hoje pesa-me o grito confinado
cala-se a voz do silêncio
sinto o movimento inquieto de tudo o que não conheço
de algo que pus de lado
e revive nos meus olhos
vagos... vagos...

mas tu dizes-me
(ah, eu quisera acreditar!)
que há um outro lado do mundo
onde os planos se entrelaçam e os corpos
se transfiguram
que há um tempo em que os relógios reverdecem
e a luz chega ao cair da noite
exalando a eternidade
plantada em rios de giesta e de papoilas.


Escrito em 24.11.10

Em memória de minha mãe

Marialuz

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

ENQUANTO VONTADE TIVER



















Nasci esta noite enquanto a manhã vinha
Despedi-me do ontem, onde já sou fumo
Pesada de tanto passado, vida minha!?
Esperança é nada...nada é meu rumo!

Sempre repetindo a mesma ladainha
Com a saudade do lado esquerdo onde se aninha.

Criança me sinto no palco da Vida.
Trepo às estrelas, páro o meu destino
Esqueço a idade já enegrecida
Sou pássaro farto, cansado, perigrino.

Vivo por aqui!
Morro por ali!

Quando escrevo, sinto-me viva
Inteiramente viva.
Posso escrever o que eu quiser!
Que a minha liberdade é verde
Enquanto vontade tiver
Palavra alguma se perde.
Ela que de alegria e tristeza me criva.

Nasci esta noite enquanto a manhã vinha
Tive medo, que tardasse a madrugada
Que este verso se finasse da angústia minha
E me deixasse de alma quebrada.

rosafogo
natalia nuno

Asa(s)


Exangue a tortura do plano inclinado


trocam-se palavras

letras empoleiradas nos beirais do poema


d

e

s

a

l

i

n

h

a

d

o


o tempo em que as romãs são diospiros

maçãs do rosto em fogo

a

alma


leve suave transparente


cálida

a noite

em que te vestes de mim.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

É o tempo que me abraça


















Vagueio na noite… tal fantasma
cobrindo-me de sombras fugidias
é o tempo que me abraça
nas encruzilhadas do caminho
e por travessas e becos acolhe-me
a saudade em desalinho
mas o teu olhar protege-me
das raízes emaranhadas de seda
que roçam as minhas mãos
impotentes

No tudo da vida prevalece
o nada obscuro do destino
alheio de mim

Já não me encontro nos dias
que passam... aqui ao me lado
...ignorando-me

São as pétalas que se escondem
nos aparentados espinhos
pontiagudos... felinos

São as cores desbotadas
da camuflada paisagem
e o quadro que se quebra
estilhaçando a doce aragem

Sou eu, és tu…. que te tens
nas trevas do dia
da luz que se esvaísse
no limiar do limbo

È a terra rodopiando
a vida... renascendo
no principio do enlaço fatal

Nada tido, sem sentido

Nada tido
Sem sentido.
Palavra oculta
Sente culpa
Nada diz
É feliz.
O mundo sente
Palavra não mente
Tudo expressa
Nesta grande peça;
Palavra parida
É próprio da vida
Palavra sem nexo
Universo complexo;
Caminho armadilha
Poeta que brilha
Ao sabor de versos
De sonhos dispersos.
Escreve, é feliz
Texto que condiz.
Sofre, escreve
Esta felicidade é breve?!
É eterna enquanto dura
É sentimento de escravatura?!
É  ~l~i~b~e~r~d~a~d~e~
É vontade
É terapia
De anomalia
Euforia
É carta de alforria.


 
Nada tido
Sem sentido.
Anomalia
Não é agonia.
Normal
É disfuncional.
Palavra desgarrada
Em versos apanhada
Metáfora inventada
Rima alucinada
Que diz, nada!



Eufemismo
Disfemismo
Ironia
Alegoria
Palavra tida
Contrapartida
Emoção
Em ebulição
Alma a latejar
As palavras a jorrar
Oceano tumultuoso
Tsunami de gozo
Arraial de excitação
Viagem ao coração.
Mente alucinada
Extravasada
Esvaziada
Apressada
Sangue a ferver
Versos a escrever!



Nada tido
Sem sentido!


7 de Junho de 2010
Clarisse Silva


terça-feira, 23 de novembro de 2010

MEU AMOR...



Eu digo ao teu ouvido
Palavras de amor, não duvides!
Ouve, são palavras de amor intenso!..

Vê o meu sorriso,
este sorriso é só teu!
Lembra-te do meu sorriso comum
De sobriedade
E como ele agora mudou
Espelhando felicidade!


Toco o teu corpo
Estrada para os meus dedos
Vaguearem carícias de pele
E na tua pele escrevo
AMO-TE, ADORO-TE…
Risco viajante e vagabundo
Na pele inspiradora
Lá fora é o deserto
Tu és o mapa-mundo!


Entras em mim
Lacrimejo o teu corpo
Na tortura do desejo
Desgrenhado
E ávida cotejo,
Na luta corporal
E latejo!


Lábios que beijam e sussurram
Meu amor…meu amor
Pelo teu corpo
Libertador!
Quero o suplício
A tortura
Sou tua escrava
Com a tua bravura
Dentro de mim
Escava!


Não são apenas palavras
São amputações do espírito!
Entrego-me em aluvião
Incondicionalmente
Em ti busco o infinito!

23.11.2010

Marisa Soveral

Portagem

Das jornadas,
erguem-se entre paraísos
sequências de portas fechadas

trancadas.

Há…

Destempo apressado.
Certo.
Momento calado
onde a dor é reflexo
no espelho quebrado
de nós.

Ainda…

Tempo estagnado.
Incerto.
Protesto pesado
quando o grito é livre
no plangendo arrastado
da voz.

Do raso
espaço dobrado, o fundo
vaza, apartado, confinado
ao passado.

Um
tempo por vir…

E a luz de outro sol
derramada, sobre a razão
de um novo mundo,
guia-nos pelo chão.

APENAS LEMBRANÇA!



















Sabia que mais cedo ou mais tarde
Na solidão dos dias futuros
Haveria de soltar suspiros de saudade
Acendendo na memória, pedaços já escuros.
Nas horas de lassidão
Deixo-me esquecida do presente
Relembro imagens distantes
Esqueço do tempo os estragos
Fico ausente!
Na poeira do pensamento,
na leveza dos instantes
Deixo meus fantasmas amargos.

Do meio do nada
Surge a recordação em mim derramada.
Cada lembrança me traz o sorriso à boca
Cada palavra escrita é linguagem de criança
Lançada ao acaso, coisa pouca!
Apenas lembrança!

E as palavras ganham asas, são esperança
E me sinto eternamente viva.
A recordar...
As minhas raízes a que já não me posso agarrar
Mas às quais me sinto cativa.

natalia nuno
rosafogo

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Na Matriz das Borboletas

Rasgou a ponte e abriu os poros
às margens férteis do novo tempo

não há sombras
neste rio
onde acordam entoações de primavera
e voos de linhos respiram na janela

procura-se
no fundo de manhãs a cores
reinventa-se na matriz das borboletas

desprende os anseios na vertigem da bruma
é pedaços de vento
desenhando os passos em árvores nuas

decifra sensações
na estrada sem distância
onde os mapas paralelos se entrecruzam.

Marialuz

domingo, 21 de novembro de 2010

Ode ao moribundo

No dia em que eu for
encetar a viagem
de ida sem volta
não quero que chorem
nem que se delonguem
a me idolatrar

Não vou deixar o mundo
sem antes excrever
a ode ao moribundo

Quando se lembrarem
que sempre cá estive
quando foi preciso
mas nunca houve tempo
para me dispensarem

AMORES MORIBUNDOS



Ouço ainda o rumor dos teus lábios de cinza
a espernear de encontro às tábuas gastas do meu peito,
e dou por mim, num delírio febril,
a murmurar as sílabas nostálgicas do teu nome,
que dançam, numa vertigem de fumo,
ensombrando os versos obscuros do poema.
Um pássaro de cera derretida,
pousado no luar arruinado dos meus ombros,
digere a ressaca de um eco distante,
no vazio destroçado do papel,
onde tento fixar as últimas sombras
do teu sorriso desfeito.

Vozes escondidas murmuram nos recantos da memória
a litania decadente dos ventos,
invocando, num ranger de ossadas,
a réstia contaminada de remotos sonhos
enterrados dentro de mim.
Sacudindo o feitiço,
acendo as palavras efervescentes do teu nome
e deixo-as, a queimar, no rebordo encardido do cinzeiro,
entre duas baforadas de fumo baço
e a insónia lenta da tua ausência,
renegando para os confins do poente
aquilo que já não me serve.

Esta noite, num derradeiro gemido,
entrego o teu rosto calcinado
às chamas fugazes do esquecimento
e, definitivamente, te fecho a porta.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Solta(S)

trémula a folha
cai
em sangue o Outono
.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.
visto-me de ti
em nuances de fogo
o olhar mareado de lágrimas estivais
.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-
dormes no meu corpo
o son(H)o
virgem guerreiro sem tempo
.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.
busco num poema
a força
do carvalho refeito cor(es)
.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.
sei o som
da morte
da vida em musica celebrada
VIVO

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

PARA ALÉM DO TEMPO

















PARA ALÉM DO TEMPO

À Vida me agarrei por mais um dia
Contei segredos ao travesseiro
Chega a tarde e me põe sombria
A sós com lembranças d'algum dia
E o passado na memória por inteiro.

A fazer-me lembrar mais um ano
Perversa a Vida, me leva ao engano.

Sempre igual parecendo diferente
E sempre o sonho morrendo com a gente.

Quando tudo parece a chegar ao fim
Há uma raiz que não desprende
Um pressentimento d'outro tempo em mim
O acolher dum sonho que ninguém mais entende.
E é como se meu corpo de novo se tivesse erguido
Liberto do tempo e da idade
E em minhas palavras  um sonho estremecido
Este sentimento que em mim se aninha a SAUDADE.

natalia nuno
rosafogo

Provei-te

Provei teu licor,
no amargo doce do entardecer.
Provei teu mel,
no doce amargo de ser.
Provei teu calor,
na doce ternura do sentir.
Provei teu odor,
no perfume amargo do trair.
Provei-te num todo,
no doce amargo de te querer.
Provei-te,
no doce imaginário do viver.

Águas límpidas

Desenho uma flor
nos traços subtis de um poema
em sépalas de luz
coroando o pólen
na ponta fina dos dedos
em lapsos dos segundos
entre orvalhos e poeiras
com os salpicos de nuvens
que me aconchegam
a voz no perfil do infinito
que absorvo
nos pináculos do silêncio
onde me dispo
e revisto de águas límpidas
a fonte que guia
as correntes sem estagnar
a luz inebriante
como o vento que canta
nos cumes da montanha
que todos os poros fecundos
encontram para lá dos muros
erguidos pelas mãos alheias
em ruídos
que o silêncio não obtempera…

Ana Coelho



quarta-feira, 17 de novembro de 2010

No Lado De Lá Da Chuva


Se ao menos eu pudesse
cerrar a ventania das manhãs
fragmentar as janelas de baças trajectórias
gementes
desnudas
no lado de lá da chuva

sentar-me ao lado das memórias
durante as areias da maré baixa
e espelhar a eternidade no teu olhar

aquecer as tuas mãos
no encantamento da pedra
tão macia
tão eterna
tão acolhedora dos sentidos das palavras

se ao menos eu soubesse
saltar de dentro do tempo
saber-me
em uníssono
a tempo inteiro
aqui

onde pertenço
no lado de cá da chuva.

Marialuz