quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Uma qualquer roupagem


Já tive pétalas de peixe
e guelra de fina flor
Tive bigodes de pássaro
asas de nobre felino
Cauda de borboleta
escamas de cão de água
e olhar de girassol
Já libertei bolhas d´água
fui essência do amor
Em Janeiro subi ao telhado
voei em sonhos rasantes
Travesti-me de mil cores
Ladrei em sons rastejantes
fui semente em campo d´oiro
Já fui homem, já fui bicho
fui mulher, como se quer
Minha alma é qualquer coisa
não se nega a quase nada
É tudo o que Deus quizer
seja qual for a roupagem
Estou para o que der e vier

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A Mudez dos Pássaros

O silêncio escorre pelos sulcos do tempo
rompe os ruídos da noite.
Encaro os espelhos resignados
e arrumo os meus sonhos
de tranças desfeitas e olhares demorados.

Sinto as pálpebras vergadas
às paredes indecifráveis da memória
sílabas confusas estilhaçam
o centro da palavra.

Recorto vultos em páginas
opacas
em busca de caminhos à solta
e raízes ao vento
sementes do pensamento.

Em vão fujo de mim
sem rumo na linha do horizonte
nem céu que sobrevoe a mudez dos pássaros.

Marialuz

T G

É dia de distancias multicores o vento sopra a boreal aperto a palavra que parte, sinto o cansaço a ser levado em defunto. No ar a conversa finda, no vento o sangue é de narrativa real, as feridas fragmentos de ornato gemidos na fonte graça da jeira. Há muito inclinei-me sobre o mundo no caminho o peito vergou-me ao combate, não fosse beber o sentido do som sem existencialismo transgénico e caía-se, caía-se subia-se por aí. Nenhum dia se extingue inocente num fundo stéreo, nenhum princípio aprisionado harmoniza nos vitrais da existência, o normal são lugares para a recusa de existir livre e natural.
Ascendo a um buraco futurista para a fusão do nada em sol maior, é do amor, desenha-se no peito como um relâmpago. Bendito. O resto é abrir os olhos sem emendas sem o sangue e o degredo do costume, abrir as mãos só com nada, o nada é essencialmente infinito. Falta um tempo de mundo humano, muito do ar que se respira veste de cem cor estragado e nós revolução evolução duas esposas convidadas somos a latejar no limiar de enlevos imperiais a chorar nos céus rios. O ar ainda tem um odor sedimentar, ouve-se um choro e um cantar e duas faces a estiolar.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

DESOSSADA

Sento-me na parte inferior da janela. O vazio ecoa sem bálsamo, sem alento. Desnuda-me a alma...petrifica-me os ossos. Na esteira da praia estico a pele numa qualquer falésia. Parece uma bandeira salgada, amarrotada de cinturões frenéticos. Estreito então a estrutura numa qualquer reentrância, trancada, escavada e sem perfil estagno no mais impudico dos silêncios. Rasguei as veias com o sangue mais conspurcado.... fiz sexo em andaimes agrafados...castrei a última esperança na morfina de todos os lemes. Dos ventos cruzados resta agora o corpo coalhado de um qualquer néon. com raiva piso o frio...esmago as pedras.Talvez o vento me torne uma árvore estilhaçada com escamas nas mãos.

Eduarda

sábado, 16 de outubro de 2010

Trevo de 4 folhas


- Já nem sei se me disponha a ouvir-te nesta hora tardia. Tenho um livro novo, e lá dentro um trevo de 4 folhas.

- Trevos a esta hora da noite, não. Prefiro as pétalas das rosas que perfumam ainda o jardim, de onde avistei o Bocage

- Rosas ? Não as vi, mas vi muitos cravos cheirosos, e julgo ter visto um no bico de uma gaivota que descansava junto aos pés do tal poeta.

- Eu vi muita coisa, mas gaivotas não. Vi alguns poetas que talvez se tenham lavado com água de rosas e vi um livro, isso sim, um livro que se desfolhava sozinho. Fiquei a ver onde ele foi parar, quando te saiu das mãos e voou junto aos olhos da estátua desse poeta. Coitado dele, ninguém reparou, mas eu vi-o a espreitar pela fresta de uma janela.
******************
Dedicado à Nanda, pela apresentação do seu livro hoje em Setúbal

Tela de Silêncios

Mergulho as mãos nos silêncios do tempo
e em palavras não ditas
reinvento o sentido invisível dos dias
que me olham nos olhos deformados
sem lágrimas de alma aquecida
nem manhãs de sonhos acordados

os instantes já não voltam a ser meus
calaram-se nas vozes de outros
afasto-me da minha pele
ao som trémulo de violinos mudos

chegou sem aviso a noite escura
uivos da Lua
gélidos momentos
tombados na tela translúcida de sobrepostas figuras
vermelha loucura de aniquilar o vazio
de um olhar desgrenhado.

Marialuz

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

NÃO ME PEÇAM

não me peçam hoje para morrer
deixem-me aqui...
simplesmente erma
desconvocada.

do sono que trago
um ruído surdo
me algema
na mais inglória desdita.

não me peçam hoje para morrer
dentro de mim
pois já o estou antes de ter nascido.

Eduarda

beirais

o grão
que a asa
culmina
se vislumbra
na ave

cantada pelo bico
a melodia
temperadora

um cismar
esvoaçante
que nesse voar
se grave

num voo
sem adoçante

António MR Martins

imagem in http://www.barrento.com/ (Andorinha-dos-beirais), na net

Cascata de emoções


Na alvorada dos meus dias mansos
agitam-se-me as águas brandas
numa cascata de emoções
Nos abraços com que me enlaças
e enterneces a pedra
que vive no meu coração
Sabes porque me encanta o teu sonho?
porque ele é meu também
Nele os anjos, alvos de esperança
tocam liras e alaúdes de candura
Entoam cânticos de paz
clamando a luz do amor
Nele flutuo contigo
quebra-se-me o gelo da alma
num almofariz de ternura
Se o poema é parco nas palavras
carece de um sorriso teu
para tomar forma e textura

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Destino escondido

No lago ondulante do pensamento
há uma cascata turbulenta
tombando
um pássaro hibernando na raiz
da liberdade
um vento timbrado, que sopra
gemendo
um céu transvertido
lágrima

paisagem rascunhada…. cinzenta

mas no rabisco vermelho patente
há uma flor que cresce no abismo,
esquecida
pétalas e espinhos perfazem-se
rosa imergida
no licor quente da própria
vida

há um consolo que penetra
o olhar perdido….
um papel escrito
de um livro ainda não lido
um destino escondido
d`uma vida sentida
a minha

CONDOR GENUÍNO

O cérebro ficara-te em estado de sítio incolor e sentiras o odor das manhãs cansadas do inverno. Escapara-te na tela a própria vida por entre dois dedos de bailarina em flor num rodopio de libertação em curtos excertos líricos ao expoente do silêncio aprisionado em ti ao cair da noite.

Eu, cedo descobrira em sombras urbanas denunciada uma verdade bem cruel e o trágico fintar dos passos dos deuses pelo olhar oblíquo que trespassa os meses vagueando por lugares de alma de cá para lá galopando sem mãos numa introspecção decrépita povoada pela morte duma fina flor de fado.

Condor genuíno estás presente dos dias aqui e se por trás do néon das clareiras de vidro ouvires o seu nome então dirás…

…Amor, trago-me no fim para pensar, trago-o no corpo a cada rasto, a cada medo de o não ter de mim. De brancura em silêncios de ti estrebucho no leito da morte. O mundo fundiu-me de tédio e tu de filigrana muito fina e eu voltarei a dormir, tic - tac dormir. O meu corpo presente acabar-se-á entre delírios e firmamentos de nós. Agora e sempre que pronunciarem o teu nome apenas direi… Amor

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Tu cá tu lá

Tu cá

num mundo de sonhos

partilhados

rios de palavras por

inventar

mares de emoções por

desbravar.



Tu lá

nas mãos que se

estendem

numa dádiva incontida

alma que se liberta

nas palavras sem

despedida.



Tu cá tu lá

eu e tu

nos caminhos que nos

aproximam.






Está prestes a fazer um ano que vivi um dos dias mais felizes da minha vida no lançamento desta antologia,desde ai a minha vida nunca mais foi igual,no sentido em que dediquei muito do meu tempo livre á escrita e ao aprendizado desta arte que me fascina e me faz numa pesssoa diferente.
Ausentei-me durante muito tempo deste site,apesar de vir aqui de vez em quando e de me dar conta de algumas mudanças.

Acho que com o meu afastamento estava a ser injusta com a mentora deste projecto,foi ela que me deu a mão e é sempre uma estrelinha que me guia lá longe,sinto-a sempre presente e sinto a sua força e a sua influencia cada vez mais na minha escrita.

Hoje,e por estar quase a fazer um ano do lançamento da antologia vim até aqui e vi que a minha presença é de alguma maneira respeitada e acarinhada,vi o lançamento de meu livro aqui destacado.

Quero por isso,pedir desculpas pela minha ausençia nas postagens e de alguma forma me tentar redimir das muitas ausencias e silencios a que me sugeitei..

Á Fatima,os meus parabens pelo exelente trabalho que tem feito neste blog,e as minhas desculpas por alguns dos meus silencios.

assim que acabar esta azafamo do lançamento do meu livro vou tentar postar com a mesma assiduidade.

Beijos.

Dá me água pra beber

Dá-me água pra beber desse fado que te sai das mãos se eu souber ler o coração como uma forma de querer que vem desta solidão....Dá-me água pra beber esse fado que é milagre se eu souber ler o coração como uma forma de arte uma forma de querer que vem de um tempo distante. Dá-me água pra beber pra quando espero por ti uma forma de querer de não saber porque estou assim Lobo

Ser somente...


(correntes baixas no Rio Paiva)
*
Ser somente
Uma pedra no caminho de alguém
Um só corpo
A espezinhar a terra
Ou um só pensamento
A brilhar na corrente
Que me leva e me traz...

E este medo de sentir-me perto
Este anseio de me virar do avesso
E sentir-me o inverso
Do verdadeiro motivo
Que me trouxe aqui

Esta melancolia
Este pavor de estar só
E esta solidão
A estrangular-me no escuro
Ou ser somente
Um único movimento
Que me leve enquanto durmo
*************
Enviado por: sommerville Publicado: 28/10/2010 01:21:15
Suponho um quarto fechado
ao avesso aberto
um corpo deitado de lado
no leito do tempo incerto
Suponho a solidão
um travesseiro arrumado
gritando onde a luz se apaga
um sonho não dormido de enroscado
bem colado no corpo da madrugada
...suponho...

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Solidão

     Luiz Sommerville , Poemas (Século XX)
     In Luso Poemas 29/06/2010,23:00:57

     "arrepiante esse ruído que nos transforma em estátuas ...
      virgens por dentro e gastas por fora"

      (Dolores Marques In Luso-Poemas 02/07/2010,16:47)

No pairar no delírio das estrelas - Dedicado a Dolores Marques




Há uma compreensão avançada
A léguas deste tempo.

Há um desmistificar num novo olhar
Da existência antes de cá chegar.

Há na leveza da Luz,
A melancolia de aqui se encontrar
Com a certeza de presenciar,
Ao esgotamento dos recursos
Ao reorientar do pensamento
E a chegada de um novo estado.

Há uma Luz intensa a cintilar
Uma viagem garantida ao apreciar
O sentido da vida e do universo
Tomam a forma de um verso!

No pairar no delírio das estrelas
O deslumbramento redescoberto.

Amálgama de emoções,
Ponto de partida da vida
Ponto na viragem nascida
Do princípio do fim.

O verso,
É beijo no centro energético
No sexto sentido,
Em sentido do universo.

O verso,
É o despertar para o além
Na força a brotar
E na queda no cansaço.

Há, para além de tudo
O tudo que é o além
Da existência…
Os versos que nos beijam
E que tentam despertar,
A realidade oculta.

Há constelações,
Há emoções!
Há a força das marés
Na esperança que nos conduz
E nos bombeia de Luz!

Clarisse Silva


Mirage(m)

Salvador Dali

Beijo de pétala
na cicatriz dum rasgo de pele
silva sem amoras
amores sem picos
rosas
em
flor
o deserto da areia
sem cor
o olhar atrevido da serpente
mente
desempoeirada
romã
assassinada
sangue estival goteja do meu lábio em ferida.
Sorrio ao passado que esqueci.
O coração pleno dos amigos que permanecem como os conheci.
Abraço a vida,
entoo uma canção
e
regresso.
Entro na noite com a musica
e
permaneço.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

INCONTIDA INOCÊNCIA

                                                           Photo by: Michael Meneklis


.
não me peçam para andar
quando estiver parada
não me peçam para me deitar
quando estiver de pé.

nos ombros, um buraco de impossibilidades na entoação de inverno
e nos dias das esquinas...  a lápide dos subúrbios encostada à minha porta.

estou cansada de todos os ditados escondidos,
em inóspitos fragmentos dobrados num silêncio
sem intenções que me tentam exprimir
na folha seca e subordinada.

quero ficar calada na insónia, constatar a água
e invocar outros portos sem gente opaca ou negras respirações.

ai estas horas silenciosas que me constroem a ausência!

tenho no estômago uma angustia química, armazenada na mais turbulenta náusea.

quero viver em todos os lados
e ter olhos em todas as coisas,
como se de repente toda a humanidade fosse um momento lógico
numa proa concreta e absoluta.

acordo com o suor a escorrer-me o corpo!

fui em tudo uma copa de razão,
um estreito criminoso
quando cometi o acto de tudo sentir.

fui em tudo o dobro das sensações....
a mais sincera das pobres opiniões.

esperei tantas coisas coisas reais....
gemi mais que todos os saltimbancos...
aguardei doente um alquimista que me tirasse o delírio.

e assim parto no barco da incontida inocência sem pudor
no vento que recomeça.


Eduarda

Até sempre...

As mãos perdidas definem sonhos,
Fecundo gesto que paira,
Como uma ave sem porto…
Naquela carta afogada.
As palavras deslizam sem sons,
Pétalas de uma rosa desfolhada varrem o vazio,
Despindo o jardim
Entre as vagas dos acenos da saudade.
Letra a letra,
Desnudo a minha alma,
Sereno…
Sinto o sangue dos espinhos,
Entre as lágrimas derramadas.
Talvez…
A minha face dispa o túmulo da minha voz,
Soletrando em murmúrios
Os silêncios libertos da memória.
Corvos que pairam no destino,
O meu… o meu talvez,
Nas dúvidas que engoliram a terra crua,
Libertando o triste aroma,
Entre o ventre dos desejos esquecidos.
Um dia…
Os meus dedos irão despertar
As sombras partirão das raízes
Novas linhas serão preenchidas,
Para de novo,
Acariciar o céu com as minhas asas.

domingo, 10 de outubro de 2010

Na palma da minha mão

















Na palma da minha mão
há o reflexo lapidado de um olhar,
desse olhar que se perde
no interstício da alma minha,
há um tudo e um nada, como a vida que desliza
na ponta da asa de uma gaivota cega

Na palma da minha mão
há um sonho, uma estrela dançante
num olhar gotejante
de corpúsculos cristalinos de sal,
torrente fluindo num pedaço de mar
do teu mar, pertinho de ti

Na palma da minha mão
tatuado a lume e lágrimas,
há um diamante, enobrecido pelo tempo
um tempo vão… forçado… o teu

Na palma de uma mão
na lonjura das vagas marinhas, sem nexo…
há um olhar vazio….. falho de algo...
de mim