quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Ser somente...


(correntes baixas no Rio Paiva)
*
Ser somente
Uma pedra no caminho de alguém
Um só corpo
A espezinhar a terra
Ou um só pensamento
A brilhar na corrente
Que me leva e me traz...

E este medo de sentir-me perto
Este anseio de me virar do avesso
E sentir-me o inverso
Do verdadeiro motivo
Que me trouxe aqui

Esta melancolia
Este pavor de estar só
E esta solidão
A estrangular-me no escuro
Ou ser somente
Um único movimento
Que me leve enquanto durmo
*************
Enviado por: sommerville Publicado: 28/10/2010 01:21:15
Suponho um quarto fechado
ao avesso aberto
um corpo deitado de lado
no leito do tempo incerto
Suponho a solidão
um travesseiro arrumado
gritando onde a luz se apaga
um sonho não dormido de enroscado
bem colado no corpo da madrugada
...suponho...

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Solidão

     Luiz Sommerville , Poemas (Século XX)
     In Luso Poemas 29/06/2010,23:00:57

     "arrepiante esse ruído que nos transforma em estátuas ...
      virgens por dentro e gastas por fora"

      (Dolores Marques In Luso-Poemas 02/07/2010,16:47)

No pairar no delírio das estrelas - Dedicado a Dolores Marques




Há uma compreensão avançada
A léguas deste tempo.

Há um desmistificar num novo olhar
Da existência antes de cá chegar.

Há na leveza da Luz,
A melancolia de aqui se encontrar
Com a certeza de presenciar,
Ao esgotamento dos recursos
Ao reorientar do pensamento
E a chegada de um novo estado.

Há uma Luz intensa a cintilar
Uma viagem garantida ao apreciar
O sentido da vida e do universo
Tomam a forma de um verso!

No pairar no delírio das estrelas
O deslumbramento redescoberto.

Amálgama de emoções,
Ponto de partida da vida
Ponto na viragem nascida
Do princípio do fim.

O verso,
É beijo no centro energético
No sexto sentido,
Em sentido do universo.

O verso,
É o despertar para o além
Na força a brotar
E na queda no cansaço.

Há, para além de tudo
O tudo que é o além
Da existência…
Os versos que nos beijam
E que tentam despertar,
A realidade oculta.

Há constelações,
Há emoções!
Há a força das marés
Na esperança que nos conduz
E nos bombeia de Luz!

Clarisse Silva


Mirage(m)

Salvador Dali

Beijo de pétala
na cicatriz dum rasgo de pele
silva sem amoras
amores sem picos
rosas
em
flor
o deserto da areia
sem cor
o olhar atrevido da serpente
mente
desempoeirada
romã
assassinada
sangue estival goteja do meu lábio em ferida.
Sorrio ao passado que esqueci.
O coração pleno dos amigos que permanecem como os conheci.
Abraço a vida,
entoo uma canção
e
regresso.
Entro na noite com a musica
e
permaneço.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

INCONTIDA INOCÊNCIA

                                                           Photo by: Michael Meneklis


.
não me peçam para andar
quando estiver parada
não me peçam para me deitar
quando estiver de pé.

nos ombros, um buraco de impossibilidades na entoação de inverno
e nos dias das esquinas...  a lápide dos subúrbios encostada à minha porta.

estou cansada de todos os ditados escondidos,
em inóspitos fragmentos dobrados num silêncio
sem intenções que me tentam exprimir
na folha seca e subordinada.

quero ficar calada na insónia, constatar a água
e invocar outros portos sem gente opaca ou negras respirações.

ai estas horas silenciosas que me constroem a ausência!

tenho no estômago uma angustia química, armazenada na mais turbulenta náusea.

quero viver em todos os lados
e ter olhos em todas as coisas,
como se de repente toda a humanidade fosse um momento lógico
numa proa concreta e absoluta.

acordo com o suor a escorrer-me o corpo!

fui em tudo uma copa de razão,
um estreito criminoso
quando cometi o acto de tudo sentir.

fui em tudo o dobro das sensações....
a mais sincera das pobres opiniões.

esperei tantas coisas coisas reais....
gemi mais que todos os saltimbancos...
aguardei doente um alquimista que me tirasse o delírio.

e assim parto no barco da incontida inocência sem pudor
no vento que recomeça.


Eduarda

Até sempre...

As mãos perdidas definem sonhos,
Fecundo gesto que paira,
Como uma ave sem porto…
Naquela carta afogada.
As palavras deslizam sem sons,
Pétalas de uma rosa desfolhada varrem o vazio,
Despindo o jardim
Entre as vagas dos acenos da saudade.
Letra a letra,
Desnudo a minha alma,
Sereno…
Sinto o sangue dos espinhos,
Entre as lágrimas derramadas.
Talvez…
A minha face dispa o túmulo da minha voz,
Soletrando em murmúrios
Os silêncios libertos da memória.
Corvos que pairam no destino,
O meu… o meu talvez,
Nas dúvidas que engoliram a terra crua,
Libertando o triste aroma,
Entre o ventre dos desejos esquecidos.
Um dia…
Os meus dedos irão despertar
As sombras partirão das raízes
Novas linhas serão preenchidas,
Para de novo,
Acariciar o céu com as minhas asas.

domingo, 10 de outubro de 2010

Na palma da minha mão

















Na palma da minha mão
há o reflexo lapidado de um olhar,
desse olhar que se perde
no interstício da alma minha,
há um tudo e um nada, como a vida que desliza
na ponta da asa de uma gaivota cega

Na palma da minha mão
há um sonho, uma estrela dançante
num olhar gotejante
de corpúsculos cristalinos de sal,
torrente fluindo num pedaço de mar
do teu mar, pertinho de ti

Na palma da minha mão
tatuado a lume e lágrimas,
há um diamante, enobrecido pelo tempo
um tempo vão… forçado… o teu

Na palma de uma mão
na lonjura das vagas marinhas, sem nexo…
há um olhar vazio….. falho de algo...
de mim

Sistema Opera-Activo



          Teclado
          ou lá o que de matéria é
          antes
          o papel , a tinta , caneta e mata-borrão
          de cinzas perpendiculares à boca
          perfuradores de lábios , agrafados !
          sobre os corpos mornos , adesivos !
          tapam-se os ouvidos
          para não escutar o estalar da palavra-passe
          do mundo , versão de teste , beta !
          a cobrar na intermitente tremura dos fios , invisíveis !
          por onde passam as vidas sem luto
          à entrada que saída é que é
          estampando gritos em todas as linguagens
          mesclando , entrançando todas as civilizações
          na tela !

          que se desliga ...



          Luiz Sommerville , 101010 , 02:28

sábado, 9 de outubro de 2010

Olhos de barro


Há flores que definham cedo
outras já nasceram murchas
Assim não sentem a morte
quando expiram já estão secas
tinham as folhas caducas
Não são regadas em vida
falta-lhes hidratação
São flores sem clorofila
não libertam oxigénio
São cactos cheios de picos
na areia do deserto
Que não murchem os meus olhos
de tanta lágrima vertida
Têm engelhas de barro
Por uma gota de orvalho
dava eu a minha vida

terça-feira, 5 de outubro de 2010

NÃO E O VAZIO QUE ME DÓI



não é o vazio que me dói!
é este cansaço das palavras ditas e não sentidas.
das que se escrevem em forma de balas
do manto da inveja
e do átrio da vaidade
que em tanto me petrifica.
é este querer ver o sol em dia de chuva
querer a brisa no mais profundo silêncio
e ser desarmada nas entrelinhas.
é este ter querido permanecer
e partir num pó rasgado
de não ter sabido ir aquém.

Eduarda

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Infinito de mim



Estou perto do infinito de mim
há uma voz que me orienta
algo que me desconcerta
o transcender do sonho esperado
Estou longe de cumprir a minha missão
e é na essência que busco o caminho
no livro sânscrito das minhas emoções
pergaminho onde me encontro e descubro
relicário de todo o conhecimento adquirido

Estou entre o céu e a terra
não sou anjo, sou poeta
cuido das maleitas do mundo
com mensagens de amor e paz
para quê morrer, se ainda
tenho tanto para escrever?

Convite

Agradeço-te Fátima por postares o meu convite.
Obrigada querida administradora.
Estão todos convidados.
Beijinhos
Nanda

Agradeço-te Fátima, por postares o meu convite.

sábado, 2 de outubro de 2010

Terra prometida


Os amigos recebiam-na sempre de braços abertos, mas ela como se fechava para a vida, esticava-lhes um beijo assim ao de leve, só a roçar uma pontinha de pele. Olhava em seu redor, com os olhos esbugalhados e o seu ar extasiado, como se tivesse entrado num outro mundo.

Ali era o último encontro daquela raça, para que todos se olhassem bem e imprimissem as imagens que nunca mais iriam ter na frente dos seus olhos. Seria o dia da última sagração dos homens na terra, que ainda se encontrava revoltada pelos bicos de ferro e pelas foices afiadas, que cortaram a eito todas as raízes que mantinham ainda a forma erguida para a última colheita. Tinham chegado ao ponto de encontro e todos se mantiveram de pé até chegarem os últimos pregadores da demanda que os iria levar à terra prometida. Aquela já não lhes servia para nada, depois da decadência e do desmazelo a que todos se habituaram. O sol já não lhes aparecia com as mesmas cores durante o dia, a noite era um círculo fechado aos reflexos da lua, as estrelas apagaram-se quando da sentença do ultimo comité de naves que sobrevoaram os céus. Os mares evadiram-se até à linha do horizonte, tinham já naufragado todas as embarcações que transportavam novas espécies para a sua colonização e o azul do céu, diluiu-se perante as cores do novo arco íris.


Ali se sentaram de pernas cruzadas e de mãos dadas em jeito de ritual, unindo esforços para que todos fossem uma única força que os levasse ao destino que estava prestes a deixar-se seduzir pelas novas agitações da nova era.


PEQUENA CIDADE

Mais espuma brota
A granel da foice
Cabe-me tudo na mala
Coubesse assim
As horas da cidade

Cheira a absorto
Os braços não arrumo
Torres de outro corpo
Versalhes pesa morto
Banais por esta cidade

Ouço da sombra fugaz
Do título que não sabe
Perdido longe a gás
Sonolência leito e paz
Coloração noutra cidade

Insónia sem ritmo
Vazio é bolso
Corpo frio e absinto
Envelhecida catedral
Disfuncional pela cidade

Espírito fatal
Trágico registo
Afinal tenho visto
Que nada tenho visto
Nos seios desta cidade

Eterna noite
Poluição em destaque
Moribundo almanaque
Nada que afoite
Não existe a cidade

Derrete em vaidade
Bolor roxo teso
Decadência pé ante pé
Amarras em verso preso
Estátua de pedra
Ai cidade

A manhã beijou-me… hoje

















A manhã entrou-me pela janela adentro
na frescura do dia beijou-me
deliberadamente
acariciou-me com os seus raios distantes
ao de leve, timidamente
querendo ser vento que passa no momento

A manhã beijou-me…. calidamente
perdendo-se novamente no dia
como a areia escorrendo
na minha mão vibrante… vazia

A manhã partiu incerta
no meu rosto, um sorriso quente
no meu olhar uma lágrima fluindo
perdida …

A manhã beijou-me...hoje
Adormecendo-me nos braços do tempo

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

RESTOS DE SILÊNCIO

Ouvi-te,
silêncio triste,
uivando fomes lá fora,
como cão vadio e magro...

Lancei-te,
silêncio triste,
uma côdea do passado,
com travo a bolor amargo.

Senti-te,
silêncio triste,
lamber-me as mãos calejadas
pela noite em que me agarro.

E dei-te,
silêncio triste,
os sons dos grilos na eira,
o correr da água ao largo,
o esbater do dar-horas
nas pedras nuas do adro,
o morrer duma cantiga
na garganta já sem garbo,
a dolência duma voz
a anunciar fados na rádio,
o tresmalhar dos amantes
nas ruas do são pecado,
o crepitar da lareira
queimando vides do fardo,
o ronronar do meu gato
adormecendo a meu lado...

Ouvi-me,
silêncio triste,
nas saudades que hoje lavro...

Ouvi-te,
silêncio triste,
num tempo antigo que trago
no peito onde traíste
a terra onde te escavo...

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Momentos sem esboços

Não vivo de esboços
vivo de momentos
cadências que me chegam
trazidas nas brisas suaves
de todos os dias,
ondas vibrantes
que encostas a mim
mordendo o sossego
até à plena entrega…

Uma desfolhada
em sementes de girassol
na cor do sol
a coroa lírica da tua
sublime existência!

Nas trincheiras do medo
é sempre o teu alimento
que me produz ânimo
e me conduz ao próximo momento…

Vestes no meu tímido corpo
as roupagens dos meus ocultos sonhos
em pergaminhos de miríades tuas!


Ana Coelho

Sou uma réstia de mim

(foto: Clarisse - Porto)



Sou uma réstia de mim


Perante aquilo que sou
Sobras, inicio de coisa alguma
Sou, (não) sendo,
O que serei alguma vez
É a certeza de um talvez.


Sou uma gota no oceano


Acorda de vez em quando
Na penumbra reflectida
Espelho irrealista
Sombra da imagem
Auto-blindagem.


Sou um grão de areia no deserto


Sou aquilo que nunca fui
Sou aragem que flui
Paragem no tempo escondido
Cronómetro avariado
No espaço perdido
Passado é aprendizado!


Mas quero Ser


Bailarina que em cima
De certezas navega.
Calçada na determinação
De ouvir o coração.


Mas quero Ser


Como folha ao sabor do vento
Como gotícula do imenso mar
Na plenitude do sentimento
Conjugando o verbo Amar!


Constantemente,
Para sempre.


Clarisse Silva
4 de Março de 2010

sábado, 25 de setembro de 2010

Já só falta o -lha!

(já só falta o -lha!)


Não me peçam para me erguer do chão!
Agora não...
Não vêm que perdi os olhos,
a boca e parte do coração
e tenho de procurá-los,
de joelhos,
entre os pés bem calçados
de olhos, de bocas, de corações,
dos que me estendem perdões...?
(assim,
como se os perdões fossem cordas...)
Cordas.
Cordas fazem-me lembrar forcas...
Forças.
Ah!
Faz todo o sentido.
(só me falta achar,
afinal,
uma cedilha...)

Cedi...