quinta-feira, 30 de setembro de 2010

RESTOS DE SILÊNCIO

Ouvi-te,
silêncio triste,
uivando fomes lá fora,
como cão vadio e magro...

Lancei-te,
silêncio triste,
uma côdea do passado,
com travo a bolor amargo.

Senti-te,
silêncio triste,
lamber-me as mãos calejadas
pela noite em que me agarro.

E dei-te,
silêncio triste,
os sons dos grilos na eira,
o correr da água ao largo,
o esbater do dar-horas
nas pedras nuas do adro,
o morrer duma cantiga
na garganta já sem garbo,
a dolência duma voz
a anunciar fados na rádio,
o tresmalhar dos amantes
nas ruas do são pecado,
o crepitar da lareira
queimando vides do fardo,
o ronronar do meu gato
adormecendo a meu lado...

Ouvi-me,
silêncio triste,
nas saudades que hoje lavro...

Ouvi-te,
silêncio triste,
num tempo antigo que trago
no peito onde traíste
a terra onde te escavo...

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Momentos sem esboços

Não vivo de esboços
vivo de momentos
cadências que me chegam
trazidas nas brisas suaves
de todos os dias,
ondas vibrantes
que encostas a mim
mordendo o sossego
até à plena entrega…

Uma desfolhada
em sementes de girassol
na cor do sol
a coroa lírica da tua
sublime existência!

Nas trincheiras do medo
é sempre o teu alimento
que me produz ânimo
e me conduz ao próximo momento…

Vestes no meu tímido corpo
as roupagens dos meus ocultos sonhos
em pergaminhos de miríades tuas!


Ana Coelho

Sou uma réstia de mim

(foto: Clarisse - Porto)



Sou uma réstia de mim


Perante aquilo que sou
Sobras, inicio de coisa alguma
Sou, (não) sendo,
O que serei alguma vez
É a certeza de um talvez.


Sou uma gota no oceano


Acorda de vez em quando
Na penumbra reflectida
Espelho irrealista
Sombra da imagem
Auto-blindagem.


Sou um grão de areia no deserto


Sou aquilo que nunca fui
Sou aragem que flui
Paragem no tempo escondido
Cronómetro avariado
No espaço perdido
Passado é aprendizado!


Mas quero Ser


Bailarina que em cima
De certezas navega.
Calçada na determinação
De ouvir o coração.


Mas quero Ser


Como folha ao sabor do vento
Como gotícula do imenso mar
Na plenitude do sentimento
Conjugando o verbo Amar!


Constantemente,
Para sempre.


Clarisse Silva
4 de Março de 2010

sábado, 25 de setembro de 2010

Já só falta o -lha!

(já só falta o -lha!)


Não me peçam para me erguer do chão!
Agora não...
Não vêm que perdi os olhos,
a boca e parte do coração
e tenho de procurá-los,
de joelhos,
entre os pés bem calçados
de olhos, de bocas, de corações,
dos que me estendem perdões...?
(assim,
como se os perdões fossem cordas...)
Cordas.
Cordas fazem-me lembrar forcas...
Forças.
Ah!
Faz todo o sentido.
(só me falta achar,
afinal,
uma cedilha...)

Cedi...

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A MODERNIDADE É UMA SECA

A modernidade é uma seca
Abriu a caça aos ecléres
E às bolas de berlim obesas
E sentes que a boca continua
O saber ao frémito da dor
Eu vi quando partiste sentada
Para a manifestação do contra
E sei que compraste o sofá
Para não te cansares
Por causa dos implantes
Eu sei que ainda te lembras
Quantas foram exactamente as peças
Que sobraram quando montei
A bicicleta que havia desmontado
O que vai na tua boca a cadeado!
Quando os olhos atracam no cais
Escolhas a mais
Como andas magra
Palidamente magra
Dizem as más-línguas
Que a vida que tinhas deste-a
Entregaste-a à morte
Que ainda cá não veio lavar-te os olhos
Já te disse como és bela
Que o meu canto é anseio
E o nosso coração a porta
Para demissão dos cães
E do implante
Eu sei
O hino ás maquinas
O riso dos miseráveis
O mito da chicotada
A tua mão poderá achar a minha
A esperança amadurece depois do grito
No regresso o corpo ferido há-de luxo
Agora nem sei se devia dizer-te
Nem sei se é correcto
Mas as tuas mamas
Tinham afinal o tamanho certo

Entranhas Do I - Limite


Eu queria
transportar o novo
a ideia
do i de original
mas
o pode é que escreve
e me acode
circunstancial
a mente
e o real
como todo o ser
que é

está , está ...
lá , entre e aqui
o ó do i
crucial ...


Luiz Sommerville, 2409201002,31

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

POLARIDADE INVERTIDA















O olhar perdido na sombra do alpendre
bebe o pouco que resta, da luz estagnada
no estuque arruinado dos muros
e na terracota de longínquas memórias,
onde um eco de vozes sussurrantes
entoa a cantiga esquecida dos ventos.

Os pássaros sombrios do outono
desceram as colinas do teu corpo enrugado
onde o alento mirra, em cada folha que cai,
em cada novo dia que te desfolha,
na tristeza do musgo que trepa a pedra fria
nos últimos degraus do crepúsculo.

Vencida pelos limites vagos do futuro,
refugias-te nas varandas do passado,
e descobres que há um tempo na vida
em que a polaridade dos sonhos se inverte,
e a ilusão caduca dos dias vindouros
reverte àquelas manhãs antigas, em que
o sol dançava na linha tépida do horizonte.

sábado, 18 de setembro de 2010

Torna-me imortal
















Abraça-me assim… bem forte
faz-me sentir a minha própria pequenez
mostra-me a efemeridade de ser corpo
torna-me imortal na mortalidade dos sonhos
deixa-me provar o sabor da tua essência
fica comigo nesta amência permanente
neste tropeçar sôfrego de ser tempo
e mostra-me o casulo do alvorecer
no murmurar ínfimo dos dias

Abraça-me bem forte e no silêncio do vento,
o eco do teu olhar sussurra-me

Estou aqui, sente-me

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Teu cheiro em mim

(foto: Clarisse Silva)



Teu cheiro em mim


Tenho ainda o teu cheiro em mim
Dos corpos nos lençóis de cetim.
Dos beijos, do toque, da pele
Que findaram sem fim.


Na boca que continua a beijar-me…
No ar que continua a sugar-me…
Do desejo latente a desejar-me…
No devaneio louco sem ar…
No êxtase… no coração,
Pelas entranhas a latejar!


Viagem e passagem para outra margem.


Estou livre,
Na aglutinação do amor que me liberta.


Mente desperta
Na conjunção de poeta.
Na união de mente e coração,
Sou livre!


Sou livre,
Na liberdade de amar.
Só se ama na Liberdade,
Amar-te é felicidade!


Estar em ti,
Estando em mim
Fora de mim
Que me perdi.
És a luz do meu ser
Sou a luz do teu
Entramos no céu!


Sou livre com asas a planar,
Vem na eternidade me acompanhar!


Clarisse Silva

terça-feira, 14 de setembro de 2010

A água subia como as lágrimas dos olhos á cabeça.

A água subia como as lágrimas dos olhos á cabeça. Havia o monstro em figura de homem que planeava aquele homicídio, não acreditava que aquele momento fosse uma alucinação. A minha mãe era a expressão cruel da doçura caminhando ao meu lado como uma nuvem ao lado de um anjo. Que fazia eu ali, o que é que eu tinha tomado? Escondia-me nas igrejas vestido de militar, lia os salmos e as cartas do apostolo Paulo aos Romanos, lia as tuas cartas apaixonadas e obscenas. A água subia no pequeno cubículo da casa de banho, parecia um filme, a imagem do diluvio a repetir-se na minha vida. Aquilo era tudo falso, precisava de felicidade, um tiro nos miolos não bastava para chegar ao paraíso.

LOBO 010

domingo, 12 de setembro de 2010

O Azul dos Teus Olhos Castanhos

Desenho-te,
em cenários de azuis.

Junto
música e seda.
Seda melodiosa,
música acetinada.

Adivinho-te,
em oceanos
de azuis profundos,
quase abissais,
onde dançam
e se entrelaçam
os sons e os tons,
na alma de um violino,
no canto das sereias.

Sinto,
na magia do azul,
a doçura do olhar
dos teus olhos castanhos.

Marialuz

sábado, 11 de setembro de 2010

SAI-TE DIABO QUE O TAPAS COM O RABO ESSE AMOR NÃO É TEU

Vieste-me ao pensamento no sabor das amoras
Trazias nos poemas o calor de um sonho de verão
Nas palavras o sol de Agosto
Eu amei-te como só te podia amar
Atrás dos rochedos quietos na planície semi-lúcida
De um mundo velho de ferrolhos
Da consumação do nosso amor emergido dos livros
Os búzios em refrão de anáfora

A Prece De Satine

















Rolando pelo chão
como um trem
caindo por baixo do Inverno
trilhos desviados
o estilhaçar duma lágrima
ardendo por dentro da claridade
nos meus joelhos dobrados, molhando...
a curvatura da Terra
atirando meu sangue violentamente,
chuva de poeiras flutuando,
contra o fim
e eu digo adeus
à viagem
que não me quis passageira ...


Luiz Sommerville, 1009201017,37 (Poemas Filmados)

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Momentos de silêncio


(foto, Dolores Marques in "Grafitis, Uma Arte no Escuro")



Pudesse eu dizer-te que a minha vida se alterou, que amo nos dias onde nascem as madrugadas e que esse amor me fala das noites, onde nascem os dias. Mas não, nada disto que te falo em voz baixa, aconteceu, porque nem a minha voz se ouve no silêncio que é o meu guia neste dia, e nem o meu olhar é um ponto onde o amor se resguarde até ao florir da próxima Primavera.


Pudesse eu contar-te neste dia, dos momentos de nudez onde descanso o meu corpo e dos rumores que se ouvem a caminho das estrelas, por não saberem onde andas com todo o amor que me tens.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Sementes De Ventura

















Meu amor,
foi-se embora a Lua...
quantos sóis morreram hoje?
a palavra tem que ser nua
vestida não passa dum adorno
destronado da semântica
a palavra é verbo em fogo
incendiando a ponta da lágrima
vertida!
sobre o nome coroado
que me revira o coração, alado!
pregado! ó luz, quando sorris, a canção
é dança em oração, convicção!
vem, atravessa o espinho, ninho, lamento
e nem por um momento, hesites,
vacilar é proibido, agora !
quem disse que a noite é cega?nega!
a palavra é apenas uma , ruma
de onde vem para onde vai, sai!
ah, se eu soubesse o lugar dela, morada
te escreveria, minha amada, tudo!
numa letra apenas, a primeira!
verdadeira! nascente da estrada
mas , eu não sei escrever, não sei...
ensaio invenções que caminham, no sotão
e temo que o pior deste rebuscar
se descontrole ao longo dum ponto cravado no infinito
ponto final .
é ele que mata todas as preces, implacável!
Foi-se embora, a Lua ficou .
hoje, ó, como o Sol nasceu belo !
a palavra é luz , a luz nunca se veste !


Luiz Sommerville, 0909201006,01

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Infecunda liberdade
















A vida pariu o destino
abandonou-o meigamente
na janela aberta do SER
tatuando com lágrimas e risos
a brochura da alma
aprisionando-a
na liberdade de ser

Mas o SER
bastardo engravidou
de infecunda liberdade

A terra escureceu
E a vida tornou-se sombra

terça-feira, 7 de setembro de 2010

A nova revolução I

I

Proibido o despudor no poder
Enraizado e alimentado
Nas cabeças desumanizadas
Em objectos infrutíferos e efémeros.


Proibida a desfaçatez e a mascarada tez
Em obvia falsidade.


Proibida a crença nas imagens humanas
De mentes insanas
Carregadas de moral,
Neste universo perfeito de despeito.


Proibida a proliferação da peste
Que vomita adjectivos e ideais
De sonhos provocados e irreais.


Proibido a audição de gravações
Realizadas em directo
Directamente aos corações.


Proibidas televisões manobradas
Em manipulações internamente forjadas
Em diárias jornadas
Perfumadas de cravos
Transformadas em escravos
No fim da ditadura
E continuação da escravatura.


Que seja proibido
O uso da liberdade
Em abuso da idoneidade…!


Que seja proibido
Gravadores ambulantes
Fingindo-se de pessoas
Se achando importantes!

domingo, 5 de setembro de 2010

Falo de gaivotas

E ouço quando ela fala
De amor



SILÊNCIOS DE LUAR



Vieste no iodo que fiz violinos
No som da harmónica éramos voos a ver
Pintei a praia de ti. À fogueira cor
Ouvi-te no beija-me... Beijei-te, amor

sábado, 4 de setembro de 2010

Nos Meus Olhos Um Oceano

Entre as gotas do tempo
submerso em verdades inexoráveis,
esfumam-se tardias sombras,
inadiáveis,
esventrando-me presságios de esperanças e colheitas.
As minhas mãos,
cheias de tudo e de nada,
interrogam o silêncio transparente
dos xilofones dos ventos,
suspensos da pequena rede
que baloiça mansamente,
agarrada ao céu das emoções.

Cegaram-me os fios de luz
de oceanos nascidos dentro dos olhos,
na lonjura fugidia
que o voo raso dos dias
esqueceu vazios
no cais.

Marialuz

Portal da imortalidade



Há uma imunidade nos sonhos
Uma liberdade amorfa e casta
Uma esperança no inatingível
Toda uma veleidade intrínseca
Um indelével mundo surrealista
Na trôpega profusão das imagens
O mar pode ser um rio
O rio pode ser um lago
O lago o sal de uma lágrima
E eu navego ao luar na fantasia
Na barca que me embala e alumia
Na vaga âncora da minha alma
Ao longe o céu serve de manta
À paz que engasgo na garganta
À emoção que me acomete
Sempre que o sono me remete
Para o portal da imortalidade