sábado, 11 de setembro de 2010

A Prece De Satine

















Rolando pelo chão
como um trem
caindo por baixo do Inverno
trilhos desviados
o estilhaçar duma lágrima
ardendo por dentro da claridade
nos meus joelhos dobrados, molhando...
a curvatura da Terra
atirando meu sangue violentamente,
chuva de poeiras flutuando,
contra o fim
e eu digo adeus
à viagem
que não me quis passageira ...


Luiz Sommerville, 1009201017,37 (Poemas Filmados)

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Momentos de silêncio


(foto, Dolores Marques in "Grafitis, Uma Arte no Escuro")



Pudesse eu dizer-te que a minha vida se alterou, que amo nos dias onde nascem as madrugadas e que esse amor me fala das noites, onde nascem os dias. Mas não, nada disto que te falo em voz baixa, aconteceu, porque nem a minha voz se ouve no silêncio que é o meu guia neste dia, e nem o meu olhar é um ponto onde o amor se resguarde até ao florir da próxima Primavera.


Pudesse eu contar-te neste dia, dos momentos de nudez onde descanso o meu corpo e dos rumores que se ouvem a caminho das estrelas, por não saberem onde andas com todo o amor que me tens.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Sementes De Ventura

















Meu amor,
foi-se embora a Lua...
quantos sóis morreram hoje?
a palavra tem que ser nua
vestida não passa dum adorno
destronado da semântica
a palavra é verbo em fogo
incendiando a ponta da lágrima
vertida!
sobre o nome coroado
que me revira o coração, alado!
pregado! ó luz, quando sorris, a canção
é dança em oração, convicção!
vem, atravessa o espinho, ninho, lamento
e nem por um momento, hesites,
vacilar é proibido, agora !
quem disse que a noite é cega?nega!
a palavra é apenas uma , ruma
de onde vem para onde vai, sai!
ah, se eu soubesse o lugar dela, morada
te escreveria, minha amada, tudo!
numa letra apenas, a primeira!
verdadeira! nascente da estrada
mas , eu não sei escrever, não sei...
ensaio invenções que caminham, no sotão
e temo que o pior deste rebuscar
se descontrole ao longo dum ponto cravado no infinito
ponto final .
é ele que mata todas as preces, implacável!
Foi-se embora, a Lua ficou .
hoje, ó, como o Sol nasceu belo !
a palavra é luz , a luz nunca se veste !


Luiz Sommerville, 0909201006,01

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Infecunda liberdade
















A vida pariu o destino
abandonou-o meigamente
na janela aberta do SER
tatuando com lágrimas e risos
a brochura da alma
aprisionando-a
na liberdade de ser

Mas o SER
bastardo engravidou
de infecunda liberdade

A terra escureceu
E a vida tornou-se sombra

terça-feira, 7 de setembro de 2010

A nova revolução I

I

Proibido o despudor no poder
Enraizado e alimentado
Nas cabeças desumanizadas
Em objectos infrutíferos e efémeros.


Proibida a desfaçatez e a mascarada tez
Em obvia falsidade.


Proibida a crença nas imagens humanas
De mentes insanas
Carregadas de moral,
Neste universo perfeito de despeito.


Proibida a proliferação da peste
Que vomita adjectivos e ideais
De sonhos provocados e irreais.


Proibido a audição de gravações
Realizadas em directo
Directamente aos corações.


Proibidas televisões manobradas
Em manipulações internamente forjadas
Em diárias jornadas
Perfumadas de cravos
Transformadas em escravos
No fim da ditadura
E continuação da escravatura.


Que seja proibido
O uso da liberdade
Em abuso da idoneidade…!


Que seja proibido
Gravadores ambulantes
Fingindo-se de pessoas
Se achando importantes!

domingo, 5 de setembro de 2010

Falo de gaivotas

E ouço quando ela fala
De amor



SILÊNCIOS DE LUAR



Vieste no iodo que fiz violinos
No som da harmónica éramos voos a ver
Pintei a praia de ti. À fogueira cor
Ouvi-te no beija-me... Beijei-te, amor

sábado, 4 de setembro de 2010

Nos Meus Olhos Um Oceano

Entre as gotas do tempo
submerso em verdades inexoráveis,
esfumam-se tardias sombras,
inadiáveis,
esventrando-me presságios de esperanças e colheitas.
As minhas mãos,
cheias de tudo e de nada,
interrogam o silêncio transparente
dos xilofones dos ventos,
suspensos da pequena rede
que baloiça mansamente,
agarrada ao céu das emoções.

Cegaram-me os fios de luz
de oceanos nascidos dentro dos olhos,
na lonjura fugidia
que o voo raso dos dias
esqueceu vazios
no cais.

Marialuz

Portal da imortalidade



Há uma imunidade nos sonhos
Uma liberdade amorfa e casta
Uma esperança no inatingível
Toda uma veleidade intrínseca
Um indelével mundo surrealista
Na trôpega profusão das imagens
O mar pode ser um rio
O rio pode ser um lago
O lago o sal de uma lágrima
E eu navego ao luar na fantasia
Na barca que me embala e alumia
Na vaga âncora da minha alma
Ao longe o céu serve de manta
À paz que engasgo na garganta
À emoção que me acomete
Sempre que o sono me remete
Para o portal da imortalidade

Duas Consoantes E Duas Vogais


Será que terei
de gritar
o teu nome?
pegar numa estrela
e com ela escrever
uma estrada infinita
de luz ?

Será Deus
que terei
que abraçar o teu corpo
idolatrado
esse teu corpo
que nenhum deus viu
esse teu corpo
pregado na cruz
sangrando
e morrer nos teus braços
com o nome adorado
escorrendo-me como um rio
flagelado?...

Então , hipócritas das letras
que determinais as leis
escrevei com pregos
o nome
que eu grito
em completa loucura
e que é a minha salvação
pura !

Podeis levar-me,
agora !
sobre as gargalhadas
e as pedradas
de todos
os que em mim não são
porque
é mais fácil
secarem os mares
do que amordaçar
o vento que me espalha
por cima de todo o tempo!

e, eu, apenas
quero soletrar
com a mais sagrada ternura
as quatro letras divinas
do infinito!

Dizer-vos,
amo-a!
e que direito tereis
de profanar
de castigar
seu templo imaculado
com vossos amuletos
de crime legalizado?

Pois bem,
vejam-me morrer
estendido
sobre um céu de madeira
coberto com o manto
do beijo
que conforta
as chagas do meu corpo
e constatai
como as feridas cicatrizaram
e agora que me levais
como um cortejo de sanguinários
por acaso observais
que em cada ferimento
que em mim cravais
nasce uma flor ?
e que esse jardim
que em mim irrompeu
foi ela que o escreveu
quando encostou os seus lábios
e me beijou na sutura
em que o amor nasceu?...

Sim , podeis levar-me ...


LSJ,3108201008:11 


(...)"que serei eu se não uma pecadora agarrada às lágrimas de quem já apedrejou a mesma cruz onde me pregaram."(...)
(ConceiçãoB)

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O JARDIM ERA AMOR

À janela
Sobrava as mãos
À boca calava-se um jardim

Outra vontade afizer

À lâmina
A saudade do título
Do subtítulo e de tudo

Amor,
Só te ouvia dos olhos os ritmos
As sementes que um rio são

Havia um tempo presente
A tômbola em contra mão
Água quente em pé na estrada

Amor,
Ouvia-te dos olhos, o coração

Ascensão

(imagem, André Louro de Almeida)


Imagina que me encontras numa dessas tuas buscas, onde procuras um sinal evidente de que a paz é um caminho. Essa busca não é a tua, mas sim uma ínfima parte do que procuras. Nessa viagem é onde encontrarás as distâncias que te separam de mim, mas é também onde te encontras, ao te deparares com a tua vontade de me esqueceres.
Encontra-te primeiro, e depois procura-me.
Eu ando esquecida do mundo, em busca da minha paz. Toca-me, mas não me queiras um corpo equilibrado na linha onde fixaste os teus olhos. Repara que nem tudo o que parece é, no exacto momento da verdade dos nossos olhos. Eles traem-nos, e mostram-nos a realidade que queremos ver, mas nem sempre as suas certezas atingem a dimensão real do sentido único, aquele onde somos mais do que a verdade de nossos olhos.
Ao pretendermos ver com um olhar alheio, os movimentos de um corpo em ascensão, teremos que nos abrir em direcção ao foco onde sempre estivemos e abrir portas para um mundo que se prepara para ascender e entrar no mais alto portal do Universo.

Vazio de vida

Avançam as horas,
O espelho escurece quando me vejo
Como um retrato antigo,
Que contorna o tempo.
Sinto-me despido,
Apenas as lágrimas implacáveis,
Percorrem a monotonia do meu olhar…
Apenas isso…
Emerge dos anos que abençoam a minha carne.
Não encontro o meu próprio rosto,
Neste caminhar cego que interroga a alma,
O que sou? Nada!!!
Nem a minha voz, oiço
Esbarrando em ecos
Neste soberbo vazio que me engole.
O vácuo das coisas imperam nos dias,
Tropeço na presença do silêncio
E descubro, que tudo acontece
Quando partes…
Morrendo em mim,
Toda a minha existência.

Sonhos de menina


A maciez da tua pequena mão
aperta forte a conchinha
que a onda do mar te trouxe
E enches de riso o sol
estrela maior que dourou o teu cabelo
em longos cachinhos de ternura
A areia é o teu brinquedo
nela constrois o teu segredo
em alto castelo de espuma
E sonhas que és princesa
que esta praia é o teu reino
onde só existe amor
Que não se esfumem teus sonhos
por entre densas neblinas
Que o teu barco de papael
veleje por rios e mares
rumo às tuas fantasias
Que os teus olhos brilhem sempre
nos teus sonhos de menina

domingo, 29 de agosto de 2010

baba de caracol


A esperança é a epiderme
que espera recuperar o viço
na baba milagrosa de um caracol
Ou será, ranho?
Não digo, que é feio!
Rugas?
Eu não tenho!
Ou estará o espelho baço?
Vou sobrevivendo a este embaraço
Curiosamente falando
não sou escrava do ego
Existe maior cego?
Serei bruxa ou Branca de Neve?
É uma questão de perspectiva
e nunca fico bem na objectiva
Para quem me conhece
sou a alma que ofusca o corpo
que dizem ser meu.

A GRANDE ILUSÃO

Andamos sempre à procura de uma razão
para continuar a alimentar esta ilusão que nos cerca
e continuar a fingir que está tudo bem
e que amanhã as coisas vão correr melhor.
A fingir que a felicidade está ali, ao virar da esquina,
apenas a testar a nossa fé
e a qualquer momento vai entrar pela porta grande
e encher de esplendor a miséria das nossas vidas.
Continuamos a mentir para nós mesmos,
alimentando um monstro que nos devora o alento,
como se a ilusão fosse uma droga
da qual estamos completamente dependentes,
e sem a qual não podemos viver
nem continuar a enfrentar o mundo.

Suspensos sobre a saliva do abismo,
com o coração ensanguentado
e as mãos cheias de nada,
seguimos o leito seco do rio
sem coragem para nos afastarmos da margem,
incapazes de explorar outros caminhos
e seguir outras pistas,
com medo de nos perdermos no desconhecido,
agarrados a uma estranha teimosia
e a uma inércia que nos prende às pedras
e às águas estagnadas do pântano.

Lentamente, o tempo vai passando por nós
e não temos forças para o agarrar
nem para correr atrás dele,
e vamos ficando para trás,
perdidos,
famintos de sensações e desejos,
órfãos do esplendor da vida,
como lápides mudas;
frias estátuas de olhos cerrados
a envelhecer
e a entrar em decomposição,
com um buraco aberto no peito
sem nada lá dentro, a não ser,
a nossa decrépita e gasta ilusão.

SUPERNOVA

Seriamos vento estelar
Nus pela lua nova
Processando a luz do génesis
Nos corpos em recife de coral

Sedentos de oxigénio
Entregues ao frenesim dos pássaros
Em beijos de praia mar
Para a sagração dos amantes

A nós regressaríamos humildes cristais
Vertendo em pêlo as gotas do amor
Imortalizando a praia que te baptizou…
…Mar

sábado, 28 de agosto de 2010

Vai Cair !

essa é a lágrima que não cai
verte !
quem ampara tão brusco deslizar ?
quem beija tão ferido olhar ?
quem ?
essa é a lágrima que não verte
cai !
e porque cai
cai
ai !...

LSJ, 2808201019:40

Perco-me

(foto: minha autoria; barragem do Carrapatelo)


Eu perco-me,
Não me querendo perder.
Eu fujo-me,
Não me querendo fugir.
Vou atrás de mim
Repouso no meu jardim.

Vejo-me…
Em flores… em odores
Imensidade de amores…

Sinto-me…
Em magia de eliminar
A palavra voltar.

Respiro o mais puro ar…

Negação da eliminação
Realidade à vista.
Crueldade…

Vejo o erro que cometi,
Nada de eliminações.
Conjugo o verbo desprezado
Volta o sentimento abençoado.


Não digo não a nada
Apenas sigo o caminho do sim.


**

Perco-me,
Querendo me perder.
Acho-me,
A cada instante
Que me perco.

A cada instante
É aliciante

Eu perco-me
Esvazio-me.
Eu encontro-me
Arrepio-me.

Será a perdição a verdade?
Ou será a realidade?

Quando perdida
Estou no meu mundo.
Estou de saída,
Da realidade
Desconheço esta sociedade.

Perco-me
Querendo (não) me perder.


Clarisse Silva

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Por Um Pedaço De Terra - "O Clube Dos Poetas Mortos"



O poeta morreu
a poeira imprimiu em seu corpo cansado
a caligrafia gelada do último verso
pequenino no adeus que o levou
nem uma lágrima rolou
na morada onde a chuva se despedia
os guerreiros medievais , as cruzadas
a imensa legião de combates
em prol dum pedaço de terra
sumiram por uma frincha do tamanho
de seus olhos fechados

agora já podia descansar...

Já não era poeta ...

LSJ, 2608201002:21

"Ser poeta é subir até aos mais altos planos. Aí não existe a palavra Poeta, e nem tão pouco palavras para se definir como Poeta.
Há uma linguagem universal, que não se coaduna com a teoria contínua de um Universo de letras com que se escreve a palavra poeta. Por isso que descanse em paz o POETA." (Dakini 26.08.2010)

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Le parfum

Toca a face
ébria a mão
que tua palma
acolheu
Pulula fresco
na pele
teu perfume

No olhar
luminescente
o suspiro sorri
...infante