sábado, 17 de outubro de 2009

Reduzido à insignificância


Pisam-me os calos nesta praça,
o Largo do Descontentamento…
relegado ao silêncio por trapaça
e ignoraram o meu sofrimento.

Isolado por grande pressão,
acorrentado por superior ordem;
esquecido por mera ingratidão,
depauperado… não me acordem!

Privilégios já tive um dia,
no passado que se ofuscou…
livre prisioneiro quem diria?!

Abandonado por preconceitos…
o presunçoso hirto deliberou
afastar-se sem mais trejeitos.
António MR Martins
Imagem in "itacarenews.blogspot.com" (na net)

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Parabéns Miriam

Parabéns à Miriam Costa, pelo seu aniversário, ontem dia 14

Que tudo se concretize e que a vida te sorria sempre.

Fome de palavras




Hoje alimento-me das palavras, a maior parte delas, encontro-as escritas, nos mais variados sítios por onde me passeio nos fins de tarde dos dias mais ou menos vazios... ou pelas madrugadas fora, na ausência das horas que me controlam, mas que por um qualquer motivo, ficaram presas no relógio pendurado naquela parede branca atrás de mim e para onde nem sequer olho...
Palavras escritas, faladas ou ouvidas, são palavras que definem sentimentos. Podem confortar, alegrar, dar esperança ou tirá-la… podem excitar, insinuar, esconder ou mentir. São apenas palavras…
Algumas dessas palavras são tão belas, que me recuso a colhê-las para mim, deixo-as ficar no mesmo sítio, para que possam ser admiradas por todos os olhos que as encontrem também. Outras são demasiado caras, sempre o foram e só com um dicionário por perto, as conseguiria alcançar, mesmo não sabendo muito bem o que fazer com elas... por isso nem sequer lhes tento chegar perto. Outras ainda, são demasiado floreadas e engenhosamente complicadas de modo que de nada me serviriam também, por isso, deixo-as para os entendidos. Há ainda aquelas, que me acenam com sorrisos, mas são demasiado oferecidas, não as levo, deixo-as ali, para que outros se sirvam...
Há também aquelas que magoam, que me ferem os sentimentos e me entristecem profundamente… não as quero, não as desejo nem as ofereço a ninguém. São horríveis!
Sou esquisita, só gosto daquelas outras mais simples, que me enchem o olho logo no primeiro encontro e é dessas mesmo que me alimento e as devoro logo ali, naquele preciso momento.
Gosto muito de palavras, embora elas não sejam tudo...

domingo, 11 de outubro de 2009

Um mar para a revolta

um mar para a revolta
Não aconteceu nada... nem eu no espelho nem tu do outro lado.Cada um de nós tem a sua margem, as minhas lágrimas são as minhas lágrimas e tu tens a tua vida, tens o sorriso que tens. Não sou indiferente só não fico a guardar uma canção demasiado tempo na garganta.Não aconteceu nada, nem eu tenho poesia, nem tu precisas de acender o candeeiro para me leres, ocupas melhor os olhos lendo as nuvens, lendo as mãos de um qualquer vagabundo.Não aconteceu nada, não tenho vinho para encher o copo, nem palavras para as conversas sociais.Ficamos apenastu desse lado e eu deste. Tu tens um gato para acariciar eu um mar selvagem para a revolta. Espero que o meu mar não te arranhe e que o teu gato não me afogue.

lobo 09

sábado, 10 de outubro de 2009

Silencioso pensamento

Numa corrente de água
saída das rochas duras
lavei as emoções
ao som da nascente
sentei o pensamento
furtivas noites fundas.

No peito galopar de cavalo
varando espaços sem fim.

Rosas se abrem em versos
danças em desfiladeiros
rostos purificados nas lágrimas
ao encontro do oceano
no puro imenso azul
trespassa o olhar num relâmpago.

Nas veias arde o lume
na cor do sol escorre do céu
num mundo colorido
pintado de branco.

Sem rosa dos ventos
nem norte, nem sul
profunda veemência quieta.

Ana Coelho

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Muito calor... por causa dele iremos ao outro lado, não seremos levados pelo instrumento da religião. Estamos presos ao circulo, somos escravos das chuvas, andamos rodeados de fogo, as mentes queimadas, o silêncio reduzido ao vazio das palavras, são elas que nos queimam , que não nos deixam imaginar nada. Estás ai?! Andas perto, aqueles homens desejam-te, querem saber se as tuas roupas ajustadas contam como é a vida do teu corpo. O teu espíríto agora veste as roupas do teu corpo e tu vai soletrar que está calor, que o fogo rastejou muitos quilómetros, que de tanta madeira queimada nem um barco, nem um tronco a flutuar, nem uma cama velha para o prometido amor eterno. Muito calor nós transportamos a água do corpo e seguimos um carreiro de vestígios, a nossa viagem vai começar. Estamos reduzidos a um zero com muitos séculos. Tu miudo obeso carne triturada, a tua devota mãe o teu severo pai. Da janela da tua caixa de dormir... não há paisagem... não há luz. Precisas daquele olhar que observa a nuvem do céu e daquele pensamento que se preocupa com a asa ferida do pássaro, precisas que o vento te levante. Que a tua mãe seja a tua flor e o teu pai te ensine a trepar as montanhas e a veres a cor das borboletas tão fundamental como o amor entre os teus. Muito calor, por causa dele iremos atravessar o outro momento, não seremos atingidos pelo frivolo costume de destruir. Levaremos connosco as nossas árvores, as nossas pedras. Agora falo para ti Aqueles homens querem água, não a encontraram na tua língua, nem numa margem de terra. Iremos ao outro lado ou ficaremos deste. Muito calor, ainda resistimos, o amor somos nós e nós somos fortes
lobo 05

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Chuva


Gota de água
chuva hermética
incolor o céu
nuvem sintética
pleonasmo de cristal
vidro
(re)partido
espelho sem brilho

jorra em mim o dia

húmido
num desapego de alma
um filho
chora______________

__________o coração partido
pelo abandono
proibido.

E é rio, a água em que me afogo.

domingo, 4 de outubro de 2009

Lágrima sorriu

Sorriu em mim uma lágrima
Vela no tempo fincada na pele…
Harpa de sonhos
Nas nervuras da terra…

Desabrocha um botão em flor
No orvalho regado no chão…

O vento acaricia o rosto
Num gesto fresco
Pouco a pouco
Na forma da boca…

Abrem-se na cor dos jardins
No fio da prata bordada
Na lágrima que sorriu…em mim!

Ana Coelho

sábado, 3 de outubro de 2009

O cheiro do mar

O cheiro do mar... alguma voz de longe a lembrar o homem vento. Quando fazemos sexo nas dunas ele está á espreita como um espião pleno de poesia e escandalo. A nudez é o alarme do amor, o teu corpo no meu e os nossos orgasmos são imaginamos nós, os gritos da multidão, também o movimento dos astros a girar nos olhos.
O cheiro do mar, esse mar deitado nos nossos corpos expressando amor incompleto. Nós somos amantes desde o principio dos tempos e o tempo do amor é mais longo que todos os anos de vida que a nossa existência consegue contar numa dessas tardes perto do fogo. Olho a cegonha e quero perguntar-lhe coisas sobre paris, a relação entre a noite e a depravação. Onde aprendo eu a liberdade do amor se não nas ruas sujas e no vinho que levei nas longas viagens. O cheiro do mar, alguma voz de longe e talvez seja a natureza a revelar o seu pensamento, imaginamos que vai contar os nossos segredos, o amor das nossas vidas, a nossa vida tão curta o nosso amor tão eterno

lobo 09

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Náusea


Sólido vómito
regurgitado em néons caleidoscópicos
sincronia de sons
sintonizadas
em
cores
abstractas
as luzes
dos olhares
mortificados
pelas mãos alheias
ao
pecado
que repousa
no
son(h)
imcompleto
libertino
fugaz.

E a noite rodopia (n)as órbitas dos corpos sem alma.
Numa mortalha de álcool.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Intimidades da alma


[foto de José António Antunes]

Do céu desceu
alimento divino
regado com lágrimas
caidas em rochas
esculpidas pelo vento
em dias de temporal
...Guiado pela estrela cadente
nas cores do arco-íris
saido do horizonte
no olhar interior
de uma alma sedenta...
Embriagada pelo néctar
escorrido das emoções
pés descalços...
Joelhos no chão,
mãos ao encontro do céu...
Nuvens brancas
carregadas de seiva
pronta a saciar
vazio incessantes
...Sentimento satisfeito
deste manã fertil
na plenitude de todo o ser.

Ana Coelho

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Vais começar a voar. Na margem do rio inicias-te o exercício do voar. Voar não é apenas um dom, é uma forma de educação, de conhecimento espiritual. Nós guardamos este conhecimento nos sonhos. Anjos e pássaros voam, além destes as máquinas e o peso não é uma desculpa para não se voar. Nós não voamos porque o peso nos prende á terra, nós criámos raizes , voar é uma capacidade, não é por si uma coisa importante. Sentir os pés no chão, o calor e o frio, ter a sensação da energia a fluir sem ficar preso ou dependente deixa-nos espaço e liberdade para decidir e para transformar. Foste até ao jardim de Gautama , com o matemático aprendeste as formulas matemáticas , com o agricultor as épocas de cultivo e com o teu silencio interior a escutar a chuva e a meditar. Meditar com as folhas de ch á o teu corpo e a tua mente flutuam na á gua, os cheiros dos frutos e das ervas entram em ti enquanto ficas ocupada a espalhar o fumo na sala onde era costume o buda repousar ou simplesmente ficar no estado de não existência. Preparas o chá o vento bebe-o, a terra também absorve gota a gota o fogo e a á gua do ch áNo jardim de Gautama há uma erva, no mercado da aldeia há um homem que vende dessa erva. Antes de fazeres o exercício da arte do voar tu respiras os seus vapores, ficas imóvel e vês o Gautama a caminhar para ti.Tu não queres fazer a conversa comum mas a conversa comum, o rio que corre, o sol que brilha, a nuvem que passa, a criança que nasce, a vida a morte. Gautama vai sorrir e os olhos abertos dele vão saudar os teus.- Bom dia- Está a chover.A água e a terra são irmãs.- Venerável gautama pensas que com a água e a terra posso aprender a formula do voar?- A capacidade de voar est á em ti, es tu. Voar é reter a natureza nos olhos, é ficar com ela é ir alem dela, é ficar sem exigir nada.- Hoje estive no mercado, andava por lá um comerciante de chás quando era criança gostava de olhar a cor das folhas e a cor amarela da á gua do ch á recordava-me o rio amarelo e as suas histórias e canções. gostava de adormecer com a cabeça deitada nos seixos e de ouvir o meu irmão mais velho a recitar os mantras enquanto chapinhava nas poças. A água a saltar era o sorriso dele a molhar-me os pés.- Sabes! A á gua cristalina ó sorriso do Buda das cinco ervas.- E quem é o Buda das cinco ervas?!- O Buda das cinco ervas é o comerciante que viste no mercado.- Mas buda não tem o caminho do negócio.- Os nomes das coisas são só o nome das coisas, buda tem o caminho da abundância , do negócio prospero do coração, não h á o bom e o mau fruto, nem a boa e a m á árvore, h á o fruto que o teu sabor precisa, h á a á rvore que espera o viajante, o peregrino, o pastor, o negociante, o generoso e o avarento.- Vou preparar um chá- Faz um chá de folha de figueira, tritura bem as folhas, estas devem ficar pequenas como as gotas de chuva, depois fazemos a oração do chá e lemos os salmos do Buda das cinco ervas.- Vou ferver a á gua, olhar a nuvem que se desprende do vapor, talvez apareça no ar o génio do chá dos desejos.Enquanto preparavas o chá Gautama adormeceu, durante a sua viagem ao inconsciente da natureza ele viu o génio do chá dos desejos. O génio do chá dos desejos tinha as duas partes da natureza. Gautama foi recebido por ele. Na gruta onde morava o génio havia uma mesa e sobre ela um bule de chá. O génio ofereceu ao senhor Gautama o chá do enlouquecer. Gautama sentou-se no chão, segurou uma pequena taça dourada e sorveu de um gole todo o chá depois sorriu, estendeu as mãos ao céu, alcançou uma estrela e pô-la na á gua do cháEle viu a noite e os planetas, não sentiu medo nem viu monstros ou com o seu olhar transformou essas criaturas em ilusão. O génio olhou Gautama , depois desapareceu, logo apareceu no monte sagrado e venerou toda a linhagem dos budas, das árvores, dos pássaros s dos homens de todas as cores, de todas as sabedorias e ignorâncias.Quando Gautama regressou da sua viagem, tu penteavas os cabelos e o vento massajava-te o rosto. No ar havia o aroma ainda quente do chá. Gautama serviu-te uma pequena taça e pôs as folhas de chá nos cabelos. O vento tocava no galho das árvores e parece que saia uma musica suave, o aroma do chá misturado no aroma da musica. Enquanto bebiam o chá, sentiam um silêncio puro. Quando estamos com demasiados pensamentos o ar também fica pesado. Gautama levou os seus olhos ao firmamento dos teus, havia um calor e uma cor diferente do calor do fogo. As palavras não aconteceram, não aconteceram os desejos, o amor aconteceu e nada estava preparado pela vontade do corpo e da mente. Como as raízes se entrelaçam na terra vocês se entrelaçaram. Uniu-se o pequeno coração do corpo ao coração da terra ao coração do universo. Os teus lábios e os lábios de Gautama tocaram-se. A noite chegou tranquila e bebeu os restos de chá que sobrou das taças. Tu e Gautama seguravam nas mãos uma luz, tinham um arco irís que passava das mãos aos olhos.Moonli continua a exercitar-se no oficio do voar. Moonli é o teu nome, na lingua dos antigos habitantes da montanha a palavra do teu nome significa aquela ou aquele que faz o ritual. quando fores capaz de esvaziares os pensamentos, as tuas riquezas e as espalhares pele terra, tu não possuindo nada, tu não estando sujeita a nenhuma condição ou a nenhuma lei a natureza entra em ti e tu voas. Tocas o céu e a terra. Abraças o pássaro, abraças a árvore, dás-me um abraço forte. Quando me abraças é a tua energia que trabalha o meu ser como as sementes que trabalham cada poro de terra, cada poro da pele. Gautama foi o teu amante espiritual, mais tarde encontraste cabelos compridos, cabelos compridos fazia musica, a musica também é um exercicio que prepara os seres para a magia do voar, com o som é possivel voar, com a vibração das pedras, com a vibração da luz. Cabelos compridos passa muito tempo a tocar citara, a musica da citara é doce como cerejas. Quando Moonli preparava o chá a musica entrava no vapor e eles e as crianças sentiam vontade de dançar. Com a dança nos unimos á força do silencio e á força da palavra, a dança harmoniza a luz e a escuridão. Quando escrevias dançavas, quando pintavas executavas o voo das aves, sentias o esvoaçar das flores no ar na água do chá, na linha dos dedos que adivinham o passado e o futuro, o amor e o trabalho. Vais começar a voar, vai ser preciso que a eternidade entre no teu ser, que o teu ser faça voar o teu corpo com o impulso da memoria que é o impulso da criação, o impulso da arte de criar e de viver, a arte do morrer e do renascer. Quando preparas o chá, quando preparas diferentes variedades, quando sentes os teus olhos a terem a cor do chá diluido na atmosfera tu ficas feliz, pareces uma criança, brincas e no teu faz de conta, na tua profunda imaginação esqueces as palavras sérias e as responsabilidades mundanas. Tu precisas da energia flutuante da vida, concentra-te no teu sorriso, no desabrochar da tua flor. Cada ser tem uma flor guia. As petalas das flores são os diferentes caminhos, os diferentes cheiros que tu inalas e que a floresta inala de ti. Tu, cabelos compridos, as crianças, o Buda Gautama, o espirito que corre no vale, que abençoa cada pedra, que é testemunha dessa magia prodigiosa, dessa pulsação da mãe terra que acompanha a respiração dos bichos, dos homens, de todos os seres, esse ser que medita, que ondula como uma folha na água do chá. Foi com a água do vale que preparas-te a prece para o começo do voar. A tua barriga está a crescer, um pequeno ser voa no teu interior, um pequeno ser que vem de uma gota de energia que desce do céu á terra e se envolve com os elementos, elementos que formam um corpo, uma mente. Tudo será conduzido pelo espirito, a grande alma que não tem principio nem fim, que guarda dentro dela mesma a decisão do bem e do mal.- A montanha elevasse acima dos teus olhos cabelos compridos.- Há muitas luas atrás subi aquela montanha, vi homens que procuravam ouro, estavam cansados e isso via-se no rosto deles, um dos homens perguntou-me onde ficava a aldeia mais próxima, tinha por lá um velho familiar que em tempos tinha trabalhado numa loja de chás provenientes do Paquistão. Ele seleccionava as folhas que eram expostas ao luar. A lua minguante dá sabor e é bom para fazer sonhos tranquilos.- Vem deitar-te comigo- Estou cansado, o meu espirito viajou como a lua cheia que segue as nuvens.- Sabes ler as mensagens das nuvens?- É como ler as palavras da água.- Temos de meditar nas lágrimas de Buda, os agricultores algumas luas antes da colheita visualisam as lágrimas do precioso. A terra será fertil e os frutos abundantes.- O fruto de mim, o fruto da terra que há em mim alimentará o amor, o amor do espirito, do corpo que o recebe e do pensamento que realiza o conhecimento. Longo foi o inverno, cabelos compridos partiu em busca de alimento e de agasalho, levou com ele o moinho das orações. Cabelos compridos não se despediu de moonli. Do outro lado da montanha ficava o mar, no porto de shiva grande era a azafama de pescadores descarregando e salgando o peixe. Durante muitas noites e muitos dias cabelos compridos alimentou-se de raizes e frutos silvestres. A terra foi o chão onde dormiu e antes de se deitar praticou a quinta essência do yoga, cem vezes se prostrou visualizando a roda do samsara, o circulo da morte e do renascimento. Ao longe ouviu-se o uivo frio dos lobos, ouviu-se ao longe o andar do rebanho fazendo rolar as pedras, remexendo a terra, as suas sementes, as suas raízes. Os pés descalços do pastor amaciando o solo selvagem. Levi o pastor andava guardando as suas cabras desde os sete anos. Cabelos compridos sentiu a terra mexer, a cor do céu vestiu os seus olhos e o seu corpo. Durante dez dias apenas bebeu água, alimentou-se do frio que descia do desfiladeiro e dos ruidos invisiveis do fogo que se esconde nas pedras, nas nuvens escuras do céu, no carvão que dorme na garganta do vulcão. Levi atravessou o rio com as suas cabras. Naquele lugar havia o veneno das serpentes e o polen das flores de ópio sobre a planta dos pés da Deusa Maya a Deusa da ilusão, a conselheira dos generais, aquela que presta favores ao mundo material. Levi tinha agora 14 anos, conhecia todas as suas anteriores vidas. Levi atravessou o rio com a arte de quem não se move, com a tecnica da morte. Assim iludiu a senhora da ilusão e as serpentes venenosas. Levi cantou os mantras e namorou a senhora ofertando-lhe o cristal das pedras e o brilho das areias aquecidas pelo sol forte. Levi o pequeno pastor projectou diferentes seres com oigem no seu ego e com o esplendor das riquezas temporarias fez a Deusa Maya tropeçar na sua própria ilusão. Levi o pastor tinha a visão apurada da águia, viu cabelos compridos e telepaticamente falou com ele.- Chamo-me Levi.- Chamo-me cabelos compridos.- Não és um peregrino!- Sim, também sou um caminhante.- Que procuras?- Procuro o grande mar.- Tens ainda muito caminho a percorrer, olha, quando chegares á próxima aldeia pergunta pelo velho Gatso o pescador, quando o encontrares diz-lhe que vens da minha parte, pede-lhe que te ensine a arte da pesca, tu lhe ensinarás as posições do yoga e as mil maneiras de preparar o chá, o sagrado chá que aquece o coração do Buda das cinco ervas.- Como sabes que sei a linguagem do yoga e a arte de preparar o chá?- Escuto o vento e tudo o que o vento sussurra as águas guardam e as árvores da floresta quando o vento lhes sopra a brisa do oceano e as histórias de amor, de raiva, de sobrevivência.Quando Gautama regressou da sua viagem, tu penteavas os cabelos e o vento massajava-te o rosto. No ar havia o aroma ainda quente do chá. Gautama serviu-te uma pequena taça e pôs as folhas de chá nos cabelos. O vento tocava no galho das árvores e parece que saia uma musica suave, o aroma do chá misturado no aroma da musica. Enquanto bebiam o chá, sentiam um silêncio puro. Quando estamos com demasiados pensamentos o ar também fica pesado. Gautama levou os seus olhos ao firmamento dos teus, havia um calor e uma cor diferente do calor do fogo. As palavras não aconteceram, não aconteceram os desejos, o amor aconteceu e nada estava preparado pela vontade do corpo e da mente. Como as raízes se entrelaçam na terra vocês se entrelaçaram. Uniu-se o pequeno coração do corpo ao coração da terra ao coração do universo. Os teus lábios e os lábios de Gautama tocaram-se. A noite chegou tranquila e bebeu os restos de chá que sobrou das taças. Tu e Gautama seguravam nas mãos uma luz, tinham um arco irís que passava das mãos aos olhos.Moonli continua a exercitar-se no oficio do voar. Moonli é o teu nome, na lingua dos antigos habitantes da montanha a palavra do teu nome significa aquela ou aquele que faz o ritual. quando fores capaz de esvaziares os pensamentos, as tuas riquezas e as espalhares pele terra, tu não possuindo nada, tu não estando sujeita a nenhuma condição ou a nenhuma lei a natureza entra em ti e tu voas. Tocas o céu e a terra. Abraças o pássaro, abraças a árvore, dás-me um abraço forte. Quando me abraças é a tua energia que trabalha o meu ser como as sementes que trabalham cada poro de terra, cada poro da pele. Gautama foi o teu amante espiritual, mais tarde encontraste cabelos compridos, cabelos compridos fazia musica, a musica também é um exercicio que prepara os seres para a magia do voar, com o som é possivel voar, com a vibração das pedras, com a vibração da luz. Cabelos compridos passa muito tempo a tocar citara, a musica da citara é doce como cerejas. Quando Moonli preparava o chá a musica entrava no vapor e eles e as crianças sentiam vontade de dançar. Com a dança nos unimos á força do silencio e á força da palavra, a dança harmoniza a luz e a escuridão. Quando escrevias dançavas, quando pintavas executavas o voo das aves, sentias o esvoaçar das flores no ar na água do chá, na linha dos dedos que adivinham o passado e o futuro, o amor e o trabalho. Vais começar a voar, vai ser preciso que a eternidade entre no teu ser, que o teu ser faça voar o teu corpo com o impulso da memoria que é o impulso da criação, o impulso da arte de criar e de viver, a arte do morrer e do renascer. Quando preparas o chá, quando preparas diferentes variedades, quando sentes os teus olhos a terem a cor do chá diluido na atmosfera tu ficas feliz, pareces uma criança, brincas e no teu faz de conta, na tua profunda imaginação esqueces as palavras sérias e as responsabilidades mundanas. Tu precisas da energia flutuante da vida, concentra-te no teu sorriso, no desabrochar da tua flor. Cada ser tem uma flor guia. As petalas das flores são os diferentes caminhos, os diferentes cheiros que tu inalas e que a floresta inala de ti. Tu, cabelos compridos, as crianças, o Buda Gautama, o espirito que corre no vale, que abençoa cada pedra, que é testemunha dessa magia prodigiosa, dessa pulsação da mãe terra que acompanha a respiração dos bichos, dos homens, de todos os seres, esse ser que medita, que ondula como uma folha na água do chá. Foi com a água do vale que preparas-te a prece para o começo do voar. A tua barriga está a crescer, um pequeno ser voa no teu interior, um pequeno ser que vem de uma gota de energia que desce do céu á terra e se envolve com os elementos, elementos que formam um corpo, uma mente. Tudo será conduzido pelo espirito, a grande alma que não tem principio nem fim, que guarda dentro dela mesma a decisão do bem e do mal.- A montanha elevasse acima dos teus olhos cabelos compridos.- Há muitas luas atrás subi aquela montanha, vi homens que procuravam ouro, estavam cansados e isso via-se no rosto deles, um dos homens perguntou-me onde ficava a aldeia mais próxima, tinha por lá um velho familiar que em tempos tinha trabalhado numa loja de chás provenientes do Paquistão. Ele seleccionava as folhas que eram expostas ao luar. A lua minguante dá sabor e é bom para fazer sonhos tranquilos.- Vem deitar-te comigo- Estou cansado, o meu espirito viajou como a lua cheia que segue as nuvens.- Sabes ler as mensagens das nuvens?- É como ler as palavras da água.- Temos de meditar nas lágrimas de Buda, os agricultores algumas luas antes da colheita visualisam as lágrimas do precioso. A terra será fertil e os frutos abundantes.- O fruto de mim, o fruto da terra que há em mim alimentará o amor, o amor do espirito, do corpo que o recebe e do pensamento que realiza o conhecimento. Longo foi o inverno, cabelos compridos partiu em busca de alimento e de agasalho, levou com ele o moinho das orações. Cabelos compridos não se despediu de moonli. Do outro lado da montanha ficava o mar, no porto de shiva grande era a azafama de pescadores descarregando e salgando o peixe. Durante muitas noites e muitos dias cabelos compridos alimentou-se de raizes e frutos silvestres. A terra foi o chão onde dormiu e antes de se deitar praticou a quinta essência do yoga, cem vezes se prostrou visualizando a roda do samsara, o circulo da morte e do renascimento. Ao longe ouviu-se o uivo frio dos lobos, ouviu-se ao longe o andar do rebanho fazendo rolar as pedras, remexendo a terra, as suas sementes, as suas raízes. Os pés descalços do pastor amaciando o solo selvagem. Levi o pastor andava guardando as suas cabras desde os sete anos. Cabelos compridos sentiu a terra mexer, a cor do céu vestiu os seus olhos e o seu corpo. Durante dez dias apenas bebeu água, alimentou-se do frio que descia do desfiladeiro e dos ruidos invisiveis do fogo que se esconde nas pedras, nas nuvens escuras do céu, no carvão que dorme na garganta do vulcão. Levi atravessou o rio com as suas cabras. Naquele lugar havia o veneno das serpentes e o polen das flores de ópio sobre a planta dos pés da Deusa Maya a Deusa da ilusão, a conselheira dos generais, aquela que presta favores ao mundo material. Levi tinha agora 14 anos, conhecia todas as suas anteriores vidas. Levi atravessou o rio com a arte de quem não se move, com a tecnica da morte. Assim iludiu a senhora da ilusão e as serpentes venenosas. Levi cantou os mantras e namorou a senhora ofertando-lhe o cristal das pedras e o brilho das areias aquecidas pelo sol forte. Levi o pequeno pastor projectou diferentes seres com oigem no seu ego e com o esplendor das riquezas temporarias fez a Deusa Maya tropeçar na sua própria ilusão. Levi o pastor tinha a visão apurada da águia, viu cabelos compridos e telepaticamente falou com ele.- Chamo-me Levi.- Chamo-me cabelos compridos.- Não és um peregrino!- Sim, também sou um caminhante.- Que procuras?- Procuro o grande mar.- Tens ainda muito caminho a percorrer, olha, quando chegares á próxima aldeia pergunta pelo velho Gatso o pescador, quando o encontrares diz-lhe que vens da minha parte, pede-lhe que te ensine a arte da pesca, tu lhe ensinarás as posições do yoga e as mil maneiras de preparar o chá, o sagrado chá que aquece o coração do Buda das cinco ervas.- Como sabes que sei a linguagem do yoga e a arte de preparar o chá?- Escuto o vento e tudo o que o vento sussurra as águas guardam e as árvores da floresta quando o vento lhes sopra a brisa do oceano e as histórias de amor, de raiva, de sobrevivência.- Vamonos encontrar?- Em breve.cabelos compridos chegou de noite á pequena aldeia de patcha- luna. A casa do velho Gatso era forrada com argila e o telhado coberto de palha. Gatso o pescador estava á porta de casa consertando a sua velha rede de pesca. Cabelos compridos aproximou-se dele- Venho da parte do jovem Levi.- Falas-te com ele?- Falámos telepaticamente.- Que me queres?!- Aprender a arte da pesca.- Tens de treinar a paciencia.- Podes ensinar-me...- O próprio mar te vai ensinar, a floresta, a montanha, o dia e a noite tem muito para te ensinar.- E tu?- Eu estou velho, a unica mestra que me pode ensinar é a morte.- Aprendemos todos com ela sobre o renascer.- Vejo que estás cansado e com fome, em cima da mesa há uma tijela com caldo de peixe.- Vou comer um pouco e deitar-me.Cabelos compridos foi acordado pelo ruido do vento. O mar estava eriçado, parece que tinha a furia dos homens em guerra, parecia que tinha dentro dele um coração a bater acelarado. Cabelos compridos passou algum tempo observando o velho Gatso construindo e consertando as redes. A primeira aprendizagem foi o treino dos olhos, os olhos e a mente treinadosno oficio da atenção. Cabelos compridos tinha de conhecer o mar, conhecer-se a ele próprio, o seu conflito interior era sentir-se dividido não obstante ser a parte e ser o todo. Cabelos compridos e o velho Gatso partiram numa manhã que era o dia do aniversário do Buda Shakamuni o senhor das forças. Foram muitos meses de mar, meses de tentar não lembrar aqueles que deixamos em terra. O mar testava os nossos apegos, a nossa resistencia. Em forma de doença a morte se escondeu no corpo de cabelos compridos. Cabelos compridos parecia que tinha mil demónios dentro dele. O velho Gatso entoo o mantra da levitação e com o poder vibratório desse mantra flutuou sobre a espuma e sobre as mãos invisíveis do Sr shakamuni aquele que conhece a profundidade e a escuridão, a luz e a superficie. Durante quarenta dias cabelos compridos ficou cego. A sua cegueira foram os seus desejos os seus pensamentos de luxuria. Esses pensamentos não eram sua essência. Maya a senhora da ilusão era a sua mestra. Na natureza tudo pode ser o nosso mestre. A flor que desabrocha e o raio que fulmina.O velho Gatso pousou sobre a sombra de cabelos compridos, uma sombra escura, fatalmente escura deu lugar a um foco amplo de luz.- A febre baixou- Que me aconteceu?- Entras-te no reino dos demónios.- Quem me salvou?- Ninguém, tu próprio sais-te da escuridão, quanto mais te dividias mais nas trevas penetravas. Quando tomas-te consciencia que a causa da tua ignorância, que a causa do teu medo estava em ti reconciliaste-te com os teus demónios e eles copnverteram-se no Deus supremo que há em ti.- Mas disses-te que entrei no reino das trevas...- Os medos que a tua mente guarda são uma porta que recebe todos os lixos, o medo é uma porta que que se fecha, quando abres essa porta esse lixo sai. Através de ti aprendo a arte do yoga.- Aprendes comigo a arte do yoga?- É verdade.- Como pudeste aprender com o meu medo, com a minha insegurança.- Com a divisão descobresse a unidade, com o medo a ter-se cuidado e com a incerteza a reflexão.- Mas...Tu não vences os teus medos se lutas com eles, essa é uma luta inutil. Tu aceitaste-os, tu transcendeste-os.- Penso que o mar me lê o pensamento, ele sabe que não há tempestade em mim.- Ele aceita a tua fúria, a tua calma. Tu foste guiado até mim para que eu pudesse partir.- Aonde vais?- Vou deixar o meu corpo- Vais morrer?- Como as lágrimas saiem dos olhos o espírito sai do corpo.- E quando é que isso vai acontecer?- Quando me esqueceres. A morte chega quando nos esquecemos de alguém.- Não me consigo esquecer de ti.- O que a tua mernte esquece o teu coração guarda.Numa noite de profundo silêncio em que ele cabelos compridos estava calado como se não houvesse dentro dele pensamentos e dentro dele fosse uma folha a flutuar e a subir até desaparecer do horizonte, o velho Gatso deixou o corpo. Agora tens de esquecer, qualquer recordação é um iman que puxa as almas ao mundo dos desejos, ao mundo fisico dos apegos e das paixões. Cada ser tem de seguir o seu caminho, fazer a sua vontade. Acende um pau de incensso, depois lança o corpo dele ao mar. lobo

sábado, 26 de setembro de 2009

A chaminé

Alta e imponente
Não estás mais próxima do céu
Nem por isso és branca
É o pouco que sei sobre ti
Não porque mo tenha dito uma andorinha
Talvez até tenha sonhado tudo isto
Todavia as andorinhas são reais
E também tu és real
E apontas ao céu

Ao sul
Rumarão as andorinhas
Quando a estação acabar
Nós viemos agora
À cíclica peregrinação
Como um outro ciclo do sol
Esse, o sol, no céu
O sul na terra
E o azul que parece que compõe todas estas coisas que nos fazem felizes

Figueira

De verde vestida
Virados aos céus
Teus braços abriste
Clamando p’los meus

Em mim tu sorriste
E vi como és
Um corpo da terra
Teus seios dois figos

Dá-me o teu odor
A tua textura
E sonhos de amor

Com tua candura
Vela bela flor
Minha sepultura

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Insensatez (How insensative)


Regresso tantas vezes
quanto as que
parto
corações
aos pedaços
que distribuo
com o olhar
pelas bocas
famintas
ao luar
no deserto
sobre mim
o teu corpo inerte
após a explosão
n
u
c
l
e
a
r

fusão

a t ó m i c a

sem igual
o teu sorriso
de
(a)mar
na distância
que vai daqui-aí.


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Palavras que atormentam

Desligadas
Explicitando rancor
Cruéis e cínicas
Nos magoam e causam dor
Desvirtuando o sabor
Amargura sem final
Onde não vive o amor

Falsas
Improvisadas para tal
Por suposto portador
Derramadas sem igual
Denegrindo o animal
E suas formas anímicas
Em período intemporal

Fúteis
De uma acidez que tresanda
Ciclo de um porvir
Sátira na demanda
Proveniência que desanda
Num acto repelente
Pela força de quem manda

António MR Martins

domingo, 20 de setembro de 2009

Sabes? (de Carlos Conchinha)


Um livro de Carlos Conchinha, o novo elemento do blog, que irá ser apresentado dia 3 de Outubro, na Fábrica de Braço de Prata, em Lisboa. Espero estar presente.
Um livro que mereceu o prémio de Ministro da Poesia no site http://www.worldartfriends.com/.

Momentos (o novo livro de Luis Ferreira)

Espero estar presente no dia do lançamento do teu livro Luís. Vou fazer os possíveis para ir.
Um livro de poesia com lançamento para dia 26 de Setembro no Freeport de Alcochete. Uma edição da Temas Originais e com apresentação de Drª Carmo Miranda Machado.

Parabéns José António

Para o José António Antunes, um amigo que integrou este blog assim como a antologia deixo os meus sinceros parabéns, pelo seu aniversário recente. 17 de Setembro
Muitas felicidades

(Foto do aniversariante lindíssima)

Depois do Tejo

Não basta passar o Tejo
É preciso avistar um sobreiro
A primeira cal contrastando o ocre
Para que me sinta em casa

A terra, o trigo, a cortiça
Atravessam meus tantos poros
Irrigando meu sentir

No poial polido
Trocam-se histórias de infância
Sorrisos sinceros
E silêncios celestiais

Olha uma estrela cadente
Diz o pequeno

A vida sulca a tua tez escura
Desgasta o negro feltro em teu chapéu
Mas minh’alma em ti perdura
Meu simples mas pleno Alentejo