terça-feira, 7 de julho de 2009

Incessantemente



Desfolha as pétalas do meu corpo
sorve o néctar desta mescla,
da lonjura que nos separa
nos espinhos carentes de saudade
...calo o frio...

(como amantes ébrios)

Perdemo-nos em cartas
como dois adolescentes famintos,
em busca da puberdade
ávidos de um afago
...calo o ardor...

(corro descalça no imaginário dos teus braços)

Não demores meu amado...
Lembras-te do nosso primeiro encontro?
É lá que te espero incessantemente
como da primeira vez...


































Como escrever-te

Como escrever o teu nome
na água dos meus poemas
sem levar à boca
algum ramo do teu sabor.
Como escrever de ti
no pó dos corações
se pelos teus olhos
andam os meus enamorados.

A noite,
ainda menina no meu colo
é um fio de versos
que as horas levam e trazem
sem que o breu me detenha,
nem o silêncio incomode
os momentos sós em que te penso
sentado num chão de muitas emoções.
Não há rio que quebre o mar
nem ondas que neguem às praias
as suas marés de pedra e ecos.

E na poeira dos dias que me sobram
tenho pressa em viver os mimos teus
e sentir sobre o corpo deitado
a mulher que em ti pesa,
como um vendaval de amores
que se soltam dóceis
num sangue a nós doado manso
e vontades de não mais acordar.

Rosa negra


(imagem tirada do google)


Vestiu-se de negro a rosa
No velório da paixão
Longura de miragem
Que não pode alcançar.

As encostas desertas…áridas
De negrume esculpidas
Sem perfume pétalas enrugadas
Lágrimas derramadas
Nos espinhos viçosos do caule.

No dorso aguilhão cravado
Sedução sem pudor
Dança a marcha fúnebre
À muito sem melodia ficou

Um canteiro sem terra ou água
Em dor e desamor
Desilusão sem morada
Na ilusão só por si procurada.

De véu caído no abismo
No altar da iniquidade
Assim findou
No nu da alma
De negro pintada…

Ana Coelho

segunda-feira, 6 de julho de 2009


Eu
Pecadora
Me confesso

Sim
É verdade
Quebrei todos os votos
Que te fiz por amor
Num impulso de fraqueza
Que me inquietou a alma...

As promessas
A dedicação plena
De só a ti pertencer

Desculpa-me Senhor
Mas não consegui

A tentação foi maior
E rendi-me ao desejo
Pois queria tanto conhecer
O paladar do pecado
Queria tanto saber
Se era doce ou amargo
Ousei
Provei
E... gostei!

Juro-te que falo a verdade
Nem sequer
Te rogo o meu perdão

Pois se pequei
Se vendi a alma ao Diabo
Num acesso de loucura
E paixão
Castiga-me por favor
Eu sei... bem o mereço!

Senhor...

Nada mais poderei fazer
Pois tudo o que eu fiz
Foi de total e livre vontade
Insana entrega
No leito da luxúria
E no deleite
Dos prazeres da carne

E sabes Senhor
Vou-te confessar um segredo
Não conheço melhor sabor
Do que o sabor do pecado
Pisar o risco
E ousar
Desafiar os limites
Do certo e do errado

Por isso
E se ainda me quiseres
Senhor
Terás de me partilhar
Com o demónio que me possuiu

Carregando com o peso do meu segredo!

E este desejo...
Que ainda me escalda a pele
Por debaixo deste hábito
Que encolheu
E já não me chega
Para me livrar da queda
Na alcova da tentação

Aqui estou
Senhor
À mercê do teu castigo
Pela minha redenção...


Chamo-me raiva
E estou grávida
De um grito agudo
Que carrego
Dentro de mim

Foi gerado à força
Numa cópula maldita
Num beco escuro
Entre o fio de uma navalha
E uma parede fria

Hei-de pari-lo
Numa noite destas
Quando voltarem os lobos
E uivarem em coro
A uma lua incandescente

Nesse preciso momento
Algo rasgará o silencio
E ouvir-se-à
Um eco estridente
De um grito medonho
Que galgará
Os muros do crepúsculo
Até ao cabo do infinito...

Devastará cidades
E províncias
Ensurdecerá os vivos
Paralisando-lhes o resto dos sentidos
E ressuscitará os mortos
Que se erguerão dos seus túmulos

Nesse dia
Cumprir-se-à a profecia
De todos os demónios
Que na terra habitam
Há milénios
Disfarçados de homens comuns...

E alguém anunciará a boa-nova
Que ditará os destinos
De um mundo decrépito
Corrompido e moribundo
Mesmo à beirinha do colapso

Nesse dia
Ouvir-se-à
De uma voz cavernosa
Uma só frase

Uma frase curta
E seca...
Nasceu a besta!


Cravaram-me uma estaca
Na alma!...

Apoderaram-se do meu tesouro
E deixaram-me prostrada
Num chão
Nojento e pegajoso
Pejado de mentiras esventradas
E de odor pestilento

E são às dezenas os sorrisos...
Cínicos!
Que na pressa da retirada
Lhes caíram do rosto
E se espalharam no meio da podridão

Pobres criaturas sem palavra
Que de tão miseráveis que são
Atraiçoam quem lhes deu o pão
Nos dias mais negros
Da fome apertada

E salvaram quem nada lhes deu
A não ser a ilusão
Daquilo que não passa
De um redondo nada...

Mataram
E fugiram todos
Montados na mula da cobardia

Salvou-se um estranho silêncio
Que paira num ar irrespirável

Morri sozinha
Sem glória alguma
Com a dor da desilusão

Não mais voltarei
A pisar o chão que me viu morrer!..

quinta-feira, 2 de julho de 2009

TRAÇOS SEM LUZ…


Sentado no escuro…
Em ruidosas folhas que vertes…
Caído para lá dum velho muro…
Abro os olhos inseguro…
Vejo teus traços inertes..
Sigo teu rosto celeste..
Tua lágrima em meu rosto.. cansada…
Tua fé enlevada…

Porquê formatar o relevo…
Que nasce em segredo…
Se cada vez que tropeço…
Desnudo, um toque te peço…
Frio, quente, a esmorecer…
Mas… um sinal de meu viver…

Um todo paralelo, em que a realidade é alheia...
Em que procuro a sabedoria da inocência...
Em que procuro reflexos negros de ausências...
Um grito do Olimpo, uma homérica sereia...
A escuridão na clarividência...
Várias explicações inexistentes...
Para a minha inexistência…

Existo em átomos perdidos no Universo…
Existo em tua morte…
Existo no reflexo dum gesto…
Numa gota que se esvai…
Num esgoto serpenteado…
Que a luz nunca viu…
Círculo de água tapado…
Nem sei se existiu…



DARKRAINBOW

domingo, 28 de junho de 2009

Os poetas



Quem entende os poetas?!
No olhar o horizonte
Deslumbram o firmamento,
Deslizam no arco-íris
Sentem rios serenos no peito
Ou mar revolto,
Beijam a lua, abraçam o sol.

Quem entende os poetas?!
Nas palavras navegam,
Em marés de emoção se afundam,
Aquietam o vento
Correm descalços sempre com a mão na palavra.
Na boca pintam sonhos
E voam com pássaros em folhas claras.

Quem entende os poetas?!
Na trigonometria fazem contas
Mas nunca conseguem
Só somar, subtrair ou dividir
Erguem números sem paredes
Nas letras constroem alicerces,
Onde mora a poesia
Que para eles é respirar.
Calam no silêncio onde se refugiam.

Pois quem entende os poetas,
Com toda esta forma estranha
De sentir a vida…


Inspirado naquilo que o meu filho pensa da poesia e dos poetas(rapaz mais virado para os números)

Ana Coelho

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Janela de luz

Permanecias
por entre a luz,
dimensionando
a luminosidade,
que se reflectia
através
daquela velha
janela.
Lembranças
de um passado
remoto
na quantificação
da minha
existência
terrena.
Momentos
de contornada
ternura
pela leitura
da poesia
mais bela.
Saudades
de outras horas
sumidas,
pelo declinar
da vida,
por pena...
António MR Martins

Sonhar de ti

Cedo ontem me deitei…
atitude fora do comum;
logo o sono espreitei,
sonhos foram mais que um.
Tais, que não sei definir,
entravas em quase todos;
nuns triste, noutros a sorrir,
mas sempre com bons modos.
Era tua morena pele macia,
o teu lindo olhar reluzente
e a tua voz cheia de magia.
O teu belo ser proeminente…
que envolto em fantasia
empolgava o seres gente!...

António MR Martins

Um dia... talvez um dia

Nas palavras…
O momento que fica,
Que marca…
Entre os sonhos habitados
Que percorrem as naus do meu lar.
A imensidão…
De uma aura destinada,
Além dos tempos
Que gerem emoções,
Sentimentos,
Na missão de quem escreve.
Sou tudo o que escrevo,
Não sou nada afinal…
Poeta na aspiração das letras
Que falam em silêncio
Numa ânsia… somente presunção
Entre conquistas
Numa visão…
De o ser.
Nas palavras…
Retrato o quadro,
Como a tela de sentimentos
No encanto…
Entre o perfume das cores.
No poema…
Os farrapos que me vestem
Na leveza dos sabores
Escorre a tinta nos rabiscos que deixo
Mostrando o quando nu estou.
Sou o que gostava de ser…
E assim fico…
Vagueado no horizonte
Muito além do pensamento
Quiçá, o meu destino.

quinta-feira, 25 de junho de 2009




Nas águas paradas
De um rio morto
Sem nascente
Nem afluente
Lancei o meu velho barco
Sem remos
Nem velas
Suspenso nas brumas
Indiferente ao vento
Imóvel...

Rumei à fronteira da minha mente
Nos limites do entendimento
Prisão obscura
Demente...
Onde não existe o ontem
Nem o amanhã
No espaço aberto do esquecimento...

Estiquei o meu braço inerte
E toquei o sino da morte
Chamando os corvos da noite
Desligando-me assim
Do tempo...

Impulsos (Lurdes Dias - Cleo)

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Os Esquecidos de Sempre

Oiço os passos da verdade
com emoção repartida...
em conflito com a realidade
no contorno da própria vida!...

Paradigma de contextos
anunciados num momento,
revolvidos na memória
vazia de outros pretextos
entregues ao lamento
dos esquecidos da História!...

António MR Martins

Eclipse


Acorda os sentidos molhados de lágrimas
nó na garganta
rouca
a solidão
perpetuada
em risadas infantis.

O Verão chega de mansinho
ora numa manhã abafada
ora chuvosa
infiltra-se no peito
amargura(n)do
o dia
em que os sonhos desistiram de ser.

Corre solta
a dormência da memória
inibidora
de momentos gloriosos
vilões assaltantes
curiosos
breves
intensos
salgados
espelho de mim
em lu(g)ares inventados.

Noite enfim.

terça-feira, 23 de junho de 2009

ANDORES NO DESERTO...


Sou peregrino no Cosmos do deserto...
Sombra cansada, vertendo sangrenta areia...
Vislumbrando-te ao longe...tão perto...
*
Arrasto-me erguido em calor...
Na vibração que a terra anseia...
De joelhos carrego este andor...
*
Com seu peso me enterro...
Em dunas planas da Eritreia...
Pegadas circulares em desejo que encerro...
*
Seguidor da Igreja de ninguém...
Descanso em regaço de plebeia...
Onde nuvens de anjos negros são harém...
*
Que Deus atento a estas inatendíveis preces...
Gasta seu infinito Tempo...
Se em teu oásis me enlouqueces...
*
Contra mim se erguem temíveis elementos...
Contra mim sopra teu caloroso vento...
Navegam secos, perdidos lamentos...
*
Em fina areia esvoaça meu escrever...
Entre dedos planto profundo e inóspito rebento...
Em que te lembras de me esquecer...
Darkrainbow

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Melodia Breve



Sei
a musica que me atraiçoa a memória
de momentos
separados
em que juntos
éramos um
corpo
em almas gémeas
superfície lunar
palavras a
l
i
b
e
r
t
a
r
em perpétuo movimento.

Sei
o sonho
que (a que) sabes
translúcido
vitral
musica em mim
canto tenor
jasmim
(ar)dor
princípio
de ti,
meu amor.

Sei
o amanhã sem lembranças
nossas
as promessas
sem rasto
o crime
da cobardia
sem fim
o sentir
fingir
não vivo
adormeço
nas madrugadas
porque a noite não (me) vence
apesar da ausência
e do vazio.

Luminosos os dias
em que brilhávamos juntos
tu ao piano
eu no sofá
da sala casa encantada
desencontro de mim
em bebedeiras de nós.

Sei
um amor proibido,
castrado,
destruído
pelo tempo
que jamais teremos
pela paz escolhida
em vez
de vida vivida
calma ambulante,
em vez
de paixão vibrante.

Sei
as escolhas
tranquilas
em imagens cinzentas.

Prefiro
o desassossego colorido
a
uma morte por escolha.
Mesmo que em paz necessária.

Sei
que te perdi
por não saber estar
ser
tranquilo
meu pesar.

Minha melodia por inventar.

Sei
a cor da traição
sem perdão.

Sei
o castigo
da solidão.

Sem ti.

Sei
que já não sou eu.

E assim, parti.


domingo, 21 de junho de 2009

Hoje saí!


Hoje não estou!
Saí no silêncio das palavras
As que ouvi e não senti,
Ou
Não entendi…
As que gravei no peito…

Saí!
Parti sem destino
No refugio
Do meu interno sentir.
Ocultei cada sílaba
Do alfabeto grego…
Linguagem vã,
Insana e profana…

Hoje não estou!
Foi à procura das lágrimas
Que já não sinto…
Dos sorrisos do meu rosto…

Saí!
Na busca das silhuetas…
Neste dia vazio de sol e dor,
Sem chuva ou aguaceiros.

Hoje não estou!
Pois saí…
Nos vagabundos sentidos,
Momentos que engolem
A saliva agridoce…

Hoje não estou!
Nem para mim…

Ana Coelho

Sete



Adormece na madrugada tardia
em que a (tua) voz se nega à evidência
do Ser

enquanto
disfarça amores permitidos
pelo cansaço do proibido.

(En)canta as tarde de Verão
em subtilezas da
alma
(im)pura
a
razão
com que tece lençóis de linho
numa cama de nupcias
sem noite
sem nada,
inventada
a verdade que se quer
em momentos de musica
aberta
a janela sem cortinas
a sala sem sofá
o piano abandonado na praia
e
os corações dilacerados
mergulhados no mar
em esquecimento
tentando resistir
à partida
sem regresso
numa maré
de Lua Cheia.

Pequena
a concha
que a acolhe
sete mares,
sete vagas
sete escravas
de prata
envoltas no corpo
estático
pés firmes na areia movediça
que lhe engole a alma
por jamais
entender
porque desistiu,
quando
a noite
era a mudança
da morte
em vida.


sábado, 20 de junho de 2009

No corrimão bolorento da vida

Gente que vagueia por mim
no corrimão bolorento da vida
toco-lhes com um olhar
ao de leve, sinto-os
gente estéreis de sonhos
errantes na penumbra existencial
deslizando em céus pardacentos

Gente, tão-somente gente
faltos de quereres
sem tempo para desejar

Movem-se meramente
em labirintos ociosos
ombros descaídos
em semblantes obscurecidos
alimentam o corpo
com a vida parca de viver
esquecidos na imensidão do ser

Gente que apenas permanecem
no tempo intemporal
falecendo na ignorância
essencial de viver
“no nós”

quinta-feira, 18 de junho de 2009

O meu destino

Não procurei…
Nunca o fiz… com medo do nada
Que preenchia o meu espaço
Indiferente ás linhas da palma da mão
Às estradas e caminhos cruzados que lia,
Que percorri sem metas anunciadas,
Entre a névoa dos abismos.
Carreguei o fardo da vida…
Nos trilhos sinuosos que se abriam
Passo a passo… á medida que caminhava
Entre os sonhos e as promessas escondidas
Nos desejos que brotaram na fonte,
Como gotas de orvalho que escorriam
No caule de uma flor pela manhã.
Pedras e pedras ergui…
Tantas as barreiras que venci,Nos mistérios de um tempo que sorria
Interferindo abertamente na união
Construídas em letras e em escritas.
Nos delírios mais profundos,
Raros são os deuses que me tem escutado…
Atento… no silêncio, não ousei dizer
Com medo dos sonhos que fingi ter…
Louca, esta odisseia em que me encontrava
Nesta procura do próprio amanhecer.
Afinal…
Descobri em mim, o que sentia
Libertei a minha alma ao vento…
Sem medo de naufragar
Saciei a fome desta crença desgraçada
Vivendo para o amor doentio que me prendia.
Supus… que um dia
Entre as palavras imerecidas que escrevia
Com orgulho do destino que me abraçava
Que o meu pecado
A frase… treme ao ser dita
Ser… poeta!!!