sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Traços atávicos



Encosto-me na cadeira
olho o horizonte,
cai em mim a paz da aldeia
num entardecer lento
e fresco
a lembrar os últimos dias de Agosto.

Tento afastar-te da memória,
concentrar-me no percurso de uma formiga,
nos sons que me chegam devagar,
nas pedras de granito
à minha volta,
num pássaro
que insiste em chilrear
perto de mim.

Os cães reclamam a minha atenção,
a família chama-me...

...Mas eu não estou:
viajo em segredo,
nua,
despida com ternura,
de olhos rasos de água...

Na janela do devaneio


A lua prateada apaga-se
No pardacento da noite
Os sentires transmutam-se
Na saudade perene
Os pensamentos voam
Os sonhos aparecem
Na janela do devaneio
Do meu olhar ardente
Na melodia das palavras
Das notas poetadas
De uma canção sufocante
De mim simples mortal

Perco-me na intemporalidade dos sonhos

Dos quereres asfixiantes
Nesta noite Outonal
Onde o nada é tudo
Na imaginação de ti
No sufoco de mim
Só eu e o ilusório imaginado
Neste poema delineado
Pela alma privada
Que sente como gente

Liliana Maciel

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Um Novo Céu dos Poetas

Da minha janela aberta para o mar
Invento um novo céu dos poetas
A liberdade dos sonhos livres
Está mesmo ali para mim

E eu não sei para onde vou

Extasiados neste mar acordam os astros
E na terra dormem já as novas estrelas
Trouxeram um céu aberto junto com elas
Os tempos trasladaram os poetas

Desvendam nas funduras
Naus perdidas, caravelas desviadas
Jardins alheados de outros sóis
Querubins entristecidos

E o foco da lua cheia não sabe o que isso é

Mª Dolores Marques

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Pecado



A música
e uma história de inverno
a cabeça estremece
o corpo recua
uma noite
estranha
o
vómito,
as lágrimas nos espelhos
eu
à deriva
chuva no olhar

onde estão todos?

Queria
desaparecer
viajar

recomeça a fuga

os sorrisos sem cor
e
as mãos sem dono

TU e EU
sem mim

conheço esse olhar
já sei que vais ficar
comigo

por instantes
eu adormeço...
...e as bocas t(r)ocam-se...

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Jardins proibidos


Os dias (es)correm
d
e
v
a
g
a
r
ao ritmo do tempo.

Breve voar.
Singular,
primordial,
musical
o
momento.

Suave o toque
pianíssimo
no ventre em crescimento
fugaz a vida
que se esvai
em paletas de luz
viva.

Regresso
de Verão
permanecer os olhares verde-mel?

Sossego.
O silêncio
corresponde ao (meu) amor.

Mas
e se a noite é morte
e eu não existo?!


terça-feira, 21 de outubro de 2008

Expectante

E eu permaneço aqui…expectante.
Calo-me nessa imensidão de sentires
Espero
Reflicto
Nessas tréguas…. amigas
Vividas em corações perdidos de si
Que se encontram
Nos caminhos virtuosos da amizade
Etéreo sentir do ser mortal e imortal
Ávidos de calor rejuvenescido de dar
Sinto as vossas fragilidades
Sinto-vos daqui ao longe
Onde os quilómetros são reais
E intransponíveis neste momento no tempo
Que o tempo nos dá
Abraço-vos, num abraço misto de ternura,
Compreensão e perpetuidade intemporal
Amizade sempre aqui, ali….
Onde o horizonte se une ao doce mar azul
Na eternidade do meu ser carente de vós

Espero a tempestade esvair-se suavemente
No ameno amanhecer da vida almejada
Espero-vos da lonjura do que sou
Submersa nesta ternura de vos dar
Sem pejos, sem inibições….. livre.
Assim como sou…

Liliana Maciel

O Derradeiro Encontro

Imagem de Bárbara Elias
Sinto-me na presença de uma lágrima
Que se esqueceu que existe
Gemidos contidos
Abrigam-se imunes ao calor das emoções
E perdem-se nas ausências sentidas

Fui puxada pela corrente de um rio que dorme
Já não sei nada
Mas de igual para igual
Há um tudo no nada existente do vazio
Ouço-te e não vejo a saída
O túnel alarga-se ao fundo

Vislumbro uma réstia de luz
Na totalidade do mundo
Aguardo por um novo amanhecer
Sinto que me vou sem ir
Quero-me por inteiro

No derradeiro encontro serei eu..

Mª Dolores Marques

domingo, 19 de outubro de 2008

Ulysses Encontro-me no Tempo da Saudade

O tempo da verdade em que me dou
em cada amanhecer no presente
quando te espero e não te encontro
já nem sei se volto a ser
o que já fui

Mas por todas as casas
que ficaram esquecidas
eu vejo sinais de um tempo
quero ir pelas ruas desertas
encontrar-me no tempo da saudade

Ele está sempre ausente
tristezas que se mostram
sorrisos que se perdem
e eu sou só uma lembrança

Vagueio por aí onde se ouve o vento
crio-me nos mares da saudade
e sou sempre um jardim presente
invento-me nos sorrisos das crianças

Mª Dolores Marques

Minha Cidade

Uma cerca sofrida perde no tempo alguns balaústres
E o telhado coberto de bolor, suas cores,
E num profundo silêncio, com jeitinho de um “sim” de amor
Uma rosa mostra o brilho de um sorriso perdido nas rugas do tempo!

E essas casas, que dizem de gerações imortais
Encarnadas em profundos sinais de um outrora
Sobreviventes em nossa saudade
Ainda me olham!

O transitório e o efémero
Perdem lugar para o eterno
E o espírito caminha por todas as ruas

Por todas as casas
Por todas as lembranças
Por todas as secretas saudades.

Ulysses Laluce

http://www.usinadeletras.com.br/

Não tenho tempo...

Todos os dias a mesma lenga lenga
Todos os dias a mesma conversa
- Menina BRINCAR agora não…tens prioridades … brincar agora NÃO
- Anda rapariga, puxa…puxa esta CARROÇA que chamam de vida
- Vamos mulher, empurra…empurra tens o CARRINHO nas mãos por que esperas?
E eu EMPURRO
E eu PUXO
De voz gritada alucinantemente calada
Todos os dias me repito e digo
- Agora não tens tempo, para QUERERES
- Agora não tens tempo para CHORARES
- Depois…depois podes SONHAR
E o DEPOIS é sempre igual…ano após ano
Outra CARROÇA…nas mãos outro CARRINHO
E volto a TROCAR a minha prioridade
-Vamos faz força…dá-te toda…entrega-te até NADA mais SERES
E quando cansada, já sem forças rio… rio muito porque não tenho tempo para mais nada
Rio desavergonhadamente do meu ridículo
Rio tresloucada porque nada posso fazer
Rio de toda a – GENTES - que por mim são enganadas
E eu EMPURRO
E eu PUXO
E rio…rio muito
Gargalho até o peito doer
De CARROÇA em CARROÇA
De CARRINHO em CARRINHO
Foge o tempo pelas minhas mãos doridas
Tanta força fazem para suportar o esconder de tanta aflição
- Não pares, continua agora não tens tempo para LAMENTOS
- Vamos tens que acabar depois…depois já podes DESABAR
E como um ramo de árvore, minha alma estende-me a mão, e com um beijo em forma de sopro
- Procura descansar, não podes continuar assim até eu choro por ti
- Amiga agora não tenho tempo, não vês, tenho que continuar…amiga eu estou bem não te preocupes…só estou muito cansada…eu vou conseguir, eu vou vencer uma vez mais, agora tenho que continuar como sempre fiz
Afasto-me PUXANDO…devagar…EMPURRANDO e sigo gargalhando
Afasto-me devagar dos meus sonhos, dos meus quereres, dos meus desejos
E EMPURRO…e PUXO…e gargalho muito alto para não ouvir a minha alma chorar


Nos Rios do Teu Olhar

A fuga de ti e de mim
uma forma simples de ir
sem brilho no olhar

Na luz dos teus olhos
vejo rios correntes
lágrimas que se escondem
para não chorar?

Sente, tenta ouvir
o som de uma voz
que o vento arrasta
nesse mar de emoções

Quero ir...
quero sentir
e ver a luz
que te envolve

Sofres por nada
porque nada é tudo
momentos de dor
sentires que já foram

Lágrimas caíram
alagaram o chão
sementes brotaram
e as flores que esqueceram
do perfume das rosas

E eu aqui…
sofro por mais uma lágrima
que aflora nos rios
do teu olhar

Mª Dolores Marques

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Viagem



O sol
bate-me
no
peito
acorda-me para a manhã
com música
o tempo sem paragens
a fuga
e
o
tentar
não pensar.

Um sentir incerto
a dúvida
na espera que não quero

o vento toca o meu mundo

a Primavera hoje vem mais cedo

as flores sem pólen
num esgar de dor
as árvores ardem
e
as fogueiras
(n)os corações
e
(n)os
olhares.

As palavras tentam(-se)
quebrar o silêncio
o Sol num quarto
as cores
misturam-se,
o perfume
espalha-se
solta-se
a música
e uma borboleta branca
(e eu calada).

O momento
é de vento
e a voz sem som,
o Mundo agita-se
uma bandeira de paz
na
(minha)
guerra
sem tréguas
a confusão e a dúvida
é
u
r
g
e
n
t
e
a opção
(e eu quieta).

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Recomeçar


O cérebro num labirinto
as pétalas sem perfume
uma canção

(é quase Primavera)

o Sol no vento

e as memórias a encharcarem-me de imagens

o rio parado

em Lisboa eu sou mais livre

não sei o que sinto,
mas
não quero ser
o corpo
em fogo
em noites de solidão
um toque suave de mão
um olhar terno sem fim

não quero
a dúvida
num sorriso sem resposta
o (des)encontro
num beijo
breve esquecer de mim.

Agora nem há dor.

A confusão
resiste ao Sol
num turbilhão de pensamentos
as lágrimas
de
e
n
c
o
n
t
r
o
ao azul da tarde fresca.

Não me apetece estar
recomeça a fuga
é urgente partir
de-fi-ni-ti-va-men-te
e
não lembrar
as palavras...

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Tudo isto ou eu


Rio selvagem chicoteando com cascatas… oceano prateado conversando com a lua
Jangada com remos partidos… caravela amante misteriosa dos mares
Palhaço que chora… circo multicores
Lua que embala o dia… sol que beija a noite num despertar
Punho que se fecha com medo de ser vencido…mão estendida mesmo a jeito de agarrar
Verdade mentirosa… mentira verdadeira
Grito calado num sorriso chorado
Mulher que vende prazer…na esperança de ser amada
Terra queimada…flor bailarina dançando ao vento
Resposta certa à pergunta errada
Bicho que ferra… santo remédio
Sonho real… realidade sonhada
Promessa falsa… falsidade prometida
Oração decorada…fé sentida
Cordilheira omnipotente… montanha vaidosa... serra envergonhada
Fenómeno descoberto…mistério escondido
Pensamento escondido… esconderijo para pensar
Mesa vazia… fartura de amor
Hora atroz…momento vivido
Dia fatal…sentimento nascido
Desenho torcido… arte começada
Artista esquecido…contrato conseguido
Monte de cinzas…Fénix renascida
Tudo isto é meu nome
Tudo isto sou eu

Silêncio escurecido


Sinto as heras cobrir-me
No silêncio escurecido
Da gélida noite,
Que me aquece o coração
Nesse tempo sem tempo

Sinto-me amarfanhada
Já não sei quem sou
Uma mera ilusão
Um trama sem solução
Uma poesia abstracta
Uma foto gasta
Uma pintura desbotada
Um corpo em devastação

Permaneço na terra
Num abraço de mãe
Em prantos silenciados
Pelos uivos do vento
Que devasta a memoria
Do tempo presente
De quem quer ser
Simplesmente gente

Liliana Maciel

Perdi-me no tempo

Sentei-me à beira do tempo
Refúgio enquanto espero
Por um sonho, uma canção
Vi(vida) em jeito de canto

Sentei-me no seu telhado
Ouvi o som do vento
Brilhou numa estrela cadente
Lendas perdidas no tempo

Mas o telhado quebrou-se
Com o passar do tempo
Ruínas datam as histórias
Memórias vi(vidas)
Ao lado do tempo

Olhou para mim
Senti-me... vi-me perdida
No momento sem tempo...

Mª Dolores Marques

domingo, 12 de outubro de 2008

Correntes no Pensamento

Imagem retirada da Net Na quietude
Dos caminhos que percorro
Visto as cores
De um arco íris…

Brilho difuso
Grito contido
Voláteis histórias
Em versos soltos
Que voam sem destino

E no adeus
Descubro a chama corrente
O nascer do sol
O cintilar das estrelas
No avanço do mar

Sou nas ondas
Que se gastam nos temporais
Adormeço
Numa praia deserta

Sem nome...
Sou vozes do tempo
Sou lágrimas que flúem
E se perdem
Nos rios
Do meu silêncio

Mª Dolores Marques

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Prantos esquecidos de mim

És aquela que saltitou mil mundos
nas manhãs submersas da saudade
de ti, de mim, de nós
junto-me a ti
corro a esse chamamento
silenciado pelo gemido da noite
sem medos, perco-me nesses caminhos
pedregosos do destino
e pergunto-me para quê?

O cosmos queima minhas entranhas
de ternura e de desejos incontidos
abro as asas e voo sedenta de ti
para além do mar
imersa na vastidão do etéreo
Exausta adormeço
nos fios prateados do luar
cobro-me de poeira cintilante
aquecendo o meu corpo despido de ti.
suspiro brisas incandescentes
desenhando áureas coloridas
no pardacento do céu
~
E fico-me pelo olhar
perdido no horizonte
á espera de ti
em prantos esquecidos de mim.

Liliana Maciel

Tearas de Mil Sóis

Rosas que encheram
nas longas noites de silêncio
os jardins da alma

Levadas pelo vento
choram pelas gotas de orvalho
que caíram na madrugada

Luas beijam as lágrimas
que inundam os caminhos
Recolhem-se os vendavais

E o sol espreguiça-se na eira
Estão limpas as searas
Eu e tu cantamos...

Enfeitamos as tearas
Voam trigos de mil sóis

Mª Dolores Marques

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Brisa de Outono

As lágrimas que se gastam
Nas fronteiras do silêncio
Cobrem-se de gotas de orvalho
E adormecem as aragens frescas
Que descem sobre os telhados

Contidos os temporais
Adoçam-se nas correntes
Mornas do Outono
Tonificam as folhas secas
Que se despem da primavera

Os raios de sol recolhem-se
Enxugam os templos
Que choram as preces sazonais
Ouvem-se os sinos nas encostas
Cantam hinos às cegas

Amansam os rituais…


Mª Dolores Marques