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domingo, 29 de agosto de 2010

A GRANDE ILUSÃO

Andamos sempre à procura de uma razão
para continuar a alimentar esta ilusão que nos cerca
e continuar a fingir que está tudo bem
e que amanhã as coisas vão correr melhor.
A fingir que a felicidade está ali, ao virar da esquina,
apenas a testar a nossa fé
e a qualquer momento vai entrar pela porta grande
e encher de esplendor a miséria das nossas vidas.
Continuamos a mentir para nós mesmos,
alimentando um monstro que nos devora o alento,
como se a ilusão fosse uma droga
da qual estamos completamente dependentes,
e sem a qual não podemos viver
nem continuar a enfrentar o mundo.

Suspensos sobre a saliva do abismo,
com o coração ensanguentado
e as mãos cheias de nada,
seguimos o leito seco do rio
sem coragem para nos afastarmos da margem,
incapazes de explorar outros caminhos
e seguir outras pistas,
com medo de nos perdermos no desconhecido,
agarrados a uma estranha teimosia
e a uma inércia que nos prende às pedras
e às águas estagnadas do pântano.

Lentamente, o tempo vai passando por nós
e não temos forças para o agarrar
nem para correr atrás dele,
e vamos ficando para trás,
perdidos,
famintos de sensações e desejos,
órfãos do esplendor da vida,
como lápides mudas;
frias estátuas de olhos cerrados
a envelhecer
e a entrar em decomposição,
com um buraco aberto no peito
sem nada lá dentro, a não ser,
a nossa decrépita e gasta ilusão.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

SONHO DE POETA

Vive dentro de mim
uma voz que me sussurra
estes versos que reinvento
no coração das horas solitárias.
Uma voz sem idade nem rosto
que me guia os dedos trémulos
pelos labirintos de papel
onde desenho o movimento do mar
e as cores do poema,
como um barco de fumo
que passa sob a ponte invisível
cruzando as margens distantes
de um imenso e desconhecido rio.

Não sei a quem pertence
esta voz rouca que me habita
e me enche os pensamentos
com o ritmo sufocante
de um ardente respirar.
Um sotaque de ventania
a assobiar dentro das sílabas;
o pulsar ofegante de um desejo
que me impele constantemente
a arranhar a face lisa desta folha,
numa busca cega pelo equilíbrio
de um punhado de palavras
que talvez ninguém vá ler.

Dentro de mim,
nas janelas abertas deste túmulo,
vive o sonho de um poeta.